Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 4 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 2

 

– ESCUTE – ME DISSE ROBERT CHASE, ENQUANTO CAMINHÁVAMOS juntos pelo hall até meu laboratório. – Nós precisamos ter umas regras básicas bem definidas, tudo bem?

Eu o encarei, vendo somente seu perfil, já que ele estava olhando fixamente à sua frente através dos óculos escuros.

– Regras? – perguntei. – O que você quer dizer?

Ele parou de andar e virou seu rosto para mim.

– Seu nome é Derrick, certo? – ele disse, estendendo a mão.

– Dexter – respondi. – Dexter Morgan. – Apertei a mão dele. Era macia, mas o aperto era firme.

– Certo. Dexter – ele disse. – E eu sou Robert. Okay? Só Robert. – Ele ergueu um dedo admoestador. – Não Bob.

– É claro que não – retruquei.

Ele balançou a cabeça, como se eu tivesse falado algo profundo, e continuou a caminhar pelo hall.

– Tudo bem – ele disse, virando a palma da mão para cima e balançando-a. – Eu sou só um cara comum. Gosto das mesmas coisas de que você gosta.

Isso não parecia possível, considerando aquilo de que eu realmente gosto, mas resolvi não desafiá-lo.

– Tudo bem – falei.

– Eu não ando por aí em uma Ferrari, nem cheiro coca nos peitos de uma prostituta, tudo bem?

– Oh – eu disse. – Bom, ótimo.

– Quero dizer, não me leve a mal – ele disse, com um sorriso pensativo e másculo. – Eu gosto das mulheres. Sou maluco por elas. – Ele me olhou rapidamente para ter certeza de que eu acreditava nele, e então continuou a falar: – Mas não gosto dessa coisa de... ser uma celebridade. Tudo bem? Eu trabalho, sou um ator, não um astro. Eu faço um trabalho, assim como você, e quando o meu dia de serviço acaba, gosto de relaxar, tomar umas cervejas, assistir a um jogo. Coisas absolutamente normais. Você entende? Nada de ficar indo a clubes, e groupies e festas a noite inteira. Isso é... – Balançou a cabeça. – Isso é uma merda.

Aquilo tudo era muito interessante, mas eu já descobri que, na maioria das vezes, quando alguém enfatiza alguma coisa desse jeito está ou tentando convencer a si próprio – ou tentando disfarçar alguma coisa muito diferente. Talvez ele de fato cheirasse coca nos peitos de prostitutas e simplesmente não quisesse compartilhar isso. Mas, é claro, minha experiência com Astros de Hollywood tinha sido limitada a vê-los na televisão com menos da metade da minha atenção, então também era possível que Robert Chase estivesse falando algo de verdade usando algum monólogo tirado de algum papel anterior. De qualquer modo, ele realmente parecia insistir um pouco a respeito de ter gostos “normais” relacionados a mulheres e a esportes, e eu realmente tinha de ficar pensando se aquilo estava mesmo levando a alguma coisa.

– Tudo bem – eu falei. – Então, qual é a regra?

Ele agitou ligeiramente a cabeça, como se não tivesse me escutado.

– O que você quer dizer com isso? – ele perguntou.

– Regras básicas – eu disse. – Você falou que teríamos de ter as regras básicas bem definidas.

Ele parou de andar e se voltou para me olhar sem uma verdadeira expressão em seu rosto. Eu retribuí o olhar. Finalmente, ele sorriu e então me deu umas palmadinhas no ombro.

– Tudo bem – ele disse. – Acho que soei um pouco sei lá o quê.

Pomposo.

– De jeito nenhum – respondi, mentindo educadamente.

– O negócio é o seguinte – ele disse – eu não quero nenhum tipo de, você sabe, tratamento especial, ou seja lá o que for. Só faça as coisas que normalmente faz e aja como se eu nem estivesse aqui. Só faça o que você sempre faz, certo?

Eu tinha de acreditar que ele realmente dizia aquilo com convicção, mas apenas um ligeiro momento de reflexão genuína teria me mostrado quão impossível a Primeira Regra dele realmente era. Em primeiro lugar, ele já estava recebendo um tratamento especial, porque tinham me ordenado que eu o desse a ele. E, em segundo lugar, se eu realmente fizesse o que sempre fazia, ele certamente sairia correndo da sala aos gritos. Mesmo assim, a vida nos ensina que o pensamento humano quase nunca caminha lado a lado com a lógica, e, em geral, é contraproducente mencionar o assunto. Então, somente fiz um gesto de concordância com a cabeça, de um modo tão agradável quanto possível, como se ele estivesse falando coisa com coisa.

– Claro – eu disse. – Algo mais?

Ele deu uma olhada ao redor por todo o hall – de um modo um tanto furtivo, pensei.

– Eu não gosto de... sangue – ele falou e engoliu em seco. – Eu meio que gostaria de... hum... não ter de ver muito sangue.

Até então, Chase tinha dado a impressão de ser um tanto destituído de senso de humor, mas essa afirmativa era tão absurdamente impossível que eu o encarei para ver se ele estava brincando. Não parecia estar; ele me lançou um olhar rápido, olhou ao seu redor novamente, e então fixou os olhos em seus sapatos. Valia a pena olhar para eles. Provavelmente custavam mais que meu carro.

– Hum – eu finalmente disse. – Você sabe que eu analiso borrifos de sangue, certo?

Chase se sobressaltou.

– Sim, eu sei, mas... – Ele balançou a cabeça como se tivesse um nó em seu pescoço, flexionou as mãos, e então deu um tipo de quase risadinha que não era nem um pouco tão convincente quanto deveria ter sido, vindo de um Ator Profissional. – Eu só... hum... – ele disse. – Eu não gosto dele. O sangue... hum... ele me faz ficar meio... enjoado. Só de pensar nele correndo dentro da gente, ou mesmo de olhar onde ele esteve, eu não consigo... e ver ele bem ali, assim, no chão, espalhado... – Estremeceu e então virou a cabeça rapidamente para me olhar, e pela primeira vez pareceu um ser humano menos-que-perfeito, real e vivo. – Eu simplesmente não gosto dele – disse, com uma voz que estava bem perto de uma súplica.

– Tudo bem – eu disse, já que não tinha muito mais o que dizer. – Mas não sei se dá para lhe mostrar qual é o padrão dos borrifos de sangue sem mostrar sangue para você.

Ele olhou os próprios pés de novo e suspirou.

– Eu sei – ele disse.

– Oh. Meu. Deus! – disse uma voz cheia de espanto atrás de mim, e eu me voltei. Vince Masuoka estava parado ali, as duas mãos no rosto e a boca muito aberta, dando a exata impressão de ser uma menina de doze anos que tivesse acabado de se deparar com o elenco inteiro de Glee.

– Vince. Sou eu – falei. Mas aparentemente não era; Vince me ignorou e apontou uma mão trêmula para Chase.

– Robert Chase, oh meu Deus oh meu DEUS! – ele exclamou, saltitando para um lado e para o outro como se tivesse de ir ao banheiro com muita urgência. – É você, é você de verdade – acrescentou; e embora eu não conseguisse dizer se ele estava tentando convencer a si próprio ou Chase, achei o desempenho dele profundamente irritante. Mas esse comportamento parecia ser exatamente aquilo de que Chase necessitava; ele se endireitou instantaneamente, com uma aparência tranquila, assumindo o comando e mais perfeito do que um simples ser humano jamais poderia ser.

– Como você está? – ele disse para Vince, embora devesse ter sido óbvio que a resposta era: “Completamente maluco”.

– Oh, meu Deus – Vince disse outra vez, e fiquei pensando se daria para fazê-lo parar de dizer aquilo se eu o esbofeteasse algumas vezes. Porém, ações assim tão lógicas e recompensadoras são desencorajadas no ambiente de trabalho, mesmo quando fazem todo o sentido, então vasculhei em meu interior e descobri autocontrole férreo em quantidade suficiente para suprimir minha necessidade absolutamente natural.

– Dá para ver que você já conhece Robert – eu falei para Vince. – E, Robert, este é Vince Masuoka. Ele trabalhava no laboratório da polícia forense antes de perder a cabeça.

– Ei, Vince – disse Robert. Ele deu um passo adiante com a mão estendida e um sorriso másculo em sua face. – É um prazer conhecer você.

Vince olhou a mão estendida como se nunca tivesse visto uma em sua vida.

– Oh. Oh. Oh. Aimeudeus – disse Vince. – Aimeudeus. Quer dizer... – Ele agarrou a mão de Chase como se estivesse se afogando e ela fosse um colete salva-vidas, e a segurou com firmeza entre suas duas mãos enquanto encarava Chase e continuava a balbuciar enlouquecido. – Isso é inacreditável. Eu estou tãããããão... Quero dizer, sempre... Oh, Deus, não dá para eu acreditar nisso... – E ainda mais estranho, enquanto ele ficava lá plantado, agarrado à mão de Chase, o rosto dele começou a ficar vermelho e ele baixou o tom de voz até um sussurro estranho e rouco: – Eu simplesmente amei você em Durão e veloz!

– É, bom... obrigado – disse Chase, de algum jeito extraindo com dificuldade sua mão da armadilha úmida do aperto de Vince, e acrescentando modestamente: – Isso já faz um bom tempo.

– Eu tenho o DVD – disse Vince, excitado. – Eu já assisti, sei lá, um milhão de vezes!

– Ei, legal – disse Chase. – Que bom que você gostou.

– Não consigo acreditar – disse Vince e ficou saltitando de um lado para o outro de novo. – Ai, meu Deus!

Chase apenas sorriu. Ele, aparentemente, já havia testemunhado esse tipo de comportamento antes, mas, mesmo assim, o acesso do Vince devia estar lhe deixando um tantinho desconfortável. Mesmo assim, ele enfrentou tudo com calma e masculinidade e deu umas palmadinhas amigáveis no ombro de Vince.

– Ei, bem – ele disse. – Derrick e eu temos de ir andando. – E ele se voltou para mim, me deu um cutucão e falou: – Mas estou mesmo esperando pela oportunidade de trabalhar com você. A gente se vê por aí!

Chase aferrou uma das mãos no meu cotovelo e me incitou a ir pelo hall. Eu precisava de pouco incitamento, já que o Vince tinha voltado a gemer “aimeudeus aimeudeus aimeudeus”, e nunca é agradável ficar na presença de alguém que antes havia sido seu amigo e que agora era um garoto-propaganda da tragédia das doenças mentais. Então, deixamos Vince no hall e escapamos para o abrigo do meu pequeno escritório, onde Chase apoiou o quadril na beirada da minha mesa, cruzou os braços e balançou a cabeça.

– Bom – ele disse. – Não estava esperando isso aqui. Quer dizer, eu achei que os policiais fossem um pouco mais, sei lá. – Ele deu de ombros. – Hum, durões? Mais machões? Você sabe.

– Na verdade, Vince não é um policial – falei.

– Tudo bem, mas, mesmo assim – ele disse –, ele é gay? Quer dizer, sem problema, eu só estava pensando.

Olhei Chase, surpreendido, e, para ser honesto, uma grande parte da surpresa estava relacionada a mim mesmo. Eu havia trabalhado com Vince tantos anos e nunca me fizera essa pergunta. É claro, o assunto era completamente irrelevante, e eu não tinha nada a ver com isso. Afinal, eu não ia querer que ele ficasse xeretando a minha vida particular.

– Não sei – respondi. – Mas, no ano passado, na festa de Halloween, ele foi de Carmen Miranda. De novo.

Chase assentiu.

– Um dos sinais indicadores – ele disse. – Bom, merda, não me importo. Quer dizer, tem, hum, bichas em toda parte atualmente.

Fiquei pensando no jeito de ele usar aquela palavra, “bichas”. Ela me parecia ser uma palavra que, na verdade, não estava

mais [2] au currant nos círculos mais liberais, como eu tinha achado que a comunidade de Hollywood seria. Mas pode ser que Robert apenas tivesse tentado se encaixar e assumido que eu costumeiramente dissesse coisas que não eram Politicamente Corretas porque eu era um membro durão e machão da Comunidade Policial de Miami, e todo mundo sabe que todos nós falamos desse jeito.

Seja como for, eu estava mais interessado na reação dele ao ataque da Síndrome da Menina Adolescente de Vince.

– Esse tipo de coisa acontece bastante com você? – perguntei para ele.

– Toda essa história de ficar maluco e de ficar saltitando? – disse de modo bastante casual. – Sim. Aonde quer que eu vá. – Deu um cutucão em uma pasta de arquivos na minha mesa e a abriu com um piparote.

– Isso deve dificultar um pouquinho suas idas ao mercado – falei.

Ele não me olhou e disse:

– Hm-hum. – Uma pessoa faz isso por mim. De qualquer jeito – deu de ombros é diferente lá em Los Angeles. Lá, todo mundo acha que está no negócio com você, e ninguém quer ficar parecendo idiota. – Ele começou a folhear as páginas do relatório, o que achei um pouquinho irritante.

– Tenho um serviço para fazer no laboratório – eu disse, e ele me olhou ansiosamente, fazendo com que me sentisse um pouquinho melhor.

– É um, quer dizer – ele falou –, ãhm, um assassinato? Trabalho com sangue?

– Infelizmente, acho que sim – eu disse. – Preciso trabalhar com algumas amostras de uma cena de crime. – E como Dexter na verdade algumas vezes não é agradável, acrescentei: – O assassino fez um talho na artéria femoral, então, tinha sangue para todos os lados.

Chase inspirou profundamente por entre os dentes. Soltou o ar, tirou os óculos escuros e os olhou, então os colocou de novo. Observei-o por um momento, e isso pode não indicar coisas muito boas a meu respeito, mas eu estava gostando do modo como ele havia ficado um pouquinho pálido sob seu bronzeado. Finalmente, engoliu em seco e inspirou profundamente uma vez mais.

– Bom – ele disse –, acho que é melhor eu acompanhar e observar.

– Acho que sim – concordei.

Chase engoliu em seco, inspirou profundamente e se levantou, tentando com todas as forças parecer determinado.

– Tudo bem – ele disse. – Eu, ãhm, eu só vou olhar por cima do seu ombro...?

– Isso – eu disse. – Vou tentar não fazer muito esparramo.

Ele fechou os olhos, mas me seguiu.

Foi um pequeno triunfo, mas foi praticamente o único que eu obtive pelo resto da semana. Enquanto me arrastava pela minha rotina diária, Robert se arrastava comigo. Não atrapalhava muito, mas toda vez que me voltava ele estava lá, um esgar de concentração em seu rosto, e geralmente com um tipo de pergunta sem sentido: por que eu fiz aquilo? Por que era importante fazer aquilo? Eu fazia aquilo com frequência? Quantos assassinos eu já havia capturado fazendo aquilo? Eles eram mesmo serial killers? Havia muitos serial killers em Miami? Uma grande parte do tempo, as perguntas não tinham absolutamente nenhuma relação com o que eu estava fazendo, o que deixava a coisa toda ainda mais insípida e entediante. Dava para entender que era um pouquinho difícil para uma pessoa como ele formular perguntas inteligentes a respeito de cromatografia gasosa; mas, então, por que me observar fazendo aquilo? Por que ele não podia simplesmente ficar sentado em um bar esportivo e me mandar mensagens de texto com suas perguntas enquanto bebericava uma cerveja e assistia a um jogo?

Já era ruim demais aguentar as perguntas idiotas. Mas, na quarta-feira, ele levou as coisas a um novo nível de perseguição.

Estávamos uma vez mais no laboratório, e eu estava olhando no microscópio, em que tinha acabado de encontrar algumas semelhanças muito interessantes entre amostras de tecidos de duas cenas de crime diferentes. Endireitei o corpo, me voltei e lá estava Chase, franzindo as sobrancelhas com ar pensativo, uma das mãos massageando o topo da cabeça e a outra cobrindo sua boca. E antes que pudesse perguntar-lhe por que diabos estava fazendo um gesto tão ridículo, percebi que eu estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Abaixei minhas mãos.

– Por que você está fazendo isso? – eu disse, deixando a maior parte da irritação afastada da minha voz.

Chase abaixou suas mãos também e sorriu; um sorrisinho convencido de triunfo.

– É isso que você faz – ele respondeu – quando encontra alguma coisa significativa. Você faz assim com as mãos. – Repetiu o gesto rapidamente, uma das mãos na cabeça, e a outra cobrindo a boca. – Você faz isso – ele disse, deixando as mãos caírem – e daí fica parado ali com um ar muito pensativo. – E fez uma quase carranca que dizia com muita clareza: “Eu estou muito pensativo mesmo”. – Bem assim.

Acho que eu poderia muito bem ter feito isso e mais um monte de outras coisas durante toda a minha vida profissional sem me dar conta. Há pouquíssimos espelhos em um laboratório forense para me mostrar que cara faço enquanto trabalho, e, sinceramente, eu preferia assim. Todos temos padrões de comportamento inconscientes, e eu sempre tinha pensado que os meus fossem um pouquinho mais moderados e lógicos que os exibidos pelos meros mortais que me rodeavam.

Mas cá estava Chase, me mostrando claramente que meus maneirismos eram tão ridículos quanto os de qualquer outra pessoa. Era incrivelmente exasperador vê-lo me imitando bem na minha cara e, mesmo assim, isso não explicava a parte mais importante da questão.

– Por que você tem de fazer isso também? – perguntei.

Ele balançou a cabeça, um gesto rápido para o lado, como se eu fosse a pessoa que estivesse fazendo perguntas idiotas.

– Eu estou aprendendo você – ele respondeu. – Para o meu personagem.

– Em vez disso, não daria pra você aprender Vince? – falei e até mesmo para mim eu soei rabugento.

Chase balançou a cabeça.

– Meu personagem não é gay – ele disse, com ar bem sério.

No fim do expediente, na quinta-feira, eu estava muito a fim de virar gay se isso significasse que Chase iria parar de me copiar. Eu o observava enquanto ele macaqueava tudo que eu fazia, cada tique pequeno e inconsciente. Fiquei sabendo que eu fazia barulho ao beber meu café, lavava as mãos por muito tempo e ficava olhando para o teto franzindo os lábios enquanto falava ao telefone. Eu nunca tinha tido nenhum problema com minha autoestima; gosto muito de Dexter, assim do jeito que ele é. Mas, à medida que a macaqueação do Chase foi continuando, e continuando, descobri que até mesmo a mais saudável autoimagem pode erodir sob um bombardeio de caçoada constante e solene.

Dei o melhor de mim para persistir. Disse para mim mesmo que eu estava seguindo ordens, e que tudo aquilo era parte do serviço, e que realmente não tinha escolha nessa questão toda, mas isso não ajudou em nada. Cada vez que me voltava, havia uma imagem espelhada do que quer que fosse que eu estivesse fazendo, mas com um bigode imaculado e um corte de cabelo perfeito. E, pior que tudo, de vez em quando eu me voltava e o via simplesmente me encarando, com uma expressão etérea de desejo abstrato em seu rosto que eu não conseguia decifrar.

Os dias foram passando, e a presença dele foi ficando cada vez mais irritante. Já era ruim demais ter Chase me seguindo, me observando, me imitando – mas, mesmo deixando tudo isso de lado, eu descobri que era impossível gostar de Robert Chase. Admito que eu raramente consigo alcançar o tipo de contato pessoal e caloroso que os seres humanos forjam de modo rotineiro, principalmente porque eu realmente não tenho sentimentos humanos. Mesmo assim, finjo isso muito bem; tenho sobrevivido no meio das pessoas a vida inteira e conheço todos os rituais e truques do contato social. Nenhum deles funcionou com Chase; e, por algum motivo, eu me flagrei relutando em continuar a tentar. Algo a respeito dele estava errado, ligeiramente fora de lugar, era pouco atraente, e embora não pudesse dizer o motivo, eu simplesmente não gostava dele.

Mas, havia recebido ordens para rebocá-lo por entre as tempestuosas águas da minha vida na polícia forense, e então rebocá-lo eu devia. E tenho de admitir, Chase era pelo menos diligente. Ele aparecia todas as manhãs praticamente no mesmo horário que eu. Na manhã de sexta-feira, até trouxe uma caixa de donuts. Devo ter ficado com ar de surpresa, porque ele sorriu para mim e disse:

– É o que você faz, certo?

– Às vezes eu faço – admiti.

Ele assentiu.

– Andei fazendo umas perguntas a seu respeito – ele falou. – Todos me disseram: “Dexter devora donuts”. – E sorriu para mim divertido, como se a aliteração fosse algum tipo de sagacidade maravilhosamente inteligente.

Se antes eu tinha ficado irritado com ele, agora estava positivamente fervendo. Ele havia ido além da mera caçoada; agora estava “perguntando por aí” a meu respeito, xeretando minha personalidade, encorajando todos ao meu redor a despejar tudo a respeito dos maneirismos e pecadilhos de Dexter. Isso me fez ficar com tanta raiva que só consegui me acalmar imaginando Robert atado com fita adesiva a uma mesa, e eu todo feliz pairando sobre ele segurando uma faca para peixe. Mesmo assim, comi os donuts dele.

Aquela tarde me proporcionou o único alívio que eu tive durante toda a semana. E parecia muito adequado que ele viesse sob a forma de um homicídio.

Robert e eu tínhamos acabado de voltar do almoço. Eu tinha deixado que ele me persuadisse a levá-lo para comer Comida Cubana de Verdade; e então tínhamos ido ao meu local favorito, o Café Relâmpago. Os Morgan frequentavam aquele local por duas gerações – três, se a gente incluir o fato de que eu tinha

levado minha filha, Lily Anne. Ela amou os [3] maduros.

Seja como for, Robert e eu tínhamos comido prodigamente ropa vieja, yuca, maduros e, é claro, arroz con frijoles negros. Tínhamos acompanhado tudo isso com Iron Beer, a versão cubana da Coca-Cola, e finalizado com um flan e uma montanha

de [4] cafecitas. Robert havia insistido em pagar, talvez tentando achar um jeito de comprar a minha afeição, então eu estava em uma disposição de espírito ligeiramente mais dócil quando voltamos para o nosso serviço. Porém, nem tivemos a chance de sentar nas cadeiras para refletir e fazer a digestão, porque, assim que entramos, Vince veio correndo, agarrando a sacola de lona que continha o seu kit.

– Pegue suas coisas – ele disse, passando rapidamente. – Temos um dos feios.

Robert o viu se afastar; seu ar de confiança relaxada pareceu escorrer dele e se acumular a seus pés.

– Isso é... ele quer dizer, ahn...

– Provavelmente não é nada – respondi. – Só um decepamento rotineiro com machete ou algo parecido.

Chase me encarou com os olhos arregalados por um instante. Então, empalideceu, engoliu em seco, e finalmente acenou.

– Tudo bem – ele disse.

Fui pegar minhas coisas, sentindo um cálido resplendor de satisfação ao ver o óbvio mal-estar de Chase. Como eu disse, às vezes não sou uma pessoa muito agradável.