Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 13 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 11

 

EU ADORMECI RÁPIDA E COMPLETAMENTE, QUANDO ABRI OS OLHOS parecia que o tempo não havia passado, mas o primeiro clarão alaranjado de luz estava forçando o caminho através da porta da varanda; portanto, ou estava amanhecendo ou um disco-voador estava pousando sobre a chaise longue.

Pisquei e decidi que, com toda a probabilidade, estava amanhecendo. Os discos-voadores não ousariam aterrissar em Miami – alguém iria cortá-los em pedaços e rebocá-los para vender no ferro-velho. Comecei a me espreguiçar e a me sentar, mas fiquei paralisado na metade do movimento ao perceber que havia um estranho som semelhante a um zumbido vindo do quarto de Jackie. Ele não me parecia particularmente sinistro, mas eu não tinha a menor ideia do que poderia ser. Na qualidade de guarda-costas, parecia meu dever investigar, então, eu me levantei silenciosamente, peguei a Glock da mesa de canto ao meu lado e caminhei na ponta dos pés até a porta de Jackie. Girei a maçaneta silenciosamente, abri a porta e dei uma olhada.

Jackie estava sentada em uma bicicleta ergométrica, pedalando vigorosamente, e uma ligeira umidade devida ao suor Já cobria sua face. Quer dizer, em um ser humano qualquer, teria sido suor; nela, era resplandecência. Ela usava um collant muito ajustado ao corpo, que não fazia nada para deixá-la feia, e usava fones de ouvido, e ao me ver, ela tirou um deles.

– Bom dia – ela disse, um pouco alto demais. – Eu só vou demorar uma meia hora. Você quer pedir o café da manhã?

É claro que eu queria; a máquina finamente ajustada que é Dexter requer combustível frequente. Mas dei um jeito de disfarçar minha ansiedade inconveniente e só acenei para ela com um alegre okay.

– Ótimo! – ela respondeu. – Torradas integrais, suco de grapefruit e um pouco de iogurte grego, por favor. – E ela abaixou a cabeça, recolocou o fone de ouvido e começou a pedalar mais rápido.

Eu a deixei em seu passeio de bicicleta para lugar nenhum e fui chamar o serviço de quarto. Tentei com todas as forças admirar Jackie por seu pedido de café da manhã espartano, mas não deu certo. Para mim, todo o objetivo de comer é perdido se você realmente não come alguma coisa; e me parecia que torradas e suco de grapefruit não qualificavam como comida. Isso não era mais do que uma versão sofisticada de pão e água, e não era nem remotamente suficiente para sustentar a vida assim como eu a entendia.

Mas, pelo menos, não me senti impelido a seguir seu exemplo, e não segui. Eu pedi uma omelete de presunto e queijo, torradas de centeio com geleia, suco de laranja e uma bandeja de frutas. E, naturalmente, a maior caneca de café preto de Miami que eles conseguissem arranjar na caríssima cozinha deles.

O café da manhã chegou meros dez minutos mais tarde, e mandei o garçom colocá-lo na varanda. Eu o acompanhei até a porta, recoloquei a corrente na porta e voltei lá para fora. O sol havia aberto agressivamente o seu caminho na linha do horizonte, mas seu calor ainda não era tão brutal quanto seria logo depois, e havia uma brisa ligeira vindo da baía, então, a varanda parecia o ambiente ideal. Fiquei sentado e tomei o café enquanto esperava Jackie, olhando para fora, para a água, e pensando que havia muita coisa a ser dita a favor da minha nova carreira como guarda-costas. É verdade, ela era potencialmente perigosa, e as horas eram bastante longas. Contudo, olhando o lado positivo, eu estava vivendo como milionário sem pagar impostos altos; e tinha a oportunidade de andar com uma Verdadeira Atriz Viva de Hollywood e de comer haute cuisine. É claro, a comida de Rita estava longe de ser uma gororoba, mas, verdade seja dita, ela não era uma chef gourmet de cinco estrelas, nem uma celebridade famosa e bonita, e compará-la a Jackie realmente não era sequer uma competição. Era um pensamento indelicado, mas, já que ninguém mais poderia ouvi-lo, eu não me dei ao trabalho de fingir que não o tinha pensado.

Pelo contrário, eu pensei nisso um pouco mais. De fato, isso não era mais do que um agradável jogo mental, uma fantasia tola e quase humana, mas ajudou a passar o tempo. Tentei imaginar que trocava minha vidinha monótona pela vida de Guarda-Costas de uma Celebridade. Eu Me imaginei como parte de um entourage, a presença com penetrantes olhos de águia ao lado de Jackie, supervigilante nos Tapetes Vermelhos da vida. Dexter, o Escudo Humano, Vivendo Em Grande Estilo em Hollywood, Cannes, e em todas as grandes cidades do mundo. Café da manhã na varanda em Maui e em Singapura e em Bali. Não ia ser difícil me acostumar a viver desse jeito, e se eu tivesse de desistir de me matar de trabalhar pela hipoteca da casa nova, e viver sem todos os gritos e guinchos e batidas de porta que eram parte do pacote da vida em família, o que eu realmente teria perdido além de tímpanos estourados e dores de cabeça frequentes? É claro, tinha Lily Anne, a extensão viva de tudo que sou Eu, meu carregamento de DNA para o futuro. E eu tinha, afinal de contas, prometido conduzir Cody e Astor para um Futuro Sombrio seguro e bem planejado. Meu caminho já estava traçado, e eu estava totalmente satisfeito com ele. De verdade, eu estava. Não precisava abrilhantá-lo com jatos particulares e crème brûlée todas as noites e uma deusa de cabelos dourados me conduzindo ao longo de uma existência de prazer puro e cravejada de diamantes. Não importava quanto eu apreciasse aquilo.

A porta de vidro se abriu, deslizando, interrompendo meu agradável sonho acordado, e Jackie saiu para a luz do sol.

– Bom dia – ela disse e se sentou ao meu lado. O cabelo dela estava molhado, e ela cheirava a xampu e ao mesmo perfume muito sutil que eu havia percebido ontem.

– Bom dia – cumprimentei. – Café?

– Oh, meu Deus, sim – ela aceitou e empurrou uma xícara na minha direção. Eu a enchi até a boca e observei enquanto Jackie colocava adoçante. Ela bebeu o café ruidosamente e disse: aahhh, como qualquer pessoa normal. Depois, colocou a xícara sobre a mesa, me olhando rapidamente e sorrindo.

– Espero que eu não tenha acordado você.

– Oh, bem – eu disse, incerto, já que ela tinha, afinal de contas, mas não parecia muito educado ressaltar. – Quer dizer, eu tenho de acordar...

– Sinto muito – ela disse, pegando a xícara de café e de novo fazendo barulho para beber. – Tenho de malhar todas as manhãs, não importa onde esteja, senão eu fico gorda.

– É difícil de acreditar nisso – falei.

Ela estendeu o braço e deu umas palmadinhas na minha mão.

– Que amor. Mas é verdade. Eu perco uma manhã, e então perder duas parece que não é nada de mais, e então, por que não três, e em um piscar de olhos estou pesando setenta quilos e desempregada. – Deu de ombros. – Faz parte do pacote. Não me importo. – Bebeu outro gole barulhento de café e ergueu uma sobrancelha para mim. – E você?

– Eu? – perguntei, um pouco espantado. – O que você quer dizer com isso?

Jackie fez um gesto com a xícara.

– Está na cara que você malha. Quer dizer – ela disse com um sorriso malicioso –, dá para ver que tem um excelente apetite, mas você parece estar bem em forma. – Ela piscou um olho para mim. – Assim como um guarda-costas de verdade deveria estar.

– Ah, bom – eu disse, um pouco desconfortável. – Eu gosto de correr. E, hum, um pouco de tai-chi...?

Ela fez um gesto, concordando.

– Eu bem que pensei. O jeito como você se moveu, quando fez Kathy fazer xixi no chão. – Sorriu outra vez e terminou seu café. – E isso me fez lembrar – ela continuou, colocando a xícara vazia sobre a mesa e pegando uma torrada. – Kathy vai estar aqui em poucos minutos; então, talvez você queira tirar a corrente da porta e se lembrar de não dar um tiro nela desta vez.

– Vou tentar lembrar – falei.

Eu mal havia acabado minha omelete quando ouvi uma batida à porta.

– Provavelmente é ela – disse Jackie e começou a se levantar.

– Deixe que eu abra – eu disse. Jackie parou o movimento pela metade. Ficou nessa posição desajeitada por um momento, piscando, e então falou:

– Ah, tá bom. – E voltou a se sentar em sua cadeira e se debruçou sobre seu suco de grapefruit.

Abri a porta com a corrente ainda colocada e olhei para fora. Kathy estava parada no hall com uma braçada de papéis, seu smartphone e outra copo de café do Starbucks. Ela me lançou um olhar duro e venenoso.

– Deixe. Eu. Entrar – ela disse, com os dentes cerrados.

Dava para perceber que meu legendário charme ainda não havia se insinuado através do constrangimento do nosso primeiro encontro. Mas isso certamente aconteceria com o passar do tempo. Então, fechei a porta e tirei a corrente, e Kathy passou bufando por mim e entrou no quarto de Jackie antes que eu pudesse encaminhá-la para a varanda. Um instante depois, passou bufando de volta, me lançou um olhar ainda mais venenoso e foi para a varanda.

Quando voltei para lá, onde os restos do meu café da manhã estavam à minha espera, Kathy havia se apossado da minha cadeira, colocado meu prato no chão, esparramado diversos montes de papel sobre a mesa e estava atarefada apontando para os diferentes documentos com uma caneta, balbuciando em um ritmo muito rápido:

– ... a não ser pelos direitos conexos, os quais Myron diz que é o melhor que podemos fazer agora, então, vá em frente e o assine, aqui, aqui e aqui. Oh. E então, o negócio de Marrocos? Que Valerie diz que é, de verdade, uma coisa muito boa, e uma publicidade que não podemos comprar; então aqui estão as informações. E a Magic Magazine quer uma sessão de fotos; eles estão na sua lista de compromissos para esta manhã...

E a coisa prosseguiu desse jeito por muitos minutos, com Kathy espalhando papéis, Jackie ocasionalmente assinando alguma coisa enquanto mastigava torradas, bebia seu suco e tentava dar a impressão de que estava prestando atenção. Uma ou duas vezes ela me olhou e fez uma careta, que Kathy não percebeu. Eu me contentei em ficar à espreita em segundo plano e tentando parecer alerta; por fim, Kathy perdeu o fôlego, recolheu os papéis e saiu bufando, me favorecendo com uma derradeira rosnadinha enquanto passava.

Voltei depois de acompanhá-la para fora e recolocar a corrente na porta para descobrir que Jackie estava bebendo mais uma xícara de café. Ela havia comido uma das metades da torrada, um pedacinho da outra e cerca de dois terços da porção de iogurte. Isso não parecia o suficiente para manter uma vida humana, e certamente nem um pouco suficiente para uma vida não humana como eu, mas ela parecia satisfeita. Eu me sentei em minha cadeira e me servi de mais uma xícara de café.

– Eu acho que ela não gosta de você – disse Jackie com uma voz gutural cheia de café e de humor negro.

– Inconcebível – retruquei.

– Eu não acho que essa palavra signifique o que você acha que ela significa – ela disse.

Bebi meu café.

– Pode levar um tempinho – falei –, mas, um dia, ela vai apreciar minhas inúmeras virtudes.

– Pode levar mais tempo que o habitual – disse Jackie. – Ela não gosta mesmo de você.

Eu tinha certeza de que ela tinha razão, mas isso não parecia terrivelmente importante – sobretudo porque havia três fatias de cantalupo perfeitamente maduro sobrando na minha bandeja de frutas, e uma xícara cheia de café para acompanhá-las, então, dei de ombros e terminei o café da manhã.

O telefone do quarto tocou uns minutos depois para nos informar que um sedã de luxo estava à nossa espera no térreo. Descemos de elevador juntos, e eu saí na frente para dar uma olhada, o que era um procedimento padrão para um guarda-costa. Deixei Jackie no lobby com um porteiro que estava mais do que ansioso para tomar conta dela tanto tempo quanto fosse possível. Saí e fui pelo caminho que conduzia à entrada do hotel, pavimentado com pedras, e olhei dentro do sedã; era o mesmo motorista que nos tinha trazido na noite anterior, e ele acenou para mim. Eu acenei de volta e me voltei para olhar o resto da área ao redor da entrada.

Levou apenas alguns minutos para eu revistar a área ao redor da porta da frente do hotel. Havia algumas pessoas paradas perto da porta, supostamente esperando seus carros. Eu as observei cuidadosamente, mas elas não pareciam ser nada além de meus companheiros hóspedes do hotel: pessoas ricas, bem alimentadas, parecendo muito satisfeitas consigo. Passei por elas e fui para o pátio.

O sol já brilhava intensamente, por isso, tive de piscar por um momento, para depois olhar ao meu redor com os olhos semicerrados. Lá na parte mais afastada da saída do hotel, onde a única rua de verdade da ilha conduzia para a ponte, havia dois carros parados, estacionados de maneira bem informal. Mas eles estavam longe demais para causar algum dano real; eu não estava esperando o ataque de um pistoleiro. Então, dei uma volta rápida ao redor do caminho circular. Havia alguns carros parados de modo ostensivo ao longo da calçada – uma Ferrari, um Bentley e um Corniche. Eu não achava que nosso assassino fosse dirigir algo que custava mais do que uma casa aquática nova, mas, assim mesmo, dei uma olhada dentro deles. Estavam vazios.

O manobrista do estacionamento ficou me olhando com ar cético enquanto eu voltava depois de espiar dentro do Corniche.

– Gosta dele? – ele me perguntou.

– Muito bom – eu disse. – É seu?

Ele bufou e disse:

– Nós só os estacionamos ali. Para causar boa impressão.

Eu fiz um gesto de quem concorda, como se aquilo fizesse sentido.

– Certo – eu disse. – Uma questão de design.

Ele deu de ombros. Eu voltei para dentro.

O porteiro estava todo entusiasmado, contando para Jackie sobre o sobrinho dele, um menino realmente muito bonito, que realmente sabia atuar e cantar como um anjo, não como esses caras do hip-hop de hoje em dia, mas cantar mesmo. Jackie estava sorrindo e acenando com a cabeça e tentando evitar que os olhos dela ficassem estrábicos por causa da tensão de ter de aguentar a tagarelice do porteiro sem dar umas cacetadas nele.

Fiquei com dó dela e interrompi sem esperar pelo fim da história.

– Estamos nos atrasando, srta. Forrest – eu disse, soando tão Oficial quanto podia.

Jackie me deu um sorriso cheio de gratidão e então acenou para o porteiro.

– Diga para ele não desistir – falou para o homem. – Sempre siga o seu sonho.

Ele lhe dirigiu um imenso sorriso, como se ela o tivesse sagrado cavaleiro.

– Sim, senhorita, eu vou dizer para ele, obrigado, srta. Forrest. – Ele pulou à nossa frente e segurou a porta enquanto eu conduzia Jackie até o carro à espera.

Quando saímos para a luz do sol, ouvi um tipo de murmúrio de excitação vindo do punhado de pessoas que estavam esperando lá; me voltei para ver que todas elas estavam me olhando com sorrisos felizes e vazios em seus rostos. Não Me olhando, na verdade, o que ficou claro como cristal quando alguém gritou:

– E aí, Jackie!

Ela sorriu e acenou, e eu a conduzi passando pela minimultidão até o sedã que nos aguardava. Eu sentia os olhos nos seguindo, e fiquei pensando por que aquilo não me deixava nervoso. Chequei o Passageiro das Trevas: longe de estar ansioso, ele, na verdade, parecia estar ronronando. Alguém no grupo de pessoas gritou ohhhhhh!, e senti que estava sorrindo com prazer. Eu sabia que era para Jackie – mas eu estava com ela, era parte de seu entourage, e em um momento de insight realmente bizarro, percebi que gostava daquilo. Eu apreciava ter sorrisos idiotas me seguindo. Era uma coisa totalmente impensável, é claro; Dexter tem de ser discreto, ou deixar de ser Dexter. Mesmo assim, percebi que eu me achava maior, mais charmoso, com a certeza de que coisas muito inteligentes saíam dos meus lábios a cada vez que eu os abria para falar. Isso era revigorante, intoxicante, e eu estava gostando tanto daquilo que não ouvi o crescente crepitar de aviso vindo da torre de vigia do Castelo Dexter até abrir a porta do carro.

Mas então eu o ouvi, alto e insistente, e coloquei dois braços protetores ao redor de Jackie e me voltei para observar a área.

– O que foi? – ela perguntou e se aproximou de meu corpo, subitamente tão nervosa quanto eu.

– Não sei – respondi.

Vistoriei o local; as pessoas na entrada do hotel não faziam nada além de sorrir para nós. Nenhum perigo ali. Mas senti um súbito formigamento de alguma coisa, um tipo de foco intenso sobre Nós, em algum lugar à direita. E me voltei para olhar.

Lá no fim do caminho que conduzia ao hotel, um homem estava parado perto de um dos carros estacionados. Ele ergueu alguma coisa, apontou para nós – e um instante antes de eu conseguir empurrar Jackie para as pedras irregulares e ásperas do caminho, reconheci a coisa: uma câmera, com grandes lentes teleobjetivas.

Click. Click. Click.

– Paparazzi – disse Jackie. – Eles estão em todos os lugares. – Ela me dirigiu um estranho olhar de preocupação intrigada. – Como é que você sabia que ele estava lá?

– Hum, eu não sabia, para falar a verdade – respondi. A ideia de descrever o Sistema de Alarme Distante e Antecipado do meu Passageiro era impensável. – Eu só, hum, eu só o vi se mexendo pelo canto dos olhos.

Ela continuou a olhar e soltou um hm-hum, soando muito pouco convencida.

Mantive a porta do carro aberta para ela e perguntei:

– Podemos ir?

Ela finalmente assentiu, deu meia-volta e entrou no carro, e eu me voltei para olhar nossa plateia pela última vez. O fotógrafo clicou mais algumas fotos e, enquanto eu me voltava, ouvi o som de uma motocicleta dando partida.

Perto da porta da frente do hotel, as pessoas ainda estavam sorrindo. Até mesmo o porteiro ainda estava olhando e acenando enquanto eu acomodava Jackie no banco de trás; mas, para ser justo, todas as outras pessoas na área estavam olhando-a também, olhando com um tipo de adoração cheia de desejo, como se Jackie fosse um cruzamento entre uma pin-up e o papa. Não chegaram a aplaudir enquanto ela deslizava no assento e eu fechava aporta, mas fiquei com a impressão de que fariam isso se aquele não fosse um hotel tão sofisticado.

Entrei pelo outro lado, sentindo outro surto daquela estranha satisfação de ser o centro das atenções. Eu a afastei sem muito entusiasmo, mas ela não queria ir embora, e eu ainda estava me sentindo belo e importante à medida que o carro saía pela entrada do hotel, cruzava a ponte e adentrava na alegre confusão do tráfego matutino de Miami.

Tentei me recostar e apreciar o passeio, mas achei que era uma experiência muito estranha me insinuar por toda aquela bagunça no banco de trás do sedã. Mas era estranho ser um espectador em vez de participante, e embora as buzinas retumbassem e os gestos obscenos fossem feitos como sempre, era quase como se aquilo estivesse acontecendo em outro tempo e espaço enquanto eu observava tudo se passar em um filme.

Jackie olhou pela janela e, ao me sentir olhando para ela, se voltou e sorriu.

– O trânsito está bem ruim hoje – eu disse.

Ela ergueu uma sobrancelha em uma surpresa fingida.

– Isto? – ela disse. – Você chama isto de trânsito? – Balançou a cabeça. – Nunca dirija em Los Angeles. Faz com que isto pareça uma ensolarada manhã no parque.

– É mesmo?

– É mesmo – ela repetiu. E me lançando um sorriso condescendente, comentou: – Você acaba se acostumando.

Eu já havia percebido antes que as pessoas de Nova York e de Los Angeles tendem a ter uma postura relacionada às suas cidades, um tipo de confiança do sobrevivente que diz, eu venho da Vida Real, e se você mora neste lugarejo, nem mesmo está no jogo. E, antes, eu sempre tinha achado isso divertido; os nativos de Miami, afinal de contas, são tão rudes e agressivos quanto os nova-iorquinos, e igualmente encharcados de sol e vazios quanto os angelenos, e a combinação é um desafio único e letal a cada vez que você dirige. Mas alguma coisa no modo como Jackie disse aquilo fez com que me sentisse um pouquinho provinciano, e eu queria dizer alguma coisa para defender a ferocidade do trânsito de Miami.

Felizmente para a reputação da minha cidade, eu não precisei dizer uma única palavra. Quando finalmente entramos na via expressa Dolphin e ficamos parados no rosnado provocado por carros grudados uns nos outros, um Cadillac Escalade grande e brilhante passou como um foguete por nós no acostamento. Ele estava indo, no mínimo, a uns 80 quilômetros por hora, e não havia mais que uns cinco centímetros de espaço entre ele e a fila de carros pelos quais passava com estrépito. Jackie se encolheu e o viu se afastando com a boca ligeiramente aberta de susto. Senti um ligeiro e cálido resplendor de orgulho – esta era minha cidade, este era o meu povo.

– Oh – ela disse. – Esse tipo de coisa acontece sempre?

– Quase constantemente – respondi. E como consigo ser quase tão condescendente quanto qualquer angeleno, acrescentei: – Você acaba se acostumando.

Jackie me encarou, e então sorriu, balançando a cabeça.

– Ponto para o time da casa – ela disse. Mas, antes que eu pudesse fazer dança da vitória, o celular dela começou a soar. – Merda. Minha primeira entrevista; eu não consigo lembrar quem é. – Ela pegou o celular e o jogou para mim. – Por favor? Só para saber quem é, para eu não parecer uma idiota?

Parecia um pedido razoável. Peguei o fone e atendi.

-Alô?

– Oi, aqui é Sarah Tessorro, Reel Magic Magazine, eu poderia falar com Jackie Forrest?

Cobri o celular com uma das mãos.

– Sarah Tessorro, Reel Magic – eu repeti, e Jackie assentiu. Eu lhe entreguei o telefone.

– Sarah! – disse Jackie, entusiasmada. – Tudo bem com você? – E então as duas embarcaram em uma conversa de cinco minutos, durante a qual Jackie falou sobre o novo seriado, sua personagem, e como o roteiro era maravilhoso, e como era bom demais trabalhar com um profissional tão maravilhoso quanto Robert. Eu ouvi essa parte com genuína surpresa, não somente pelo fato de ela ter usado em excesso a palavra “maravilhoso”, o que não era o estilo dela de jeito nenhum. Mas eu já havia observado Jackie com Robert durante uma semana e não precisava ler o roteiro para saber que se odiavam. Entretanto, Jackie disse isso de modo muito convincente, e minha apreciação por seu talento como atriz aumentou vários pontos.

Quando o sedã parou na frente do prédio do quartel-general, ela havia dito isso com igual convicção em outras duas entrevistas. Devia ter sido um trabalho duro, e percebi que ser uma estrela era um pouco mais difícil do que eu imaginava. Ficava claro que não eram só mojitos e pôr do sol; às vezes, você tem de repetir mentiras horrorosas de modo muito convincente. É claro, isso parecia ser uma coisa que eu faria muitíssimo bem – eu tinha tanta prática, afinal de contas – e comecei a pensar de novo se eu era velho demais para mudar de carreira.

Descemos bem na porta da frente; conduzi Jackie para o andar de cima e a entreguei para Deborah, que já estava trabalhando duro em sua mesa. Ela nos deu uma olhada quando entramos com uma expressão que não fui capaz de entender; era parcialmente sua Cara de Tira Padrão, mas com uma das sobrancelhas erguidas em uma descrença cínica.

– E então, como foi? – ela nos perguntou.

– Nenhum problema – respondi.

– A não ser quando ele tentou atirar na minha assistente – contou Jackie, com doçura. Mas, antes mesmo que eu pudesse acrescentar uma sílaba em defesa de minha honra, ela tirou a pilha das cartas psicóticas de fãs de sua bolsa e amontoou-as sobre a mesa de Deborah. – Ela trouxe isto. As cartas.

Deborah as agarrou com ansiedade.

– Ótimo – disse e já começou a lê-las com uma concentração selvagem. Jackie ficou observando-a, depois olhou para mim, e disse:

– Hum.

– Você vai ficar bem com a Debs – eu disse. – Vejo você mais tarde.

– Tudo bem – ela disse, e eu dei meia-volta e me dirigi para a porta.

Eu preferiria ter ficado com Jackie e minha irmã, sobretudo porque eu iria, de outro modo, ficar com Robert. Mas meu dever era claro, então eu as deixei e me afastei com passos lentos pelo hall até meu cubículo.