Dexter: Em Cena
Capítulo 30
FUI COM JACKIE ATÉ O SEU TRAILER. ELA CAMINHAVA A PASSOS RÁPIdos, com a cabeça baixa, claramente preocupada, e não fiz nada que pudesse atrapalhar a concentração dela. Não falou até estarmos confortavelmente instalados no sofá, no frescor e na calma do trailer. Alguém havia, com muita consideração, deixado a comida sobre a mesa, e dei uma olhada.
Pode parecer um paradoxo, mas, embora todo o resto se mova tão lentamente em um set, as fofocas correm mais depressa do que a velocidade da luz. Eu tinha percebido, no segundo dia, que as pessoas que tinham me ignorado antes agora estavam sendo educadas e amáveis. Cada vez que eu pegava uma xícara de café ou mais uma pastelita, alguém elogiava Jackie em algum lugar por perto, onde eu pudesse ouvir. Acrescentando isso aos olhares astutos e às piadinhas que ouvi, ficou claro que todo mundo sabia que Jackie e Dexter eram um Casal. E, então, algo mais do que natural, duas belas caixas com comida haviam sido deixadas no trailer de Jackie, a Dele, assim como a Dela.
Abri uma caixa: um bom e grosso sanduíche de frios, queijo, alface e tomate. Um pacote de batatas fritas, picles, um saco plástico com um grande cookie de chocolate.
Olhei para Jackie. Ela estava sentada no sofá, o roteiro ao seu lado, os braços cruzados, um ar preocupado no rosto.
– Não quer comer nada? – perguntei.
Ela ergueu os olhos, como se estivesse me vendo pela primeira vez.
– O quê? Ah... Claro, por que não? – E então ela franziu as sobrancelhas, tornando a ficar com o olhar perdido no mesmo ponto fixo na parede do trailer, os lábios se movendo ligeiramente.
Peguei uma caixa, sentei-me ao lado de Jackie no sofá e perguntei:
– Quer alguma coisa para beber? Tem refrigerante, chá gelado, Perrier...
– Tanto faz – ela disse, um tanto mal-humorada, pensei.
Peguei uma garrafa de Perrier na pequena geladeira do trailer, tirei a tampa e a dei para Jackie. Ela pareceu não me ver.
– Jackie?
– Pelo amor de Deus, mas que... Ah, obrigada – disse e pegou a garrafa da minha mão, mas não fez nada com ela.
Meu celular tocou. Eu o deixara no pequeno quarto, sobre a cômoda, e fui lá olhar. Com a pressa, tropecei em alguma coisa que eu realmente deveria ter visto – a grande caixa com os pertences de Kathy. Ela fora conosco para o trailer e agora ocupava o espaço estreito entre a cama e a cômoda. Jackie ainda não tinha conseguido dar uma olhada nas coisas, mas mantinha a caixa por perto, caso tivesse alguma infeliz crise de consciência. Eu passei ao lado da caixa e dei uma olhada no meu celular.
O visor do celular estava brilhando com o nome da pessoa que chamava: era Rita. Eu hesitei, tentando decidir se tinha alguma coisa para lhe dizer agora. Tornei a olhar para Jackie, que ainda estava franzindo a testa, olhando fixamente à sua frente e movendo os lábios em um conversa inaudível com um amigo invisível. Olhei de novo para o celular, ainda indeciso, e ele parou de tocar. Uns segundos depois, ele bipou, sinal de que Rita havia deixado uma mensagem.
Peguei o telefone e vi que agora eram doze chamadas não atendidas da Rita, cada uma com sua mensagem de voz.
Eu suponho que deveria ter telefonado para ela, ou, pelo menos, ouvido as mensagens, mas não queria fazer isso; não queria ser sugado de volta para nenhum tipo de rodamoinho que estivesse girando ao redor da minha antiga vida bem quando ela estava indo pelo ralo. Não tinha a menor paciência para uma discussão a respeito de que cor as bordas da piscina na casa nova deveriam ser, ou por que a saia da Astor estava tão curta. Essas coisas não pareciam mais fazer parte de mim ou de quem eu era, e eu não tinha nenhum desejo sutil de voltar para elas, muito menos um sentimento de obrigação. Para ser exato, não tenho um senso de dever, nunca tenho – a não ser para mim mesmo. Antigamente, eu telefonaria para Rita porque tinha aprendido que esse era o tipo de detalhe insignificante que a fazia ficar feliz; e eu precisava dela para manter meu fingimento de ser um cara normal. Ela era uma grande parte da minha camuflagem; as pessoas viam um homem casado com três filhos, e por isso não viam o monstro que eu realmente sou.
Mas agora? Eu não conseguia ter o menor interesse pelas notas de Cody em uma prova de interpretação de texto, ou pela opinião de Rita a respeito das minhas roupas para lavar. Senti uma leve pontada ao pensar em Lily Anne – a única conexão biológica direta que eu tinha com o futuro, meu único lance de DNA rumo à imortalidade. Mas, afinal de contas, qualquer coisa que acontecesse, eu teria a permissão de vê-la de vez em quando; e, nesse meio-tempo, uma menininha precisava mesmo era da mãe, muito mais do que de um pai com uma tendência a fatiar e picar qualquer coisa que caísse sob a sua faca.
Então, deixei o telefone de lado e voltei a olhar para Jackie. Ela ainda estava com aquele olhar fixo, a testa ligeiramente marcada por uma ruga, mas, pelo menos, seus lábios tinham parado de se mexer.
Voltei para o sofá e a olhei. Aparentemente, ela não me percebeu, e não se moveu. Eu me sentei ao lado dela e perguntei:
– Alguma coisa está errada?
Ela me olhou, ainda com a testa franzida.
– O quê? Ah, não, é... Ouça, se eu lhe dissesse que você é um canalha peso-leve, o que você diria?
– Eu não... eu, hum – gaguejei. – Quer dizer, você vai mesmo me dizer isso?
Jackie pareceu ficar surpresa, então deu uma risadinha e disse:
– Não, não é você, é só... é uma fala, é uma coisa que Tonio me diz, na cena seguinte. – Tonio era um dos bandidos em nosso interessante pequeno drama, o cara que Jackie, no papel de Amber Wayne, achava que tinha me baleado.
– Ah – eu disse e admito que estava aliviado. – Então, você não acha que sou um bandido peso-leve? – Eu estava avançando às escuras e sem a menor vergonha, mas por que não?
– Dexter, não seja um retardado – ela disse e me puxou para perto. – Eu acho que você é o cara que está mais longe de ser um bandido.
– Mas mesmo assim ainda um peso-leve? – perguntei. Apesar da longa manhã de trabalho, o cheiro dela era muito bom.
Ela encostou o rosto no meu pescoço.
– Campeão peso-pesado – murmurou. E então ela me deu uma mordidinha.
Eu dei um pulo e disse:
– Ai. – Olhei para ela e, embora ainda estivesse me olhando, e não estivesse mais com a testa franzida, ela estava com um ar sério.
– A questão é – ela disse. – O que vamos fazer a respeito dessa situação?
E lá estava, em alto e bom som.
– Bem – eu disse, ainda procedendo com muita cautela –, o que você gostaria de fazer a respeito?
Alguma coisa passou rapidamente pelo rosto dela. Desânimo? Irritação? Eu não saberia dizer. E então ela deu um ligeiro bufo e balançou a cabeça.
– Uma das coisas de que eu realmente gosto em você é que você não se parece de jeito nenhum com qualquer outro cara que eu já tenha conhecido – ela disse. – Mas tem um lado negativo nisso.
– O que você quer dizer?
– Dexter... essa foi sua deixa. Você deveria dizer que quer fugir comigo, que não pode viver sem mim, que precisa de mim como o ar que respira...
– É tudo isso – eu disse, muito embaraçado. – Mas eu não... quer dizer, eu queria saber. Quer dizer, o que você pensa.
Ela balançou a cabeça de novo.
– Eu sou a menina, você é o menino – ela disse, cutucando-me com o dedo, para que eu entendesse qual dos dois era eu. – Você tinha de me dizer o que eu acho, seu retardado. Convença-me... Você não sabe nada a respeito de mulheres?
– Eu acho que não – eu disse. – Tem algum livro...?
Ela me deu um soco no braço, nem de perto tão forte como os que a Deborah dá. Ou costumava dar, eu acho que deveria dizer. Mesmo assim, eu o esfreguei.
– Idiota – disse Jackie. – E você ainda não falou.
– Bom – disse eu, sentindo-me muito desconfortável. – Eu, hum... eu acho que eu... – Ela estava me observando, atenta, aqueles imensos olhos cor de lavanda fixos em mim sem piscar. – Eu acho que eu, hum... Eu preciso de você como o ar que eu respiro. E, hum, eu quero fugir... com você?
Jackie continuou a me observar durante o que pareceu ser muito tempo. E então ela finalmente sorriu e estendeu as mãos e entrelaçou os dedos na minha nuca.
– Melhor – ela ronronou. – Muito melhor. – E puxou meu rosto para perto do dela.
O sinal para voltarmos ao trabalho soou uns quarenta minutos depois. E acontece que tive de comer meu sanduíche enquanto voltava para o set.
Outras duas horas se passaram antes que eu finalmente ficasse morto o suficiente para deixar Victor satisfeito. Precisamos mover os refletores oito vezes; as câmeras, três vezes, e mudaram uma das falas de Jackie para se adaptar melhor à excelente imitação de Deborah que ela estava fazendo. E na hora em que fui liberado de meu estado cadavérico, minha perna esquerda havia adormecido, eu estava com dor de cabeça, nas costas e no pescoço por ter ficado deitado na calçada em uma posição tão desconfortável por tanto tempo – e deve ser dito que eu também estava absolutamente enojado por ficar lá deitado com uma camisa encharcada de sangue, falso ou não. De modo geral, foi o suficiente para me fazer repensar minha decisão de me tornar um astro da tela ganhador de prêmios. Mesmo assim, toda grande arte tem seu preço, e hoje era o dia de Dexter pegar o cheque de pagamento.
Foi sem a menor relutância que abandonei meu lugar na frente das câmeras. Fiquei parado, me espreguicei e tentei recuperar um pouco da sensação na perna enquanto Jackie confabulava com Victor. Quando consegui andar de novo sem me parecer
com Long John Silver [22], eles já estavam se preparando para uma série de closes de Jackie enquanto ela reagia a coisas que não estavam acontecendo. Por mais fascinante que esse tipo de psicose autoinduzida seja, eu já estava cansado dela depois de cinco minutos, e então dei um afetuoso adeus ao apelo hipnótico das câmeras e me dirigi para o trailer para trocar de roupa e relaxar.
Ouvi meu celular tocando enquanto subia os três degraus que levavam à porta do trailer, e não precisava ser nenhum genial cientista construtor de foguetes para adivinhar que era Rita me chamando de novo. Eu me arrastei pela sala e caminhei até a cômoda, passando cuidadosamente pela caixa com os pertences de Kathy dessa vez, e dei uma olhada rápida para a tela. Sim, claro. Era Rita – e ela já tinha chamado outras sete vezes enquanto eu jazia morto na rua. Fala sério, a mulher estava obcecada por mim, e eu nem era uma estrela ainda.
Coloquei o telefone de lado e saí andando para ir à quitinete e pegar um refrigerante – fiz uma pausa. Dezenove telefonemas pareciam uma coisa excessiva, até mesmo para Rita, a não ser que ela estivesse telefonando por algum motivo muito importante. A única pergunta a ser feita era: importante para quem? A princípio, eu tinha suspeitado que Deborah havia contado tudo para Rita em uma crise de Ódio do Dexter, e Rita estivesse telefonando para guinchar na minha cara clichês a respeito da minha completa devassidão. Essa era uma conversa que ela poderia muito bem ter sem a minha presença; e eu preferiria que fosse assim.
E se Rita ganhasse o prêmio da loteria, maravilha; isso iria suavizar o golpe quando ela começasse sua nova existência sem Dexter.
Mas, por outro lado, se ela estivesse telefonando para informar algum tipo de calamidade...
Não seria uma coisa drástica o suficiente para requerer uma ambulância ou a intervenção da polícia, ou eu teria ouvido algo a respeito de um dos policiais que estavam aqui no set, ou do Vince, ou talvez mesmo da Deborah. E isso deixava...
O quê?
É verdade que eu não sou humano de verdade e não tenho os imprudentes e ilógicos sentimentos característicos dessa raça selvagem e nômade. Mas, infelizmente, compartilho de uma ou duas fraquezas humanas, e uma das mais mortais dela é a curiosidade. Dezenove telefonemas para informar alguma coisa que era extremamente significativa, mas nem boa demais e nem ruim demais; era uma verdadeira charada, e eu não gosto de charadas. Elas são uma afronta à minha autoestima tão duramente conquistada e tão bem cuidada; e quanto mais impossíveis elas parecem ser, mais as detesto – e, mesmo assim, ainda me sinto impelido a descobrir a resposta.
E finalmente, depois de vários minutos de conjecturas infrutíferas, quando eu já havia chegado naquele estado em que começo a ranger os dentes, eu me rendi, peguei o celular e telefonei para Rita.
– Oh, Dexter, graças a Deus – ela disse, em vez do mais tradicional Alô, e a voz dela me informou na hora que eu poderia com toda a segurança abandonar a opção Ganhadora-da-Loteria. – Eu estou telefonando sem parar... Oh, meu Deus, onde você andou? Eu não sei o que fazer, porque... por que você não atendeu?
Na presente situação, eu não respondi porque não conseguia enfiar uma única sílaba nos espaços entre as palavras ditas pela Rita. Mas essa não era mesmo a questão.
– Desculpe – eu falei. – Mas estou trabalhando com o pessoal do seriado esta semana.
– Televisão – ela disse, irritada. – Dexter, não é mais do que um piloto... E você não telefona e você não responde... e eu estou ficando louca!
Parecia que não ia ser nada muito emocionante, mas eu queria saber o que estava errado, então, eu só disse:
– Bem, sinto muito, mas estamos trabalhando o dia todo... e eu tenho um papel com fala agora, Rita. Quer dizer, como ator.
– É, eu sei, Astor disse que você... mas é exatamente isso!
– Isso o quê?
– Astor! – ela gemeu. – Eu não sei onde... ela nem mesmo, oh Deus, eu devia ter dado um celular pra ela.
Eu conhecia os padrões conversacionais da Rita o suficiente para saber que, pelo menos, estávamos nos aproximando da resposta. Nosso problema tinha alguma coisa a ver com Astor – mas seria mesmo a respeito de Astor não ter um celular?
– Rita, fique calma – eu disse. – O que aconteceu com a Astor?
– Ficar calma? Quando já procurei em todos os lugares e telefonei para você umas vinte vezes e... Dexter, eu não tenho a menor ideia de onde ela foi!
– Ela desapareceu? – eu adivinhei. – Astor desapareceu?
– Sim, é claro, é isso que eu... Dexter, o que a gente vai fazer?
– Será que ela não ficou na escola depois da aula? – eu perguntei, esperançoso.
– Ela não foi pra escola! – berrou Rita, como se estivesse cansada de me dizer sempre a mesma coisa. – Ela nem ao menos chegou à escola hoje de manhã! E então alguém da escola telefonou para informar que ela estava ausente e era só aquela mensagem gravada horrorosa e eu não consegui falar com ninguém na diretoria e ela não foi para lugar nenhum onde eu possa encontrá-la porque nenhum dos amigos dela sabe oh Dexter, ela sumiu! – Era uma frase admirável, emitida em alta velocidade e no volume máximo sem uma única pausa para respirar, e fiquei impressionado por alguns instantes antes que o significado das palavras entrasse na minha cabeça.
– Rita, você está dizendo que ela desapareceu desde hoje de manhã?
– E eu flagrei Astor a noite passada... ela saiu escondida de casa! E não voltou pra casa até... Eu ouvi a porta, ou nem teria ficado sabendo... e agora ela sumiu de vez!
– A noite passada? – eu disse, tentando me agarrar a um farrapo de lógica que flutuava por ali. – Ela saiu escondida a noite passada, mas voltou e foi para a escola hoje de manhã?
– Eu a deixei na frente da escola como todos os dias, e o Cody, e então eu levei a Lily Anne para a creche. E quando cheguei ao trabalho, alguém da escola estava telefonando e... Dexter, eu estou enlouquecendo, eu não sei o que fazer! – ela berrou, o que achei que significava “sim”. – Por favor, você tem que... Eu não sei o que fazer!
– Tudo bem – eu disse, e como não havia nada mais que eu pudesse fazer, acrescentei: – Eu estou indo.
– Depressa! – ela disse, e desliguei o celular.
E, tendo dito que estava a caminho, percebi que eu estava, tinha de estar, não poderia fazer nada além disso. Embora tivesse mentalmente me desligado de Rita e da prole dela, e apesar do fato de que nunca me sinto com a obrigação real de realizar nenhuma das dolorosas tarefas ligadas à paternidade humana, eu não via que outra coisa poderia fazer. Eu disse para mim mesmo que só queria garantir que meu rompimento não fosse sobrecarregado pela culpa, pelas acusações, pelas recriminações e por qualquer outra coisa que pudesse atrapalhar uma partida tranquila, e, até certo ponto, isso era verdade. Mas também percebi que fiquei pensando o que Jackie pensaria a meu respeito se eu ignorasse esse tipo de responsabilidade.
E, finalmente, se fosse para ser completamente honesto, e eu poucas vezes sou, tenho de admitir que ainda tenho um certo sentimento de... propriedade em relação a Astor. Se ela havia sumido, as chances de que um predador a tivesse capturado eram grandes, e se isso fosse verdade, ele a tinha tirado de mim; não somente um membro da irmandade dos predadores, e um que estava em um ponto muito mais alto da cadeia alimentar, mas eu. Para alguém invadir a minha área e pegar uma das minhas posses... isso era intolerável, e eu senti que estava ficando cada vez mais frio e com raiva e ansioso para trocar umas palavrinhas com essa criatura nociva. Atacar crianças – minhas crianças – não era apenas algo mais que desprezível, era um insulto pessoal. Tinham tirado alguma coisa minha; eu iria recuperá-la e ajudar essa criatura a ver como as atitudes dela haviam sido erradas.
Então, não fiquei pensando no assunto por muito mais tempo. Coloquei meu celular no bolso e voltei para o lugar onde Jackie estava filmando seus closes.
Felizmente para mim, Jackie havia acabado de filmar quando eu cheguei lá, e ela estava indo de volta para o trailer para descansar um pouco.
– Ei! – ela disse, quando me viu. – Achei que você estaria afundado em uma xícara de café e um pão doce.
– Aconteceu um imprevisto – eu disse. – Astor desapareceu.
– Astor? – ela disse. – Sua filha?
– Filha da Rita – eu disse. Por algum motivo, parecia uma diferença importante. – Eu tenho que encontrá-la.
– Oh, meu Deus, é claro que sim.
– Tenho certeza de que não é nada – eu disse, embora não tivesse certeza nenhuma.
– Vá – ela disse. E então ela franziu a testa e pegou na minha camisa.
– Mas talvez você devesse trocar de roupa antes.
Dei uma olhada e vi que ainda estava usando a ensanguentada camisa de Ben Webster. Certamente, seria melhor não sair andando por aí para tentar fazer um resgate dando a impressão de que eu era a vítima.
– Oh – eu disse. – Acho que você tem razão.
Voltei para o trailer com Jackie e comecei a vestir minhas próprias roupas. Jackie se instalou no sofá e ficou me olhando.
– Você tem outra cena pra filmar? – perguntei.
– Não agora – ela disse. – E então vem a grande cena. O horror final.
– O que você quer dizer com isso? – perguntei, enfiando as calças. – Eu já morri... o que poderia ser pior?
Ela fez uma cara de genuíno horror e chegou mesmo a estremecer.
– Uma cena de amor com o Robert.
– Ah – eu disse, e me sentei ao lado dela para calçar os sapatos. – Você consegue?
– Tem que conseguir – Estremeceu de novo. – Mas ele quer passar a cena comigo, e... seria melhor se eu fosse, é uma cena importante. – Ela suspirou e balançou a cabeça. – Ou eu poderia dar uma olhada nas coisas de Kathy, como prometi para o detetive Anderson. Estou adiando, e adiando, e não quero mesmo pensar que a Kathy está... – Ela desviou o olhar de mim e ficou olhando o quarto, onde a caixa estava amontoada ao lado da cama. – De repente, só de pensar em beijar o Robert faz essa ideia ficar suportável.
– Bom, então – eu disse, me levantando –, é o que você tem que fazer.
– É – disse Jackie, ainda olhando a caixa. E então ela deu uma sacudida no corpo e se levantou. – Olhe só pra mim, tamanha atriz, completamente egocêntrica. Envolveu-me com os braços. – Sua filha desapareceu – ela disse e me abraçou com a cabeça apoiada no meu peito, e então ergueu os olhos para mim, aqueles incríveis olhos cor de lavanda subitamente ficando úmidos. – Vá encontrá-la, Dexter. E vá rápido. E... – Ela me dirigiu um olhar longo e inquisidor, e era claro que havia outra coisa que ela queria dizer, mas depois de um longo instante ela só ocultou o rosto no meu peito. – E depois volte pra mim.
Eu ia dizer que é claro que voltaria, mas então ela ergueu a cabeça e seus lábios cobriram os meus, e não pareceu ter a menor importância dizer alguma coisa. E, rápido demais, Jackie se afastou de mim.
– Vá – ela disse. – Antes que eu arraste você para o quarto. – Ela se inclinou e me deu um beijo rápido no rosto. Então foi para o quarto, tirou o laptop de dentro da grande caixa com as coisas da Kathy e o ligou na tomada ao lado da cama. – Merda – eu a ouvi murmurar. – Eu odeio isso...
Eu também não estava muito feliz com as coisas naquele momento, mas me dirigi para a porta. E quando estava longe, quase a ponto de não escutar mais, eu ouvi a porta do trailer se abrir com força, e a voz de Jackie gritar:
– Robert! – e então em um tom mais baixo: – Filho da puta...
Ela claramente havia decidido que preferia passar a cena com Robert em vez de olhar as coisas da Kathy. Qualquer uma das opções era um programa difícil, mas algumas horas difíceis estavam à minha espera também.
Fui até a barreira policial.
Eu tinha deixado meu carro no estacionamento do serviço, já que estava andando com Jackie no sedã. Mas encontrei um policial que estava indo para lá e consegui uma carona. Ele estava ouvindo uma rádio AM que transmitia um programa de entrevistas conservador. O âncora estava fazendo algumas observações muito interessantes a respeito do presidente. Geralmente não presto muita atenção em política, mas, pelo que o homem dizia, eu tinha de acreditar que, em algum momento do passado recente, as leis relativas a sedições deveriam ter mudado.
O policial que estava dirigindo, entretanto, estava assentindo e murmurando sua aprovação, então só fiquei ali, grato por não ter de conversar, e em meros doze minutos eu estava entrando no meu carro e me dirigia para casa.