Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 25 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 23

 

DORIS, MINHA MÃE ADOTIVA, COSTUMAVA DIZER QUE A GENTE APRENDE uma coisa nova a cada dia. Eu sempre tinha encarado isso como uma ameaça sutil, mas, nesse caso, o que aprendi com Jackie foi inofensivo e deliciosamente inútil. Acontece que eu tinha

pensado em “calças três quartos”,[15] e isso não era um smoking, mas um tipo de roupa para jogar golfe usada pelos Três Patetas. Um menos de cinco, por incrível que pareça, era um papel, que tinha esse nome porque o ator em questão – e, nesse caso, ele era bastante questionável – iria dizer menos de cinco linhas de texto. Não consegui entender direito por que esse número era tão importante; algo a ver com os sindicatos, eu acho. Quanto mais aprendia a respeito do show business, mais parecia que tudo nele estava relacionado a um sindicato ou outro.

De qualquer modo, dar uma parte com falas para um perito forense CDF sem experiência em atuação – pelo menos, não na frente das câmeras – não parecia ser grande coisa para o diretor, Victor Torrano. Ele só suspirou e disse:

– Tudo bem, mas que inferno, pare de dar essas piscadinhas para mim.

E fiquei feliz por ver que ele estava falando com Jackie, não comigo.

Victor se voltou para me examinar da cabeça aos pés.

– Hum. Tudo bem, tenho alguns papéis para os quais eu ia usar gente daqui mesmo. Hum, não é machão o suficiente pra ser um tira. E nem tem cara de bandido o suficiente pra ser um traficante de drogas... – Ele olhou meu rosto com os olhos semicerrados. – É, desculpa aí, como é que você se chama?

– Dexter Morgan – respondi. Não esperava que aquilo tudo fosse ser assim tão fácil.

– Dexter, certo. Você sabe alguma coisa de trabalho forense?

Eu não consegui evitar um ligeiro sorriso ao responder:

– Pra falar a verdade...

E voilà: ele disse uma só palavra, e Dexter era um ator.

Jackie me reconduziu para o antro de Sylvia, um bilhete de Victor, firmemente seguro em minha mão, afirmando que eu era agora e doravante para o futuro, ou pelo menos por um episódio, Ben Webster, cena 49, e deveria ser adequadamente paramentado.

– Ben Webster – eu falei para Jackie quando nos afastamos da Presença de Victor. – Ele não era um dramaturgo da era elisabetana?

Jackie deu uma palmadinha na minha mão.

– Acho que não – ela disse. – Você não está nervoso com isso, está?

– Ah, não – eu falei. – De jeito nenhum.

Ela voltou aqueles imensos olhos cor de lavanda para mim e me deu um sorriso malicioso.

– Você vai ficar bem – ela disse. – Não se preocupe.

Para ser sincero, eu não estava preocupado com o fato de representar. Afinal, tenho representado a vida inteira, desempenhado o papel de ser humano e de um cara muito legal, duas coisas que eu com toda certeza não era. E já que eu até então não tinha sido jogado na cadeia nem morto a tiros, devia estar fazendo um serviço muito bom.

Voltamos para a sala dos figurinos a tempo de ver Cody ajudar Sylvia a medir o braço de Renny com a fita métrica. Renny estava lá, sem camisa, e tenho de dizer, não era uma visão que inspirasse muita reverência. Ele não era gordo, mas, com certeza, não estava na mesma forma física que Robert havia exibido. Seus músculos eram todos fracos e sem forma definida, claramente o corpo de um homem mais interessado em comer do que em malhar.

– Miss Forrest? – disse uma voz musical ao meu lado, e um dos assistentes de Sylvia estava lá.

– Sim? – disse Jackie.

O assistente sorriu.

– Oi, eu sou o Freddy? Por falar nisso, eu adoro seu trabalho... e a Sylvia quer que eu arrume você, para os uniformes? Para a cena do funeral?

Jackie assentiu.

– E o que quer que a Sylvia queira...

– ... a Sylvia consegue – finalizou Freddy. – Acredite em mim, eu sei, eu trabalho bastante com ela? Seja como for... – Ele sorriu e fez um gesto na direção do pequeno hall. – Poderia vir comigo?

Jackie se voltou para mim e disse:

– Isso pode demorar um pouco... tem café lá perto do sofá? – E então ela sorriu e foi embora com Freddie.

Eu fui dar uma olhada em Cody. Ele me olhou e assentiu, o que era equivalente a um sorriso de rachar a cara para ele.

– Dexter – disse Renny –, eu sabia que você ia aparecer quando eu tirasse minha camisa. – Ele flexionou o braço, ou tentou; não tinha muita coisa para exibir. – O que você acha?

– Fique quieto – ralhou Sylvia, dando um tapa nos braços, para que eles abandonassem a pose e voltassem a ficar no lugar deles.

– Acho que você deveria vestir a camisa – eu disse.

– Eu sei, a tentação é grande demais, não é? – disse Renny. – Isso acontece comigo o tempo todo.

Eu o deixei achar que sim.

– Como é que o Cody está se saindo? – perguntei para Sylvia. – Ele está deixando você surda de tanto falar?

Ela me deu uma olhada rápida, e então falou bruscamente para Renny:

– Erga o braço. Seu braço esquerdo. – Ela continuou a medir enquanto falava. – Cody é um amor de menino e está me ajudando muito – ela disse e lançou para Cody aquele sorriso horroroso e pouco natural de novo. – Mas ele não falou mais do que três palavras.

– Se ele chegou a dizer três, é um bom sinal – eu disse. – Ele deve gostar de você.

Cody me lançou um olhar inexpressivo.

– Onde está sua irmã? – perguntei.

Com um gesto rápido com a cabeça, indicou a porta principal da suíte.

– Robert – ele disse e colocou diversos parágrafos de desaprovação naquela única palavra.

Sem nenhum motivo lógico, eu olhei na direção da porta. Ela não disse nada, nem mesmo se abriu. Eu tinha ficado com Jackie e Victor por uns dez minutos; não conseguia imaginar como ficar olhando maquiagem pudesse levar aquele tempo todo – mas, é claro, eu não era uma menina de onze anos, nem um ator gay que estava começando a envelhecer. Embora, pensando no assunto, eu tivesse um pedaço de papel na mão afirmando que, na verdade, eu era de fato um ator agora. Fiquei pensando se eu automaticamente passaria a me interessar por maquiagem – ou por Robert. Isso ainda não tinha acontecido.

Em todo caso, se Astor podia passar todo esse tempo examinando blush e sombra para os olhos, ficava claro que ela havia abandonado toda a sensatez com suas fantasias a respeito de ser atriz. Eu não via como aquilo pudesse ser prejudicial; quando a gravação do seriado acabasse, não haveria muitas outras chances para ela dar uma olhadinha na vida glamorosa do show biz – a não ser, é claro, que eu fosse tão devastadoramente emocionante na participação como ponta que isso me encaminhasse para a minha própria carreira como ator. Isso poderia acontecer, mas realmente não parecia ser o desenlace mais provável.

Mesmo assim, por enquanto Astor poderia olhar e sonhar; e eu poderia tirar vantagem de um dos pequenos benefícios da profissão. Então, dirigi-me até o bule, peguei um donut e enchi uma xícara de café para mim.

De algum modo, eu sobrevivi àquela tarde e, finalmente, reunimos Astor e Cody e os mandamos embora com a Tia Deborah. Isso tinha sido uma provação, tornada ainda pior pelo modo como Jackie havia me lançado em excesso aquele sorriso condescendente quando me flagrou no papel de Papai Dexter. Pessoalmente, eu não achei assim tão engraçado e fiquei aliviado e feliz quando Debs finalmente levou as crianças embora; Jackie e eu voltamos para o hotel para um almoço fora de hora e depois nos arrumamos para o show de Renny daquela noite.

Jackie deveria fazer um pouco mais do que se sentar na plateia e rir para as câmeras. A rede de televisão planejou fazer uns minutos de Por Trás dos Bastidores com as Estrelas, e ela era parte do plano. Tinham dito que ela deveria chegar um pouco antes para fazer isso, então, chegamos ao Gusman às 7h05. O Teatro Gusman é, na verdade, o Centro Gusman para as Artes Cênicas; e não querendo ser minucioso demais, o “teatro” que faz parte do nome é, na verdade, o Olympia, uma sala de cinema onde projetavam filmes mudos na década de 1920, e que havia sido restaurada. Na marquise na frente do prédio está escrito “OLYMPIA” e essa noite, sob as grandes e luminosas letras, estampava-se: “Somente Hoje! RENNY BOUDREAUX!”

Uma grande multidão estava amontoada na calçada. Um mar de rostos ansiosos se voltou cheio de expectativa para o sedã quando ele parou na frente do teatro. Eu estendi a mão para abrir a porta, e Jackie segurou meu braço.

– Estou com medo – ela disse. – Saiu nos jornais que eu estaria aqui à noite, e ele poderia... ele pode estar no meio da multidão, me esperando.

– Creio que não – eu disse; e, para ser sincero, tinha uma certeza bem maior do que a que deixava transparecer. – Mas, se ele estiver, não vou deixar que se aproxime de você.

Ela me encarou, seu olhar indo do meu olho esquerdo para o direito, como se achasse que poderia encontrar conforto em um deles, mas não soubesse com certeza em qual. Eu tinha a sensação de angústia de que deveria dizer alguma coisa ainda mais tranquilizante, então, fiz força para me lembrar de uma fala de algum filme antigo, olhei firmemente para ela e disse:

– Ele vai ter de me pegar primeiro.

Jackie ficou me olhando por mais alguns segundos e então, repentinamente, se inclinou para a frente e me beijou na boca.

– Acredito em você – ela disse.

Minha boca estava repleta do sabor do batom dela, e meu cérebro estava repleto de um choque que me deixou tonto. Eu não conseguia nem mesmo pensar durante o que me pareceu ser bastante tempo, e quando finalmente consegui produzir um pensamento coerente, tudo que surgiu foi:

– Eu, hum, eu vou sair. E checar...

E então eu vi quando comecei a me movimentar bruscamente como um desajeitado robô adolescente, tateando para abrir a porta e saindo para a rua.

A multidão estava observando o carro e prendendo a respiração, e houve um profundo suspiro de indiferença quando eu saí. É claro que doeu, mas, afinal, eles ainda não tinham visto a minha participação como ponta. Fiquei pensando se teriam visto Jackie me beijar. Tornei a olhar para o carro; as janelas eram revestidas com uma tonalidade escura demais para que desse para enxergar através delas. Isso explicava tudo; se tivessem visto Jackie me beijar, provavelmente teriam me aplaudido.

Eu repeti toda a encenação cretina de checar a área procurando sinais de Patrick. Não descobri nenhum; nada de algas, caranguejos ou marcas de corrente de uma âncora se arrastando pelo chão, então, voltei e abri a porta.

– Tudo tranquilo – disse, e Jackie me estendeu a mão e deslizou pelo banco do carro.

– Você está com batom na boca – ela disse baixinho e sorriu.

Limpei a boca na manga da camisa e peguei a mão dela, ajudando-a a sair para a calçada. Houve uma pausa de dois segundos, durante a qual conseguimos dar um passo completo na direção da porta da frente, antes que alguém berrasse: “Jackie Forrest!”, e então eu tinha mesmo de proteger Jackie de alguma coisa. A multidão se avolumou na nossa direção, zumbindo como uma colmeia alimentada com esteroides. Dúzias de câmeras jogaram seu flash bem na minha cara, e por uns instantes eu não conseguia ver nada a não ser pontos arroxeados que se agitavam enlouquecidos. Eu pisquei, e minha vista voltou ao normal bem a tempo de me esquivar enquanto uma fuzilaria de mãos se dirigiu até nós, segurando a programação da noite para que fosse autografada, e se agitando como pássaros enraivecidos, e gritos de “Jackie! Jackie!” golpearam nossos ouvidos com todos os sotaques possíveis, do cubano ao haitiano até o caipira.

Jackie realizou o notável feito de dar grandes sorrisos para a multidão e ignorá-la ao mesmo tempo, mantendo a cabeça um pouco abaixada e para a frente, e segurando meu braço como se eu fosse a última porção de margem do rio que desmoronava, e a única coisa que poderia impedi-la de ser arrastada para a morte. Tentei ampará-la o máximo que podia e ao mesmo tempo continuar a andar, mas era impossível proteger todo o corpo dela, e só pude esperar que ela não estivesse recebendo o tipo de tapas casuais e acidentais que eu estava levando dos fãs alucinados por estrelas.

De algum jeito, conseguimos chegar até a porta do teatro através da floresta de braços que se agitavam enlouquecidos, e quando a multidão finalmente ficou menos compacta, e depois ficou para trás, a primeira coisa que eu vi com clareza era que havia três porteiros segurando a porta e sorrindo divertidos para nós.

– Obrigado pela ajuda – eu lhes disse. Eles nem ao menos olharam para mim; toda a sua atenção estava concentrada em garantir que Jackie passasse pela porta sem se ferir de modo fatal em uma dobradiça.

Quando conseguiram nos colocar em segurança lá dentro, os porteiros ficaram parados e sorriram orgulhosos, como se tivessem acabado de salvar Jackie da morte certa. Senti vontade de pegar as cabeças deles e batê-las umas contra as outras; não tinham feito nada além de olhar cheios de complacência enquanto a multidão tentava nos fazer em pedaços, e agora eu tinha um rasgão na minha guayabera novinha. Mas Jackie apenas fez um gesto com a cabeça para eles e disse:

– Obrigada. – E me deu o braço para que eu a conduzisse até o teatro.

Levou um momento para nos recuperarmos do amor selvagem da multidão, e enquanto nós caminhávamos pelo ornamentado lobby e entrávamos no Olympia, eu descobri mais um buraco na minha camisa, três arranhões no braço, e pelo menos dois pontos tão sensíveis nas minhas costelas que com certeza se transformariam em hematomas até a manhã seguinte. E, no entanto, de um modo bastante improvável, aquilo tinha sido excitante. Uma vez mais, percebi que gostava da atenção alucinada de uma multidão de estranhos. Eu sabia que as pessoas mal tinham me visto, que se concentravam somente em Jackie, mas tudo bem. Era ainda mais inebriante saber que o centro de toda aquela adoração estava comigo; ela tinha me beijado de verdade, e a multidão nunca conseguira algo assim de Jackie. Porém, junto com aquele deleite complacente, percebi que eu tinha de afastar uma crescente amargura pelo fato de que tudo aquilo teria de terminar, e logo.

Olhei o perfil de Jackie; de algum modo, mesmo depois dos socos e empurrões da multidão, o cabelo dela ainda estava perfeitamente penteado, e ela era exatamente a Deusa que a multidão precisava que fosse – uma Deusa que tinha me beijado, e eu ainda não sabia o motivo.

Ela virou a cabeça para o meu lado e fixou os olhos cor de lavanda em mim.

– O que foi? – perguntou.

– Oh – eu disse, subitamente embaraçado, e nem sabia por quê –, nada. Você sabe.

Jackie sorriu.

– Eu não sei – ela disse. – Você vai me contar?

– Sério, não é nada – eu falei. – É só... a multidão. E você... – Eu queria dizer Você me beijou, mas, sei lá como, o que saiu da minha boca foi: – Você parece tão... perfeita.

– Já era mais do que tempo de você perceber – murmurou, e então nós estávamos dentro do teatro e ela olhou ao redor. – Oh! Olha só isso! É lindo! – Ela parou de andar e olhou fixamente para cima, mas os meus olhos foram atraídos para a curva do pescoço dela, e eu a olhei por um longo momento antes de também olhar para o teto.

Suponho que o teto do Olympia seja mesmo bonito. Mas eu já o tinha visto antes e já tinha lido nos jornais tantas vezes que ele é deslumbrante, uma maravilha, um tesouro de glória restaurada, e daí por diante. Só que ele não é exatamente o tipo de coisa que me deixa emocionado de verdade. Mas Jackie precisou de alguns instantes para absorver as volutas douradas e o céu noturno artificial, e eu fiquei parado, educadamente, enquanto ela arregalava os olhos.

– Nossa! – ela acabou dizendo. – Ganha de longe do Chinese Theater, lá em Los Angeles.

Na frente do teatro, na terceira fila, Deborah se voltou para trás, nos viu, e se levantou. Mas, antes que ela nos alcançasse, um moço bem vestido veio do lobby e se apressou em nossa direção. Eu o observei cuidadosamente, para ver se detectava algum indício de que ele pudesse ser um pistoleiro, ou um zumbi, mas ele apenas sorriu e chamou:

– Srta. Forrest?

Jackie afastou os olhos do teto espalhafatoso, e o moço lhe dirigiu um sorriso imenso.

– Oi, eu sou Radym Reitman – ele disse. – O sr. Eissen quer que a senhorita vá até o camarim do Renny... eles estão filmando o material do pré-show?

– Sim, claro – ela disse, e então Deborah se juntou a nós.

– Mas que diabos aconteceu com você? – ela perguntou, olhando o rasgão na frente da minha camisa.

– O público apaixonado – eu disse. – Acho que alguém me reconheceu.

Deborah bufou e voltou sua atenção para Jackie.

– Nem um arranhão em você – ela comentou.

– Muita prática – disse Jackie.

– Tenho de encontrar Rita no lobby – eu falei para Deborah. – Você pode ficar com Jackie?

– Claro – disse Debs, e Reitman pigarreou. Deborah o olhou com um belo de um Olhar de Policial, e ele ficou quieto e se remexeu todo.

– Ah – disse Jackie. – Eu só preciso ir até os bastidores um instantinho... tudo bem?

– Claro – disse Deborah. – Mas eu tenho umas cervejas para nós. – Ela acenou na direção da poltrona em que estava sentada quando nós entramos. – Deixe eu pegar primeiro.

– Oh, que bom, obrigada – disse Jackie, e com um último sorriso para mim e uma palmadinha no meu ombro, seguiu Debs e Reitman na direção da frente do teatro.

Eu observei enquanto elas pegavam as cervejas e depois seguiram Reitman por uma porta lateral. Quando saíram, olhei para o palco. Não tinha nada de mais nele, a não ser, como pano de fundo, a vista de uma cidade à noite. Pendurado no topo havia um cartaz iluminado e cintilante de uns 2,5 m de altura que dizia “RENNY”. Na frente, perto da ponta do palco, havia um banquinho com uma garrafa d'água sobre ele, e um microfone sem fio em um suporte. Nada de brilhos, nada de artifícios; estava tudo nas mãos de Renny.

Olhei meu relógio; milagrosamente, ele não havia sido arrancado do meu braço nem destroçado pela multidão, e até funcionava. Eram 7h28, e eu deveria encontrar Rita no lobby às 7h30, então, fui calmamente pelo corredor e passei para o lobby.

Baseado em desempenhos anteriores de Rita, eu tinha certeza absoluta de que teria de esperar uns quinze ou vinte minutos; ela vivia de acordo com o Horário Cubano, embora fosse uma loura anglo-saxã. Nunca tinha chegado menos de vinte minutos atrasada para qualquer coisa em todo o tempo que eu a conhecia.

Mas eu havia pensado sem levar em conta sua obsessão infantil com todas as coisas ligadas a Hollywood. Quando entrei tranquilo no lobby, fiquei paralisado, atordoado com a visão que me aguardava. Era Rita, já andando pra cá e pra lá nervosa, enquanto esperava por mim. Ela chegou à ponta mais distante do lobby, e o vestido transparente com cara de negligée que ela estava usando rodopiou em volta de seu corpo. Mesmo com a distância, dava para eu ver as linhas de preocupação no rosto dela, e ela estava esfregando as costas da mão esquerda com a mão direita num gesto nervoso. Então, ela me viu; seu rosto se iluminou e praticamente saiu correndo pelo lobby.

– Dexter, meu Deus – ela disse. – Eu acho que acabei de ver o Andy Garcia? E eles disseram que o prefeito... esta é a sua camisa? – Ela colocou a palma da mão na minha guayabera e a acariciou, como se pudesse transformá-la em algo mais apresentável. – Oh, Dexter, tem um buraco nela, bem na frente... é isso mesmo que você está usando? – Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes e ficou com ar preocupado.

Sufoquei o impulso de dizer-lhe que não, não era minha camisa, era do Andy Garcia, e que eu ia agora mesmo trocar de roupa com ele, bem ali no lobby.

– Está tudo muito bem – eu disse. – Não é um baile formal; é um show de um comediante.

– Sim, eu sei, mas é sério, é um buraco – ela disse. – E tem outro nas costas... e o que é isso na sua manga? – Com um franzir de sobrancelhas, ela esfregou alguma coisa, e percebi que era o batom do beijo de Jackie que eu havia limpado na manga.

– Ah, foi só, você sabe – eu disse, com tanto desinteresse quanto pude conseguir. – Alguém na multidão, ou qualquer coisa assim.

Rita balançou a cabeça e, felizmente para mim, não pareceu perceber a mediocridade da minha resposta.

– A camisa toda está... Você está um horror, Dexter... E isso não combina de jeito nenhum com o que eu... Quer dizer, agora eu estou com cara de algum tipo de... Quanto tempo tem até que... Se eu realmente, eu poderia trocar por...

– Você está muito bem – eu disse, embora, para ser franco, quando comparei o ensemble dela com o que Jackie estava usando, ela estivesse usando uma roupa exagerada.

Rita passou as duas mãos na frente do vestido, alisando as rugas que não estavam lá.

– Sim, bem, tudo bem – ela disse e balançou a cabeça com ar de dúvida. – Quer dizer, isso... você deveria ter me dito que isso era... O que as outras pessoas estão usando?

Tenho um bom conhecimento a respeito de muitas coisas, mas

devo admitir com alegria que [16] coutière não é uma delas, e não achava que o lobby do Gusman fosse o local para aprender. Então, assumi minha atitude mais autoritária e coloquei uma das mãos no braço dela e a puxei com gentileza.

– Vamos entrar – eu falei. – Você pode ver por si mesma.

Rita fincou os dois pés no carpete e não se moveu, e um olhar alarmado passou por seu rosto.

– Todo mundo? Meu Deus, eu não sei se consigo...

Eu a puxei com um pouquinho mais de força.

– Vamos – eu falei. – Vou apresentar você para o Robert Chase.

Se eu tinha achado que a reação de Astor em relação a Robert tinha sido exagerada, era só por ainda não ter visto a reação da mãe dela. Rita enrubesceu profundamente e começou a tremer e, pela primeira vez, teve dificuldade para emitir uma única palavra.

– Ro, Ro, eu re... – ela gaguejou. – É... você... Rob... Robert está aqui? E você...?

Eu observei o desempenho dela com irritação. Em todo o tempo que eu tinha conhecido Robert, ele não revelara nada que indicasse que merecia receber nem mesmo a mais leve forma de respeito – e cá estava Rita entrando em um transe daqueles de ficar com os joelhos bambos só de pensar em ficar perto do homem. E eu tinha certeza de que lhe dissera que Robert estaria aqui, então, não havia mesmo a menor desculpa para o fato de ela despencar em um estado de coma babão que ameaçava arruinar o carpete do Gusman. Será que ela ficaria menos nervosa se eu lhe dissesse que Robert era gay?

Contudo, olhando pelo lado positivo, em seu estado de fraqueza ela não estava em condições de resistir; eu segurei com firmeza o braço dela outra vez, e ela saiu tropeçando.

– Vamos – eu disse. – Milagres nos aguardam lá dentro. – E eu a conduzi pelo lobby até o interior do teatro.

Tinham me dado dois lugares a apenas duas fileiras do palco, na parte central e no corredor. Quer isso tenha sido ideia da Network, ou do capitão Matthews, eu deveria me sentar bem ao lado de Robert. Suponho que tudo tenha sido organizado de modo que as câmeras focalizassem os astros sentados muito felizes ao lado de Pessoas Que Realmente Eram Da Polícia. Fosse qual fosse a razão, isso fez com que apresentar Rita a Robert fosse praticamente inevitável, mas, quando caminhamos pelo corredor na direção do palco, não dava para ver Robert em lugar nenhum. Porém, quando nos aproximamos da nossa fila, ele saiu da porta por onde Jackie e Debs tinham desaparecido, e se encaminhou na nossa direção, sorrindo e acenando para a multidão.

Eu tinha tido a inocente ideia de fazer uma simples apresentação enquanto estivéssemos nos sentando, e então a vida ia continuar. Contudo, uma vez mais, eu fizera meus cálculos sem contar a adoração abjeta que Rita sentia por Robert. No instante em que ela o viu, ficou imóvel, empalideceu e começou a tremer de novo.

– Oh, não. – O que parecia uma coisa muito estranha para dizer se ela realmente gostaria de conhecê-lo. – Oh, meu Deus, é ele, é ele... – Ela começou a saltitar se apoiando nas pontas dos pés e nos calcanhares enquanto dizia: “oh, meu Deus, oh, Deus, oh, Deus...!” e outras evocações de

uma divindade que, tanto quanto eu pudesse dizer baseado em um conhecimento rápido, não tinha nada a ver com Robert.

Ao redor de mim, no teatro, dava para eu ver as cabeças se voltando em nossa direção, algumas divertidas e outras curiosas. É verdade que eu tinha gostado da atenção emanada da multidão enquanto eles adoravam Jackie; porém, isso era muito diferente, dava para eu sentir gracejo, condescendência, até desdém nos muitos olhares que vinham até nós, e disso eu não gostei. Empurrei Rita para a frente mais uma vez, e ela prosseguiu, com passos curtos e bruscos. Finalmente a levei até os nossos lugares, embora ela se recusasse a sentar-se. Pelo contrário, ficou lá em pé saltitando e olhando fixamente para Robert, até eu perceber que, se eu não fizesse alguma coisa, nós ficaríamos parados no corredor a noite inteira.

Então, voltei para o corredor e acenei para Robert, e ele se aproximou de nós, sorrindo.

– Robert – eu disse. – Esta é minha esposa, Rita.

Robert estendeu a mão.

– Ei, demais! – ele disse. – É muito bom mesmo conhecer você!

Rita só ficou lá parada, o rosto congelado em uma máscara paralisada, com os olhos fixos. Eu torcia para ela não babar de verdade.

Depois de uma pausa embaraçosa, Robert estendeu o braço e segurou a mão dela.

– Nossa, dá pra ver a quem Astor puxou – ele disse, balançando a mão inerte de Rita. – Você tem filhos incríveis, Rita.

Rita finalmente falou:

– Oh, eu ahaha... Ah, meu Deus, eu não consigo acreditar... Eu sou fã de verdade de... Oh, Deus, é você mesmo...!

– Bom, eu acho que sim – disse Robert com um sorrisinho tranquilo. Ele tentou soltar a mão dela, mas agora, embora ela não tivesse sido capaz de estender a mão para cumprimentá-lo, Rita se aferrou à mão de Robert em um aperto úmido, mortal e desesperado.

– Hum – ele disse e olhou para mim.

– Rita – eu disse –, acho que Robert gostaria de ter a mão dele de volta.

– Oh, meu Deus – ela disse soltou a mão dele e pulou para trás, aterrissando com firmeza nos dedos dos meus pés. – Eu sinto muito, sinto muito, eu só...

– Ei, não se preocupe com isso – disse Robert. – Foi um prazer conhecer você, Rita. – E ele sorriu para ela e então passou por nós e afundou cheio de gratidão em seu assento.

Rita ficou encarando-o mais um pouco, apesar de eu lhe dar uns cutucões nas costas, até eu finalmente dizer:

– Podemos nos sentar agora?

– Oh! – Ela deu um pulo como se tivesse levado um choque. – Mas eu não posso de jeito nenhum... você se senta do lado dele é só... Meu Deus, eu não conseguiria!

– Tudo bem – eu disse e deslizei para o assento ao lado de Robert. Um instante depois, Rita lembrou como tinha de fazer para se sentar e afundou no assento ao meu lado como se não tivesse ossos no corpo.

Fiquei sentado ali e observei Rita se sacudindo por vários minutos; ela começava a se acalmar e então dava uma olhada rápida para Robert e começava a enrubescer e a se contorcer de novo. Tentei ignorar isso, mas os espasmos de adoração dela chacoalhavam meu assento. Olhei à minha esquerda, onde Jackie e Deborah deveriam se sentar. Elas ainda não tinham voltado; provavelmente estavam bebendo cerveja e se misturando com outras celebridades no camarim de Renny. Eu esperava que ele ficasse de camisa.

Meu assento estremeceu, e voltei a olhar para Rita. A perna esquerda dela estava balançando para baixo e para cima em um espasmo nervoso e provavelmente inconsciente. Fiquei pensando se ela voltaria ao normal de novo quando o show começasse. Renny provavelmente teria de ser muito engraçado para afastar a cabeça dela do fato de estar sentada perto de Robert, o Deus. Esperava que Renny fosse hilariante. Mas o que ele tinha dito para Robert – que ele não fazia comédia, que fazia comentário social? Será que isso seria engraçado o suficiente para parar as convulsões de Rita? Será que alguém que tinha um Passageiro poderia chegar a ser engraçado? Quer dizer, eu sou muito conhecido por ter um humor seco, mas não conseguiria manter um teatro lotado às gargalhadas.

Mesmo assim, uma rede de televisão de verdade acreditava em Renny, o suficiente para lhe dar esse especial. É claro, essa mesma rede havia escalado Robert em um papel principal – mas eles também tinham escalado Jackie, então acho que isso se transformava em uma chance de 50%. E quem sabe? Tudo pode acontecer. Talvez ele até me fizesse rir. Eu acho que não, mas coisas mais estranhas já aconteceram – muitas delas comigo. Afinal, eu era casado, tinha filhos, e todo mundo achava que eu era uma maravilha.

Houve uma explosão de música espalhafatosa vindo do sistema de som; um moço com aparência alegre entrou no palco e pegou o microfone do suporte.

– Eeeeeeeeiiiiiiiiii – MIAMI! – ele exclamou em uma voz feliz e muito alta e, por alguma razão, a audiência aplaudiu cheia de entusiasmo.

Ele começou a nos dizer que estávamos filmando aquela noite, o que eu já sabia, e nos pediu que desligássemos nossos celulares, não tirássemos fotos com flashes e nos lembrássemos de rir muito. Disse uma ou duas coisas que acho que deveriam ser engraçadas, e então exclamou:

– É iiiiisso AÍ! Divirtam-se com o show!! – E enfiou o microfone de volta no suporte e saiu a passos largos do palco, sob um aplauso enlouquecido.

Um instante depois, as luzes se apagaram, o barulho da multidão baixou para um sussurro, e o locutor anunciou:

– Senhoras e senhores... o sr. Renny... Boudreaux!