Dexter: Em Cena
Capítulo 22
VOCÊS JÁ PERCEBERAM QUE, DE VEZ EM QUANDO, A GENTE COMEÇA A ter a impressão de que o mundo todo é uma conspiração com o intuito de fazer você parecer um idiota completo? E se for uma criatura razoável com um conhecimento ainda que superficial de lógica, você se diz que tudo isso é mera paranoia; você se convence a esquecer isso e a persistir. Mas então alguma coisa acontece que faz você pensar que essa não é uma ideia assim tão absurda, afinal de contas.
Esse era claramente um desses momentos. Na minha frente, Debs estava com um sorriso malicioso. Cody e Astor, passando por mim para examinar o ambiente, me deram uma olhada e o mesmo sorriso malicioso também. E quando eu me voltei para olhar Jackie, lá, no rosto dela, estava o mais impiedoso dos sorrisos maliciosos.
– O que, hum – eu disse, superorgulhoso por ter conseguido não gaguejar –, o que está acontecendo aqui?
– Dexter, você vai trabalhar em um filme – disse Astor, com certa dose de maldade, embora não tanta quanto usava com Rita ultimamente. – Com estrelas... – Deu uma olhada rápida em Jackie e depois em Robert. – E você nem mesmo disse pra gente, ou trouxe a gente aqui, nada. – Ela me olhou então, um olhar frio e mal-humorado. – Você sabe que vou ser uma atriz e deveria se importar com a gente e ajudar a gente a aprender coisas e a fazer coisas legais e nem mesmo contou pra gente.
– Você devia ter contado pra gente – disse Cody baixinho, e aquilo doeu mais do que o desprezo de Astor.
– É, mas a escola, e de qualquer jeito – eu disse; e, lamentavelmente, eu estava gaguejando dessa vez.
– Hoje é sábado – disse Cody.
– Você está agindo como um bocó – Astor me disse. E antes que eu começasse a conjecturar onde ela havia aprendido essa palavra, Deborah empurrou o carrinho pela porta e veio pelo quarto na minha direção.
– Rita me telefonou e me perguntou se eu poderia cuidar das crianças – disse Debs. – Algum tipo de crise horrorosa no trabalho envolvendo o euro e os preços de imóveis na Alemanha. O que você deveria saber, se telefonasse pra ela ao menos uma vez.
– Sim, mas – eu disse –, quer dizer, em um sábado...?
– Você é mesmo um bocó – disse Deborah, balançando a cabeça.
Olhei Jackie rapidamente; ela sorriu e confirmou com um gesto.
– Você – ela disse, toda feliz.
Todos ficaram me encarando com leve desprezo e diversão; parecia que até mesmo os dois bebês haviam aprendido aquele olhar, e fiquei esperando que Lily Anne falasse: “Bocó, papuuuu!”. Felizmente para mim, ela não falou, e fiz um imenso esforço para recolher os esfarrapados frangalhos da minha dignidade.
– Bem – eu disse –, estou muito feliz por ver vocês todos.
Eu poderia ter continuado com minha subserviência embaraçosa, mas Astor havia fixado o olhar em Jackie.
– Você é uma atriz? – ela perguntou, quase tímida, o que era um jeito de falar realmente muito estranho vindo de Astor.
Jackie olhou para ela e ergueu uma sobrancelha.
– Sim, eu sou – ela respondeu.
– Você é famosa? – perguntou Astor.
Jackie lhe dirigiu um sorriso educado.
– Eu acho que é uma questão de opinião – ela disse.
Astor ficou encarando-a mais uns instantes e então fechou a cara, me deu uma olhadinha e perguntou para Jackie:
– Por que você está com o Dexter?
Jackie me olhou procurando ajuda, mas eu não tinha nada para oferecer. A ponta da língua dela apareceu entre seus lábios, e ela inspirou profundamente.
– Dexter está... me ajudando com... um problema.
Astor balançou a cabeça.
– E que tipo de problema ele poderia ajudar você a resolver? – ela disse, e o velho tom sarcástico reapareceu em sua voz; até mesmo deu uma risadinha. – Você tem um problema com borrifos de sangue?
– Não, é claro que não – disse Jackie.
– É só isso que o Dexter sabe fazer – disse Astor. – A não ser... – Ela se conteve bem na hora, me olhou, e sua boca caiu e ela se virou rapidamente para Jackie. – Ah, merda. Vocês estão tendo um caso. – Ela tornou a me olhar. – O Dexter está dormindo com uma atriz famosa...! Isso é tão irado...!
Jackie enrubesceu de verdade, e minha irmã Deborah, prestativa como sempre, soltou um som que parecia um bufo divertido.
– O quê? Não! – eu disse. – Astor, isso é ridículo.
– Bom, então, o que é? – ela quis saber. – Por que você está saindo com ela?
Eu hesitei, e Jackie não tinha nada para dizer também. Deborah ergueu uma sobrancelha e deu de ombros, o que também não ajudava em nada. Aparentemente, eu tinha de resolver a questão, então tentei ir bem devagar.
– É um tipo de segredo – eu disse.
– Casos são sempre um segredo – disse Astor. Fiquei pensando se alguém iria notar se eu a atirasse pela janela.
– Astor, não é um caso – eu continuei, e então, inspirando profundamente, mergulhei de cabeça. – Jackie recebeu umas cartas assustadoras. Eu estou só... garantindo que nada ruim aconteça com ela...
O rosto de Astor se iluminou e ela deu um grande sorriso para Jackie.
– Você tem um perseguidor demente? Nossa! Você é mesmo famosa!
Jackie me lançou um olhar estarrecido, e eu disse:
– Astor, por favor, isso é segredo.
– Por que é segredo? – disse Astor. – Se eu tivesse alguém me perseguindo, ia querer que todo mundo soubesse.
– Jackie poderia perder o emprego – disse Deborah.
Astor franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça
– Por quê? – ela perguntou. – Não é culpa dela.
– É complicado – eu disse. – Então, por favor, não conte pra ninguém.
Astor me olhou como se estivesse calculando o que poderia arrancar de mim em troca de seu silêncio, e eu estava pronto para lhe prometer um novo pônei, quando o destino me sorriu uma vez mais. Do lado oposto do quarto, perto do hall de entrada, houve uma explosão de gritos irados e todo mundo se voltou para olhar.
Renny estava segurando Kathy, a assistente de Jackie, pelos pulsos; ela estava lutando para se afastar e gritando com ele, furiosa, para que a soltasse, ou ela iria dizer para todo mundo. Renny disse algo em voz baixa e ansiosa, e Kathy puxou seus braços com força e lhe deu um tapa.
– Eu falei pra você da última vez! – ela disse. – Juro por Deus, Renny, você só... – E então um dos moços magrelos da Sylvia apareceu, se colocando corajosamente entre os dois e falando palavras tranquilizadoras. E Kathy se afastou, lançando para Renny um último olhar duro, e disse: – Eu estou falando sério, seu cretino! – Ela se voltou rapidamente e veio com passos rápidos na direção de Jackie. Pela primeira vez, os braços dela não estavam lotados de papéis, e ela não tinha nem mesmo o telefone – sua marca registrada – em uma das mãos e o copo do Starbucks na outra. Ela passou direto por mim com um olhar duro e parou na frente de Jackie.
– Sylvia disse que não podia mais esperar por você e iria lidar com Robert em primeiro lugar...
– Tudo bem, Kathy, está tudo bem – disse Jackie, tranquilizadora. – Você está bem?
Kathy colocou os óculos no lugar com um dedo curto e grosso, e disse:
– Eu estou bem. Mas aquele bosta do Renny...
– Está tudo bem, já passou – disse Jackie, pegando Kathy pelo braço e a conduzindo para o sofá, no lado oposto do quarto onde Renny se encontrava.
Ele continuou a olhá-la, um olhar no rosto dele que era uma combinação estranha de raiva e de diversão. Então se voltou e viu que eu estava olhando; e quando nossos olhos se encontraram eu ouvi um suave sibilo vindo de uma Qualquer Coisa enrodilhada dentro de mim, e o distante agitar de asas reptilianas enquanto ela se esticava e se contorcia inquieta em uma quase prontidão para se erguer e encontrar a coisa que nos encarava lá da Qualquer Coisa sibilante de dentro de Renny...
E então Renny deu meia-volta, e o Passageiro bocejou, se virou e voltou para seu cochilo preguiçoso, e eu fiquei pensando uma vez mais se realmente havia visto aquela ameaça nos olhos de Renny. A que isso – se não fosse outra coisa – o levaria? E o que ele havia feito para Kathy? Ela parecia estar tão brava com ele como havia ficado comigo – será que Renny também a tinha feito fazer xixi no chão?
No entanto, antes que eu pudesse fazer qualquer outra coisa além de definir as perguntas, Astor voltou a falar, com a voz reverente e baixa:
– Oh, oh. É aquele cara do seriado de que a mamãe gostava. Está reprisando o tempo todo. Como é que é mesmo o nome dele...
Eu me virei para ver de quem ela estava falando. Infelizmente, ela estava olhando diretamente para Robert.
– Você quer dizer o Robert? – eu perguntei. – A sua mãe assiste ao antigo seriado do Robert?
– Robert Chase – disse Astor, excitada. Ela ficou olhando-o com um olhar faminto e passou a língua pelos lábios. – Eu vi o Robert na televisão umas trocentas vezes. – Havia um tom de desejo na voz dela que eu nunca havia ouvido antes; e percebi que, por mais ridículo que isso pudesse parecer para mim, Astor estava caída por um artista; e pelo Robert, pelo amor de Deus.
De qualquer modo, eu tinha minhas obrigações como seu padrasto, como ela já havia me relembrado, e como eu estava pronto para fazer quase qualquer coisa para tirar a cabeça dela do segredinho de Jackie, afastei o suspiro cansado que estava tentando surgir e o substituí por entusiasmadas palavras paternas:
– Quer que eu o apresente você? – E Astor me lançou um olhar que me fez pensar que talvez houvesse uma minúscula esperança de um dia eu conseguir reconquistar suas boas graças.
– Mas claro, pô – ela disse.
– Astor – disse Deborah, em tom de reprimenda.
– Eu quis dizer, sim, por favor, Dexter – ela emendou, com um olhar completamente artificial de inocência angelical. – Eu realmente gostaria de conhecê-lo.
– Eu também – disse Cody, teimosamente se recusando a ser deixado de lado.
– Bom – eu disse, pensando no Robert que havia chegado a conhecer bem demais –, espero que vocês não se decepcionem.
Astor bufou e balançou a cabeça.
– Dexter, ele é um astro – ela disse, sua voz cheia de pena pela minha burrice. – Como é que a gente pode ficar decepcionado?
Dava para eu pensar em uma dúzia de modos assim na hora, todos baseados em meu conhecimento de Robert, mas talvez fosse preferível deixá-lo arrasar os sonhos dela por conta própria, então eu só disse:
– Tudo bem. Vamos lá.
– Você conhece o Robert? – perguntou Astor. – Você conhece mesmo?
– Ah, sim, eu o conheço – confirmei. – Vamos.
Fui até o local onde Robert estava lutando com sua repugnante camisa havaiana; ela parecia ser uns números menor que o necessário; ele não conseguia fechar todos os botões.
– Eu não engordei um grama – ele estava dizendo para a mulher assustadora, a Sylvia. – Nem meio quilo em quinze anos... O tamanho está errado. Ou ela encolheu quando você a lavou.
– Eu não deixo nada encolher – a mulher rosnou para ele.
– Bom, alguém deixou... Dá só uma olhada nisto! – Robert manteve a camisa aberta e mostrou o peito nu. Era liso e sem pelos, como se ele o tivesse depilado, mas também deve ser dito que ele era magro e discretamente musculoso. – Não tem gordura aqui, gordura nenhuma!
A mulher se aproximou de Robert e deu um puxão na camisa; ela também não conseguia abotoar. Soltou um sibilo muito alto, e então arrancou a camisa dele com um gesto brusco.
– Teddy! – ela rugiu, e o moço que estivera carregando uniformes correu até ela.
– Sylvia, os distintivos dos braços estão todos caindo também, e nós não temos cola quente em quantidade suficiente para...
Sylvia jogou a camisa de Robert no pobre do moço, e ele a recebeu em pleno rosto.
– Pegue isso – ela rosnou. – Vá e arrume outra IGUAL a esta... dois números maior.
– Eu não sei se eles têm mais com este padrão... – disse Teddy com voz lamentosa, afastando a camisa do rosto. – O homem disse que eles...
Sylvia fechou os olhos.
– Vá – ela disse calmamente, mas com uma voz que estava fervendo com ameaças terríveis, e Teddy saiu voando com a camisa.
– Ei, Dexter! – disse Robert. Ele voltou os olhos para Cody e Astor. – Que é que cê tem aqui, hum?
Astor me olhou com um respeito novinho, que eu jamais vira antes em seus olhos.
– Você conhece mesmo! – ela disse. – Você conhece o Robert Chase!
– É claro que ele me conhece – disse Robert, alegre. – Ele andou me ensinando tudo sobre perícia a semana inteira. Para o meu novo seriado. – Ele se aproximou um pouco das crianças e estendeu a mão para Cody. – Tudo bem, parceiro?
– Oi – disse Cody, olhando-o com solenidade, e então lentamente apertando a mão de Robert.
Robert se voltou para Astor e estendeu a mão.
– E como você se chama, coisinha linda?
Astor enrubesceu. Era uma visão assombrosa, algo que eu nunca tinha visto em todos aqueles longos anos em que a conhecia. Ela enrubesceu e estendeu a mão para Robert como se estivesse tocando as Joias da Coroa.
– Astor – ela respondeu em uma voz tão baixa que poderia ter sido a de Cody.
– Astor – repetiu Robert, sorrindo para ela. – Um lindo nome para uma menina linda. – Continuou sorrindo, segurando a mão dela por uns segundos demais, e então se voltou para mim. – Caramba, Dexter, você disse que tinha filhos, mas não me falou que sua filha era uma modelo.
O rosto de Astor ficou ainda mais vermelho, mas Cody fechou a cara. Era óbvio que estava se sentindo deixado ligeiramente de lado.
– Bom, o que nós temos aqui? – disse a voz alta e assustadora de Sylvia, a bruxa dos figurinos. Eu me voltei, preparado para desembainhar uma espada e trucidá-la antes que ela tivesse a chance de devorar meus filhos, mas, pelo contrário, descobri que estava dando um sorriso imenso.
– Estes são os filhos do Dexter – Robert falou para ela. – Você sabe, meu consultor técnico.
– Nossa, mas eles são lindos! – exclamou Sylvia.
O rosto dela se fendeu em alguma coisa que provavelmente deveria ser um sorriso carinhoso; era difícil dizer, já que sua face obviamente não era feita para tais coisas. Mas ela sorriu e olhou para Cody e Astor com afeição materna, e eu não poderia ter me sentido mais espantado nem que tivesse visto um orçamento do governo federal equilibrado.
Sylvia se ajoelhou entre Cody e Astor, ainda com o sorriso carinhoso e que dava a impressão de ser falso em seu rosto.
– Olá, homenzinho – disse para Cody e colocou a mão no ombro dele. – Nossa... você é muito forte... você joga futebol americano?
Cody estava lutando com todas as forças para não parecer feliz.
– Só futebol – respondeu, com sua voz baixa demais.
– É um esporte maravilhoso – disse Sylvia com voz suave. – Como você se chama?
– Cody – ele disse. Estava visivelmente dividido entre o ressentimento por estar sendo tratado como um idiota, e a alegria por ter alguém prestando tanta atenção nele, mas parece que a alegria estava vencendo.
– Meu nome é Sylvia – ela lhe disse. – Sou a encarregada de todas as roupas que os atores usam no seriado.
Cody fez um gesto positivo com a cabeça.
– Figurinos – ele disse.
Sylvia bateu as mãos, deliciada.
– É isso mesmo! Então, você é inteligente também!
É claro que Astor não estava gostando nada de estar sendo deixada de lado. Ela revirou os olhos e disse:
– Ai, menino.
Sylvia olhou para o lado dela.
– E como você se chama, meu bem?
– Meu nome é Astor – respondeu. – Eu vou ser atriz.
– Bem – disse Sylvia –, todas as menininhas pensam assim.
Astor emitiu um som que era quase igual ao sibilar de Sylvia.
– Eu tenho quase doze anos – ela falou.
– Ei, ela pode ser – disse Robert, abrindo caminho até Astor. – Quer dizer, ela tem a aparência para isso, com toda a certeza. – E Astor ergueu os olhos para ele com adoração ainda maior, se é que isso era possível. – Então, Dex – disse Robert –, belos filhos, e que bom que você trouxe os dois aqui... mas o que você está fazendo aqui em um sábado? Hum... e com ela...? – Fez um gesto indicando Jackie e, embora eu nunca antes tivesse visto um gesto de cabeça expressar desprezo, de algum modo ele conseguiu fazer isso. Mas, afinal de contas, era um ator profissional. – Quer dizer, hum... – ele falou, erguendo uma sobrancelha, e com toda a clareza esperando uma explicação razoável.
– Oh, bem – eu disse, esperando que alguma coisa brilhante me ocorresse.
– O Dexter andou realmente trabalhando com o senhor a semana toda, sr. Chase? – perguntou Astor.
– Robert – ele disse com um sorriso que mostrava mais dentes faiscantes e brancos do que três seres humanos juntos deveriam ter. – Pode me chamar de Robert.
– Robert – disse Astor, fazendo uma experiência e gostando do som.
– Ei, você quer ser atriz. – Ele indicou o outro lado da suíte com um gesto de cabeça. – Eu tenho de pegar a minha camisa... Você quer ver como é o camarim de um ator?
– É claro, Robert – disse Astor, não soando tão madura quanto achava que tinha soado. Ela me deu uma olhada rápida com uma indiferença fria e acrescentou: – Eu já volto.
– Nós não vamos demorar nada, Dex – ele me disse, ainda me mostrando dentes em excesso. – Tudo bem?
– Hum – eu disse, com a vaga noção de que isso era como brincar com algum tipo de perigo. Mas, antes que eu pudesse esboçar uma objeção, Astor revirou os olhos.
– Está tudo bem. Vamos, Robert. – E ela me lançou seu melhor olhar adulto e adicionou: – Robert e eu já voltamos, Dexter. – Ela o pegou pela mão e os dois foram para o pequeno hall no lado oposto da suíte, onde havia três portas, que supostamente levavam para quartos e banheiros.
Robert me deu uma olhada; o rosto dele estava iluminado de uma maneira que eu ainda não tinha visto antes, e me lembrei de que ele tinha uma queda por mim. Ele provavelmente achava que poderia me agradar dispensando atenções à minha doce e inocente filhinha. Bom, ele não podia e logo descobriria quão doce e inocente Astor era. Assim que deixasse de lado seu culto ao herói e começasse a agir como ela própria, nós veríamos se ele gostaria disso. Eu acenei para ele; ele acenou de volta, e os dois desapareceram pela porta mais afastada. Quando desviei o olhar deles, eu vi Jackie se aproximar rapidamente de mim.
– O que ele disse? – ela perguntou em voz baixa, mas cheia de tensão. – Ele perguntou por que você está aqui comigo?
– Bem, para falar a verdade... – eu disse.
– Maldição – ela sibilou. – O que você falou pra ele?
– Nós fomos interrompidos – eu falei. – Eu não disse nada.
– Bom, ele vai perguntar de novo... temos de pensar em alguma coisa – ela disse. – Ele é o único cara que realmente não pode saber de nada a respeito de... Patrick. – Ela mordeu o lábio e aparentou estar muito preocupada. – Robert é... ele não poderia ficar mais feliz com outra coisa além da oportunidade de espalhar que há um psicopata atrás de mim e fazer com que eu seja demitida...
Ela fez uma careta e olhou ao redor para ver se alguém a havia ouvido; ninguém estava perto o suficiente. Cody estava a poucos passos de distância com Sylvia, enfiando alfinetes no manequim. Ninguém mais.
– Droga, eu não sei. A gente podia dizer... – Ela se interrompeu, franzindo a testa e olhando ao redor. – Já sei – ela disse, a inspiração e o alívio percorrendo seu rosto. – Onde está Kathy?
Uma porta bateu com força, e Kathy veio apressada do hall por onde Astor e Robert haviam ido. Jackie ergueu uma das mãos para chamar a atenção dela, mas Kathy não a viu; ela só passou rápida e ruidosamente pela porta que levava para a suíte e desapareceu.
– Mas que diabos...? – disse Jackie.
– Talvez ela tenha ficado sem café – sugeri, mas Jackie só ficou me olhando, e depois para a porta pela qual Kathy havia saído, franzindo as sobrancelhas, e então Robert e Astor vieram trotando em nossa direção. Robert estava abotoando a camisa, com uma expressão agitada. Fiquei pensando no que Astor teria lhe dito. Como eu sabia muito bem, ela era capaz de dizer algumas coisas bastante surpreendentes. A julgar pela expressão de Robert, essa tinha sido algo muito especial.
Assim como Cody, Astor havia sido afastada da Normalidade para sempre. Cody gostava de matar coisas, e com o aconselhamento adequado ele cresceria para ficar assim como eu, um monstro bem ajustado. Mas Astor – eu realmente não sabia. As meninas são diferentes, mesmo que a forma que a diferença dela fosse assumir ainda não estivesse clara. Partindo do meu conhecimento sobre o assunto, estava na idade em que nós logo descobriríamos.
Assim como eu, e seu irmão, Astor não conseguia sentir empatia pelas outras pessoas. Ela realmente não tinha emoções, a não ser que a gente incluísse na lista um mau humor avassalador. Eu havia pesquisado um pouco, só para estar prevenido, e era mais provável que Astor fosse seguir uma carreira que lhe permitisse manipular as pessoas de algum modo, e então abrir seu caminho para o topo fazendo qualquer coisa que fosse preciso, sem pensar em quais seriam as consequências para os demais. Aprenderia a fazer com que as pessoas fizessem exatamente o que ela queria que fizessem, às vezes simplesmente porque ela podia fazer isso, só para ver os outros sofrendo.
Além disso, eu não sabia mesmo de que ela seria capaz um dia; não havia demonstrado muito interesse por nada, a não ser por roupas e fazer os meninos sofrer, o que era praticamente normal para uma menina de sua idade. Na maior parte do tempo, ela parecia estar apenas com raiva, e grande parte de sua raiva se expressava verbalmente; às vezes dizia e fazia coisas que poderiam ser bastante surpreendentes para os despreparados. A julgar pela expressão no rosto de Robert, achei que ela havia feito isso com ele.
– Foi... Você viu? Nós só ficamos... um minutinho, algo assim, e, hum... para onde foi sua assistente? – disse Robert, com uma voz que soava tão agitada quanto seu rosto, enquanto ele dava uma olhada ao redor. Astor ficou parada ao lado dele, com um tipo de sorriso de superioridade em seu rosto.
– Você não tem sua própria assistente, Bob? – perguntou Jackie, com excessiva doçura.
Robert fez cara feia.
– Você sabe, nós temos de trabalhar juntos, então...
– Robert quer me mostrar o lugar onde fazem maquiagem, mas eu disse que tinha de falar com você antes – disse Astor. – Posso ir ver? Por favor, Dexter?
– É só ali do outro lado do hall – disse Robert rapidamente. E quando eu não dei resposta, ele prosseguiu: – E, ora! Você não me disse... como é que você veio parar aqui? Com as crianças e... – Ele deu uma olhada para Jackie e então engasgou. – E, você sabe, no sábado?
– Dexter vai ter um papel menos de cinco – disse Jackie. – Então, eu disse que iria mostrar para ele onde ficam os figurinos. – Ela sorriu para Robert, e não era um sorriso feliz. – Tudo bem, Robert? – ela falou, como se o nome dele fosse pronunciado entre aspas.
– O que é um “menos de cinco”? – quis saber Astor.
– Bom – disse Robert, olhando fixamente para Jackie e mostrando seus dentes para ela –, ele não pode ser pior na atuação do que alguns profissionais.
– Exatamente o que eu acho – retrucou Jackie, com doçura, e dessa vez ela mostrou os dentes. – Ele com certeza é melhor que... alguns atores.
– Uau! – disse Sylvia, se aproximando e se intrometendo. – Vocês dois ainda estão pensando nisso? Depois de todos esses anos?
– Algumas coisas duram para sempre – disse Robert, fazendo uma carranca. – Assim como herpes.
– Para o Robert, esquecer é tão difícil – disse Jackie, despreocupada. – E foi uma coisa tão INSIGNIFICANTE também.
Robert ficou muito vermelho e cerrou os punhos.
– Acho que você é a especialista no assunto.
– Bem – disse Jackie, ainda com a mesma doçura revestida de acidez –, você com certeza não é nenhum especialista.
Robert abriu a boca para dizer alguma coisa arrasadora. Mas ele não teve oportunidade; Sylvia o pegou pelo braço e disse:
– Já chega, vocês dois. Vamos fazer a prova das suas calças.
– Ele vai me mostrar o lugar onde fazem a maquiagem – disse Astor.
– O trabalho está em primeiro lugar – disse Sylvia. – Vamos, Bob.
– Robert – ele corrigiu, de modo automático. Sorriu para Astor e acrescentou: – Só vai levar uns dois minutos. – Sylvia segurou o braço dele com força, e com um último olhar duro para Jackie, Robert permitiu que a mulher o arrastasse dali.
Astor ficou olhando enquanto ele se afastava, fazendo um bico enorme, e então, com um olhar enviesado na minha direção para ver se eu iria impedi-la, foi atrás deles.
Olhei para Jackie, esperando ter uma dica a respeito do que estava acontecendo. Isso havia ido além das habituais alfinetadas entre os dois. O veneno deixava claro, assim como as palavras, que eles tinham um tipo de história juntos, e igualmente claro que era desagradável. Esperei que Jackie dissesse alguma coisa que pudesse me esclarecer. Mas ela só ficou olhando as costas de Robert, e quando ele finalmente entrou em um dos quartos da suíte, ela se voltou para mim e disse:
– Bom, agora temos de arrumar um menos de cinco para você.
– Isso aí é algum tipo de smoking? – perguntei.
Jackie sorriu e me deu umas palmadinhas no rosto, e embora aquela fosse uma declaração óbvia de que eu era um adorável retardado, a mão dela tinha um toque tão bom que eu me concentrei no adorável e perdoei o resto.
– Ainda tem muita coisa pra aprender – ela disse. – E tão pouco tempo. – Ficou com a mão no meu rosto por um momento, e eu consegui sentir aquele leve aroma de perfume vindo do pulso dela. Então, ela abaixou a mão.
– Já que a Kathy não está aqui, eu vou ter de fazer isso pessoalmente – ela disse. – Mas o diretor me deve um favor. Então...
Ela sorriu e, de um modo muito parecido com o de Astor para levar Robert, pegou a minha mão e me conduziu para fora da porta.