Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 18 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 16

 

EU FIQUEI POR UNS MOMENTOS PARADO EM MEU SUBITAMENTE DES povoado local de trabalho e dei uma olhada carinhosa ao redor. Parecia que fazia tanto tempo que eu tinha estado aqui sem Robert se inclinando por cima do meu ombro e imitando solenemente todos os meus gestos inconscientes, que ver aquele local sem ele e Renny lá dentro era quase como voltar para casa depois de uma longa e exaustiva viagem. Passei alguns minutos limpando tudo, colocando as coisas em seus devidos lugares, em vez do lugar onde Robert as tinha colocado porque parecia que elas ficavam melhores lá. E então fiquei parado por uns instantes, olhando ao redor com satisfação silenciosa, e pensando no que fazer com o resto da minha manhã. Duas tarefas importantes me haviam sido designadas: instruir Robert e tomar conta de Jackie. Mas, naquela ocasião, eu não podia fazer nenhuma das duas; Robert e Renny tinham ido embora, e Jackie estava em algum lugar com Deborah.

Por uns instantes, eu me senti perdido; o que deveria fazer quando não tinha nada para fazer? Revirei meu cérebro de todos os jeitos e nenhuma ideia surgiu além de um lembrete de que eu deveria ir a uma reunião com a professora de Cody às três da tarde. Agora eram 10h22, o que deixava um espaço bem grande nas atividades diárias; nesse meio-tempo, eu senti que deveria fazer alguma coisa positiva, poderosa, dinâmica e inteligente, e não havia nada desse tipo que fosse imediatamente óbvio. Mas Dexter é celebrado por sua engenhosidade, e não levou mais que uns momentos de pensamentos profundos para me indicar a melhor atitude a tomar. Caminhei com passos másculos até meu pequeno local de trabalho e, com uma vitalidade vibrante e masculina, eu me sentei na minha cadeira, recostei-me e respirei profundamente: inspirar pelo nariz...

E rapidamente soltar o ar pela boca, com um pouco de irritação. Porque, à minha frente, na mesa, onde não deveria haver nada além de um mata-borrão limpo, Robert havia deixado seu jornal. Não gosto de coisas amontoadas, especialmente as de outras pessoas, largadas em meu espaço pessoal. Eu me inclinei para a frente para pegar o jornal – e vi que, por baixo dele, caída sobre o mata-borrão quando deveria estar cuidadosamente em pé na parte posterior da minha mesa, estava uma foto de Dexter e Família.

No Natal anterior, Rita havia insistido que nós todos deveríamos ir a um fotógrafo de verdade e posar para uma Foto de Família de verdade. A coisa toda tinha sido um belo de um calvário, fazer com que todo mundo se arrumasse, penteasse o cabelo, lavasse o rosto e – o mais difícil de tudo – fizesse uma cara convincentemente agradável para a câmera. Mas tínhamos feito isso, e aqui estava o resultado: Rita e Astor à esquerda, com Cody sentado na frente delas, Dexter carregando Lily Anne – e, se Cody não estava sorrindo de verdade, pelo menos não dava para ninguém dizer que ele estava pensando em enfiar uma faca no fotógrafo.

Eu havia mandado emoldurar a foto e a colocado sobre minha mesa, porque é isso que os Seres Humanos fazem. E Robert tinha estado encarando-a furtivamente – e se sentindo culpado o suficiente para ter de escondê-la sob o jornal. De todas as coisas verdadeiramente irritantes que ele havia feito, essa era a que me deixava mais irritado, e eu não conseguia entender a razão. Mas me recusei a permitir que isso arruinasse minha oportunidade para uma reflexão não especificada; dei uma limpada na moldura de prata da fotografia, tirei impressões digitais imaginárias do vidro e a coloquei de volta no lugar dela, na parte posterior da minha mesa. E então eu me recostei, inspirei profundamente, expulsei Robert da minha cabeça e fiquei refletindo.

Nada mais natural, meu primeiro pensamento se voltou para Robert, e foi um pensamento um tanto irritado. Eu sempre tinha pensado que atores, escritores, artistas e outros psicóticos fronteiriços fossem um povo estranho, mas Robert estava em uma categoria toda sua, e ele me aborrecia muito mais do que deveria. Em geral, as pessoas não me aborrecem tanto assim, já que elas são, afinal de contas, somente carne e sangue, e eu sei muito bem quão frágil e transitório isso é. Mas tinha alguma coisa a respeito de Robert que ultrapassava minha habitual indiferença em relação à espécie humana, e ela ia muito além da macaqueação de meu comportamento inconsciente. Será que eu realmente apertava meu nariz daquele jeito quando estava lendo memorandos departamentais?

De qualquer modo, por que deveria me incomodar se eu fazia isso, e Robert me imitava? Se todos os meus tiques e trejeitos chegassem à telinha prateada, não seria essa uma forma de imortalidade – até melhor para mim, uma imortalidade anônima? Mas até mesmo esse pensamento não me fez ter mais simpatia por Robert, e fiquei pensando se minha aversão pelo cara estava baseada na estética. Eu tinha sido ensinado a valorizar a originalidade na arte; e quando a gente ia direto ao ponto, Robert estava tentando fazer arte baseado na mera imitação. História da Arte 102, Segundo Semestre na Universidade de Miami, havia me ensinado que isso não podia ser feito. Arte significava criar alguma coisa nova, não imitar alguma coisa que já existia. O que Robert estava tentando fazer com todas as forças era, na verdade, nada mais que usar sua habilidade. Ele não fazia nada além de copiar meus tiques e trejeitos – até mesmo a ponto de ficar olhando fixamente o retrato da minha família, uma parte muito pessoal do meu disfarce, para a sua pesquisa para compor a personagem...

... o que, para ser exato, não fazia muito sentido, porque a personagem dele era solteira. Então, isso teria sido pura bisbilhotice? Mas, então, por que a intensidade? Não – tinha de ser alguma coisa além.

Será que ele realmente sentia um desejo triste e absurdo por uma família dele? É claro que isso era o que ele tinha dito, mas não tinha sido impressionantemente convincente. E, no entanto, não havia outra explicação, a não ser que eu estivesse inclinado a acreditar que, com suas oportunidades escolher todas as beldades glamorosas no mundo, ele estivesse olhando cheio de desejo para Rita. Com todo o respeito em relação a Rita, eu achei isso ainda mais difícil de engolir.

Não era a personagem dele, nem Rita, nem as crianças; então, não havia uma razão possível para o fascínio dele pela fotografia. Não havia nada mais nela para ser visto, a não ser...

Em algum lugar, nas profundezas da Divisão de Análise de Informações do Departamento de Estudos Humanos, Universidade de Dexter, um sininho soou suavemente, anunciando que um novo relatório havia acabado de chegar à Caixa de Entrada, e fiz uma pausa no meio de uma reflexão para examiná-lo. Na verdade, o relatório afirmava, havia mais uma coisa no retrato de família: eu. Dexter, em pessoa.

Mas, é claro, não havia uma razão concebível para que Robert ficasse encarando uma fotografia minha. Com toda a certeza, não; ele era um ator principal ultramasculino – a não ser pelo fato de que nunca havia se casado, parecia evitar mulheres bonitas, tinha um corte de cabelo perfeito, usava sapatos maravilhosos, insistia naquela coisa do “Robert, e não Bob” e sempre se arrumava muito bem... com Produtos de Beleza! Mais de uma vez, ele foi flagrado encarando Dexter com uma expressão de desejo abstrato, o que fez com que o Passageiro emitisse um hesitante, incerto e não especificado murmúrio de inquietação. O único homem que eu conhecia e que se vestia rotineiramente como Carmen Miranda o adorava. E, acima de qualquer outra coisa, Robert era, pelo amor de Deus, um ator.

Dexter se orgulha muito de ter um cérebro que normalmente funciona muito bem, mais ou menos. E então, nessas raras ocasiões em que ele funciona de modo um pouco mais lento do que eu gostaria que funcionasse, tenho de fazer uma pausa e ficar pensando se deveria comer mais peixe. Porque era claro que eu tinha estado encarando uma longa lista de indícios muito óbvios e falhado em chegar à conclusão óbvia.

Robert era gay.

E, de algum modo, talvez por causa de seu intenso estudo de Dexter em todo seu charme e glória, Robert havia desenvolvido uma paixão por seu objeto de estudo – moi.

É claro que isso fazia todo o sentido. Me conhecer é me amar, e eu também sentia muito apreço por mim. Uma lista das minhas melhores qualidades facilmente ocuparia a parte da frente de um cartão de 7,5 cm x 12,5 cm. Embora a lista diminua de modo bastante dramático depois de “bom ao usar facas”. Porém, tais traços de altíssima qualidade não teriam o menor significado para um paspalhão fútil como Robert; tudo para ele se limitava à aparência superficial. É claro que já tinham me dito em mais de uma ocasião que não sou assim completamente horrível para se olhar, para as pessoas que gostam desse tipo de coisa. Isso não tinha o menor significado para mim, já que o único propósito da boa aparência é conseguir sexo, e eu sou bastante desinteressado nisso. Mas, claramente, significava alguma coisa para Robert. E mesmo com metade de Hollywood à disposição para ele fazer sua escolha, ele havia se decidido por Dexter.

Ele gostava de mim. Gostava mesmo de mim.

Sério, isso já era demais – e confirmava a péssima opinião que eu tinha da inteligência de Robert. Eu? Sério? É claro que era lisonjeador, mas era impossível. Como eu poderia trabalhar com ele se sabia que estava me olhando fixamente, cheio de desejo, devaneando e lutando para abafar as declarações daquele Amor Que Não Ousa Declarar O Nome?

E de algum jeito eu teria de fazer isso. Eu tinha recebido ordens, e Robert, as dele, e ele só poderia devanear em seu tempo livre – e na mesa dele. Joguei o jornal na cesta de lixo, limpei um pouco de sujeira – na maior parte, imaginária – do meu mata-borrão e recoloquei a fotografia em seu lugar. Eu me recostei novamente para pensar, tentando afastar Robert dos meus pensamentos, mas era difícil. Mesmo sem essa absurda devoção por mim, o homem era uma presença estranha e perturbadora, e, depois de passar uma semana em sua companhia, eu estava definitivamente sentindo que havia sido afastado do meu ponto de equilíbrio. E, para ser justo, não era só o Robert. A semana toda havia sido estranha, e eu não tivera realmente tempo para refletir a respeito dela até agora; e enquanto relaxava e permitia que meu cérebro poderoso vagueasse por onde desejasse, eu me flagrei pensando em Jackie.

Ela era uma pessoa estranha, também, a julgar pela minha experiência limitada, e de minha perspectiva ainda mais estranha – e de um modo muito mais agradável do que Robert, é claro, mas, mesmo assim: ela parecia infeliz por ser uma celebridade, embora, julgando pelo que eu podia ver, fosse muito boa nesse campo; ela fantasiava com a ideia da Vida Comum, no entanto, estava arriscando a sua própria vida Fora do Comum para não sair de debaixo das luzes dos refletores, se expondo a um ataque de uma besta voraz tão somente para manter seu papel nesse ainda hipotético seriado televisivo. Isso me parecia inutilmente complicado; por que não relaxar e se divertir? Eu certamente estava me divertindo.

Mas, para mim, tudo isso iria terminar, e logo. Isso fazia alguma diferença? Talvez tudo isso acabasse se tornando enjoativo se fosse permanente – “A Morte é a mãe da beleza”, como alguém já falou. Eu sempre havia pensado que isso significava alguma coisa um pouquinho diferente, mas dava para ver como se encaixava na situação. Era muito provável que eu gostasse do estilo de vida de Jackie porque sabia muito bem que até mesmo a mais excitante montanha-russa sai dos trilhos mais cedo ou mais tarde, e ninguém tinha me oferecido nenhum tipo de isenção permanente dessa lei básica da natureza. Minhas

férias no Valhalla [13] terminariam logo, e eu seria arremessado do Paraíso de volta para o Poço onde era o meu lugar. Injusto e indesejado, mas inevitável. É claro, eu provavelmente poderia fugir com Robert, mas a ideia não era assim tão atraente. Eu só precisava aceitar que meu belo interlúdio chegaria ao fim.

Ah, bom. Um grande poeta, cujo nome me escapa, havia colocado tudo isso muito bem quando disse: “colhei botões de rosas enquanto puderdes”. Durante os poucos dias seguintes, eu ainda teria a chance de colher botões de rosa para mim e poderia muito bem me divertir com isso. E como o Computador Dexter não é nada menos do que minucioso, uma pequena engrenagem se moveu com um clique abafado e relembrou a parte final do poema do botão de rosa: um estranho lembrete de que o botão de rosa de hoje sei-lá-o-quê sei-lá-o-quê “amanhã estará morrendo”. Ah, a Morte, um sentimento adorável, e ela me fazia lembrar que, acima de tudo, eu estava colhendo os botões de rosa porque estava sendo pago para impedir que Jackie morresse nas mãos de um demente monótono e brutal.

Uma pena; eu poderia aproveitar a colheita de flores muito mais tempo se não precisasse me preocupar com isso. Ah, se eu tivesse umas poucas horas de inércia para deixar de lado os frangalhos que usava no trabalho e entrar suavemente na escorregadia pele de Dexter, o Diabo, eu poderia dar um jeito nessa coisa toda e me concentrar em admirar a vista da varanda de Jackie. Isso não ia demorar muito – eu tinha provas mais do que suficientes da culpa de Patrick para satisfazer o Código de Harry. Eu simplesmente teria de encontrá-lo e permitir que a Natureza Sombria seguisse o seu curso. E não acho que seria assim tão difícil encontrar uma criatura obtusa como Patrick Bergmann. Apenas se eu tivesse tempo...

Em algum lugar muito distante, bem nas profundezas da amuralhada Fortaleza de Dexter, uma criaturinha minúscula entrou na torre e tocou um delicado sino de prata; quando o doce som ecoou através do ar frio e cortante, eu me sentei muito reto em minha cadeira e pensei: “Ahá”. Eu sei que isso soa pretensioso, até mesmo melodramático, mas eis a questão: eu pensei mesmo “ahá”. Porque havia acabado de lembrar que, na verdade, eu tinha o tempo. Tinha mesmo um pequeno espaço de talvez umas três horas para executar minha mágica – até meu compromisso vespertino com a professora de Cody.

Mas três horas seriam o suficiente? Odeio fazer essas coisas correndo, e havia um obstáculo muito pequeno no meu caminho: eu não sabia onde Patrick estava. E mesmo que o encontrasse rapidamente, eu teria muito pouco tempo para matá-lo e me livrar das sobras. Seria melhor, de fato, se eu simplesmente enfiasse a faca e jogasse o corpo no esconderijo mais conveniente sem ficar me demorando muito nas partes boas.

E, coisa muito estranha, só de pensar nisso eu estremeci. Nunca havia feito nada assim tão frio antes e não tinha certeza se seria capaz de fazê-lo agora. Isso simplesmente não parecia certo. O que eu faço normalmente – se normal é a palavra adequada – é muito mais deliberado, até mesmo contemplativo. Ele tem sua origem em um ponto padrão e percorre seu curso sem pressa segundo um duradouro conjunto de regras ditadas por muita prática e, naturalmente, pelo Código de Harry. E, ao terminar, eu havia atendido a todos eles, e, portanto, a mim mesmo, a Harry e à Musa. Isso tinha de ser feito Exatamente Daquele Jeito, ou então não iria dar a sensação de estar certo.

E cá estava essa horrível palavra não dexteriana: sensação. Eu não sou controlado por aquilo que sinto, talvez porque durante a maior parte do tempo eu não sinta. Sou um Monstro bem ajustado e sem sentimentos, e muito feliz por sê-lo, e sentimentos eram uma coisa que eu dava para meus Companheiros de Brincadeiras – sentimentos intensos e imediatos. Se eu não pudesse oferecê-los para Patrick, tudo seria incompleto, não satisfatório, Dexter Interruptus.

Mas, é claro, isso não importava. Eu não estava fazendo isso por mim, a não ser pelo fato de que ganharia alguns dias de descanso sem preocupações no regaço do luxo. Não, eu estava fazendo isso por Jackie – e, de certo modo, para o conjunto da raça humana. Eu estaria removendo uma mácula horrível da face da humanidade marcada pelas pústulas da varíola, uma ameaça para o indivíduo e para a coletividade – ora, isso era, na verdade, uma boa ação! Talvez eu conseguisse convencer a Tropa dos Lobinhos de Cody a me dar uma medalha de Honra ao Mérito por homicídio altruísta. E se eu tivesse de dar uma apressada nas coisas mais do que gostaria – bom, que pena. Isso não era hora para brincadeiras. Era um serviço para ser feito, e eu era exatamente o vilão indicado para fazê-lo.

Então, tudo certo: não haveria tempo para nenhum tipo de diversão com o Patrick Bergmann. Eu simplesmente iria encontrá-lo, acabar com ele e me desfazer dele, de um modo decisivo e rápido – e, uma vez mais, eu vacilei ao pensar nisso. Fazer isso de modo apressado, e em plena luz do dia? Repulsivo, até mesmo sujo; isso tinha muito a cara – bom, a cara de assassinato.

De todos os pensamentos estranhos que eu poderia ter, esse talvez fosse o mais estranho, mas lá estava ele. Dexter estava hesitando a respeito de fazer o que ele sabe fazer de melhor, simplesmente porque esse seria um serviço apressado. Estaria a minha nova vida em meio ao luxo estragando o firme e feliz núcleo do monstro que eu sou? E me transformando em uma solteirona incapaz do mais simples e do mais justificado dos fins? Estaria eu assim tão bem domado?

Passei um severo sermão em mim mesmo, disse para eu me animar, agir como homem, ser uma pessoa admirável, fazer o que tem de ser feito; e depois de muitos outros clichês semelhantes, comecei a acreditar que poderia fazer isso, mas a ideia ainda me incomodava.

Cheio de melindres? Moi?

Não importa, isso tem de ser feito, e o seria. E hoje era minha única oportunidade de fazê-lo, e eu não iria protelar a decisão. Olhei o relógio: 10h28. Teria de sair do laboratório lá pelas 2h15 para chegar à escola de Cody para a reunião das três horas – e eu teria de aparecer na reunião por amor ao dever, à correção e para ter um álibi incontestável. Mas, se eu fosse almoçar um pouco mais cedo, digamos, lá pelas 12h30, isso me daria duas horas antes da reunião, supondo que eu fosse capaz de fazer às pressas a parte relativa ao almoço propriamente dito. Parecia um sacrifício imenso – mas eu disse para mim mesmo que estava fazendo isso por um propósito nobre, e eu teria condições de pedir alguma coisa muito apetitosa no serviço de quarto à noite, quando tudo tivesse acabado.

Então, que seja. Iria engolir minhas ridículas objeções e fazer tudo como deveria ser feito. Eu me voltei para meu computador para iniciar a busca.

Por nenhum motivo além do hábito, chequei minha caixa de entrada e encontrei o costumeiro monte de absurdos, de improbabilidades e de imoralidades. Mas havia também um Memorando Oficial do Escritório do Capitão Matthews, informando-me que minha presença seria necessária no sábado à noite no Teatro Gusman, e eu havia recebido a ordem extra de levar minha esposa, de me vestir de modo apropriado e de dar risada quando a câmera se voltasse para mim. Percebi que estava apalpando meu nariz e parei com um pouco de irritação.

Então, Renny havia dito a verdade quando falou que o capitão me queria lá – para dar mais uma polida na imagem positiva do Departamento, sem dúvida. Bom, esse seria apenas mais um pequeno fardo nesta infindável vida de dor que de algum modo eu iria enfrentar e sobreviver. Nesse meio-tempo, eu tentaria dar um jeito de garantir que Patrick não fizesse o mesmo.

Tenho de fato uma modesta competência no setor de descobrir coisas com um computador e também tenho recursos à minha disposição que a maior parte das pessoas não tem, uma cortesia do meu serviço com os Melhores de Miami. Em poucos minutos, eu tinha confirmado que Bergmann, Patrick M., de Laramie, Tennessee, era o orgulhoso proprietário de uma Kawasaki 650 Ninja vermelha. Então, eu estava certo a respeito da motocicleta nos seguindo. Essa foi outra ocasião para dizer ahá. As únicas novidades mesmo eram a cor e o modelo, e nenhuma das duas me disse onde ele poderia estar naquele momento preciso. Porém, uma vez mais, ele não era uma pessoa complicada. Se não conseguisse encontrá-lo em uma hora ou algo assim, eu simplesmente teria de abdicar da Ordem Internacional dos Gênios Modestos. Eu não sabia onde ele estava pernoitando: tudo bem. Trabalhar de trás para a frente, partindo de onde eu sabia que ele estava.

Estava nos seguindo há vários dias, esperando calmamente enquanto aprendia nossa rotina. Ele tinha paciência, a paciência de um caçador de cervos, e para ele a situação era bastante parecida com uma caçada ao cervo: aprender os hábitos deles, aprender como pensam; o resto é fácil.

A essa altura, ele já teria aprendido nossa rotina, sabendo que, das 9 às 5, Jackie estaria ou aqui no quartel-general, inacessível, ou fora daqui, em uma cena de crime com policiais armados por todos os cantos. Até mesmo uma ameba como Patrick saberia que teria pouquíssimas chances de chegar perto de Jackie enquanto ela estivesse rodeada de tiras. Então, ele iria observar, aprender os rituais e procurar as ocasiões de maior vulnerabilidade.

E, naturalmente, era óbvio quando esses intervalos de vulnerabilidade aconteciam. As únicas duas vezes em que eu o vira tinham sido no hotel, de manhã. Eu não o vira chegar à noite – mas ele estava lá esperando de manhã. Em algum momento entre as 18 horas, quando Jackie e eu voltávamos para o hotel, e as 7h30 da manhã, quando saíamos, ele assumia seu posto na extremidade do caminho que levava à entrada do hotel e esperava.

E quão paciente ele seria? Provavelmente não muito – isso era importante para ele, mais importante do que qualquer outra coisa na sua vida. Tão importante, na verdade, que havia abandonado todo o resto de sua vida para fazer isso. Ele estava seguindo Jackie por muito tempo, o que com frequência acarreta consequências negativas no poder aquisitivo da pessoa.

Poupança? O suficiente para ficar um ano ou mais na estrada? Eu não achava que Laramie, Tennessee, fosse uma estufa de bilionários, e tinha certeza de que os recursos de Patrick Bergmann eram limitados. Ele não ficaria hospedado no Setai, em South Beach, nem mesmo no Senesta, no Grove. De fato, era mais seguro supor que ele não pudesse nem ao menos pagar um daqueles pardieiros baratos de Miami – não se estivesse na estrada perseguindo Jackie por tanto tempo. Mesmo assim, ele tinha de dormir, comer, e por aí vai. Quando Jackie estava intocavelmente rodeada por policiais armados, ele retornaria ao seu covil para comer um sanduíche de pasta de amendoim e dar um cochilo? Ele teria de fazer essas coisas, mas aonde ele iria para conseguir tudo isso pagando muito pouco?

A página de Patrick no Facebook tinha mostrado que ele era um cara que gostava de espaços abertos. Será que tentaria acampar? Ele não poderia saber com antecedência que as oportunidades para dormir sob a luz das estrelas são um tanto quanto limitadas dentro da Cidade de Miami. Não temos locais para acampar em Miami, a não ser por uns poucos parques para passar a noite em trailers. Então, ele tentaria dormir em um banco no parque? Não era provável – em uma cidade que depende tanto do turismo, tais coisas eram vigorosamente desencorajadas. Mas a ideia de acampar parecia boa – era barato, anônimo e combinava com o que eu sabia dele. Então, como ele acamparia?

Não esperando por nada mais que alguma confirmação visual, fui uma vez mais para a página dele do Facebook. E lá, surpresa das surpresas...

Como já mencionei, não sou fã do Facebook. Para mim, ele me parece um tipo de vírus silencioso e sutil que se insinua em todos os aspectos do tecido vivo da existência diária até que é impossível pensar em cereais sem encontrar um anúncio de Raisin Bran em sua caixa de entrada. Tenho certeza de que infindáveis e intrusivas conexões podem ser muito divertidas para algumas pessoas, mas isso não faz o menor sentido para Dexter.

E não faria o menor sentido para Patrick também, mas ele tinha arrumado lá um segundo lar para si, então percorri a página dele para dar uma olhada – e passei uns bons trinta segundos encarando, incrédulo.

Como já observamos anteriormente, as pessoas realmente colocam algumas coisas surpreendentes nas páginas do Facebook, quase como se estivessem tentando deixar mais fácil para aquela coisa controlar a vida delas. Mesmo assim, tem de haver um limite, vocês não acham? Sobretudo se a pessoa está em temporada de matança – a pessoa não deveria manter um silêncio discreto, desde que tenha todas as suas faculdades mentais? Quer dizer, fala sério, daria para alguém ser assim tão burro?

Aparentemente, algumas pessoas eram, sobretudo Patrick Bergmann. E então eu fiquei olhando fixamente, pensando que estava com toda a certeza tendo alucinações, porque todo mundo sabe que nada é assim tão fácil. Mas, apesar de todo o meu olhar fixo, a página não se alterou. Ela ainda mostrava uma fotografia de Patrick parado ao lado de algum tipo de pilar de cimento com a baía de Biscayne como pano de fundo. Atrás dele, e além do mar, a linha do horizonte do centro de Miami se erguia agressivamente, e sob a fotografia estava escrito: “Acampando em Miami!”.

Eu estava esperando encontrar alguma dica ínfima, mas isto – tive de lutar contra um momento de afeição irracional pelo bom e velho Facebook e lembrar que, afinal de contas, quem tivera a ideia de olhar lá havia sido eu, baseado em minha estranha e precisa avaliação da personalidade de Patrick. E lá estava, exatamente onde eu esperava.

Se me sentira um pouquinho melindrado por pensar em acabar com Patrick sem os Devidos Procedimentos de Dexter, todos esses sentimentos de ternura desapareceram naquela hora. Qualquer um assim tão sem noção não era digno de passar mais um único dia respirando o oxigênio de que eu poderia precisar um dia. Era claramente um dever cívico arrancar esse idiota da vida humana o mais rápido possível, antes que ele tivesse a chance de contaminar todo o fundo genético.

Analisei a fotografia; por alguma razão, achei que já tinha visto esse lugar antes, e era algo além da minha familiaridade com o horizonte de Miami e a água. Acho que eu poderia ter descoberto o lugar triangulando o ângulo dos arranha-céus que estavam ao fundo com o azimute do arco solar vezes pi ou algo assim, mas eu tinha certeza de que já vira esse exato lugar antes e quase tanta certeza de que lembraria a razão se o ficasse encarando por tempo suficiente. E, é claro, depois de alguns minutos de concentração zen, eu tinha descoberto.

Como foi mencionado antes, não há muitos locais em Miami onde o acampamento seja encorajado. Mas há um lugar onde ele é absolutamente necessário. E essa fotografia havia sido tirada lá, acima de qualquer dúvida.

A Lei de Miami tem sua própria lógica – ou ausência dela –, e Patrick havia aterrissado em um dos exemplos mais brilhantes. Um decreto havia sido emitido proibindo que predadores sexuais vivessem a menos de 750 metros de qualquer coisa que pudesse abrigar crianças. Mas o Comitê da Condicional exigia que esses mesmos pobres e ignorantes pedófilos vivessem dentro dos limites da cidade. E como 750 metros são, quando você pensa nisso, uma distância relativamente grande, acontece que havia um único local em que essas pessoas podiam viver que atendesse aos dois requisitos – sob o viaduto Julia Tuttle, em uma ilha na metade do caminho entre Miami e Miami Beach.

Patrick estava lá. Não podia ser em outro lugar. Mesmo assim, Devida Diligência é o nome do meio de Dexter, então eu acessei no Google a localização e olhei algumas fotografias: elas eram uma correspondência perfeita. Patrick estava mesmo acampando na colônia dos predadores sexuais, sob o Julia Tuttle. Uma coisinha reptiliana se agitou dentro de mim e uma pontada de excitação surgiu para lhe fazer companhia.

Eu tinha encontrado Patrick.