Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 20 de 38

Páginas do PDF

Dexter: Em Cena

Capítulo 18

 

DESSA VEZ, O CORPO HAVIA SIDO DEIXADO EM UMA CAÇAMBA NAS docas em Coconut Grove, perto da Prefeitura, a uns oitocentos metros, pela água, do Grove Isle Hotel, onde eu estava acompanhando Jackie. Quando desci do carro, dava para ver com nitidez a silhueta do hotel pairando alto sobre o clarão dolorosamente luminoso da água.

A fita amarela já havia sido colocada, dois policiais uniformizados à frente dela, parados com aquela postura sólida e substancial que os tiras parecem adotar instintivamente quando vestem seus uniformes. Até mesmo Deborah tinha ficado parada daquele jeito muito tempo atrás, na época em que usava a roupa azul para trabalhar. Os olhos deles giraram na minha direção, e eu dei um passo adiante, procurando meu crachá.

– Opa, ei, Dexter – disse Renny atrás de mim, e eu me voltei para olhá-lo. Robert passou rapidamente por nós, se dirigindo para os dois policiais perto da fita amarela. Assim como havia feito da última vez, ele ficaria ali, parado perto da fita, falando bobagens com os policiais, para não ver o maravilhoso horror na caçamba. Mas esse era o primeiro cadáver de Renny, tanto quanto eu soubesse, e ele ficou parado, hesitante, passando a língua pelos lábios e lançando um rápido olhar desejoso para o movimento de retirada de Robert.

– Robert disse que o último era doentio pra caralho – ele disse.

– Bom – eu disse o Robert não chegou a dar uma boa olhada nele.

– Saiu correndo gritando e vomitando as tripas, hum? – disse Renny, com somente uma sombra de um sorriso em seu rosto.

– Ele não chegou a gritar – falei.

– Ah, certo – disse Renny, olhando uma vez mais para Robert, e então para trás dele, na direção da caçamba. – Ei, fala sério. Isso aí vai ser muito ruim mesmo?

Essa pode não ser a melhor referência para meu caráter, mas eu estava muito ansioso para ver se esse corpo era mesmo obra do Patrick Cabeça Oca, e se havia alguma coisa diferente nele, e eu estava ficando cada vez mais irritado por ter de ouvir a enrolação de Renny em vez de dar uma espreitada na surpresa na caçamba. Assim sendo, tranquilizar alguém não era um assunto de suprema importância na minha cabeça.

– Ah, vai ser muito ruim – falei. – Venha cá e eu mostro pra você.

Ele não deu um passo e perguntou:

– Eu tenho mesmo de olhar essa merda?

– Bom – eu disse, dividido entre meu dever de conduzir Renny e meu desejo crescente de ver a maravilha à espera –, você precisaria mesmo ver o que Vince faz em uma cena de crime. Quer dizer, isso é o que seu personagem faz, não é?

Renny olhou para a caçamba lá nas docas e engoliu em seco.

– Tá certo – ele disse. Então me lançou um olhar duro e eu vi uma vez mais o minúsculo lampejo de alguma Coisa interna se acendendo. – Mas se eu vomitar, você limpa tudo. – Ele inspirou profundamente e então passou por mim com determinação em seu andar e rigidez em sua coluna vertebral e, assim eu esperava, não muita coisa em seu estômago.

Segui Renny até ele ficar a uns três metros da caçamba, e então ele se imobilizou.

– Dá muito bem pra ver o Vince daqui – ele disse.

Não parecia haver muito sentido em discutir a respeito desse assunto, então eu passei silenciosamente por ele e me aproximei de Vince Masuoka, que estava agachado à sombra da caçamba.

– Você chegou bem na hora – disse Vince.

– Para quê?

– Agora é que começa a diversão de verdade – ele disse. Fez um gesto rápido com a cabeça para um lado. Eu olhei e, a uns dez metros de distância, vi o detetive Anderson falando com um homem magro, de cabelos brancos, que usava calças cáqui, uma camisa polo azul-clara e docksides. Até mesmo daquela distância, o homem de cabelos brancos parecia bem abalado.

– Anderson tem uma testemunha – disse Vince. – O velho saiu de um dos grandes barcos a vela. Ele viu alguém jogar um carpete enrolado aqui e ir embora em um caiaque.

O caiaque me fez pensar; será que o Patrick teria um novo meio de locomoção ao estilo de Miami? Ou seria possível que outra pessoa tivesse feito isso dessa vez? Sentindo um ligeiro e crescente tremor de incerteza e de interesse, eu passei por Vince e dei uma olhada rápida dentro da caçamba, bem no meio do lixo.

O corpo da moça jazia no topo de um pedaço de carpete marrom sujo, o tipo de carpete esfarrapado e manchado que a gente vê no lixo de qualquer área residencial onde alguém esteja reformando a casa. Ele estava parcialmente desenrolado, o suficiente para mostrar a parte superior de algo muito ruim, e não o suficiente para esconder o restante do conteúdo da caçamba.

Quase tudo era lixo orgânico; nada de papel ou de pedaços de plástico, como da outra vez. Essa caçamba era usada pelas pessoas vindas das filas de grandes iates na doca mais próxima, e por qualquer um que tivesse usado o local para limpar peixes nas proximidades, e o cheiro que se erguia de lá de dentro era o suficiente para matar pequenos animais a dez passos dali. Mas ele não desencorajava as quase sólidas nuvens de moscas que sobrevoavam em círculos os montes de restos de comida úmidos e pouco consistentes que estavam apodrecendo. E, é claro, também não exercia o menor efeito na moça morta que se amontoava nua no alto do pútrido monte de porcarias em decomposição.

Parecia que ela havia passado maus bocados. Assim como a vítima anterior, esta havia sido cortada, apunhalada, mordida e levado unhadas, com um entusiasmo indisciplinado, porém, frenético, uma impaciência selvagem que havia deixado pouquíssimas partes de pele visível que não tivessem marcas do trauma.

O estado do sangue ao redor dos ferimentos indicava que ela havia permanecido viva durante a maior parte dos cortes, talhos e socos, todo um arsenal de ataques que deixou a moça morta com a aparência de quem havia passado uma semana na Academia do Ataque Psicótico.

Uma vez mais, um grande punhado de cabelo dourado havia sido arrancado pela raiz, deixando uma parte em carne viva e de um tom de vermelho-escuro do couro cabeludo à mostra. Sob aquele cabelo, tão parecido com o de Jackie na cor e no corte, não havia muita coisa reconhecível deixada no rosto que não tivesse sido cortado por unhas, dentes e a lâmina de uma faca, mas alguma coisa no perfil atiçou as minhas lembranças por um instante, antes que eu as deixasse de lado. É claro que ela parecia familiar – ela se parecia com Jackie, assim como todas as outras vítimas. Esse era o ponto central da coisa toda para o Patrick.

Eu olhei mais um pouco, mas não vi nada que pudesse ajudar; então me voltei e encarei Vince.

– Você achou alguma coisa? – perguntei, sem muita esperança e, na verdade, também sem muito interesse. Eu sabia quem havia feito aquilo, e não poderia ter mais certeza nem mesmo se Patrick Bergmann tivesse assinado seu trabalho.

– Só isto – disse Vince. Ele ergueu uma pequena sacola plástica usada para colocar as evidências. Dentro dela, pude ver os contornos do que parecia ser um sabonete pequeno, do tipo de sabonetinhos que os hotéis deixam nos banheiros para seus hóspedes. – Você não vai querer saber onde eu o encontrei – ele acrescentou, alegre. Eu me inclinei para dar uma olhada melhor e, através do plástico, consegui identificar o brasão e as palavras “Grove Isle Hotel And Spa”, em uma escrita elaborada.

Vince agitou-o, brincalhão.

– Talvez isto ajude Anderson a descobrir quem é a vítima desta vez – ele disse.

Abri a boca para dizer que não parecia possível, já que Anderson não descobriria nem se ele tivesse declarações autenticadas do assassino e da vítima, mas fechei a boca e dei um passo para trás e não disse nada.

Porque eu sabia quem ela era. Lembrei por que ela parecia familiar, e não era pelo fato de ser parecida com Jackie. Era pelo fato de eu tê-la visto, parada no hall e enrubescendo, sorrindo, feliz por estar tão perto de sua heroína da vida real, Jackie Forrest.

Dei uma chacoalhada nos controles do meu banco de dados e apareceu o resultado: o nome dela era Amila, e era a camareira no Grove Isle Hotel que viera para limpar a sujeira no chão da suíte; e ela tinha me dito que mandara cortar o cabelo igual ao de Jackie Forrest, e isso tinha feito com que ela fosse assassinada...

Uma coisa sucinta e sombria fez cócegas em minha espinha, só uma ligeira brisa de inquietação me dizendo que alguém estava observando, dei as costas para a caçamba e olhei bem para além do píer com suas duas filas de barcos e para o clarão dolorosamente luminoso da água.

A menos de cinquenta metros de distância, bem lá na ponta da doca, um pequeno ponto amarelo subia e descia com as ondas ligeiras. Um remo se ergueu enquanto eu observava e mergulhou para dar duas ligeiras batidas para manter a proa apontada para nós; um remo de pás duplas para caiaque.

Por trás do caiaque, como se fosse para enfatizar essa dica tão óbvia, o Grove Isle Hotel se elevava contra o brilhante céu vespertino; o hotel onde Jackie e eu estávamos. O hotel onde Amila havia trabalhado até Patrick acabar com a carreira dela.

O remo mergulhou preguiçosamente de novo, fazendo o bote se virar ligeiramente para o lado, de modo que não pudesse haver a menor dúvida do que ele era, um caiaque. Era o barco perfeito para a vida ao ar livre do Patrick. Eles eram leves e, portanto, muito fáceis de roubar, e seria com certeza muito mais simples do que tentar esconder um cadáver em uma motocicleta. Uma viagem rápida através de menos de um quilômetro de água, jogar o corpo, e então remar de volta a uma distância suficiente para poder ficar olhando a diversão.

E é claro que ele iria observar. Não somente ver a excitação quando seu projeto fosse descoberto – ele também ficaria olhando para ver quem iria aparecer, porque Jackie tinha feito sua aparição da última vez, e ele queria vê-la quando ela chegasse a essa cena de crime também. Sem nem pensar, eu sabia como isso era importante para ele: fazer Jackie olhar e ver e saber que poderia ter sido ela – que seria ela muito em breve e saber que ele a estava olhando e esperando para fazer com que tudo acontecesse de novo, com ela...

Mas fazer isso era puro húbris. Ele havia se arriscado muito, descarregando esse corpo de um barco pequeno em plena luz do dia. E eu tinha certeza absoluta de que isso não acontecia por ele estar ficando mais ousado. Essa morte havia acontecido rápido demais, imediatamente depois da sua última, interrompendo o padrão e revelando a primeira fenda na armadura de homem rústico do Patrick. Porque, ao chegar mais perto de Jackie, ao ficar observando o hotel durante todas as horas da noite, esperando uma chance – até mesmo um vislumbre –, a frustração dele estava crescendo, devorando-o, afetando-o a tal ponto que sua satisfação com a vítima anterior havia durado somente uns míseros dias. Logo essas substitutas não seriam suficientes para ele; teria de ter Jackie, mas ele não conseguia se aproximar dela, e então observava e aguardava e a frustração crescia à medida que cada dia passava, repetindo o dia anterior, sem mesmo a menor brecha para uma oportunidade...

Patrick estava ficando impaciente. Estava perdendo a habilidade para esperar pelo momento certo e sentindo a pressão do tempo que corria incessantemente, com nada para mostrar como resultado a não ser uma conta bancária com cada vez menos dinheiro. Ao matar a camareira, ele estava tentando encaminhar a situação na direção do clímax, provocando-nos por vê-lo assim tão perto, nos desafiando a fazer alguma coisa, nos incitando a tentar fazer com que ele parasse, evitar que fizesse o que estava fazendo.

E, por mais estranho que pareça, naqueles dois ou três segundos, enquanto eu olhava com os olhos semicerrados através da luminosidade na água para Patrick em seu caiaque, seguindo todos aqueles pequenos momentos de lucidez enquanto eles passavam rapidamente pelo meu cérebro, eu descobri outro pensamento minúsculo borbulhando lá no fundo e subindo à superfície à luz do dia com o estourar feliz de uma brilhante bola de chiclete cor-de-rosa, e o pensamento era mais ou menos assim:

Tudo bem, Patrick, eu aceito seu desafio.

Por um instante, eu não tinha bem certeza do que queria dizer com aquilo, e pisquei, dando as costas para o clarão na baía e olhando fixamente além da doca, de volta para a fita amarela que demarcava a cena do crime, onde Robert estava parado tagarelando com os dois policiais uniformizados. Não havia sinal ainda de Deborah e de Jackie, o que era muito bom. Olhei para além da fita amarela, para a crescente multidão de basbaques e para as ruas movimentadas de Coconut Grove; o Grove, aquela meca para os ricos desocupados de Miami, com suas butiques caríssimas, lojas exóticas e restaurantes casualmente sofisticados. O Grove, onde Dexter havia vivido por tanto tempo antes de se casar, e onde, ainda agora, Dexter mantinha seu barco de pesca a apenas uns mil e quinhentos metros desse exato lugar...

Oh. Barco de pesca. Acho que era isso que eu queria dizer.

Eu olhei meu relógio; faltavam quinze para as duas, apenas uma hora para trocar de roupa antes da reunião com a professora de Cody. Voltei a olhar para Patrick, se balançando lá de modo tão insolente em seu caiaque roubado, e a visão dele acionou um mecanismo na sinistra maquinaria de relógio do cérebro soturno de Dexter. Uma rodinha começou a se mexer com ruído e bateu em uma alavanca que inclinou uma chapa de metal mais acima sobre um fulcro que bateu em uma brilhante esfera fria, de modo que ela rolou pela calha e entrou na caixa de SAÍDA, e eu a peguei, a mantive em minha mão e a ouvi dizer: Tem tempo suficiente.

E teria.