Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 14 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 12

 

EU NÃO ESTAVA ENROLANDO PARA EVITAR ROBERT, É SÉRIO, MAS NÃO me apressei, caminhando tranquilo pelo hall e saboreando as recordações da extravagância dourada da noite anterior. A comida, o rum escuro, a companhia... perfeição absoluta. E eu podia antecipar outra noite semelhante a essa no fim da dolorosa labuta de hoje. Não parecia muito correto que alguém como eu devesse ter tantos benefícios; mas, felizmente, isso não me impediu de aproveitar tudo.

Parei para tomar rapidamente uma xícara de café e tentei saboreá-la também, contudo, isso estava além das minhas habilidades. A beberagem tinha o cheiro de velhas aparas de lápis misturadas com torradas queimadas, nada como o néctar divino que eu andara bebendo apenas uma hora antes. Mesmo assim, ela provavelmente se encaixaria na mais limitada definição legal de café, e a vida não é perfeita – pelo menos, não durante o horário de trabalho. Peguei uma xícara cheia e me afastei lentamente para realizar o meu Dever.

Robert estava à espera sentado à minha mesa de novo, mas, para seu grande crédito, ele havia trazido donuts – incluindo dois boston crèmes dessa vez, e se você dá um desses para Dexter, vai descobrir que, subitamente, ele está com disposição para perdoar muita coisa. Nós comemos os donuts e bebemos aquele café verdadeiramente horrível, e eu fiquei ouvindo Robert contar uma longa e indubitavelmente fascinante história sobre um maluco dublê britânico em um filme que ele havia feito há muitos anos. O ponto central da história parecia ser incompreensível para nós dois, mas pode ter tido qualquer coisa a ver com o fato de Robert tê-lo confrontado a respeito de alguma obscura questão de honra. O que quer que tenha sido, Robert se divertiu contando a história toda e, felizmente, ele estava tão distraído com sua própria eloquência que eu consegui tirar sorrateiramente o segundo boston crème da caixa e colocá-lo na minha boca antes que ele percebesse.

Depois de os donuts terem desaparecido, passamos muitas horas brincando com o microscópio e aprendendo como preparar lâminas do modo correto. Muito estranhamente, apesar da repulsa a sangue que havia demonstrado até então, Robert parecia fascinado com ele em seu estado microscópico.

– Nossa – ele disse. – Isso é muito legal mesmo. – Olhou-me com um sorriso. – Não é assim tão ruim quanto está seco e em uma lâmina. Quer dizer, eu até conseguiria gostar disso.

Eu poderia ter dito que compartilhava desses sentimentos, que eu gostava tanto de sangue em seu estado seco que tinha em casa uma caixa de jacarandá com cinquenta e sete gotas de sangue seco, cada qual em sua própria lâmina, cada uma delas uma pequena recordação de um amigo especial, agora falecido. Porém, eu nunca tinha acreditado muito nessa história surgida recentemente de dividir seus pensamentos e sentimentos, sobretudo os relacionados a um assunto tão pessoal; então, só sorri e acenei e lhe entreguei mais umas amostras para brincar. Ele as pegou ansiosamente, e passamos algumas horas felizes.

Bem na hora em que eu estava pensando que podia dar uma olhada na caixa de donuts para ver se havia deixado alguma coisa escapar, o telefone tocou, e eu atendi:

– Morgan.

– Nós identificamos o pervertido da Jackie – disse minha irmã. – Venha aqui.

Dei uma olhada em Robert, que estava todo alegre lidando para ajustar o foco fino em meu microscópio. Eu não tinha como levá-lo comigo para ouvir falar de um perseguidor cuja existência ele deveria ignorar.

– E quanto ao meu colega? – perguntei.

– Pense em alguma coisa – ela disse e desligou.

Coloquei o telefone na mesa e olhei Robert. Apesar de ser realmente irritante, ele não era assim tão burro, e eu tinha de lhe dizer alguma coisa plausível. Felizmente para mim, meu estômago fez um barulho gorgolejante, o que me ofereceu a desculpa perfeita.

– O café não me caiu muito bem – disse eu.

– É, estava ruim mesmo – disse Robert, sem erguer os olhos.

– Talvez demore um pouco – eu disse, e ele agitou uma das mãos na minha direção para indicar que questões relativas a meu intestino não eram de sua conta, e que ele ficaria bem. Eu saí e corri para atender ao chamado da minha irmã.

– Patrick Bergmann – disse Deborah quando eu entrei em sua sala uns minutos depois. Parecia um cumprimento estranho, mas eu tinha de supor que ela queria dizer que aquele era o nome do nosso perseguidor.

– Foi bem rápido – eu disse. – Como você conseguiu isso?

Deborah fez uma careta, balançou a cabeça e respondeu:

– As cartas. Ele as assinou. E colocou até mesmo o endereço.

– Isso é praticamente trapaça – eu falei. – Então, o que importa mesmo é saber: por que você demorou tanto?

– Ele mora em uma merda de um lugar no Tennessee – explicou Deborah. – Eu não consegui que ninguém de lá fosse checar, ver se ele ainda estava lá.

Jackie me dirigiu um sorriso imenso.

– Então, eu chequei no Facebook – ela disse e lançou um olhar carinhosamente divertido na direção de Deborah. – Na verdade, sua irmã nem sabia o que era isso.

– Eu já ouvi falar – disse Deborah, na defensiva. Ela balançou a cabeça, descrente. – Mas é uma merda. É uma porra de uma coisa de loucos. As pessoas colocam qualquer merda lá.

Jackie acenou indicando Debs.

– Eu mostrei para ela como funciona, e nós o descobrimos. Patrick Bergmann, Laramie, Tennessee. Com fotos e postagens a respeito de onde ele está. – O sorriso sumiu do rosto dela. – Hum – ela disse, devagar –, ele está aqui. Em Miami.

– Bom – eu disse –, mas a gente já sabia disso.

Jackie deu de ombros e pareceu se encolher, ficando repentinamente com a aparência de uma menininha perdida.

– Eu sei – ela disse. – Mas isso é meio... Quer dizer, eu sei que é idiotice, mas... ver no Facebook? Isso acaba fazendo com que fique mais real.

Tenho certeza de que Jackie dizia algo que fazia sentido – só que não para mim. O Facebook fazia ficar mais real? Mais real que o corpo destroçado da moça na caçamba? É claro, eu não sou, e nunca vou ser, um fã do Facebook. Pode ser uma ferramenta muito útil para descobrir o paradeiro das pessoas que tenho interesse em entrevistar por causa do meu hobby, mas a ideia de uma página de Dexter parece ser um pouquinho contraintuitiva. Frequentou a Universidade de Miami. Amigos: para ser sincero, nenhum. Interesses: vivissecção humana. Tenho certeza de que eu receberia um monte de solicitações de amizade, especialmente locais, mas...

Ainda assim, suponho, o ponto vital era que, na verdade, isso era mais real para Jackie. Era um trabalho difícil proteger alguém de determinado assassino psicótico, e se o protegido não acreditasse na veracidade da ameaça, era ainda mais difícil.

Então, pelo menos uma vez, o Facebook demonstrou ter um uso prático. Melhor ainda, ele nos deu uma foto do nosso novo amigo, Patrick. Como eu disse, isso era praticamente trapaça.

– Daria para eu ver a foto dele? – perguntei.

A boca de Deborah se contorceu em um ligeiro sorriso, e ela me entregou uma folha de papel que estava em sua mesa. Era uma impressão de uma foto do Facebook, que mostrava um cara de seus vinte e poucos anos, agachado ao lado de um cervo. O cervo tinha cara de estar muito morto mesmo, e o cara parecia estar um pouco feliz demais com isso. Eu já vi fotos do Troféu de Caça em quantidade suficiente para saber como elas devem ser: o Nobre Animal se acomodando ao Descanso Eterno enquanto o Poderoso Caçador fica parado ao lado dele, agarrando o rifle e parecendo solenemente orgulhoso.

Essa foto não era nada disso. Para começar, o cervo não estava somente morto; ele havia sido eviscerado. A cavidade abdominal havia sido aberta e esvaziada, e os braços do Poderoso Caçador estavam cobertos com o sangue do animal até quase os ombros. Ele estava segurando o que parecia ser uma faca Bowie e dava um sorriso idiota para a câmera, um monte de intestinos aos seus pés.

Tentei me concentrar no rosto dele, e enquanto eu analisava suas feições, o Passageiro murmurava um encorajamento sibilante. Patrick Bergmann não era uma pessoa com má aparência – corpo firme, constituição atlética, cabelos loiros sujos com um corte malfeito, traços regulares –, mas alguma coisa nele não batia tão bem. Por trás de seu óbvio deleite com a horrível bagunça ensanguentada em que ele estava chafurdando, seus olhos estavam abertos um pouco demais, e seu sorriso idiota tinha alguma coisa perturbadora, como se ele estivesse posando nu pela primeira vez e gostando da experiência. Seu rosto estava dizendo, tão claro quanto possível, que aquele era um retrato do verdadeiro Ele, seu Eu Secreto. Aquele era quem ele era; alguém que vivia para sentir o sangue correr pela lâmina de sua faca e se agachar no monte de vísceras aos seus pés. Eu não precisava ouvir o Passageiro entoando Um de Nós, Um de Nós, para saber.

Voltei a prestar atenção na conversa quando Deborah disse:

– Quer dizer que nós temos de contar para o Anderson a respeito disso também. O que eu quero dizer é: nós temos a identificação, a porra da foto... – Ela ergueu as duas mãos, as palmas para cima, o retrato da detetive desamparada. – Eu não posso esconder isso.

Jackie parecia desiludida, e então realmente torceu as mãos. Eu sempre tinha pensado que “torcer as mãos” era apenas uma forma de dizer, ou, pelo menos, uma coisa que a maior parte dos atores fazia em filmes antigos – mas Jackie fez o gesto. Ela ergueu as duas mãos na altura do peito e girou-as pelo pulso, e eu pensei com toda a clareza: Caramba, ela está torcendo as mãos.

– Isso não é um pouco como, ah, você sabe – disse Jackie. – Forçar a barra?

– Você já deu seu arquivo para o Anderson? – perguntei.

Deborah assentiu e disse:

– Primeira coisa hoje de manhã.

– E o que aconteceu?

Ela fez uma careta e então acrescentou, com ar de grande aversão:

– Do jeito que você falou. Ele o enfiou em uma gaveta, nem mesmo esperou que eu saísse da sala.

– Bom, então, isso não deveria ser um problema – eu disse.

– Sim, mas... quero dizer... – disse Jackie, e ela parecia muito preocupada. – É o nome dele, e a foto, e tudo. Nem mesmo o Anderson vai poder ignorar isso.

Deborah bufou e disse:

– O cara conseguiria perder a própria bunda em uma cadeira.

– É só que... o resto do elenco chega aqui hoje e amanhã, e então nós começamos a filmar e... O que eu quero dizer é... é a minha carreira – disse Jackie.

Deborah pareceu em dúvida.

– É a sua vida também – ela disse. – Isso deve contar para alguma coisa.

– Minha carreira É minha vida – disse Jackie. – Eu desisti de tudo por causa dela, e se eu perder esse seriado também... – Ela inspirou com dificuldade e agarrou a mão esquerda com a mão direita, apertando-as. – Eu só estou preocupada, acho.

– Eu não tenho alternativa – disse Deborah. – Preciso entregar isso para ele.

– Mas ele vai ignorar tudo – eu disse. – E, nesse meio-tempo, nós vamos encontrar o Patrick e manter você em segurança.

Jackie me dirigiu um sorriso de gratidão que me fez sentir uns dez centímetros mais alto.

– Obrigada – disse ela. – E, Dexter...

Ela ergueu uma das mãos e deu um passo na minha direção, e acredito que ela fosse me dizer alguma coisa excepcionalmente agradável, mas nunca cheguei a ouvi-la. Alguém pigarreou, e quando percebi que não era Jackie, nem Debs, nem mesmo eu, dei meia-volta enquanto um homem entrava no cubículo de Deborah. Ele tinha uns 45 anos, cerca de 1,75 m de altura e estava em uma forma física decente, a não ser por uma protuberância extra na região da cintura. Tinha cabelos e olhos escuros, e vestia alguma coisa que quase com toda a certeza deveria ser um terno, a não ser pelo fato de parecer ter sido feito de uma cobertura tirada de um sofá em um velho lounge de discoteca. E embora eu não o reconhecesse, ele também trazia aquele ar indefinível que dizia que era um tira.

Ele ergueu uma sobrancelha para Deborah e perguntou:

– Detetive Morgan?

Deborah o olhou da mesma maneira.

– Sim?

O homem mostrou um distintivo, e então deu mais uns passos adiante e estendeu a mão.

– Detetive Echeverría, Departamento de Polícia de Nova York – ele disse, e o discurso dele combinava muito bem com o que nós todos acabamos acreditando que era o Sotaque de Nova York.

Deborah olhou-o por um momento e então estendeu a mão.

– Certo – disse ela. – Eu recebi seus e-mails.

Eles trocaram um aperto de mãos por alguns instantes, depois Echeverría se afastou um pouco e olhou para Jackie.

– Ora – ele disse –, é a Jackie Forrest. Mas que coisa.

Ela lhe dirigiu um sorriso pequeno e sem muito brilho.

– Detetive – ela cumprimentou.

Ele ficou olhando-a sem piscar por alguns segundos demais, até que finalmente Deborah pigarreou, e Echeverría virou a cabeça rapidamente para encarar minha irmã.

– O que posso fazer para ajudá-lo? – perguntou Deborah, dando um toque ligeiramente irônico às suas palavras, para ele entender que seu olhar de cobiça tinha sido observado.

– É... certo – ele disse. – O que você pode fazer, você pode me deixar ver o que você tem sobre aquele maluco que está investigando.

Deborah lhe deu um sorriso muito fraco do tipo Cortesia Profissional.

– Não posso fazer isso – ela redarguiu.

Echeverría franziu as sobrancelhas, piscou duas vezes e perguntou:

– Por que não?

– Não é meu caso.

Ele balançou a cabeça e falou:

– Mas que porra.

– Eu sei – disse Deborah. – Mas eu falei pra você não vir pra cá.

Echeverría balançou a cabeça de novo. A boca dele se contorceu.

– Você sabe quantos caras com ternos da Brooks Brothers eu tenho colados na minha bunda por causa dessa história? – ele falou.

– Sim – disse Debs. – A gente tem disso aqui também.

– Exceto pelo fato de que aqui os ternos são feitos de um tecido legal, adequado ao clima tropical – eu acrescentei, sempre ansioso para ser útil.

Echeverría me olhou. Muito estranho, não era um olhar cheio de calor, camaradagem e apreciação pelo meu vasto conhecimento dos padrões da alfaiataria. Ele estava mais perto do tipo de olhar lançado na direção de alguém que você flagrou atravessando a rua fora da faixa de pedestres para cuspir em freiras. Então, ele tornou a olhar para Deborah.

– Tudo bem – ele disse. – Então, mas que porra. – Ele franziu as sobrancelhas e acenou na direção de Jackie. – Desculpa aí, srta. Forrest. – Ela mostrou uns cinco ou seis dentes para ele, e ele tornou a olhar Deborah. Aparentemente, não tinha problema nenhum dizer “porra” sem pedir desculpas para minha irmã, porque ele tornou a dizer isso para ela. – Que porra de negócio está acontecendo aqui, Morgan?

Deborah, é claro, não fica atrás de ninguém no departamento de palavrões, e ela ficou à altura da ocasião com sua costumeira desenvoltura:

– A porra de negócio é a mesma velha merda.

– E que é...? – ele perguntou.

O rosto de Deborah se contorceu em um sorriso muito pequeno e irado.

– Por acaso acontece em Nova York que o capitão dê um caso bom para um idiota sem colhões que não seria capaz de achar um monte de merda nem que ele o estivesse usando como se fosse chapéu, e todo o resto do pessoal tem de ficar parado e olhar enquanto ele faz mais uma merda? – ela perguntou.

– Nunca acontece – disse Echeverría, com um sorriso parecido que dizia que nem ele acreditava naquilo que estava dizendo.

– Claro que não – disse Deborah. – Aqui também não. Todo o nosso Departamento é composto por profissionais altamente competentes.

Echeverría assentiu e disse:

– Certo. Então, quem é o idiota sem colhões?

– Se você está querendo dizer, quem é o Policial encarregado da investigação – disse Debs –, a resposta é o detetive Anderson.

Echeverría pareceu surpreso.

– Billy Anderson? – ele disse, e Debs concordou com um gesto. – Eu vou me encontrar com ele para tomar uns drinques. Me disseram que é um cara legal.

Deborah conseguiu não soltar uma gargalhada enlouquecida, mas sua boca se contorceu várias vezes, o que, para ela, é a mesma coisa.

– Quem disse isso? – ela perguntou. – Alguém a quem você pediria proteção?

– Hum – disse Echeverría, fazendo uma careta –, talvez não.

– Talvez ele consiga arrumar uns drinques – eu sugeri. – Mas não vai passar disso.

Echeverría me olhou de novo e resolveu que preferiria olhar para Jackie. Ele olhou, franziu as sobrancelhas e voltou a encarar Debs.

– Tudo bem, estou entendendo – ele disse. – Mas, hum... o que está acontecendo com vocês? O que estão fazendo envolvidos na investigação se o caso não é de vocês?

O rosto de Deborah se congelou em sua Cara de Falar Com o Capitão.

– Eu fui designada para trabalhar como consultora técnica para a Big Ticket Network, que está filmando um piloto de um seriado aqui. Estrelado – ela disse com um gesto na direção de Jackie – pela srta. Forrest.

Echeverría olhou para Jackie de novo.

– E assim – Debs continuou, e Echeverría forçou seu olhar a se desviar de Jackie e a retornar para minha irmã –, a srta. Forrest e eu estamos conduzindo uma investigação paralela simulada só nossa, para que eu possa ensinar para ela as técnicas investigativas e os procedimentos policiais adequados.

Echeverría olhou para Deborah com novo respeito.

– Brilhante pra caralho – ele disse.

Deborah simplesmente fez um gesto de concordância.

– Então – prosseguiu Echeverría –, eu tenho de falar com o Anderson, perguntar pra ele se posso ver o arquivo do caso?

– Infelizmente, acho que sim – respondeu Deborah.

– E ele é mesmo um puta de um idiota completo?

– Pior – disse Debs. – Mas eu nunca disse isso.

– Bom, que merda – ele falou.

– É bem assim – disse Deborah.