Dexter: Em Cena
Capítulo 27
NOSSA SIESTA NÃO PROGRAMADA NA CHAISE LONGUE SE TRANSFORmou em um cochilo imprevisto, e então um despertar um tanto assustado, o que levou a um segundo banho, e ele demorou muito mais do que deveria e terminou na cama da Jackie de novo. E o dia inteiro se passou em uma indolente névoa de brincadeiras idiotas e de cochilos aconchegantes, e, antes que eu percebesse, já era noite.
E a manhã seguinte, segunda-feira, chegou rápido demais, e nos surpreendeu em um estado quase comatoso, perdidos em um sono tão profundo que não ouvimos o interfone até ele soar pela terceira vez. Eu me arrastei para fora da cama e o peguei, para ficar sabendo que o motorista da limusine estava ficando indignado e exigindo nossa materialização imediata no carro, ou chegaríamos atrasados ao set de filmagens e as forças da escuridão iriam destruir seu sedã.
Escovei rapidamente os dentes e penteei o cabelo, e Jackie arrumou o cabelo dela e a maquiagem, e poucos minutos mais tarde estávamos recuperando o fôlego no banco traseiro da limusine, a caminho do trabalho.
Não falamos mais nada a respeito do futuro, mas ele estava muito presente em minha cabeça. Parecia o cúmulo da ironia que, embora eu nunca tivesse tido vontade de lidar com o problema que ter uma mulher representava – a não ser como parte do meu disfarce agora eu estivesse amarrado a duas delas. Era uma situação estranha para mim, quase surreal. Nunca teria imaginado que, entre meus outros defeitos, eu fosse um sátiro, um cara lascivo; Don Juan Dexter, caminhando a passos largos pela vida com um sorriso libidinoso, hordas ávidas de beleza feminina seguindo os meus passos. Que canalha que eu era – e como isso me deixava feliz de um modo tão cretino. Era como viver uma absurda fantasia adolescente: pular da cama com minha deusa de estimação e depois entrar na limusine. E então ir para um dia duro de trabalho no set de filmagem, almoço com o meu agente, passar por uma entrevista ou duas, sempre fazendo pausas ao longo do caminho para permitir que o tropel de mulheres em adoração se iluminasse no clarão de meu radiante magnetismo. Dexter Dionisiano, o surpreendente deus do amor.
Meu estado de espírito efervescente – e um silêncio por parte de Jackie para lhe fazer companhia – durou todo o percurso até o estúdio que a produção havia alugado para o primeiro dia de gravações. Ele ficava a poucos quarteirões do rio, na ponta norte da área da Little Havana, e, apesar dos maiores esforços do nosso motorista, chegamos com dez minutos de atraso.
– Merda! – disse Jackie, enquanto passávamos pelo portão e íamos para o estacionamento. – Odeio chegar atrasada. Sempre parece essa porra de coisa de diva.
– Nós temos uma desculpa muito boa – eu falei.
Ela sorriu e apertou minha mão.
– Sim, temos, mas não é o tipo de coisa que eu possa explicar para o diretor.
– Quer que eu fale com ele? – perguntei.
– É só a gente não fazer isso de novo – ela disse. Ergui uma sobrancelha, e ela, deu risada. – Pelo menos, a última parte – acrescentou.
O carro parou na frente das grandes portas de enrolar, e olhei para ver o motorista nos observando com interesse pelo espelho retrovisor. Nossos olhos se encontraram, e ele deu uma piscada.
– Já chegamos, srta. Forrest – ele disse.
– Obrigada – disse Jackie. Levou a mão para pegar a maçaneta da porta, mas o motorista já havia saído do carro e aberto a porta para ela.
– Me pediram para avisar que todos estão reunidos na sala de conferências – disse o motorista, enquanto eu descia do carro. Ele indicou a porta de metal menor ao lado da grande porta de enrolar. – No fim do hall, à direita.
– Todos? – perguntou Jackie. – Ou só o elenco?
O motorista balançou a cabeça.
– Eu não sei, senhorita. Eles me disseram “todos”, mas não me disseram o que isso significava.
Jackie mordeu os lábios e franziu a testa, e então estremeceu ligeiramente.
– Obrigada – disse para o motorista, agradecendo com um pequeno sorriso.
Ele inclinou a cabeça de modo quase imperceptível e respondeu:
– Só estou fazendo o meu serviço.
Passamos pela porta que o motorista havia indicado e caminhamos por um corredor um pouco longo pintado de um tom realmente irritante de verde-claro. À direita, passamos por duas portas que se abriam para o local de gravações propriamente dito. À esquerda, as paredes estavam decoradas com borrões de tinta, gordura, e o que eu esperava que fosse manteiga de amendoim. Na metade do caminho, passamos por um grande
mural decorado com avisos, folhetos, avisos da OSHA [19], e importantes normas de segurança. Mal passamos pelo mural e já começamos a ouvir os ruídos de conversas vindos do fim do hall. Jackie começou a andar mais devagar e me lançou um olhar rápido.
– Você sabe o que isso quer dizer, não sabe? – ela disse em um tom de voz baixo e preocupado.
– Que os donuts de geleia já se acabaram? – perguntei.
O sorriso dela foi um pouco mecânico.
– É agora – ela disse. – É agora que vão falar para todo mundo a respeito de Patrick. E então eles apresentam a minha substituta. – Segurou o lábio inferior com os dentes e o mordeu. – Ai, que merda. Eu não consigo fazer isso. Não com Rob... com todos olhando e secretamente ficando contentes.
Eu tinha certeza de que ela havia começado a dizer “Robert”, e parado depois de uma sílaba odiosa, e senti uma onda de simpatia. Uma das poucas partes do comportamento humano que eu realmente entendo é a natural relutância em deixar que seus inimigos vejam você humilhado. E, já que Jackie estava comigo agora, e o inimigo era uma criatura infame e irritante como Robert, eu também senti a mesma coisa. Mas também não vi nenhum jeito de evitar a situação.
Então, passei um braço pelos ombros de Jackie e a puxei para perto de mim e disse:
– Eles não podem substituir você.
Ela balançou a cabeça.
– Não vejo como possam evitar isso. O seguro...
– Vou fazer-lhes uma proposta que eles não podem recusar – eu disse, com as bochechas inchadas. Não era uma imitação muito boa, e Jackie não deu um sorriso muito bom para ela, mas era, pelo menos, um sorriso.
– Obrigada, Don Vito – ela disse. Afastou-se de mim, endireitou os ombros e exibiu um pequeno sorriso confiante. – Vamos acabar com isso – ela disse e marchou rumo à porta no fim do corredor.
Fui atrás, conjecturando se ela tinha razão. Será que iriam mesmo demiti-la? E, se demitissem, o que aconteceria comigo? Eu poderia convencê-la de que ela ainda precisava do meu tipo especial de proteção – mas e se ela resolvesse fugir? Voar de volta para Los Angeles, ou mesmo para algum lugar mais distante, onde o hipotético Patrick não pudesse encontrá-la? Eu seria convidado a ir junto para Sumatra, ou Dubai, ou Brisbane, qualquer lugar para onde ela fugisse? Eu esperava que sim, mas não tinha como saber com certeza.
Antes que eu pudesse decidir, Jackie havia chegado à porta da sala de conferências. Parou de novo para se aprumar e depois passou pela porta, com Dexter indo atrás como a cauda de seu cometa.
Robert, Renny e muitas outras pessoas que eu não reconheci já estavam sentadas ao redor da grande mesa de carvalho que ocupava o centro da sala. Outro amontoado de pessoas estava parado na extremidade da sala, onde um bule de café se acomodava ao lado de várias caixas de doces com aspecto promissor.
De algum modo, Jackie evitou o apelo mágico dos donuts e passou direto para a mesa, então eu a segui. Robert chamou lá do seu assento no lado oposto da mesa.
– Ei, Dexter –, ele disse, quando nós passamos e, ao lado dele, Renny fez um gesto de cabeça. Eu acenei, e me juntei a Jackie no assento que estava tão longe de Robert quanto ela conseguiu ficar e ainda assim permanecer na sala de conferências. Felizmente para mim, havia uma cadeira vazia ao lado da dela, e eu me sentei discretamente nela.
Jackie imediatamente começou a tagarelar com a mulher à sua direita, aparentemente se esforçando para demonstrar que estava confiante, despreocupada e com o controle total de um universo perfeito. Olhei ao redor da sala e analisei as pessoas que a lotavam. O grupo perto do bule de café parecia ser, em sua maioria, pessoal da área técnica. Usavam roupas surradas e funcionais, ocasionalmente decoradas com braçadeiras, rolos de fita e outros equipamentos misteriosos.
O grupo ao redor da mesa tinha de ser de atores. Eles não estavam tão bem-vestidos quanto o pessoal da produção, mas o desmazelo deles era calculado e parecia custar caro. Os sorrisos frequentes revelavam dentes universalmente faiscantes, e todos eles lançavam olhares furtivos uns para os outros, como se fosse para garantir que nenhum deles estava andando sorrateiro por trás deles com um machete. Eu não vi Deborah em lugar nenhum, e não era capaz de decidir se aquilo era bom ou ruim.
Um pouquinho depois, Debs entrou atrás do sr. Eissen e do capitão Matthews, e então eu soube: era ruim. A cara dela estava fixa em sua máscara mais rígida e pétrea do tipo Eu-Sou-Uma-Policial, a que mostrava que ela era governada pela disciplina e pelo dever, e que nunca havia tido sentimentos de ternura em toda a sua vida. Mas, como eu a conhecia tão bem, conseguia ver que, por trás da máscara, ela estava fervilhando; e quando o detetive Anderson a seguiu pela porta, com um sorriso convencido, eu soube a razão. Esse seria um fuzilamento público, e as únicas perguntas que importavam eram quantas balas havia e de qual calibre.
Eissen se encaminhou diretamente para a cabeceira da mesa, e o capitão Matthews foi atrás dele, lançando um único olhar desejoso para os donuts para nos mostrar que ele ainda era apenas um policial. Debs estava apenas um passo atrás, e Anderson estava na retaguarda, fixando os olhos em Jackie com um tipo de olhar de quem sabe das coisas, de superioridade e de luxúria em seu rosto.
Eissen se sentou na única cadeira vazia; Matthews procurou outra e não viu nenhuma, mas o olhar dele se fixou em Deborah, e ele fechou a cara para ela antes de dar a volta para ficar em pé ao lado de Eissen, em uma postura que mostrava que ele realmente preferia ficar em pé.
– Obrigado por serem pontuais – disse Eissen em voz baixa, e a sala ficou silenciosa com tanta rapidez e de modo tão absoluto que pensei que havia ficado surdo. – Sei que todos vocês estão ansiosos para trabalhar... – Deu um sorriso fraco para mostrar que aquilo poderia ser considerado uma piada, mas ninguém riu. – Então, vou tentar ser conciso. – Deu uma olhada rápida para Matthews e depois olhou fixamente ao longo da mesa na direção de Jackie. Senti que ela se enrijecia ligeiramente. – Fiquei sabendo que nós temos um... problema – ele disse e parou para afastar os olhos de Jackie e olhar ao redor da sala antes de prosseguir – A srta. Forrest recebeu diversas ameaças sérias à sua vida.
Mesmo a presença glacial de Eissen não poderia impedir o murmúrio imediato de choque e de espanto que percorreu a sala, e Eissen esperou que ele cessasse, os olhos azuis e frios fixos em Jackie. Ela apenas deu um sorriso, aparentemente despreocupada e desatenta, e minha opinião a respeito do talento dela como atriz subiu dois pontos.
– No curso normal dos acontecimentos – prosseguiu Eissen, e a sala ficou mortalmente silenciosa de novo –, nós atrasaríamos a produção e escalaríamos outra pessoa no lugar da srta. Forrest. – Ele sorriu, um movimento ainda mais fraco e menos engraçado dos lábios que me fez desejar estar armado. – Para proteção dela, é claro, bem como para proteger o que é um investimento considerável de tempo e de dinheiro da Big Ticket Network.
Acenou na direção de Jackie, e ela correspondeu ao aceno, com um sorriso falso muito melhor que o de Eissen.
– Entretanto – ele continuou, e por baixo da mesa eu senti a mão de Jackie se agarrar à minha –, neste caso, tivemos uma ideia que esperamos que seja uma... alternativa produtiva. – Ele fechou a cara ligeiramente, como se estivesse infeliz com a escolha do adjetivo. – Há certos riscos envolvidos, mas, depois de consultar o capitão Matthews... – Eissen inclinou a cabeça para o lado, e Matthews pigarreou e fez um gesto de cabeça – e o detetive encarregado do caso... – Anderson fez um ligeiro movimento, como se fosse dar um passo à frente e dizer seu nome, mas Eissen prosseguiu, e Anderson se acomodou e continuou a encarar Jackie de modo furtivo e ávido – ... eu acredito que os riscos possam ser minimizados – disse Eissen. Ele afastou as mãos para indicar a sala toda. – Todo o elenco e a equipe de produção estão aqui, em uma locação relativamente cara, e isso representa muito dinheiro. Se adiarmos a produção agora, esse dinheiro estará perdido. E então eu decidi... – Eissen fechou os olhos e deu aquele sorriso minúsculo de novo –, consultando a Network, é lógico – ele abriu os olhos novamente –, que iremos prosseguir conforme programado. Com... a srta. Forrest.
Jackie apertou minha mão com tanta força que achei que ela poderia quebrar alguns ossos e, uma vez mais, um murmúrio de surpresa encheu a sala. Eissen esperou que ele desaparecesse, e então prosseguiu:
– Admito que fui influenciado por minha equipe de publicidade, que está... excitada... com o tipo de repercussão que a situação vai criar. – Ele assentiu duas vezes e disse: – Um seriado sobre uma policial que persegue assassinos... e que está na mira de alguém enquanto um assassino de verdade a persegue. – Uma vez mais, os lábios dele se moveram em um sorriso minúsculo. – Quando digo “estar na mira”, quero dizer que o piloto está na nossa mira, é o nosso objetivo, e não que a srta. Forrest esteja na mira de um revólver.
Ninguém deu risada com essa tenebrosa tentativa de humor. Talvez não tenha sido o momento oportuno.
– De qualquer modo – Eissen foi em frente –, isso com quase toda a certeza vai gerar uma publicidade muito boa.
– E, se eu morrer – disse Jackie –, a publicidade é ainda melhor.
Eissen fixou seu olhar mortal em Jackie, mas a rápida explosão de risos de quase todas as outras pessoas na sala impediu-o de açoitá-la com os olhos, forçando-o, pelo contrário, a lançar mão de seu horrível sorrisinho de novo.
– Então é isso – ele disse e soltou sua risada própria e ligeiramente menor dessa vez. – É claro, todos esperamos que a situação não chegue a esse ponto.
Alguém perto da mesa de café murmurou um “lógico que não”. Eissen ignorou o aparte e prosseguiu:
– Todos vocês assinaram um acordo de confidencialidade – ele disse. – Nossos advogados me garantiram... – e ele fez uma pausa momentânea para permitir que nós todos sentíssemos o peso daquela palavra – que ele se aplica a esta situação. Se vocês falarem a respeito disso a qualquer pessoa... Bem, ouçam minhas palavras, não façam isso. – Ele olhou ao redor da sala; fiquei com a impressão de que ninguém achou que Eissen estivesse brincando.
“O capitão Matthews me garantiu que o pessoal dele pode fornecer segurança suficiente para minimizar os riscos. Para todos nós. E estou pedindo que vocês todos sejam ainda mais cuidadosos. Este é um set de filmagem fechado. Se vocês virem qualquer pessoa que não faça parte do grupo, ou perceberem qualquer coisa fora do comum, falem com um policial. Teremos muitos deles por aqui.”
Ele deu uma olhada rápida para Matthews, e o capitão concordou com um gesto.
– Muito bem – disse Eissen. – Vamos produzir um piloto. – Ele agitou ligeiramente a mão. – Capitão?
O capitão Matthews pigarreou e deu um passo adiante, franzindo a testa de modo solene para todos nós.
– Eu gostaria de assegurar a todos vocês – ele disse – que temos a situação sob controle absoluto, e a investigação está prosseguindo muito... aham. De maneira satisfatória. – Suas sobrancelhas ficaram ainda mais franzidas. – Quer dizer, estamos muito confiantes de que não existe um perigo significativo que não possa ser, ahn... – Ele olhou rapidamente para Anderson, que ficou lá parado, tentando, sem sucesso, dar a impressão de ser sério e competente. – O policial encarregado da investigação me garantiu... – disse Matthews, e o tom de voz dele fez Anderson endireitar o corpo um pouco mais – que uma prisão é iminente. – Anderson deu um ligeiro sorriso presunçoso, e Matthews fez uma pausa para produzir diversos ruídos de limpar a garganta, todos muito poderosos; um estratagema, eu tinha certeza, de que ele estava lançando mão para Anderson entender o fato de que aquilo era uma ameaça e também provavelmente para ocultar seu próprio embaraço por ter de dizer uma Platitude Policial tão pavorosa. “Prisão iminente” é uma frase muito antiga que diz, em tradução livre, “nós não temos a menor pista”, e Matthews a tinha usado publicamente para ter a certeza de que, se uma prisão não acontecesse de verdade, seria culpa do Anderson.
– E, então, aham – disse Matthews – eu peço a vocês todos que... hum... fiquem atentos, assim como o Sr. Eissen disse. – Ele sorriu para Eissen, que não pareceu perceber. – Não há nada com que se preocupar. Com algumas poucas precauções. Então, simplesmente avisem um policial se vocês virem alguma coisa que pareça, ahn, perigosa. – Fechou a cara, como se tivesse ouvido a contradição naquilo que ele havia dito, o que não me pareceu provável. Então se voltou e encarou Deborah por uns instantes, antes de pigarrear de novo. – A sargento Morgan – ele disse, ameaçador, e tornou a olhar a sala – está familiarizada com a, hum, aparência. Do suspeito. – Ele olhou com cara feia para Debs por um momento antes de prosseguir. – Ahn... E ela estará no set – ele disse –, durante todo o tempo das filmagens. O processo todo.
Debs não se moveu, nem mesmo uma ligeira contração dos músculos, mas ela irradiava tamanha infelicidade revoltada que eu podia senti-la em minha cadeira na outra ponta da mesa. Matthews fixou os olhos nela por mais um longo e embaraçoso momento e depois se voltou e lançou para a sala um sorriso fraco e espasmódico.
– Então, eu gostaria de assegurar para vocês que estamos dando atenção total a este caso. E quero dizer novamente quão felizes estamos por tê-los aqui em Miami. E espero que todos vocês possam conhecer a verdadeira Miami, ahn... – Fez uma pausa e olhou ao redor, como se tivesse percebido o que poderia estar desejando para eles e imaginando onde amontoaria os corpos. – A, hum, South Beach, vocês sabem – ele disse. – A vida noturna. E as praias. – Ele acenou para as pessoas que estavam na sala e lhes endereçou um sorriso másculo e confiante. – Divirtam-se – finalizou.
E enquanto Matthews estava aparentemente imaginando se teria mais alguma coisa a dizer, Eissen silenciosamente apoiou as palmas das duas mãos sobre a mesa.
– Tudo bem – Eissen disse. – Obrigado, capitão. E policiais. – Acenou uma vez e olhou rapidamente pela sala. – Nós todos estamos aqui para trabalhar. Vamos trabalhar. – Examinou as pessoas, possivelmente para ver se alguém iria dizer não e fazer greve, e quando ninguém o fez, ele moveu a cabeça afirmativamente, se levantou e saiu rápido da sala.
Victor Terrano, o diretor, se levantou de sua cadeira perto da cabeceira da mesa.
– Muito bem, pessoal – ele chamou, erguendo sua voz acima do falatório. – Nós já estamos duas horas atrasados e ainda nem começamos a filmar. Vamos sair e começar a ralar.
Um dos técnicos gritou: – Buuu!
Victor balançou a cabeça e disse:
– Deixe disso, Harvey. Só se lembre que aqui é um estado onde trabalhar é um direito. – E todo mundo riu e começou a sair pela porta.
Victor foi para a porta, também, revelando uma cena cheia de tensão atrás da cadeira em que Eissen estivera sentado. O capitão Matthews havia se voltado e estava falando em voz baixa, porém, firme, com Deborah, e ela não parecia feliz por estar recebendo a atenção total dele. Anderson estava atrás dos dois, a cabeça se virando de um lado para outro, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis. Eu não precisava ler lábios para saber que Debs estava levando uma bronca, e que Anderson estava adorando aquilo.
– Graças a Deus – Jackie murmurou ao meu lado. – Oh, graças a Deus...
Eu me voltei para olhá-la. Ela ainda estava mostrando para o mundo um sorriso confiante e despreocupado, mas sua voz tremia um pouco, e a mão dela se aproximou e agarrou uma das minhas sob a mesa. Ela inspirou profundamente, a respiração um pouco trêmula, soltou o ar e então disse:
– Estou viva.
– E eu estou muito feliz por você estar viva – falei.
Ela apertou minha mão, em seguida a soltou e se levantou.
– Vamos ver onde está meu camarim.
Eu a segui pela porta e fomos por um corredor lateral à direita. A primeira porta pela qual passamos estava escancarada. Dei uma olhada rápida: os dois lados do longo cômodo estavam cobertos por espelhos bem iluminados, e um aparador ia de uma ponta a outra na altura da cintura, umas doze cadeiras colocadas sob ele. Na parede dos fundos havia um armário, cheio de uniformes de policiais, de ternos, de camisas e de calças, com uma fileira bem organizada de sapatos no chão por baixo das roupas. Um pedaço de fita adesiva estava colado na porta na altura dos olhos. Nele estava escrito “HOMENS”.
– É aqui que você vai se vestir – disse Jackie. – Com os outros caras que fazem pontas.
– Pontas? – perguntei.
Ela sorriu e deu umas palmadinhas no meu ombro.
– Os papéis não importantes – ela disse.
A porta seguinte conduzia a um cômodo praticamente idêntico, mas, dessa vez, estava rotulada “MULHERES”.
– E você fique longe daqui – disse Jackie com uma cara ameaçadora. – Aqui está cheio de sem-vergonhas.
– Sim, Oh Poderosa – eu falei.
A porta seguinte estava fechada, mas nela estava escrito “RENNY BOUDREAUX”. Logo ao lado dessa, estava “ROBERT CHASE”, e, quando passamos lado a lado pela porta, ela se abriu e Robert ficou parado na soleira, piscando. Os olhos dele foram rapidamente de Jackie para mim; ele ficou imóvel e apenas me olhou com os olhos arregalados por alguns instantes.
– Oh – ele disse, com uma expressão estranha no rosto. Choque? Culpa? E então rapidamente entrou e fechou a porta.
Jackie balançou a cabeça.
– Um puta de um louco – ela murmurou, e então finalmente estávamos na frente da porta onde estava escrito “JACKIE FOREST”. Ela ficou parada por um minuto, olhando seu nome, e balançou a cabeça. – Finalmente eles quase escreveram direito – ela disse. Olhou para trás ao longo do corredor. – Mas sempre me colocam por último, bem longe. – Ela fez uma careta. – E bem ao lado do Bob.
– Robert – eu corrigi, automaticamente, e Jackie bufou.
– Vamos entrar – ela disse e abriu a porta.
Em muitos aspectos, o camarim de Jackie era uma cópia menor dos Homens e Mulheres. Mas havia apenas uma cadeira, na frente de um espelho menor. Ao lado havia uma mesa, ocupada com um grande buquê de flores frescas recém-cortadas, uma cesta de frutas e uma caixa grande e espalhafatosa de chocolates muito caros. Sob a mesa havia um frigobar, e ao longo da parede no lado oposto estava um sofá que tinha cara de ser confortável. Uma porta no outro lado do camarim estava entreaberta e revelava um banheiro, que tinha até chuveiro.
– Bom – eu disse. – Então é assim que vive o um por cento.
– Esquálido – ela falou. – Mas você acaba se acostumando.
Antes que eu pudesse me acomodar no sofá com a caixa de chocolates, uma batida soou à porta e, um instante mais tarde, ela se abriu e o detetive Anderson entrou, um pouco ressabiado. Ele estava carregando uma grande caixa de papelão e exibia um sorriso convencido muito irritante mesmo.
– Oi, srta. Forrest – ele disse.
Jackie ergueu uma sobrancelha e ofereceu seu menor sorriso, dizendo: – Sim?
Anderson colocou a caixa na mesa e estendeu a mão.
– Detetive Anderson – ele disse, sorrindo para Jackie como se ela fosse um pote de mel, e ele, um urso morrendo de fome.
Jackie hesitou, antes de apertar a mão dele.
– Ah, sim – ela disse. – Acho que já ouvi seu nome.
– Sim, escute – disse Anderson, ainda agarrado à mão de Jackie. – Eu trouxe umas coisas... Hum, sua assistente? A senhorita Podrowski...
O sorriso minúsculo sumiu do rosto de Jackie, e ela tirou com força a sua mão da de Anderson e disse:
– Sim.
Anderson transferiu o peso do corpo de um lado para outro, incerto, e então indicou a caixa de papelão com um aceno.
– Eu, hum... Eu trouxe as coisas dela. Do quarto dela. – Deu um piparote na caixa. – Mala, bolsa, laptop. Nós demos uma olhada em tudo, e, hum, eu esperava que a senhorita pudesse dar uma olhada. Ver se a senhorita percebe alguma coisa que a gente possa não ter visto?
Eu não disse nada, mas não consegui deixar de pensar que o que Anderson poderia deixar de ver daria uma lista muito longa. Jackie franziu as sobrancelhas e olhou rapidamente na minha direção.
– Isso pode ajudar – eu falei.
Ela tornou a olhar para Anderson.
– Tudo bem. Vou dar uma olhada.
– Obrigado, srta. Forrest – disse Anderson. – Sei que a senhorita está muito ocupada, mas eu agradeceria se pudesse, sabe. O mais rápido possível.
– Vou dar uma olhada – repetiu Jackie.
Anderson passou a língua nos lábios e transferiu o peso do corpo de um lado para o outro de novo.
– E, hum – ele disse. Um sorrisinho estranho apareceu em seu rosto e logo desapareceu. – Eu gostaria de dar minha garantia pessoal. Vou pegar esse camarada, e a senhorita não precisa se preocupar com isso.
– Obrigada, detetive – disse Jackie com o menor de seus sorrisos. Ela começou a se afastar dele, um claro gesto de despedida, porém, Anderson tocou o ombro dela; ela tornou a olhá-lo, e ele prosseguiu, incansável:
– E, hum, a senhorita sabe. Se a senhorita estiver toda, sabe? Assim, estiver preocupada? Quero que a senhorita pense em mim como se eu fosse um braço protetor. Totalmente à sua disposição, vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana. – Ele ofereceu um cartão de visitas, acenou para ela e sorriu, como se tivesse acabado de dizer alguma coisa incrível.
Jackie o olhou com uma expressão muito séria e pensativa no rosto, e o examinou da cabeça aos pés antes de olhá-lo bem nos olhos. Durante vários segundos, não disse nada, e Anderson ficou com cara de quem estava muito embaraçado, transferiu o peso do corpo de um pé para o outro e começou a ficar vermelho de verdade.
– Um braço protetor – acabou dizendo Jackie, inexpressiva. – Obrigada. – Ela sorriu, maliciosa. – Mas eu já tenho um braço forte e de confiança – ela disse, se inclinou na minha direção e colocou a mão na minha nuca, acariciando-a de leve. – Eu preciso ir ver os figurinos. Você pode me acompanhar, Dexter? – E ela me deu um sorriso cálido o suficiente para torrar as sobrancelhas de Anderson.
– Será um prazer – eu disse.
Jackie tocou o meu rosto e se afastou. Dei uma olhada rápida para Anderson. O rosto dele estava cheio de manchas e sua boca estava muito aberta, e ele observou Jackie se afastando calmamente, até eu me mover para segui-la, obrigando-o a dar um passo para trás.
– Com licença – eu disse. – Tenho que ficar com a senhorita Forrest. – Ele me olhou e eu sorri. – Eu sou o braço protetor dela.
Anderson me devolveu o olhar com ódio tão puro que eu queria ficar parado lá por uns minutos e admirar, mas, afinal de contas, o trabalho de um braço protetor nunca tem fim.
– Tchauzinho – eu disse e segui Jackie para fora do camarim.