Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 21 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 19

 

EU GUARDAVA MEU BARCO EM UMA RESIDÊNCIA PARTICULAR EM UM canal, ao sul do centro da parte mais movimentada de Coconut Grove. A casa ficava em uma rua silenciosa; os proprietários, um casal de idade, moravam em Nova Jersey durante a maior parte do ano e vinham para essa casa somente para os meses mais frios do inverno. Eles ficaram bem felizes ao aceitar o meu modesto aluguel, e eu fiquei igualmente feliz por pagar menos que a taxa corrente pelos direitos de docagem. E, além de um bom negócio, também consegui um lugar relativamente discreto para manter meu barco, o que de vez em quando era uma coisa muito boa, considerando que às vezes eu colocava Certos Itens nele e os levava para consigná-los a suas profundezas salgadas, e provavelmente era muito melhor que ninguém me visse fazendo isso.

E nesse dia brilhante e subitamente movimentado, ele teria valido o dobro do que eu pagava, porque a doca ficava a apenas dez minutos de carro da aromática caçamba onde Amila jazia em um repouso desajeitado.

Nem lembro quais foram as desculpas esfarrapadas que dei enquanto saía correndo da cena do crime e ia para 0 meu carro. Acho que eu disse que estava saindo cedo para uma reunião com a professora do meu filho porque estava preocupado com o trânsito; não era o melhor dos meus desempenhos, mas eu estava com pressa e ninguém pareceu perceber que não fazia muito sentido.

De qualquer modo, assim que passei pelo enlouquecedor rugido do trânsito no meio do Grove, dez minutos depois eu estava no meu bote e me dirigindo para o canal, um bocado mais rápido do que o limite máximo de velocidade permitido na área. Mas, tendo decidido fazer isso e fazer agora, eu havia me agitado até fervilhar de impaciência, rangendo os dentes só com a ideia de que não chegaria a tempo; que Patrick poderia ir embora, e eu perderia minha segunda chance e – provavelmente a última – de acertar as coisas do meu jeito particular e inimitável.

E então fui rapidamente através do canal, merecendo um olhar duro e maldoso de um velho sem camisa que estava na margem, enquanto passava a uns bons dez nós, e um grito para eu ser mais comedido quando alcancei a boca do canal e embiquei o barco em velocidade máxima.

Pela água, era uma linha reta até chegar ao lado mais distante da doca de Dinner Key, onde ardentemente esperava que Patrick ainda estivesse esperando e observando, e percorri a distância na metade do tempo que tinha levado de carro. Havia diversos trechos espinhosos de águas pouco profundas, mas passei direto por eles na velocidade máxima, ignorando a possibilidade de bater no fundo e perder uma hélice do motor, e teria ido ainda mais rápido se pudesse. Eu não conseguia me livrar do temor de que Patrick já tivesse partido quando eu chegasse lá, e rangia os dentes impacientemente, o tempo todo.

Pouco mais de vinte minutos haviam se passado desde a hora em que eu havia saído apressadamente da doca até o momento em que embiquei meu barco lentamente ao redor da primeira ilha barreira e entrei na marina; um tempo notavelmente bom. Mas não era a viagem para quebrar recordes que iria colocar um sorriso em meu coração e uma canção em meus lábios; era a visão do pequeno caiaque amarelo, ainda balouçando no mesmo lugar, enquanto eu desacelerava e diminuía para a velocidade regulamentar dentro da marina. Agora que sabia que ele ainda estava lá, eu podia sossegar, e não queria chamar a atenção de ninguém em terra – nem, os céus nunca permitam, da Polícia Marítima, conhecida como AquaNazis por aqueles de nós que já tinham sido parados e abordados pelos diligentes combatentes do crime em alto-mar.

E ao ver Patrick sentado ali tão tranquilo em seu caiaque, olhando fixamente para toda a confusão causada por seu grosseiro trabalho manual, passou pela minha cabeça que eu não tinha nem mesmo pensado em como eu iria fazer aquilo. Tinha me apressado em meio à agitação de ir embora para então chegar sem ter a menor ideia do que fazer quando chegasse, e agora que estava mesmo lá, eu não sabia o que fazer em seguida. Inspirei profundamente para me reequilibrar e examinei a situação por diversos ângulos. Estávamos em plena e forte luz do sol, e o sol brilharia claro demais tanto sobre o pecador quanto sobre o justo, e eu não tinha bem certeza de qual dos dois eu era; entretanto, fosse como fosse, eu estava bem iluminado demais.

Qualquer um em terra que me visse enfiar uma faca em Patrick não teria dúvidas quanto à minha vinculação – e havia uma grande multidão de prováveis testemunhas; pessoas em seus barcos na doca, mais pessoas se amontoando nas proximidades da fita amarela e, ainda pior, toda uma tropa de agentes da lei. Qualquer um deles poderia olhar no momento errado e enxergar a muito visível violência do merecido falecimento de Patrick.

Dei uma olhada ao redor. Atrás de mim, no lado mais distante de Patrick, estava a última ilha barreira que marcava o fim do ancoradouro de Dinner Key. Em terra, no lado oposto mais afastado, e, portanto, invisível dali, havia um parque – teria Patrick encontrado um local quieto lá para deixar sua motocicleta? Ele estaria basicamente deserto agora, sobretudo com alguma excitação real nas docas das proximidades.

À minha direita, a baía de Biscayne se estendia até o Turkey Point de um lado e Elliot Key do outro. Havia alguns barcos espalhados pela grande extensão de água, mas nenhum perto o suficiente para ver o que eu poderia fazer.

E o que seria? Eu estava me aproximando cada vez mais de Patrick, e mesmo assim estava com as mãos abanando, sem achar um modo de fazer o que realmente precisava fazer. Dei uma olhada ao redor, procurando inspiração. Então olhei de novo para Patrick flutuando ali tão insolente e feliz, e isso lançou uma pontada de irritação profunda correndo pelo meu corpo; isso era culpa dele. Ele estava me fazendo passar por todo aquele aborrecimento, aquele selvagem ignorante. O amador grosseiro e estúpido, flutuando ali sem uma só preocupação, enquanto gente melhor que ele estava sendo forçada a correr por aí loucamente e a improvisar um jeito de limpar sua sujeira descuidada e desajeitada. Isso era demais, era irritante demais, e soltei uma respiração sibilante e mal-humorada...

E inspirando de novo, eu senti a luz brilhante dessa tarde arruinada pelo sol percorrer lentamente o espectro de cores até chegar a um violeta frio e mortal; senti a preocupação e as palpitações se dissiparem e se afogarem nas sombras florescentes, e muito lento-e-feliz senti todas as coisas mundanas e maçantes caírem na lata de lixo, e toda a maravilhosa e firme prontidão da calma fria do Passageiro das Trevas se elevar das Profundezas de Dexter e se arrastar aconchegantemente a seu lugar para assumir o controle desse dia escuro de sol...

E nós estamos prontos.

E nós sabemos o que fazer, e como fazer, e sabemos que, de algum jeito, isso vai dar certo.

E então partimos para a ação.

Nós nos movemos lentamente na direção do idiota babão no caiaque, uma das mãos no acelerador, sentindo o ronronar do poder em prontidão ali, e o correspondente rugir do poder muito maior que estava indolente bem abaixo da superfície do feliz sorriso da pessoa que sai a passeio de barco e que nós alinhavamos em nosso rosto. Mais perto...

Não perto o suficiente, não ainda. Ele não nos percebeu ainda, não olhou, não desviou o olhar. Ele não faz nada a não ser ficar parado ali, recostado em seu bote de plástico amarelo, olhando fixamente na direção das docas como se aquilo fosse tudo que existisse no mundo, e fosse impossível haver uma Qualquer Coisa escorregadia se esgueirando em sua direção com tamanha satisfação gelada.

Ele fica olhando fixamente, inconsciente, observando apenas a doca, de onde um zumbido de júbilo flutua em nossa direção por sobre a água – um júbilo que não deveria estar lá na presença daquele horror desajeitado na Caçamba, um júbilo que somente poderia ser nossa silenciosa recompensa nesta meia-noite ensolarada, e um pequeno lampejo do olhar de relance nos diz que Jackie chegou e que a multidão esqueceu todos os motivos pelos quais se reuniu, e só consegue pensar em sua presença dourada, e meu companheiro inconsciente e sem suspeitas não é diferente, não mais cônscio do que seu caiaque do fato de que nós estamos apenas a uma distância de poucas batidas de coração de lançar nossos tentáculos sobre sua sonolência boquiaberta e levá-lo para muito longe do brilho e do calor da luz do sol e rumo ao escuro profundo e frio...

Mais perto...

E ele finalmente nos olha; algum ligeiro estalo ou zumbido do motor o alerta que nós estamos tão, ah, tão perto mesmo, e ele se volta para nos olhar assombrado, e lá está o rosto do Facebook, com seu sorriso secreto de olha-só-o-que-eu-fiz, e ele fica olhando fixamente sem ver por apenas um segundo, e então se volta para se concentrar de novo na mulher de cabelos dourados na doca, perdido uma vez mais em seus pensamentos famintos e não tendo nem uma sombra de uma pista de que Alguma Coisa muito mais faminta está prestes a devorá-lo.

Mais próximo...

E ele nos olha de novo, e dessa vez estamos um pouco perto demais para ser somente o casual trânsito passageiro, e uma carranca faz vincos em seu rosto, uma carranca que se transforma, lenta e deliciosamente, em alarme – ele reconhece esse rosto que nós estamos usando? Ele nos conhece e percebe que, finalmente, nós viemos para apanhá-lo, viemos para interromper sua diversão desajeitada e acabar com suas trapalhadas letais e acabar com ele de uma vez por todas?

Talvez conheça; endireita o corpo com um gesto brusco, agarrando seu remo como se ele pudesse salvá-lo do que está para acontecer, o que vai acontecer logo, o que tem de acontecer, e enfia as pás do remo na água com força – esquerda, esquerda, esquerda, e direita, enquanto gira o bote em um pânico crescente que dá um prazer muito grande de observar. O que imagina que está para acontecer? Captura? Prisão? A poderosa Mão da Justiça? Algemas de aço e que alguém vai informá-lo severamente de seus direitos, e então uma longa espera em uma série de cômodos pequenos e malcheirosos com barras de ferro nas portas e nas janelas?

Ele remaria mais rápido se soubesse que não havia cômodos com grades de ferro, nem algemas, e nenhuma captura se agitando alegremente à sua passagem? Que a única justiça para ele seria a final, vinda da Suprema Corte da Dor, e que seus direitos são limitados a apenas um: ele tem o direito de se livrar de suas amarras mortais e rodopiar na direção da Eternidade Sombria, e não há apelos, nem condicionais e nenhuma escapatória mesmo.

Porque nós estamos nos aproximando, não importa quão rapidamente ele reme. Nós estamos bem ali com ele, muito contentes por ficar esperando e vê-lo enfiando seus remos para dentro e para fora da água com tanta determinação. Esquerda, direita, esquerda, direita – cada vez mais rápido. Para ele, é uma corrida de velocidade, uma corrida rumo à segurança em uma velocidade realmente estonteante, rápido demais mesmo – para um caiaque.

Não para nosso barco a motor.

Para nós, com nossa mão no acelerador, é uma diversão, uma brincadeira com o rato antes de nossas garras aparecerem, e ficamos perto dele, cada vez nos aproximando um pouquinho mais, cada vez mais perto...

Agora ele está realmente se movendo muito bem, enfiando os remos na água com um ritmo rápido e bom, e olhando rapidamente para trás para nos ver sorrindo calmamente, felizes, deslizando para um pouquinho mais perto, e mais perto, e ele tenta, ele realmente faz um esforço muito grande para colocar seu barquinho amarelo em uma velocidade espantosa; os maxilares firmemente cerrados, as veias salientes em seu rosto e em seus braços, ele faz um esforço tão grande, com tanta valentia, como se o mero esforço pudesse deixar para trás as leis da natureza, e nós estamos tão impressionados com o esforço dele que quase fazemos uma pausa e aplaudimos.

Mas agora ele está perto daquela última ilha barreira, e está se voltando na direção do parque em terra firme e muito possivelmente de uma fuga, e ele quase consegue sentir seu sabor agora, a excitação de escapar, de saltar sobre a barreira de água e ir rumo à liberdade, sua fuga, conseguida com tanto sacrifício, daquele perseguidor estranhamente lento que ainda vai ociosamente atrás dele, lento e sorridente, e talvez haja um pequeno intervalo em seu pânico em que comece a pensar por quê.

Por que nós nos aproximamos tão lentamente? Por que nós não caímos sobre ele, ou gritamos, ou atiramos? Por que simplesmente sorrimos, e sorrimos, e somos o vilão, chegamos tão um pouquinho mais perto de cada vez?

Por quê? Ele ainda não sabe, não tem condições de saber, mas é realmente muito simples. Demasiadamente simples para esse estúpido simplório.

Nós estamos sorrindo porque estamos felizes.

E estamos felizes porque esperávamos que ele fizesse exatamente isso, e agora ele fez isso por nós, como se tivesse estudado seu papel em nosso Roteiro Sombrio, e fez todas as coisas certas bem certinho, e a hora é agora.

Agora, quando ele finalmente fugiu para o lado oposto da pequena ilha; agora, quando finalmente se afastou da marina, invisível nesse momento para as filas de iates, não podendo ser visto por causa da ilha, escondido das docas com sua multidão de tiras e de basbaques, e ainda a uns oitocentos metros da margem. Agora, quando tudo está perfeitamente Tão Certo quanto jamais poderia estar, e toda a nossa prontidão jubilosa e faiscante está pronta e polida e preparada para saltar neste momento perfeito...

Agora.

E nossa mão se flexiona acionando o acelerador, e o rugir da nossa felicidade engole o ruído crescente do motor, e nosso barco se move para a frente – não rápido demais, mas rápido o suficiente, mais rápido do que qualquer caiaque, não importa quão assustado esteja seu remador.

E ele não tem tempo para nada além de mais um assustado e estrangulado ganido de lamentação, um abrupto grito de protesto por isso poder chegar a acontecer para aquela maravilha que é ele, e então isso já aconteceu. Nosso barco bate na lateral do caiaque, bate com força, com toda a força do nosso peso e da maior velocidade, e toda a necessidade maldosa que segura o leme e continua a sorrir, sorri ainda mais agora, com verdadeiro deleite pelas coisas adoráveis que estão agora acontecendo para a ignorante excrescência que está no caiaque e merece tudo aquilo.

Mas ele não está no caiaque, não agora, não mais. Agora ele está na água, se agitando para todos os lados, lutando para agarrar algo que flutue, ou alguma coisa que faça sentido, e não há nada parecido ali a que ele possa se agarrar. O caiaque já está se afastando rapidamente, muito longe do seu alcance e emborcado, e a margem está ainda mais longe, e apenas um pequeno barco de pesca com um capitão muito sorridente pode ser visto nas proximidades. E então ele se debate lá na água, e tosse e borrifa água, e ele grita:

– Mas que porra...! – E nós ficamos cuidadosamente dando voltas ao redor e lentamente rastejamos entre ele e a margem.

– Desculpe! – nós gritamos, com perfeita insinceridade. – Não vimos você!

E ele se agita um pouco mais na água, mas então diminui a sua luta épica; porque não faz sentido que nós tenhamos batido nele daquele jeito de propósito, e ele está na água bem ali sob a luz do sol, e de qualquer modo nós estamos sorrindo e pedindo desculpas e realmente não há para onde ir. Então ele vem pela água enquanto nós nos aproximamos dele, nos olhando fixamente com suspeita e ressentimento, e ele grita de novo:

– Mas que porra de banho! – E há sinais muito evidentes do Tennessee em sua voz. – Cê me viu!

– Desculpe! – nós dizemos de novo e procuramos abaixo de nós, sob a ponta do barco, o gancho, onde ele se aninha em suas amarras, e o retiramos e o erguemos. – Segure isto! – nós gritamos, alegres. – Nós vamos tirar você daí!

Ele pisca sem entender e olha fixamente o gancho do barco enquanto balança perto de seu rosto.

– Quem é nós?

Somos nós, é claro, o Nós Sombrio, o não-tão-visível mas ah tão-forte e ardiloso Nós do sorriso interno sombreado, o sorriso feliz e maldoso que se expande para fora vindo do âmago gelado e subindo para a máscara de burrice luminosa que nós usamos para ocultar os dentes pontiagudos – mas nós não dizemos isso para ele; nós não lhe dizemos que ele já foi considerado excessivo por não mais do que este sorriso muito real e muito feliz – pelo contrário, nós não dizemos nada além de “pegue o gancho!”, e acrescentamos um alegre “opa!”, quando o gancho do barco, aparentemente em um movimento não intencional, se choca contra a têmpora dele. Uma batida pequena e cuidadosa, criteriosamente elaborada para parecer um acidente, e perfeitamente calculada para deixá-lo tonto só o suficiente, de modo que por um instante frágil e sufocante tudo fica ligeiramente nublado para ele e ele respira água.

– Desculpe! – nós gritamos, enquanto ele começa a cuspir e entra em um pânico atordoado e de olhos arregalados. – Pegue o gancho do barco! – nós berramos, com uma premência mais apavorante em nossa voz enquanto nos afastamos lentamente do lugar onde ele se debate na imensidão profunda que logo vai ser o seu lar.

E ele se estica para pegar o gancho do barco, uma onda de pânico enlouquecido e gratificante que o ergue para fora da água só o suficiente para que ele possa aferrar as duas mãos frenéticas no cabo do gancho do barco.

– Ótimo! – nós dizemos com alívio cheio de alegria, porque nós o pegamos agora. Fisgamos nosso peixe, enfiamos irremediavelmente o anzol na carne macia de sua estupefação salivante, e então nós o puxamos, trazendo-o para mais perto e para o lado do barco. E rebocamos nossa presa para cima, para onde ele possa colocar as duas mãos na borda do barco e soltar a vara, e nós soltamos o gancho do barco para nos ajoelharmos no deque e aparentemente oferecer-lhe a mão esquerda para ajudá-lo a vir para a frente, para cima, para dentro do barco.

Somente a mão esquerda, mas ele a pega; nós o puxamos um pouquinho mais para cima. E ainda sem se dar conta e tonto e encharcado, ele fica lá largado, uma parte do corpo na água, a outra, fora; do mesmo modo que está agora, neste momento perfeito, maravilhoso, precipitado e não planejado, já meio pendurado para fora da vida.

Ele segura nossa mão esquerda, balançando lá entre tudo e nada, e nós o seguramos bem ali, nossos rostos próximos um do outro. Nossa mão esquerda apenas, e ele procura a mão direita para erguê-lo completamente, e não a vê, e olha de volta para nós com uma confusão misturada com raiva, alarme e desespero.

– Mas que porra?

E o momento é este – o momento pelo qual nós tínhamos esperado e tínhamos planejado por muito pouco tempo, mas nós hesitamos, porque não é certo. Ainda não provamos que ele é culpado, não temos a segurança exigida pelo Harry e não planejamos de verdade, e por um instante fazemos uma pausa, balançando em um barco incerto em um mar de dúvidas.

E Patrick percebe isso também, e vê que, seja lá o que esteja acontecendo, não é o que ele pensa que deveria estar acontecendo, e com seu rosto tão perto do nosso, conseguimos ver que está se recompondo para alguma ação com propósito, algum salto ou ataque súbito, e como sempre, felizmente, no momento preciso, nós sabemos exatamente o que fazer.

– Jackie Forrest – nós dizemos.

E funciona, como sempre funciona. Patrick fica imóvel. Por um instante, ele se esquece de respirar, e isso é uma pena, porque as respirações dele estão contadas agora, e a quantidade é muito pequena. E ele nos encara, tão próximos, e nós observamos os olhos dele – observamos e realmente sentimos uma estima profunda por esse trapalhão selvagem. Porque nós sempre precisamos da Prova do Harry para merecer esses momentos de fascínio e de êxtase, e não temos nada – mas Patrick vem nos ajudar.

Nós o observamos, e o olhar que surge em seus olhos brilhantes e estúpidos é tudo de que precisamos. Só com as quatro sílabas daquele nome, Jackie Forrest, tudo que ele fez e planejou fazer está lá em seus olhos, um desfile de imagens tão repletas de culpa quanto uma confissão de vinte páginas. Ele fez tudo, não há a menor dúvida, esse olhar não seria capaz de mentir. É ele, com toda a certeza, indubitavelmente, e, sem esperar nenhum tipo de não-eu-não-fiz, nós erguemos nossa mão direita, a mão que estava esperando tão pacientemente escondida, e enfiamos a faca que estava pairando ali, esperando exatamente por aquele momento, enfiamos a lâmina uma só vez e com muito cuidado bem no lugar certo, e Patrick se enrijece, ofega e fica nos olhando fixamente enquanto sente a faca penetrar e subitamente, terrivelmente, sabe o que está acontecendo. E nós observamos a lenta e frágil beleza daquele momento enquanto ele tremula através das duas minúsculas telas gêmeas de seus olhos azul-claros; o momento de negação indignada de que aquilo pudesse alguma vez acontecer com o eu especial e precioso, e então o luminoso florescer da agonia do mundo que se acaba quando ele entende que sim, pode, e então sim, aconteceu, enquanto o cuidadoso tique-taque do relógio biológico soa uma vez mais e então subitamente, e de modo impensável, para...

E então o momento mais belo de todos, enquanto aquele pensamento se afasta para sempre, aquele pensamento e todos os demais, se afastando com remadas, com todo e qualquer traço de tudo aquilo que significa Eu; eles se afastam em um turbilhão de águas escuras, se afastam do pequeno e inútil monte de carne e de propósitos que foi Patrick e rumo à maré crescente da infindável noite inexpressiva e despida de pensamentos; se afasta de tudo que ele jamais pensou ou jamais foi ou jamais desejou ser, se afasta da minúscula praia iluminada que era a vida e se encaminha para o rápido e infinito vórtice do Nunca Mais.

E nós observamos e ficamos espantados enquanto até mesmo aquela fagulha final fenece ha distância indistinta e a perene película de vacuidade cobre os olhos agora vazios. E a coisa que estamos segurando, a coisa que foi Patrick, assassino de mulheres, vivo com uma energia cheia de vida e ilimitada – aquela coisa agora não é mais que uma caixa vazia, um contêiner não amável que vai apodrecer e se desfazer mais rápido do que papelão barato sob a chuva, e enquanto vemos aqueles olhos ficarem vazios nós estamos realmente emocionados, como sempre ficamos: emocionados, transportados, elevados por um momento tão iluminado e transitório; então somos lançados para baixo de novo, esgotados, esvaziados de tudo que é importante, tão perto da felicidade quanto jamais poderemos estar.

Está feito. Nós fizemos isso, e isso acabou.

E agora as cores do dia deslizam para cima, para o lado mais brilhante do espectro, que é o lugar delas, e a lâmina dura e sombria daquela ação se funde uma vez mais em uma satisfação confortável e cansada de um serviço bem-feito, e eu puxo a coisa desajeitada e vazia para cima, sobre a borda do barco, e sobre o deque. Eu a deixo ali deitada e assumo os controles do barco, indo lentamente para longe da margem e rumo à tarde subitamente brilhante demais e vazia demais.