Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 33 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 31

 

NAQUELE HORÁRIO, EM UMA TARDE NO MEIO DA SEMANA, NÃO ERA difícil chegar até meu tranquilo bairro em South Miami. O trânsito estava sossegado, e fui rapidamente pela 1-95 e então direto pela Dixie sem problemas, e em uns vinte minutos parei em frente à minha casa – minha antiga casa – e estacionei o carro. Fiquei sentado por uns instantes, olhando aquele lugar. Ele tinha sido meu lar por muitos anos, e ainda era o lar de muitas coisas com as quais eu me importava. Minha caixa de jacarandá particular, por exemplo; o cuidadosamente escondido relicário para minha sempre crescente coleção de mementos mori. Cada um dos meus Companheiros estava lá, representado por uma única gota de sangue seco em uma pequena lâmina de vidro. Não o Patrick, é claro, e isso era uma pena, mas ele tinha sido só um serviço apressado. Mas todas aquelas outras ternas recordações, cinquenta e sete delas, ainda viviam na minha caixa. Eu a levaria comigo? Eu tinha de levar, é claro – deixá-la aqui era impensável, e o mesmo se aplicava a me desfazer dela. Mas minha bela e singular coleção poderia fazer essa transição para uma vida agitada e cheia de excitação? Será que eu encontraria um lugar novo e seguro para ela em minha vida nova e desconhecida?

Aquela caixa e suas lâminas eram importantes para mim – mas, naquelas circunstâncias, era muita burrice me preocupar com elas. Eu tinha de encontrar Astor, onde quer que estivesse; e se ela tivesse sido levada por algum predador, como eu suspeitava, então logo haveria outra lâmina na caixa.

A porta da frente da casa se abriu com estrondo, e Rita veio esbaforida até meu carro quando eu saí.

– Oh Dexter graças a Deus você está aqui, vamos, rápido – ela disse, levando a mão para a maçaneta da porta do lado do passageiro.

– Ir para onde? – eu disse.

Rita afastou a mão do meu carro com um gesto brusco, como se ele a tivesse queimado.

– Oh! Eu não tenho... eu não sei, só parece que... quer dizer, eu pensei que se nós pudéssemos... Oh, não... – ela disse e deu a volta no carro e se agarrou em mim, colocando a cabeça no meu peito e fungando, bem onde Jackie havia tão recentemente pressionado seu rosto.

Eu afastei Rita e dei uma sacudidela gentil nela.

– Rita – eu disse –, tem algum lugar para onde a gente possa ir? Você teve notícias da Astor?

– Não, é claro que não, não, mas, Dexter – ela disse. – O que nós vamos fazer?

– Em primeiro lugar, a gente tem de ficar calmo. – Eu não acreditei que Rita fosse aceitar essa sugestão com algum tipo de entusiasmo, e ela não aceitou. Fungou de novo e gemeu, saltitando de um lado para o outro, dando a exata impressão de uma criança que precisasse ir ao banheiro. – Tudo bem – eu disse, segurando o cotovelo dela. – Vamos entrar.

E, sob os protestos incoerentes dela, eu a levei até dentro de casa e a fiz sentar no sofá.

– Então – eu disse –, qual foi a última vez em que você teve notícias dela?

– Pelo amor de Deus, Dexter, você fala como se fosse um... quer dizer, é a Astor, pelo amor de Deus, e você está só...

– Sim, estou – a interrompi. – Nós não vamos encontrá-la tendo ataques histéricos.

– Oh – ela disse. – Acho que você tem razão, mas...

– Quando... – eu disse de modo deliberado. – Quando foi que você teve notícias dela?

– Eu não tive – disse Rita. – Eu só... como eu falei, hoje de manhã eu a deixei na escola. No mesmo lugar de sempre, e então eles ligaram para dizer...

– Tudo bem – eu disse. – Mas você a deixou na frente da escola?

– Sim – ela disse. – E então... quer dizer, Cody estava resmungando tanto, e precisava trocar a fralda da Lily Anne, então eu só, eu fui embora.

Não foi necessário mais do que um minuto de reflexão para ver o que aquilo significava. De um modo estranho, foi desapontador. Eu tinha deixado meu Outro Eu de prontidão, preparado para procurar e destruir qualquer pervertido arrogante que tivesse agarrado Astor e, como sempre, eu me senti um pouco murcho quando tive de deixar que toda aquela alegria calculista se fosse.

– Ela não foi levada – eu disse. – Ela foi embora por conta própria.

– O quê!? – Rita disse, com ar horrorizado. – Dexter, isso é uma estupidez! Ela nunca iria...

– Ela fez isso – eu disse, com firmeza. – Há um policial ali na escola pela manhã, e centenas de pais, e de motoristas de ônibus, e de professores, todos vigiando, prestando muita atenção. Ninguém poderia pegar a Astor lá sem ser visto. Então, não a pegaram. Ela foi por sua vontade.

Rita me encarou com os olhos muito arregalados e a boca escancarada quase igual aos olhos.

– Mas... por quê? – ela disse. – Para onde ela iria?

– Para praticamente qualquer lugar – eu disse. – Ela poderia ir até o Metro Rail, não é longe, e então... ela tinha um pouco de dinheiro?

– A mesada dela – disse Rita. – E... – ela mordeu os lábios. – Eu acho que ela pegou um pouco de dinheiro da minha bolsa. Quarenta dólares.

– Bom, dá pra excluir Singapura – eu disse. Quarenta dólares, e mais a mesada da Astor, talvez mais uns dez ou vinte dólares, se tivesse economizado, não a levariam para muito longe. – Ela disse alguma coisa? Por exemplo, falou de algum novo amigo, ou de alguém que ela conheceu on-line? Nenhuma dica?

– Oh, não – disse Rita. – Eu nunca permitiria que ela... você sabe como ela é. Ela não faz amigos com facilidade, e... Ela não disse nada.

– Certo – disse e me levantei. – Vou dar uma olhada no quarto dela.

– O quê? – disse Rita. – Dexter, ela não está lá, tenho certeza de que eu teria... Ah, você está querendo dizer que vai procurar alguma coisa...

– Isso – eu disse, passei por ela e fui pelo hall para o quarto que Astor dividia com o irmão. Era um quarto pequeno, pequeno demais para duas crianças de sexos diferentes que estavam crescendo, e essa tinha sido uma das razões principais que nos levaram a comprar a casa nova e mais ampla, onde cada qual teria seu próprio quarto. Um dos lados do quarto era ocupado pelo beliche – Cody na parte de cima – e o outro lado era cuidadosamente dividido entre o espaço Dele e o Dela.

O quarto estava atravancado com todas as tralhas que a gente poderia esperar que crianças normais juntassem – mas havia diferenças, porque estas, afinal, não eram crianças normais. A violência do Papai biológico, e provavelmente o DNA dele, haviam encaminhado os passos delas para o Caminho Sombrio, e elas nunca iriam mesmo andar sob a alegre luz da Normalidade.

E, por isso, alguns toques bizarros saltavam aos olhos de qualquer observador treinado, sobretudo se ele fosse também um Monstro como eu. Por exemplo, Cody tinha uma porção de figuras de ação – ele ficava muito mal-humorado se a gente dissesse que eram bonecos – como qualquer garoto da idade dele. Mas cada um deles havia sido carinhosa e cuidadosamente decapitado. As minúsculas cabeças de plástico estavam dispostas em uma fileira precisa na prateleira de cima de sua estante de brinquedos, alinhadas com precisão, com perfeição, nenhuma delas fora do lugar.

Todo o lado do quartinho que pertencia a Cody era, na verdade, assustadoramente arrumado. Os sapatos dele estavam alinhados, as pontas juntas, os livros guardados com as lombadas alinhadas, e mesmo as roupas sujas cuidadosamente colocadas em uma cesta azul de plástico, dando a impressão de que tinham sido dobradas antes de serem colocadas lá. Meninos na pré-adolescência nunca são tão organizados, mas, como eu mesmo tinha sido assim, não me preocupava. Alguma coisa em um Monstro faz com que ele goste das coisas bem-arrumadas. E já que Cody compartilhava dos meus outros gostos, os Sombrios, eu supunha que a Organização dele fosse somente parte do pacote.

O lado da Astor, pelo contrário, era tão caótico quanto um espaço pequeno possa ser. Ela tinha uma escrivaninha com uma estante, e uma cadeira estava colocada pela metade sob a escrivaninha. Roupas, tanto as limpas quanto as sujas, estavam empilhadas na cadeira e por cima da estante, tudo, desde shorts e calças jeans e vestidos até pés de meias com cores estranhas e calcinhas com estampas coloridas. Era uma bagunça, mais do que o usual, como se ela tivesse tirado cada peça de roupa que possuía e procurado alguma coisa entre elas jogando-as para todos os lados enquanto procurava.

Se ela tinha, de fato, procurado alguma coisa enquanto estava se preparando para partir, as coisas que ela resolvera levar seriam significativas. Eu não era especialista no guarda-roupa de Astor, mas dava para reconhecer algumas das peças mais importantes, já que eu a tinha ouvido soltar gritos agudos por causa delas quando ainda não tinham sido lavadas, ou eram ridículas demais para serem usadas, ou a cor errada para uma sexta-feira. Dei uma olhada no monte de camisetas e de saias e de malhas e de casacos de moletom com capuz sem saber muito bem o que eu estava mesmo esperando encontrar – e encontrando de qualquer maneira.

Umas semanas antes, um tipo de Baile de Outono fora organizado na escola e, para minha surpresa, Astor tinha insistido em ir. E, além disso, ela havia passado uma semana inteira em um nervosismo crescente a respeito de não ter nada para usar, o que me pareceu ainda mais estranho, considerando que no fundo do guarda-roupa dela havia uma pilha de roupas suficiente para abrir uma butique.

Mas Rita havia compartilhado da excitação de Astor, me dizendo apenas que o primeiro baile de uma menina era muito especial, quase como a primeira comunhão, e que é claro que ela precisava de um vestido novo, e é claro que ele tinha de ser Perfeito. E então as duas tinham passado um fim de semana inteiro percorrendo toda a Miami, indo de um shopping para outro, até que acharam o vestido perfeito. Era um vestido justo prateado que brilhava e cintilava e irradiava tons de azul quando se mexia; e Astor tinha ficado mais feliz com aquele vestido do que eu jamais a tinha visto ficar. E ele deve ter cumprido o seu papel, porque ela voltou para casa do baile irradiando um complacente desprezo por meninos.

Mas ele não parecia estar aqui, agora. Revirei a pilha de roupas sem achar uma faísca de tecido prateado. Fui até o guarda-roupa e dei uma olhada dentro dele, mexendo nas coisas até ter certeza de que ele não estava lá também.

Aonde quer que Astor tivesse ido, ela tinha levado seu Vestido Muito Especial.

Voltei para a mesa dela e fiquei pensando nisso. Ela não teria levado aquele vestido se planejasse viajar de carona pela América do Sul, escalar o monte Rainier ou dar um jeito de viajar para a Austrália em um navio cargueiro. Ela não se arriscaria a deixar que ele ficasse sujo. Então, aonde ela tinha ido?

Dei uma olhada ao redor. Do outro lado da pilha de farrapos, havia dúzias de fotos pregadas na parede, misturadas na maior confusão e até mesmo se sobrepondo umas às outras. Eu me aproximei e olhei a camada mais recente, esperando ver alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse indicar para onde ela tinha ido. A maior parte das fotografias colocadas na parede era de Astor, muitas das quais ela própria claramente tinha tirado, segurando a máquina na frente de seu rosto, ou fotografando um espelho. Havia três fotos pregadas sobre todas as outras, no centro da parede. Mas elas não mostravam nada além de Astor fazendo palhaçadas com Robert, obviamente tiradas no dia em que ela e os irmãos tinham me surpreendido na suíte dos Figurinos. Em uma delas, Astor estava com uma maquiagem muito clara cobrindo seu rosto e sangue falso pingando da boca; ela estava atacando Robert enquanto ele se afastava dela com um terror fingido.

A outra mostrava Astor com uma maquiagem excessivamente carregada, fazendo biquinho para sua própria imagem no espelho largo e iluminado de uma sala de um Maquiador Profissional; o Retrato de Uma Artista como uma Jovem Fatal.

Na última fotografia, Astor, ainda usando aquela maquiagem horrível, estava parada na frente de Robert com olhos imensos e uma expressão de desejo dramático tirada diretamente de ... E o vento levou, enquanto Robert olhava para o outro lado com uma expressão de nobre desejo em seu rosto.

Uma quarta fotografia, colocada um pouco mais para o lado, era uma fotografia padrão de Robert, tirada para publicidade. Com caneta preta, alguém, supostamente Robert, tinha escrito: “Para a Bela Astor, com meus mais sinceros votos”, e um floreado ilegível que provavelmente era a assinatura dele.

Não tinha nada mais, só essas fotografias tolas, e nada nelas além da grande paixão pela ideia de ser atriz de uma menininha que teve a chance de fazer isso de verdade com Maquiagem de Verdade e com um Astro de Verdade. Não havia nada naquela parede que eu não tivesse visto antes; nenhum folheto turístico do Rio de Janeiro, nenhum número de voo anotado às pressas, nada. De qualquer modo, eu dei mais uma olhada por mais um minuto, olhando dentro do guarda-roupa, sob a cama e até mesmo debaixo do colchão, mas não achei o menor indício do lugar para onde ela poderia ter ido ou o motivo.

Eu me sentei na ponta do beliche e fiquei pensando. Agora eu tinha certeza de que Astor tinha fugido – ou melhor, tinha simplesmente decidido ir embora – e não sido levada por um cretino babão com problemas mentais. É claro que isso não ia durar muito. Uma menina sozinha nas ruas não fica sozinha por muito tempo: essa é uma simples lei da natureza. Logo teria companhias – elas a encontrariam. Com certeza, não gostaria de seus novos amigos, ou das coisas que eles a obrigariam a fazer, mas não ficaria sozinha. Alguém que estivesse procurando uma menina como ela a encontraria, e a levaria, e então Astor desapareceria para sempre em um mundo de dolorosas surpresas.

Nesse ínterim, porém, havia uma pequena chance de que eu pudesse chegar até ela antes de outra pessoa. E isso deveria ser fácil, porque eu a conhecia muito bem, eu a conhecia de um jeito que nem a mãe dela conhecia, e também porque eu sou muito inteligente mesmo e quase sempre resolvo esses pequenos quebra-cabeças.

Portanto, para onde ela iria? E, algo igualmente importante, por que ela iria agora? Ela tinha resmungado a respeito de odiar a família e de ter vontade de fugir, mas todas as crianças fazem isso, e eu nunca tinha levado Astor a sério. Astor era inteligente demais para se jogar porta afora e dar chances para o azar, ou para pensar que poderia instantaneamente encontrar um lugar onde sua Verdadeira Grandiosidade e Beleza fossem reconhecidas e recompensadas. E ela tinha levado seu Vestido Especial. Então, se ela fora embora, tinha sido para um lugar específico, e para um lugar que ela tinha certeza de que seria melhor.

Mas o que poderia ser melhor do que ter três refeições completas, mais o lanche, e sapatos novos de vez em quando? E tudo isso com uma família que – por algum motivo – realmente gostava dela, pagava todas as suas contas, aguentava seus rompantes desagradáveis e raivosos – e mais, um semipai que sabia e entendia o que ela realmente era no sombrio e danificado interior de seu ser pervertido?

Acima de tudo, estava para se mudar para uma casa nova, com um quarto todo dela e uma piscina. Ela tinha ficado muito excitada por causa da casa nova, pintando com cuidado o seu quarto e planejando onde sua mesa e sua cama ficariam, e o que ela iria vestir em sua primeira festa na piscina – daria para ela encontrar mesmo alguma coisa melhor do que isso para a qual fugir, alguma coisa que estivesse bem ali, agora, imediata e ao seu alcance?

Houve um ruído de ligeiras fungadas vindo da soleira da porta, e a voz lamurienta de Rita chamou: – ... Dexter...? – Eu pisquei até cair em mim. Como acontece às vezes quando estou me concentrando em alguma questão complexa, percebi que ficara olhando fixamente à minha frente, sem chegar a ver alguma coisa. Mas quando a interrupção de Rita me trouxe de volta para a realidade, eu vi que estava olhando diretamente para o mural de fotos da Astor.

– Dexter? – ela choramingou de novo – Você... descobriu alguma coisa?

Eu abri a boca para responder, mas as palavras que saíram dela me surpreenderam; elas não eram de jeito nenhum as palavras que eu achava que iria dizer.

– Sim – eu disse. – Eu sei para onde ela foi. – E, algo ainda mais estranho, eu sabia.

– Oh! – disse Rita. – Oh, graças a Deus!

Eu mal consegui me levantar e ela estava por cima de mim, soluçando e berrando na frente da minha camisa e me deixando coberto de coisas úmidas e desagradáveis. Eu a afastei de meu peito; e ela me olhou com um rosto úmido, avermelhado e inchado.

– Onde ela está? – ela perguntou, tentando, sem sucesso, com uma fungada, tirar um pouco de meleca de seu lábio e colocá-la de volta para o nariz. – Para onde ela foi? Nós temos de... Dexter, pelo amor de Deus, nós temos de imediatamente... Oh, por que você está parado aqui desse jeito... Dexter, vamos!

– Eu vou buscá-la – eu disse. – Quero que você fique aqui.

– Ficar aqui?! Mas isso é... Não, Dexter, eu não vou conseguir... o que é que você está querendo dizer, ficar aqui? Isso é completamente... por que eu deveria ficar aqui?

A verdadeira resposta para esse por quê? era que eu não a queria comigo, não para onde estava indo. Mas, como não havia outro jeito de dizer isso sem dar início a uma guerra nuclear das grandes, eu falei para ela a primeira coisa que passou pela minha cabeça:

– Ela pode voltar para casa. Alguém tem que estar aqui, em todo caso. – Eu coloquei a mão no ombro dela e franzi a testa com toda a seriedade. – E esse alguém tem que ser a mãe dela.

Não sei muito bem por que isso acontece, mas eu já percebi que palavras como tem que e precisa têm um poder mágico especial, alguma coisa que atinge um local brando e babão no coração humano que eu, felizmente, não tenho. Porque dirigir tais palavras para uma pessoa que o tem – alguém como Rita, por exemplo – quase sempre faz com que elas inspirem profundamente, endireitem os ombros e façam coisa que elas com toda a certeza não querem fazer.

Rita não me decepcionou; como se estivesse seguindo uma instrução impressa em um folheto, ela abriu a boca para objetar – e então a fechou, inspirou profundamente e endireitou os ombros.

– Tudo bem – ela disse. – Provavelmente, isso é... quer dizer, é claro que eu quero ir, mas... e se ela voltar? Eu não poderia... Eu vou ficar aqui.

– Muito bom – eu disse e a segurei pelos ombros, como se ela tivesse acabado de concordar em saltar de paraquedas por trás das linhas inimigas e explodir uma ponte. – Eu telefono assim que a encontrar.

– Sim, isso é... E se ela vier aqui, eu... Mas Dexter, onde ela está?

Eu lhe dirigi um sorriso encorajador.

– Em um lugar melhor – eu disse, e antes que Rita, de modo atabalhoado, pudesse fazer muitas outras novas objeções, eu já estava no hall, saindo pela porta da frente e indo embora.

O trânsito tinha ficado um pouco pior nos últimos quarenta minutos, mas a maior parte dele estava no contrafluxo, saindo do trabalho no centro da cidade e se dirigindo para a casa nos bairros, e não houve obstáculos importantes sérios dignos de nota, em toda a Dixie e de volta pela 1-95.

Mostrei minhas credenciais para um policial que tinha cara de estar muito alerta, e ele me indicou o lado mais distante do estacionamento. Parei o carro lá e olhei ao redor enquanto descia. Dava para ver mais policiais, todos com a mesma expressão alerta, andando pelo set, bem como posicionados na barreira. Pareciam estar levando essa história de segurança muito a sério – se era pelo fato de o capitão Matthews ter ordenado isso, ou porque eles gostavam da ideia de manter o povinho afastado das filmagens superlegais, eu não saberia dizer. Mas eu não via como Astor poderia ter se esgueirado para dentro do set sem ser vista, então, voltei para perto do policial que havia controlado minhas credenciais.

– Estou procurando uma menina – eu disse.

– E não estamos todos? – ele me disse, inexpressivo, olhando para a distância.

– Ela tem onze anos de idade – eu disse. – Cabelos loiros, talvez esteja com uma mochila?

O policial me encarou e perguntou:

– Fugiu de casa?

Eu sorri, tranquilizador; não queria uma confusão imensa e oficial a respeito do assunto, ainda não.

– Não ainda – eu disse. – Ela quer ser uma estrela de cinema, então...

Ele assentiu e disse:

– É. Meu filho, dez anos de idade. Ele quer ser um arremessador reserva. Então ele aparece em Fort Myers, em um treinamento de primavera dos Red Sox. – Ele bufou. – A merda dos Red Sox?!

– Poderia ter sido pior – eu disse. – Poderia ter sido o Mets.

– Tem razão – ele disse. – Deixa eu perguntar para o pessoal da barreira.

O policial ficou de costas e se afastou uns passos enquanto falava no rádio, e uns segundos mais tarde ele voltou para mim e fez um gesto positivo.

– Consegui – ele disse. – Umas horas atrás. Alvarez disse que ela veio para cá e pediu para falar com o Robert Chase, o tal do ator, sabe?

Assenti; tinha certeza absoluta de que sabia quem era Robert Chase.

– Então, é claro, Alvarez disse de jeito nenhum, não posso fazer isso, e por que você não está na escola? E ela diz que é sobrinha dele, e que Chase a está esperando. – Ele deu de ombros. – Então, aqui é Miami. Umas merdas ainda mais estranhas acontecem todos os dias, certo? Alvarez dá o recado, e, assim, uns dois segundos depois, aparece o Chase todo apressado. E pega ela pela mão e a leva embora.

Fazia sentido: por mais angelical que pudesse parecer, Astor era uma predadora, à maneira dela. Ela, naturalmente, iria jogar a isca para Robert; ele tinha mostrado que gostava dela, e embora o primeiro impulso dele fosse o de me telefonar, ou para Deborah, Astor não o deixaria fazer isso. Eu quase podia ouvi-la lisonjeando e atormentando e mentindo sem parar – e o coitado do Robert, que achava que gostava de crianças, mas nunca tinha tido de lidar com uma, ainda mais uma como Astor, ficaria completamente sem proteção. Ele iria fazer o que ela quisesse, indefeso, dizendo para si mesmo que iria telefonar logo em seguida, e, de qualquer jeito, ela estava segura aqui no set, que mal fazia?

– Para onde eles foram? – eu perguntei para o policial.

Ele balançou a cabeça indicando a fila de trailers dos atores.

– Lá para o trailer dele – ele disse. Eu agradeci e me dirigi para lá também.

O trailer do Robert estava no lado mais afastado da fila. Ele tinha insistido em ser colocado lá em quase isolamento, provavelmente porque desejava privacidade para poder entrar em seu Transe do Método e se transformar em seu personagem. E já que esse personagem tinha uma quantidade inquietante de hábitos que ele tinha roubado de mim, acho que ele deveria ter sido colocado ainda mais longe, talvez no meio do Parque de Everglades, onde tivesse a chance de ser devorado por um píton birmanês.

Mas o fim da fila era o mais longe que ele tinha conseguido chegar. Eu passei lentamente pelos lustrosos trailers de alumínio; um para Renny, um para as Mulheres, e um para os Homens; um para Victor, o diretor. Um trailer para a maquiagem, e outro para os figurinos. Um profundo zumbido desagradável do ar-condicionado abafava quaisquer sons que pudessem vir de lá de dentro. A porta do trailer das Mulheres se abriu bem quando eu passei por ele, e ouvi risadas se sobressaindo ao som do hip-hop que vinha de dentro. Então a porta se fechou de novo e tudo ficou em silêncio.

Três degraus conduziam à porta do trailer do Robert. Eu os subi e bati à porta. Não houve resposta. Não havia som em nenhum lugar, a não ser o ruído do ar-condicionado, que sobrepunha tudo. Esperei, então bati de novo; de novo, nenhuma resposta.

Mexi na maçaneta da porta e, para minha surpresa, ela virou com facilidade e a porta se abriu. Fiz uma pausa momentânea; uma vida longa e cheia de maldade me ensinou que, com frequência excessiva, uma surpresa desagradável está nos espreitando por trás da porta. É claro, essa surpresa normalmente tinha sido Eu, mas a precaução nunca é demais.

Dei uma olhada no interior do trailer; nada estava à espreita. O trailer estava em penumbra, todas as cortinas puxadas e as luzes desligadas, e nada se movia ou fazia o menor som. Eu entrei e olhei ao redor. O trailer era muito parecido com o de Jackie, a mesma disposição do ambiente com o sofá e a quitinete, e uma porta que dava para o quarto e o banheiro adjacente. Dei uma olhada nos cômodos, olhei em todos os armários e gavetas, e não encontrei o menor sinal de que Astor sequer tivesse estado ali.

E por falar nisso, havia pouquíssimos sinais de que Robert tivesse estado ali também. Umas peças de roupa penduradas no armário, e um par de sapatos na parte de baixo, mas não havia nenhum toque pessoal; nada de Ipod, ou pasta, ou livro, nenhum par de sapatos confortáveis, boné de beisebol ou óculos escuros. Nada de vitaminas, de produtos para clarear os dentes ou desodorante – nenhuma das coisas que um Ator Profissional devesse ter em seu trailer ou locação.

Era uma coisa estranha, mas não o suficiente para a gente queimar a cabeça. A pergunta importante era: se ele tinha ido para algum lugar com a Astor, para onde? Uma escapadinha do set para tomar um sorvete? Ou estariam os dois ainda em algum lugar do set? Ele poderia estar andando com Astor por aí, para ela ver as coisas realmente legais – Dickie e seus petardos, maquiagem, ou talvez outra visita para Sylvia nos figurinos. Tinha um monte de coisas para ver, e se Astor quisesse ver tudo – e ia querer –, ela não daria para o Robert muito espaço para tomar outras decisões.

Então, poderiam estar em qualquer lugar nessa vasta floresta de trailers e de vans e de geradores, e encontrá-los poderia levar mais tempo do que eu realmente gostaria de gastar. Mas também era possível que Robert estivesse filmando uma cena, com Astor olhando embevecida de algum canto. Isso seria rápido e fácil – e ainda mais rápido e fácil para descobrir. Havia uma programação das gravações com quinze páginas de extensão na mesa no trailer de Jackie que iria me dizer quem, quando e onde. Dei uma última olhada ao redor, só para ter certeza, e então saí, fechando a porta atrás de mim.

O trailer de Jackie ficava na outra ponta. Passei rapidamente pela fila e subi os degraus que levavam à porta. Ela não estava fechada; senti uma ligeira e ridícula onda de esperança de que Jackie estivesse lá dentro, e entrei rapidamente pela porta...

... e fiquei imóvel, um pé ainda balançando no ar, enquanto todos os fios de cabelo da minha nuca ficavam arrepiados.

Não havia nada que pudesse ser visto ou ouvido indicando que algo estava errado, mas eu fiquei lá paralisado, em uma prontidão alerta e imóvel. Bem lá no fundo, mas subindo rapidamente os degraus do subterrâneo e chegando às muralhas do Castelo Dexter, Alguma Coisa havia sibilado e se desenrodilhado e começado a sussurrar seus suaves e sibilantes avisos de que nem tudo estava como deveria ser, e então eu não me mexi. Eu ouvi. Eu olhei ao redor e esperei, e não havia nada mesmo a não ser o crescente crepitar daquele sussurro reptiliano.

Dei meio passo para entrar no trailer. Uma rajada de ar gelado vindo lá de dentro soprou em meu rosto, ar frio o suficiente para deixar uma cerveja gelada, e com ele um ligeiro travo de alguma coisa que fez com que meu cérebro voltasse com estrondo ao longo do tempo, para muito longe, de volta para aquele quartinho horrível e frio há tantos e tantos anos, onde o Verdadeiro Dexter tinha nascido em um gelatinoso lago de sangue...

E eu fiquei sentado lá, imóvel, naquela umidade vermelha horrível e pegajosa que ficava cada vez mais grossa, e é só aquele cheiro que existe, o cheiro de cobre se oxidando, e Mamãe não está se mexendo, e eu estou perdido e desamparado e me debatendo em um mundo sombrio de sangue e não há jeito de escapar e não existe ajuda...

E dou uma piscada e estou de volta, aqui, agora, bem aqui no trailer de Jackie, e não naquele inferno horrível e úmido e nojento, de jeito nenhum, eu estou aqui, e isso foi há muito tempo e em um lugar tão distante, e não há razão para relembrar aquele pavoroso parto de três dias, nenhuma razão mesmo...

A não ser pelo fato que o cheiro também está aqui e agora. O gelado e enjoativo cheiro de cobre em oxidação – o cheiro de sangue.

Dou uma sacudida no meu corpo. Digo para mim mesmo que não é nada disso. Não é possível. Não é nada além do cheiro da carne assada do almoço e o vento gelado vindo do ar-condicionado e as memórias ruins surgindo bruscamente, por causa da tensão e da perturbação pessoal, e tudo isso vai passar e tudo vai ficar muito bem se eu somente me lembrar de respirar normalmente e relembrar Dexter que ele já é um cara crescidinho e que nunca mais vai ficar preso naquele horrível quarto gelado com seu chão vermelho e grosso e pegajoso.

Eu disse para mim mesmo que tudo era exatamente como tinha de ser, e que nada poderia dar assim Tão Errado, e dei mais um passo – e o cheiro ainda está lá, ainda mais forte, e as lembranças se lamentam e gemem e se chocam contra as paredes do meu ser que se faz em pedaços, e urram para mim que é para eu fugir, sair correndo daquele quarto por amor à minha vida e à minha sanidade. Mas afasto os espíritos maus e dou mais um passo, e mais um, até ver que não há nada para ver perto do sofá, da geladeira, e dá para eu ver dentro do quarto agora, e...

Ela estava lá, caída aos pés da cama com um braço sobre a cabeça e o outro dobrado de uma forma muito pouco natural sob seu corpo. Seu cabelo dourado estava esparramado ao redor dela como se tivesse sido jogado de uma altura muito grande, e metade daquele cabelo, a metade que estava mais perto de mim, estava empastado no chão por uma poça espessa e vermelho-escura já se coagulando, e apesar da minha necessidade de fugir daquela horrível bagunça vermelha com cheiro de cobre, eu dei mais um passo adiante e olhei para baixo sem ter dentro de mim a menor esperança.

Ela não se moveu. Ela nunca mais se moveria. Seu rosto estava pálido e congelado em uma expressão de terror cheio de exaustão, e ela olhava para mim com olhos enevoados que não piscavam e não viam e nunca mais iriam piscar ou chorar ou ver alguma coisa, nunca mais.

Lindos olhos cor de lavanda.