Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 9 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 7

 

PASSEI O RESTO DA MANHÃ MOSTRANDO PARA ROBERT COMO ENCONtrar vestígios de sangue com luminol. Não é muito difícil; você o borrifa sobre alguma coisa e quaisquer traços de sangue que possa haver brilham na sua frente, não importa quanto ele tenha sido esfregado. Boa coisa; e ele não corrompe o DNA, que está se tornando cada dia mais importante.

Robert parecia não se importar com sangue nas quantias ínfimas com as quais estávamos trabalhando, e as horas passaram rápido o suficiente, com não mais do que uma ligeira irritação quando as perguntas de Robert ficavam muito persistentes. Mas, pelo menos, ele não estava sendo agressivamente desagradável. Quando Jackie não estava por perto, ele não era assim tão irritante; e quando o relógio se aproximou do meio-dia, passou pela minha cabeça que, se eu pudesse aguentar Robert um pouquinho mais, ele provavelmente pagaria meu almoço de novo.

Então, eu o aguentei com paciência enquanto ele acabava com quase um frasco de luminol com toda a alegria; e eu estava pronto para lançar- lhe uma sugestão casual de que almoçar poderia ser uma boa ideia, quando meu telefone começou a tocar.

– Morgan – falei.

– Venha cá – disse Deborah. – Nós temos uma pista.

– O quê? – eu disse, muito surpreendido. – Você quer dizer que já recebeu resposta da rede?

– É – disse ela. – Duas.

– Não é possível – eu falei.

E não era. Era cedo demais para qualquer um responder à pergunta que ela havia feito. Deveria ter levado dias, até mesmo semanas, para que algum tira em algum lugar do país lesse aquilo, checasse seus arquivos, encontrasse um caso igual e respondesse. A maior parte dos tiras tem uma vida, e um monte de casos que já são um fardo excessivo; desse modo, embora a cooperação com um irmão da corporação fosse uma grande ideia, ela nunca seria tão importante quanto terminar um relatório antes que o capitão arrancasse sua pele, com um pouquinho de tempo de sobra para ir ao jogo de futebol do filho.

Mas Deborah estava alegando que ela tinha recebido não uma, mas duas respostas, e antes que eu pudesse fazer alguma outra pergunta, ela disse:

– Agora. – E desligou.

Deborah estava sozinha quando Robert e eu voltamos para sua mesa. Estava olhando feio para a tela do computador, quando entramos colocou os olhos em mim e deu umas batidinhas nela para me mostrar seu e-mail.

– Veja isto – ela disse. – Dois casos, em duas cidades diferentes; é nosso cara, sem a menor dúvida. – Deu um piparote no relatório impresso. – Corpo encontrado em uma caçamba, mamilo direito faltando, mesmo tipo de marcas nele...

– E a respeito dos olhos? – eu perguntei.

Ela confirmou com um gesto.

– O primeiro caso, há cerca de um ano, em Nova York, os dois olhos arrancados, um encontrado perto do corpo, o outro nunca foi achado. O segundo caso, hum... – Ela olhou o papel, fez um gesto com a cabeça. – É. Vegas. Tipo uns quatro meses atrás. – Ergueu os olhos da tela e sorriu, triunfante. – Um olho arrancado, traços de sêmen no rosto. É ele, Dex. Tem que ser.

Balancei a cabeça em assentimento. Provavelmente era ele. Mas saber disso não ajudava a prendê-lo e deixava uma pergunta crucial, talvez a mais importante de todas.

– Nova York, Las Vegas e agora Miami – eu falei. – Por quê?

– É mais difícil prender o cara se ele sai andando por aí? – sugeriu Robert.

– A maior parte dos serial killers nem imaginam que vão ser pegos – disse Deborah. – Eles ficam em um lugar, até mesmo em um bairro.

Robert me olhou e me perguntou:

– Verdade?

Eu confirmei com um gesto.

– É, é bem assim – eu falei. – Então, se esse cara não faz isso, é por alguma razão importante.

– Tudo bem. Então, por quê? – perguntou Robert.

– Ele poderia estar perseguindo alguma coisa, ou alguém, especificamente – eu falei. – Ou...

Uma ideia minúscula apareceu na minha cabeça.

– Todas elas são cidades em que acontece um monte de convenções.

– Exato – disse Deborah. – Podemos checar as listas, ver se alguma coisa combina.

– O que vocês estão dizendo – falou Robert –, é que ele poderia estar indo a todas essas convenções, assim, ele é um

shriner [6], ou algo parecido?

Deborah sacudiu a cabeça, cansada. Fiquei com pena dela e resolvi ajudá-la.

– Um shriner é uma possibilidade – eu disse para Robert, paciente. – Ele poderia fugir em um daqueles triciclos pequenininhos que eles usam nos desfiles.

– Os arquivos estão chegando por e-mail – disse Deborah. – Mas eu tenho detetives em duas cidades diferentes querendo voar para cá e atirar em alguém.

– Fale para eles ficarem em casa – eu disse. – Já temos o bastante com nossos próprios atiradores em Miami. – Olhei ao redor da sala, e ela parecia um tanto vazia. – Onde está a Jackie?

Debs agitou uma das mãos.

– Ela tinha uma entrevista – disse. – Matthews disse que ela poderia usar a sala de conferências.

Antes que eu pudesse fazer uma cara que mostrasse que estava impressionado com o fato de Matthews permitir que alguém usasse sua sala de conferências, Robert perguntou, brusco:

– Entrevista? Com quem?

Pode ter sido minha imaginação, mas me pareceu que o rosto dele havia perdido um pouco da cor, e ele certamente estava a cara da infelicidade.

– Ela não disse com quem – disse Deborah. – Uma revista, eu acho.

– Revista – repetiu Robert. – Como assim, uma revista daqui? – ele acrescentou, esperançoso.

– O capitão nunca deixaria que ela usasse a sala de conferências para uma revista local – Debs falou com tamanha inexpressividade que eu percebí que ela havia detectado a apreensão de Robert e estava se divertindo um pouco à custa dele.

– Merda. Eles deveriam ter... Ela realmente não disse qual? Eu já volto – ele falou, se dirigindo para a porta. – Tenho que telefonar para o meu agente.

Debs e eu o observamos se afastando, e eu falei:

– Você tem um lado maldoso muito legal, maninha.

Ela confirmou com um gesto de cabeça, o rosto impassível.

– Ajuda a passar o tempo. – Voltou-se para o computador e, depois de catar milho no teclado por um momento, disse: – Os arquivos chegaram. – Franziu as sobrancelhas e apertou mais umas teclas, resmungando baixinho:

– Maldição.

Minha irmã tinha muitas qualidades notáveis, mas competência com computadores não era uma delas. Mesmo assim, depois de um tempinho, a impressora começou a zunir, e Debs se afastou do computador com um olhar satisfeito.

– Nova York chegou aqui primeiro – ela falou.

– Naturalmente – eu disse e me inclinei para olhar as páginas à medida que a impressora as cuspia. As primeiras páginas vieram rapidamente; eram o típico relatório policial padrão, e Deborah as agarrou e começou a ler com ansiedade. A página três levou um bom tempo para imprimir – uma fotografia, provavelmente da vítima assim como ela havia sido encontrada, e esperei impaciente enquanto surgia, uma linha de cada vez. Ela finalmente saltou para fora da impressora e eu a agarrei, ansioso.

Hoje em dia, a tecnologia digital deixou as fotografias policiais muito mais coloridas e detalhadas do que nos tempos de outrora. Meu pai adotivo, Harry, havia sido forçado a olhar para granuladas fotos em branco e preto de cadáveres. Não deve ter sido tão divertido assim. Devido às câmeras com alta resolução de cores que nós utilizamos agora, dava para ver o maravilhoso arco-íris de pigmentos deixados pelos vários socos, mordidas e cortes profundos no corpo; do cor-de-rosa vivo e passando por todo o espectro até o púrpura escuro. Na verdade, a imagem era tão clara que dava para eu ver a marca de cada dente em uma das mordidas. Fiz uma anotação mental para dizer para Deborah checar fichas de dentistas para ver se encontrava algo que combinasse.

Estudei a fotografia cuidadosamente, procurando quaisquer pistas que pudessem me dizer alguma coisa nova. As similaridades eram surpreendentes. Essa vítima, assim como a nossa, era uma moça que quase com toda a certeza fora atraente antes da série de infelizes acontecimentos que haviam conduzido até esta fotografia. Ela tinha um corpo belo e bem cuidado, e cabelo cortado na altura dos ombros da mesma cor dourada que o da nossa vítima local. Analisei o corpo, percebendo que os ferimentos com a faca se localizavam nos mesmos locais, e eu estava tão entretido que vários momentos se passaram antes de eu me dar conta de um suave aroma floral nas proximidades e perceber que alguém estava atrás de mim. Olhei rapidamente, surpreso, ao ver que Jackie havia entrado silenciosamente na sala e estava parada muito perto de mim, dando uma olhada na fotografia por cima do meu ombro.

– Oh – eu disse. – Não ouvi você entrar.

– Eu era uma escoteira – ela disse. – Medalha de mérito em Excursionismo. – Não se moveu, e por um longo momento eu me esqueci da fotografia em minha mão e somente inspirei o perfume sutil que ela estava usando. Jackie finalmente estendeu um dedo ao meu lado e deu uma batidinha na fotografia.

– Esta é diferente – ela falou. – Eu quero dizer, não é aquela com que nós estávamos trabalhando.

– Exato – eu disse.

– Do que se trata? – ela perguntou, deslizando seu dedo ao longo do corpo na fotografia.

– Nós recebemos uma resposta para a pergunta que Deborah fez – eu disse.

– É mesmo? – disse Jackie. – Eu achava que isso demorava um pouco.

– Normalmente demora – eu falei. – A não ser que seja realmente um caso importante.

– E o que faria com que fosse importante? – ela perguntou.

– Uma porção de coisas – eu falei. – Ela poderia ser a filha de alguém.

– Com quase toda a certeza – murmurou Jackie.

– Ou talvez pelo fato de ela ser jovem, bonita, e não uma prostituta.

Jackie me olhou e ergueu uma das sobrancelhas.

– E branca?

Balancei a cabeça em aprovação.

– Claro. Mas ninguém jamais admite isso. Como você sabia?

Ela tornou a olhar para a fotografia.

– Eu fiz um filme para a televisão a respeito do assunto – ela disse. – Uma garota afro-americana desaparece, e a família não consegue que a polícia faça alguma coisa.

– Tenho certeza de que eles fizeram alguma coisa – eu falei. – Só que não tanto assim.

– De onde veio esta foto? – ela perguntou.

– De Nova York – eu disse e percebi que aquela era uma oportunidade incrível para aprofundar a educação forense dela. E, para ser sincero, eu também não queria que ela se afastasse. Então, acrescentei: – Quantas coisas você vê que são diferentes?

Ela me lançou um rápido olhar e me endereçou um meio sorriso zombeteiro.

– O que é isso, algo como um daqueles jogos para crianças? Encontre os sete erros?

– Esta é a versão homicídio – eu respondí. – Para adultos.

– Tudo bem – ela disse e começou a analisar a fotografia com toda a seriedade. Inclinou a cabeça para a frente, de modo que seu cabelo roçou em meu braço nu. Ela o puxou de volta para seu lugar e o colocou atrás das orelhas, revelando o pescoço. Dava para ver a pulsação dela em sua artéria carótida.

– Vegas – disse Deborah. Ela falou baixinho, murmurando, mas mesmo assim eu dei um pulo; tinha esquecido que havia mais alguém na sala. Debs deu mais uns cutucões irritados no teclado e o segundo arquivo começou a ser impresso. Uma vez mais, as primeiras páginas eram o relatório, e elas saíram com um zumbido rápido. Quando a fotografia finalmente deslizou para fora da impressora, eu passei ao lado de Jackie e agarrei a foto, e ela era exatamente como as outras duas: uma moça com uma silhueta bela e atlética, e cabelos dourados caindo até a altura dos ombros. Não dava mais para ter dúvidas a respeito do padrão; agora era uma questão de tentar descobrir por que esse tipo específico era necessário.

– Eu achei uma coisa – disse Jackie, apontando para a fotografia. Olhei para o ponto onde o dedo dela tocava o rosto da vítima. Não havia nada ali além da pele lisa.

– O quê? – eu perguntei.

– Bem – respondeu Jackie –, a vítima de Miami tem uma marca de corte aqui. Deixa eu ver Vegas. – Ela estendeu a mão, e eu lhe dei a segunda fotografia, me inclinando para olhar junto com ela. – É, você viu? Esta aqui também tem. Só um ligeiro corte no rosto. – Ela me olhou, seus olhos cor de lavanda brilhando. – O que isso significa?

– Raiva – eu falei.

– Relacionada a quê? – ela perguntou. – Porque bem aqui no rosto é como...

Mas antes que ela pudesse dizer mais uma palavra, Robert entrou alvoroçado na sala.

– Eu vou ter de encerrar aqui mais cedo – ele disse, feliz. – Tenho uma entrevista com a revista Screen Time em uma hora e meia. – Esperou que alguém lhe desse os parabéns, mas ninguém deu, então ele acenou na direção dos papéis que Deborah estava segurando, fechou a cara e disse: – Tem alguma coisa no relatório? Vocês acham que é o nosso cara?

– É, eu acho – disse Deborah. – É praticamente a mesma assinatura. – E, talvez por eu já tê-la cumprimentado por seu lado maldoso, ela acrescentou: – Dê uma olhada nestas fotos e veja por si mesmo.

Jackie o olhou, cheia de expectativa, e estendeu a mão com as fotos. Robert a encarou, e então os músculos de seu maxilar se enrijeceram, e ele se inclinou para a frente e as pegou. Engoliu em seco, fez um esforço óbvio para se controlar e começou a analisá-las.

– Jesus – ele disse. – Oh, meu Deus. – Devolveu as fotografias para Jackie. – Com certeza parece o mesmo cara. Quer dizer, não dá pra ter dois caras fazendo uma coisa dessas, certo?

– Provavelmente não – disse Deborah.

– Então, o que nós fazemos com essas fotos? – perguntou Robert.

– Comparamos as três – eu falei.

– Certo – disse Robert, com um gesto positivo de cabeça. – Estamos procurando o quê?

– Não sabemos até achar – eu falei. – Mas ele já fez isso três vezes, e a cada vez aumentam as chances de ele ter cometido um erro, deixado algum tipo de pista.

– Certo – disse Robert. Ergueu as sobrancelhas e acrescentou: – Ei, eu fiz um longa há alguns anos? Fiz o papel de um detetive alcoólatra, e tinha um assassino em série matando menininhas. E esse cara, meu personagem, ele é divorciado. Mas tem uma filha, e acontece que o assassino está perseguindo ela, então eu tenho de ficar sóbrio e pegar o assassino antes que a filha dele seja morta. – Deu de ombros. – Uma coisa de baixo orçamento, dinheiro de Israel. Mas muito autêntico, teve boas críticas. – Deborah pigarreou e Robert lançou um rápido sorriso para ela. – Certo. Desculpem. De qualquer modo – disse ele procura saber quando o assassino em série ataca, vocês sabem. Faz uma linha do tempo, e sabe que o cara mata alguém a cada seis semanas? Então, preparo uma armadilha para o cara na hora certa, e é assim que eu o pego. – Olhou para Deborah, e quando ela não disse nada, ele me olhou. – Então, eu pensei, talvez não seja nada, mas daria pra gente fazer isso com este cara?

– Por quê? – perguntou Jackie. – Nós não sabemos nem a cidade em que ele vai atacar da próxima vez. Então, como é que pode ajudar saber quando vai ser?

– A gente podia só dar uma olhada – disse Robert, teimoso. Ele ergueu uma sobrancelha na minha direção e disse, com um tipo de ansiedade infantil: – Que é que cê diz, Dexter?

Eu não conseguia imaginar de que modo saber o intervalo entre as mortes pudesse dizer alguma coisa útil para Robert. Por outro lado, Robert feliz e ocupado era muito mais fácil de engolir do que Robert bicudo.

– Tudo bem – eu disse. – De fato, isso não pode prejudicar em nada.

Deborah deu de ombros e estendeu os dois relatórios.

– Divirta-se – ela me disse.

Peguei os relatórios da mão dela, e Robert se aproximou e ficou parado do meu lado, forçando Jackie a se afastar. Ela foi até a mesa da Deborah e apoiou o quadril na quina, enquanto Robert estudava as páginas que eu segurava. O cheiro dele não era nem um pouco tão bom quanto o de Jackie.

– Beleza – ele resmungou e ficou revirando as páginas, tentando ver todas ao mesmo tempo.

Empurrei os papéis na direção dele.

– Aqui – eu disse. – Vegas está por cima, Nova York embaixo.

Ele agarrou os papéis e se recostou no peitoril da janela novamente, analisando-os.

– Certo, certo – ele disse baixinho, franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça. – Não, isso não faz sentido. Setembro de 2011 em Nova York; então Las Vegas em junho de 2012, e agora em outubro em Miami. – Ele ergueu o olhar, a decepção visível em seu rosto. – Não deu certo – ele disse. – O intervalo é diferente.

– Ah, bem... – eu falei.

Fixou o olhar nos relatórios uma vez mais, tentando fazer com que eles se comportassem direito, mas não parecia dar certo.

– Bom, merda – acabou dizendo –, acho que passou longe.

Ninguém discutiu a questão. Robert se inclinou e jogou os relatórios na mesa da Deb, arrastou os pés, cruzou os braços, descruzou-os, e então se ergueu, muito ereto.

– Bom – ele disse –, eu, hum, eu preciso me preparar. Para a minha entrevista. – Sorriu. – Colocar uma camisa limpa, arrumar o cabelo, vocês sabem. Para o fotógrafo. Então... – Olhou para Deborah, e depois para mim, possivelmente esperando que fizéssemos uma objeção. Quando não fizemos, ele deu de ombros e me falou: – Então tudo bem. Vejo você amanhã?

– Certinho e cedinho – eu falei.

Ele apontou um dedo para mim, como se fosse um revólver, e dobrou o polegar. Pum.

– Certinho e cedinho – repetiu. Acenou para Deborah, deu uma olhada rápida para Jackie e se encaminhou tranquilamente para a porta.

Ninguém disse nada por alguns momentos. Jackie pegou os relatórios que Robert havia jogado sobre a mesa e os analisou. Ela franziu as sobrancelhas e disse:

– Estranho.

– O quê? – perguntei.

Ela balançou a cabeça.

– Ah, não é nada – respondeu. – É só que... Eu quero dizer, parece que eu estou bancando a diva: “Tudo gira ao meu redor!”. E eu não sou, então... esquece.

– Eu não vou esquecer se você não me disser – eu falei.

Jackie cruzou os braços no peito e me lançou um sorriso meio arrependido.

– Dexter, não é nada – falou, e enquanto eu ainda estava pensando no fato de que essa era a primeira vez que tinha me chamado pelo meu nome, ela prosseguiu: – Acho que é só uma coincidência idiota. Quando Robert mencionou as datas, é só que... Eu estava nesses lugares, nesses dias. Trabalhando em alguns filmes. Nova York em setembro, Vegas em junho. – Ela balançou a cabeça e agitou os relatórios como quem não acha importante. – Como eu disse, esqueça que acabei de dizer isso. – Ela descruzou os braços e deu uma palmada nas coxas. – Então – disse, olhando para Deborah. – Qual é nosso próximo passo?

Deborah até pode ter respondido, mas se respondeu, eu não escutei nada. Porque, enquanto eu observava Jackie voltando a cabeça na direção de Deborah, o cabelo dourado balançando com o movimento, alguma coisa fez um clique nas Profundas Sombras do Sinistro Compartimento de Dexter, e olhei para as fotos em minha mão, ambas tão parecidas, e então...

Toda a luz se foi e eu estou respondendo ao urgente crepitar das asas negras e me ergo e me apoio nelas e deixo que elas me carreguem em um vento escuro e vamos subindo, subindo, subindo, rumo a um negro céu noturno, bem lá no alto, até um lugar onde dê para vermos, e subimos e voamos em círculos cada vez mais rápido até que nos encontramos no frio céu sem estrelas e olhamos e então ela está lá, uma única faixa do cenário aos nossos pés, de um tom vivo escarlate, e que é tão clara e nítida e inevitável como se estivesse iluminada por uma dúzia de sóis do meio-dia – e eu as vejo. E descemos em círculos rumo à luz de cor avermelhada, e eu estou com elas novamente, com as mulheres das fotografias, pairando acima delas e observando-as enquanto elas se contorcem e ficam salientes sob suas amarras, e cada um de seus músculos se contrai e cada centímetro da pele, cada nervo, cada osso, grita de dor, e isso não faz com que eu diminua o ritmo, isso me leva, pelo contrário, a fazer coisas novas e mais excitantes, e começo a fazê-las e ela se volta, para não ver o que vou fazer, e ela TEM de ver isso, ela tem de ME ver, ela TEM de observar, porque é por essa razão que estou fazendo isso, tudo se relaciona a isso, se relaciona ao fato de ela me VER, e então eu a agarro pelo cabelo, aquele cabelo dourado perfeito, e forço a cabeça dela a se voltar e vejo o rosto dela...

... e é o rosto ERRADO.

E isso me faz ficar furioso, e puxo o cabelo dela com força ainda maior, aquele cabelo dourado quase-perfeito, o cabelo não-tão-correto que se aproxima tanto e se parece tanto com o DELA, mas, ainda assim, não é o cabelo DELA, e esse rosto não é o rosto DELA, e não faz o menor sentido agora, embora eu visualize o rosto DELA, pelo contrário, quando eu acabo; mas ao olhar para baixo, para o que eu fiz, dá para sentir toda essa sensação se esvair, porque não está certo, não é ela, e um lampejo brilhante de raiva corre do topo da minha cabeça descendo até meu braço, e eu pego a faca, a faca fria e impessoal, e dou um talho naquele rosto, aquele rosto tão errado, porque não é...

– Ah – eu disse, e meus olhos se arregalam para a luz fluorescente da sala de Deborah, e não importa quanto tente afastar essa visão e encontrar um jeito de não acreditar nela, as coisas que vi não se alteram. Até mesmo sob a luz penetrante e feia da sala, a imagem é a mesma e, o que é até pior, eu agora vejo Deb e Jackie me encarando, incertas, como se tivessem me visto urinando em uma rua movimentada. – Ah, hum – digo. – É que, vocês sabem. Eu só pensei uma coisa.

– O quê? – perguntou Jackie, soando como se não tivesse muita certeza do que estava perguntando; e, como se estivesse deliberadamente caçoando de mim e da minha visão, ela balançou o cabelo de um lado para o outro sobre os ombros... o cabelo dela, o perfeito cabelo dourado dela...

– É você – eu lhe disse. – O que eu quero dizer é: isso realmente tem tudo a ver com você.

Jackie ficou vermelha e brincou com seu rabo de cavalo.

– Isso não é, eu quero dizer...

Mas Deborah interrompeu o modesto balbuciar de Jackie.

– O que você quer dizer que tem tudo a ver com ela? – ela quis saber. – O que você está dizendo?

– É a razão pela qual ele fez isso – eu disse e percebi que ainda estava sentindo o soar das asas de morcego do meu voo interior com o Passageiro, e eu não estava agindo na vida real como deveria. Inspirei profundamente e joguei com força as fotografias na mesa, ao lado de Jackie. – O cabelo é parecido com o seu – eu disse. – Todas têm mais ou menos o mesmo tipo físico. Os mesmos lugares, e nas mesmas datas em que você esteve. – Ergui o olhar e fixei meus olhos nos de Jackie e ela me encarou sem piscar com um ligeiro brilho de medo crescendo naqueles olhos cor de lavanda. – E então a faca faz o talho no rosto, a raiva... porque é o rosto errado. Porque não é você.

Fiquei olhando os longos e elegantes músculos em sua garganta se moverem enquanto ela engolia em seco, e então começou lentamente a balançar a cabeça. Mas, por mais que quisesse estar errado, eu sabia que não estava.

– É você – eu falei. – Ele as matou porque elas se pareciam com você.