Dexter: Em Cena
Capítulo 26
ACORDEI NO MEIO DA NOITE E POR QUASE UM MINUTO INTEIRO FIQUEI deitado cochilando, os olhos fechados, sem saber onde estava. E nem sei bem o porquê, mas isso não me preocupava nem um pouco. Um lençol macio e perfumado me cobria da cintura para baixo, e uma sensação de entorpecimento semiextático cobria o resto do meu corpo. Fiquei deitado lá entre o sono e a vigília, pensando como é que eu tinha ido parar onde quer que eu estivesse; e por que aquilo deveria me fazer sentir tão bem.
E então alguma coisa fez um ligeiro ruído ao meu lado, e por causa do som os meus olhos se abriram por inteiro. Eu me virei para o lado esquerdo e olhei.
Jackie Forrest, estrela da TV, adorada por milhões e perseguida por negociantes de armas gregos, estava deitada ao meu lado, nua. Seu cabelo dourado estava despenteado e esparramado de modo desigual pelo travesseiro, e uma das mãos fechada ao lado do rosto. O lençol não cobria o corpo dela por inteiro; dava para eu ver a ligeira névoa de sardas que cobriam seus ombros, desciam pelo peito e pelos seios – os seios dela, perfeitos e incríveis.
Até então, eu nunca tinha entendido a obsessão masculina por essa característica feminina; os seios são, afinal de contas, nada mais do que um equipamento funcional, até mesmo utilitário. Eles eram, em sua origem, uma ferramenta de sobrevivência de primeira necessidade para a criação de filhos saudáveis, tornados ligeiramente obsoletos com o advento das mamadeiras e do moderno leite em pó para os bebês; e entrar em um transe abobalhado só por vê-los sempre tinha me parecido o cúmulo da estupidez humana.
Mas, enquanto olhava os seios de Jackie Forrest, eu entendi a loucura pela primeira vez. Os seios da Jackie eram algo separado da humanidade; eles tinham um lugar de destaque no plano dos avatares, belos, perfeitos, coisas icônicas, a própria representação de tudo que o seio feminino ideal deveria ser; tão além de qualquer coisa que já tivesse visto antes que eu só podia ficar maravilhado ao olhar fixamente para eles. Então, era isso que causava tanta loucura...
Não consegui evitar; estendi a mão e toquei o seio que estava mais perto. Ele era delicado ao toque, incrivelmente macio, e convidava a um exame mais próximo e mais detalhado. Eu o cobri com minha mão e fui recompensado com uma sensação de satisfação que nunca tinha sentido antes, ou nem mesmo acreditado que fosse possível. O mamilo rosado e perfeito roçou contra a palma da minha mão e ficou rígido – e isso, também, era impressionantemente, implausivelmente satisfatório.
Jackie fez um movimento ligeiro, uma leve mudança na posição dos quadris e dos ombros, uma das pálpebras estremeceu. Eu afastei a mão, e então, ainda sem saber muito bem o que estava fazendo, e o porquê, aproximei minha boca do seio dela e rocei os lábios nele.
Jackie fez outro movimento ligeiro. Em seguida, a mão dela passou suavemente por meu rosto e rodeou minha nuca, e me sentei e olhei seu rosto.
Os olhos dela estavam entreabertos, e sua língua deslizou pelo lábio inferior, e então a boca se curvou em um sorriso sonolento.
– De novo? – ela disse com um quase sussurro rouco. Estendeu a mão e puxou meu rosto para perto do dela, e nós fizemos de novo.
Em algum lugar à distância, em uma neblina de felicidade perfeita, um zumbido irritante começou a se insinuar na nuvem etérea de euforia em que Dexter flutuava, sem sonhar. Eu tentei afastá-lo e voltar para a minha nuvem, mas o som ficou mais alto e mais insistente, e a nuvem começou a se desmanchar, resquícios de felicidade absoluta desaparecendo no monótono e cinzento torpor da consciência que retornava. Ouvi um ruído ao meu lado e abri um olho enquanto Jackie desligava o despertador e saía desajeitada da cama, indo rapidamente para o banheiro.
Eu a observei se afastar, tonto por causa da falta de sono, mas acordado o suficiente para me espantar com o que havia acontecido comigo. Eu estava deitado na cama de uma Estrela de Verdade e havia passado a noite fazendo coisas improváveis com ela – coisas que nunca antes pensara em fazer, mas que, de algum modo, eu havia feito com tanta naturalidade com Jackie. E pensei de novo nas multidões que a seguiam com tamanha adoração boquiaberta, e como qualquer um deles teria dado tudo que tinha para poder ser eu agora – ou, pelo menos, algumas horas atrás. Mas só tinha um de mim, e eu era ele, e eu havia passado a noite na cama com Jackie Forrest.
Ouvi a água começar a correr no banheiro, e Jackie começou a se mover sob o chuveiro fazendo muito barulho. Eu me espreguicei e fiquei lá deitado por um momento, muito satisfeito comigo mesmo. Eu tinha realizado um feito notável e me sentia muito bem a respeito. Mas, além disso, percebi que estava com fome, o que não deveria ter sido nenhuma surpresa. Afinal, eu havia queimado um bocado de calorias à noite, e meu corpo nunca se envergonhava na hora de pedir um reabastecimento.
Saí da cama e fiquei olhando ao meu redor, entontecido, procurando minha cueca. Eu tinha certeza de que ela havia chegado a entrar no quarto, mas não tinha tanta certeza assim até que ponto. Finalmente, encontrei-a aos pés da cama, por baixo dos lençóis amarfanhados. Eu a vesti e fui em silêncio para a sala de estar, localização da minha antiga cama, o elegante sofá de couro. Lindo para se olhar, delicioso para ficar deitado nele, mas não era nem de longe o local ideal para dormir, e eu teria ficado feliz por me afastar dele por uma razão muito menor. Mas sair do sofá e ir direto para a cama de Jackie era o melhor dos mundos possíveis.
Contudo, quando me flagrei chapinhando em um pântano de auto- congratulação fútil, um pensamento ínfimo e desagradável aterrissou ao meu lado. Por que eu deveria acreditar que essa mudança tinha algum significado? Na noite anterior, Jackie tinha ficado nervosa, apavorada, precisando desesperadamente de conforto e de companhia. Isso não era garantia de que ela fosse se sentir do mesmo modo essa noite, ou na noite seguinte, ou jamais. Sou um completo ignorante nas questões sexuais e emocionais humanas, mas sei o suficiente para saber que quase nada nesse departamento é garantido. Cada pessoa é diferente, cada uma tem expectativas diferentes, e não há duas que tenham a mesma experiência, mesmo quando a compartilham. Baseado no que eu posso dizer, a coisa toda se parece com duas pessoas falando línguas diferentes que têm as mesmas palavras; tudo tem o mesmo som, mas as palavras têm significados diferentes em cada língua. Para uma pessoa, amor quer dizer sexo; e, para a outra, quer dizer para sempre – dois sentidos completamente diferentes e, entretanto, até a pronúncia das duas sílabas é a mesma.
Então, o que a noite passada realmente significou?
Para mim? Eu tinha passado as melhores horas que jamais tinha passado sem ter de recorrer ao uso de fita adesiva e estava com muita vontade de fazer com que isso virasse o Novo Normal – mas não tinha a menor ideia a respeito do que Jackie estava pensando. Ela havia agido como se estivesse se divertindo, mas poderia ter sido só isso: atuação. Talvez tivesse decidido trocar algumas horas de esforço indigno pela proteção extra de ter alguém perto dela, um braço protetor caso Patrick aparecesse. Certamente, isso fazia mais sentido do que pensar que havia resolvido que Dexter estava destinado a ser seu príncipe encantado para todo o sempre. Afinal, ela era uma beldade internacional, e o que eu era? Nada, na verdade; nada além de um perito forense CDF que fazia bicos praticando vivissecção humana. Eu não tinha o direito de assumir que haveria mais de uma noite; nenhuma razão lógica para pensar que uma noite de abraços ardorosos tinha sido o primeiro passo rumo a um futuro novo e brilhante.
Fiquei parado ao lado do sofá, sob a cálida luz do sol que entrava pelas janelas, e senti que estava perdendo o ânimo. Tudo isso terminaria cedo demais, e agora havia muito mais para lamentar do que o excelente menu do serviço de quarto.
Por outro lado, o menu era realmente excelente, e, desanimado ou não, eu ainda estava com fome. Peguei o telefone e pedi o café da manhã.
Eu tinha acabado de comer e estava na metade da minha segunda xícara de café quando Jackie finalmente apareceu na varanda. Ela hesitou por uma fração de segundo, e então se inclinou e me beijou antes de se sentar, e disse:
– Bom dia.
– Parece que é – eu respondi, cheio de cautela. – Como... hum... – E percebi que estava balbuciando e mergulhei em um silêncio bastante embaraçoso.
– O quê? – perguntou Jackie.
– Bom, eu ia perguntar se você tinha dormido bem, mas, de repente, isso me pareceu uma coisa tão incrivelmente idiota, porque...
– É.
– Então, hum... você quer um pouco de café?
– Muito.
Enchi uma xícara para ela, e ela a pegou e a segurou perto da boca com as duas mãos, soprando para que o café esfriasse, e depois o bebendo. Quando a xícara estava pela metade, ela a abaixou e inspirou profundamente. Então soltou o ar, lenta e perceptivelmente, e olhou para o colo.
– Eu não... – E então mordeu os lábios e ergueu os olhos. – Eu me sinto péssima.
Eu não via como poderia aceitar essa observação como um cumprimento, e isso deve ter transparecido em meu rosto, porque Jackie pareceu ficar ligeiramente assustada e acrescentou rapidamente:
– A respeito da Kathy. De ela estar... morta.
– Ah – eu disse, com certo alívio muito egoísta. Eu tinha ficado tão envolvido em meus pensamentos torturantes que havia até esquecido a história da morte da Kathy. Muito superficial, sem dúvida, mas eu nunca aleguei ser uma pessoa cheia de compaixão.
– É minha culpa – disse Jackie. – Meu egoísmo fez com que ela fosse morta. E então nós... eu me sinto tão mal a respeito do que fiz...
Senti vontade de dizer-lhe que ela não devia mesmo, porque tinha feito tudo muito bem; mas, àquela altura, eu sabia que ela estava falando a respeito da Kathy. Com certeza, algumas palavras de conforto se faziam necessárias – e, coisa surpreendente, percebi que eu queria fazer com que ela se sentisse melhor.
– Jackie – eu disse não foi culpa sua, não foi mesmo. Se foi culpa de alguém, foi minha.
Ela pareceu ficar espantada.
– Sua? – ela disse, e eu assenti.
– Espera-se que eu seja o especialista – eu disse. – E eu não tinha a menor ideia de que ele iria atacar a Kathy. Então, você não tinha como saber.
Jackie bebeu seu café e franziu as sobrancelhas.
– Talvez. Mas...
– Na verdade – eu falei –, isso é tão contrário ao padrão de comportamento do Patrick que eu não sentiria a menor surpresa se descobrisse que não tinha sido ele. – Não acrescentei que eu ficaria ainda mais surpreso se descobrisse que tinha sido ele.
– Você quer dizer que outra pessoa matou Kathy? – disse Jackie. – Mas por quê?
– Não sei – respondi.
Jackie franziu as sobrancelhas e abaixou o olhar, e então balançou a cabeça.
– Não – ela acabou dizendo. – Quem mais poderia... Não. Isso é loucura.
– Exatamente o que estou querendo dizer – eu falei. – Cidadãos saudáveis e sensatos geralmente não fazem essas coisas. – E, devo dizer, eu falava nisso com certo conhecimento de causa.
Ela pensou no assunto, bebendo seu café, e finalmente suspirou e balançou a cabeça de novo.
– Não. Sei que você está tentando fazer com que eu me sinta melhor, mas... não acredito nisso.
Olhei para Jackie, se revolvendo em uma tristeza desnecessária, e em um dos momentos mais estranhos até então, eu percebi que queria que ela sorrisse, desse risadas, sentisse o sol e o vento em seu rosto e conhecesse a verdadeira felicidade; ou, pelo menos, terminasse seu café sem cair em lágrimas.
– E se eu puder provar que foi outra pessoa? – eu disse.
Ela pareceu ficar um pouco assustada e perguntou:
– Como?
Eu sorri, e foi quase um sorriso de verdade.
– É isso que eu faço – falei. – Modéstia a parte, tenho de admitir que sou um perito forense muito bom.
– E é muito bom também em mais uma coisinha ou duas – ela disse, mas percebeu que estava sendo leviana e ficou com expressão culpada. Ela se voltou para o outro lado de novo, franzindo as sobrancelhas.
– Tudo que quero é olhar os relatórios e falar com Vince, antes de você decidir que não merece mais viver – eu disse.
Um longo momento depois, ela tornou a me olhar; e se não havia uma verdadeira esperança em seu rosto, pelo menos ela não parecia mais estar completamente infeliz.
– Tudo bem – ela disse. Bebeu outro gole de café, seguido por uma inspiração profunda, e deixou que um olhar determinado tomasse conta de seu rosto. – Certo – ela falou. Colocou a xícara na mesa e estendeu a mão na direção dos dois pratos cobertos sobre a bandeja, e hesitou. – Qual dos dois é o meu?
– Os dois – respondi, e ela ergueu uma sobrancelha. – Bem, eu não tinha certeza... Quer dizer, pedi seu habitual café da manhã minguado – eu disse, batendo em uma das tampas de prata –, mas pensei... de qualquer jeito, tem também uma omelete e um pouco de bacon, caso você quisesse alguma coisa mais, porque, hum... – terminei falando meio desajeitado, soando demais como a Rita.
– Porque eu abri meu apetite ontem à noite? – ela disse.
– Bem... sim, eu acho que sim.
Ela sorriu e disse:
– E como. Mas começamos a trabalhar na frente das câmeras amanhã, então... – Ela deu de ombros e ergueu a tampa da bandeja com as torradas e o suco de grapefruit. Colocou a tampa de lado e pegou uma fatia de torrada, fazendo barulho ao mastigar e bebendo o suco.
Dei uma olhada na outra tampa, a que cobria a omelete, e quer fosse fome de verdade, ou só a necessidade de fazer alguma coisa, eu ergui a tampa.
– Se você tem certeza – eu falei. – Quer dizer, a omelete está muito boa mesmo.
Jackie bebeu o suco e disse:
– Tenho certeza.
Comi a omelete.
Quando terminei, coloquei mais café na xícara de Jackie, e então na minha. Bebemos, e o silêncio ficou mais profundo, e eu fiquei pensando se deveria começar a tagarelar, só para acabar com o silêncio.
– Ouça – ela acabou dizendo. Eu a olhei, atento. – A noite passada... – Ela bebeu mais café e então afastou o olhar. – Foi muito bom.
– Muito bom – eu falei. – Quer dizer, bom não parece mesmo ser a palavra adequada.
Ela tornou a me olhar e me dirigiu um rápido sorriso.
– Fico feliz por você pensar assim – ela disse. – Porém... – ela balançou a cabeça e olhou seus pés. – Sempre tem um porém, não tem?
– Eu não, hum... tem? Quer dizer, sempre? – perguntei.
Jackie me olhou de novo e deu um sorriso meio pesaroso.
– É, sempre – ela disse. – Quer dizer, agora é uau, graças a Deus, mais uma vez... mas as coisas sempre são diferentes à luz do dia... – Provavelmente ela tinha razão, e por um breve instante eu desejei fazer de novo à luz do dia, para ver quão diferente era, mas Jackie não parecia estar com a mesma disposição; suspirou profundamente e tornou a afastar o olhar.
– Eu estava apavorada a noite passada – ela disse. – Tinha certeza de que ele estava no hotel, vindo atrás de mim, e... – Fez uma pausa abrupta e me olhou atordoada. – Não é que... – ela disse, parecendo estar muito embaraçada. – Quer dizer... foi uma coisa que eu queria mesmo fazer. Com... você. – Ela olhou os seus joelhos. – Você tem esse... eu não sei. Tem alguma coisa em você que... – Franziu os lábios e balançou levemente a cabeça duas vezes. – Eu não sei. Assim, você é esse... cara normal, seguro e, e... sólido? Comum? Não, talvez confortável? – Ela balançou a cabeça mais uma vez. – E, ao mesmo tempo, tem essa impressão que eu tenho, como se você fosse um daqueles meninos encrenqueiros de quem eu costumava gostar, com um canivete no bolso ou algo assim, e a combinação é tão...
Ela me olhou, e sua língua passou pelo lábio inferior. Suspirou e baixou os olhos de novo.
– Eu gosto mesmo de você, Dexter – ela disse. – Quer dizer, é sério. Mas... nós vivemos em mundos diferentes, e você sabe. Eu vou voltar para Los Angeles, e você vai voltar para a sua esposa.
– Eu não preciso voltar – falei e isso escapou da minha boca antes mesmo de eu perceber o que estava dizendo.
Ela me olhou com muita seriedade, depois desviou o olhar. Então, balançou a cabeça.
– Você tem filhos, e... não vamos deixar a situação complicada, tudo bem?
– Não é assim tão complicada – eu falei.
Jackie sorriu com um pouquinho de tristeza e disse:
– É. Sempre é.
– Eu sei que não sou um negociante de armas grego – eu falei. – Mas...
Ela pareceu ficar espantada.
– Oh! – ela disse. – Ah, não, não é isso. – Estendeu o braço por cima dos restos do café da manhã e pegou minha mão. – Eu já tenho mais dinheiro do que posso gastar. E se esse seriado for longe o suficiente para começar a ser reprisado, vai ser o meu dinheiro E S.
– Seu o quê?
Ela sorriu.
– Dinheiro E S., sabe? Dinheiro suficiente para dizer Foda-Se para qualquer um ou qualquer coisa de que eu não goste, para não precisar me preocupar com as consequências. – Ela apertou minha mão, em seguida a soltou. – De qualquer jeito, não é esse o problema.
– Qual é o problema? – eu quis saber.
Ela suspirou de novo, profundamente, e se virou para ficar olhando a água. Olhei seu perfil. Era muito bonito, embora ela o estivesse estragando um pouquinho com mais um franzir de sobrancelhas, tendo seus pensamentos profundos e tristes a respeito de... o quê? Com certeza, não a meu respeito?
– Fui egoísta – ela acabou dizendo. – E isso fez com que Kathy fosse assassinada.
– Jackie, isso é...
– Não, deixe eu falar. – Suas sobrancelhas se franziram ainda mais. – Tantas pessoas são tão completamente voltadas para si mesmas, para o que elas querem, que não pensam em como isso pode afetar os outros. Sobretudo em minha profissão.
– Não é só na sua profissão – eu disse, pensando que isso tinha soado com uma boa descrição da vida cotidiana.
– Sempre odiei isso. Eu tento... – Fez um gesto com uma das mãos na direção da água. – Tem essa sensação de... poder... que faz parte do fato de ser famoso. E eu vi como isso transforma pessoas boas em... o que...
– Cretinos? – eu sugeri, pensando em Robert.
– Hm-hum, tudo bem – ela disse, ainda olhando para a baía. – Eu não quero isso. – Ela se voltou para me olhar, parecendo muito séria. – Não quero ser uma pessoa assim.
– Não acredito que você seja – eu falei.
– Eu vou ser – ela disse – se tentar afastar você da sua família.
Olhei para Jackie e seus profundos olhos cor de lavanda, aquele rosto perfeito, macio e um pouquinho sardento, e pela primeira vez me ocorreu que estávamos falando exatamente a respeito daquilo: Jackie me tirar da minha família. Dexter abandonar Rita e as crianças para galopar rumo a um pôr do sol regado a mojitos e a uma vida de bem-aventurança de primeira qualidade. Jackie e Dexter, um mundo sem fim – ou, na menor das possibilidades, um mundo sem fim por mais algumas semanas.
Eu queria aquilo; havia sentido um pouco do gosto do mundo de Jackie, e da própria Jackie, e gostara. Eu gostava de tudo relacionado a isso; o torvelinho da multidão de adoradores aonde quer que fôssemos; o gratificante rumor de adoração de todas as pessoas que nos vissem; o serviço de quarto e as limusines e as entrevistas por telefone, e a sensação de ser tão importante que cada arroto e cada soluço de nossas vidas eram significativos – eu gostei. E gostei da sensação de estar com Jackie, no mundo dela – e na cama dela. E gostava dela. Eu queria mais disso, tudo isso.
E fiquei pensando no que aquilo significava: abandonar a conhecida labuta de me arrastar em meio ao tráfego violento duas vezes por dia, em um carrinho velho e caindo aos pedaços, e me arrastar através das piadas velhas e da rotina vazia do meu serviço, afundado até os joelhos em carnificina e insensibilidade. E para quê? Só para trazer para casa um salário pequeno demais, que desaparecia imediatamente no vácuo contínuo e voraz da vida em família, com suas hipotecas e aparelhos para os dentes e sapatos novos e compras no mercado. E o infinito e cansativo trabalho árduo de lidar com as crianças e seus problemas constantes, sempre atirados na sua direção na mesma lamúria exigente e egocêntrica; e todo o ensurdecedor ruído matinal de descobrir as meias e a lição de casa e o outro sapato enquanto eles se aprontavam para ir para a escola, seguidos por mais gritos e brigas e batidas de porta – e então a atuação praticamente idêntica todas as noites na hora de dormir; as fraldas e as brigas e as novas calças jeans e reuniões com professoras, e brigas em altos brados a cada passo ensurdecedor do caminho. E pensei em Rita, com suas frases perpetuamente interrompidas, e com a sua eterna preocupação exagerada a respeito de absolutamente tudo, e as linhas de expressão fixas em sua face enquanto ela caminhava rapidamente para uma velhice que não deveria tê-la alcançado por pelo menos mais uns dez anos, e a sensação de que ela sempre esperava de mim alguma coisa que eu não poderia lhe dar, a qual não conseguia nem ao menos identificar. Daria mesmo para deixar tudo isso para trás em troca da mera perfeição?
Eu achei que dava.
Olhei para Jackie. Ela ainda estava observando meu rosto, e os olhos dela estavam ficando úmidos.
– Jackie – comecei.
– Eu não posso, Dexter – Eu não posso mesmo.
Eu me levantei e fui me sentar ao lado dela na chaise longue.
– Eu posso – disse e a beijei. Por um momento, ela não correspondeu, mas depois também me beijou.
E acontece que as coisas não eram assim tão diferentes à luz do dia. Nem mesmo bem ali, na varanda...