Dexter: Em Cena
Capítulo 29
FOI UMA COISA MUITO TRISTE, MAS DEBORAH NÃO ARREDOU PÉ. ELA me evitou pelos dois dias seguintes, o que deu bastante trabalho para ela, já que nós dois passamos doze horas de cada um desses dois dias no mesmo estúdio. Era um espaço relativamente pequeno, e os locais onde tínhamos permissão para ficar vagabundeando eram ainda menores; contudo, de algum jeito, ela conseguiu descobrir um modo de garantir que minha sombra ofensiva nunca tocasse a sua sombra honrada. Eu tinha pensado que algumas horas de raciocínio pudessem acalmá-la e fazê-la relembrar que eu era a única pessoa viva de sua família, mas isso não aconteceu. E quando tentei conversar, ela se afastou com passos duros, sem nem ao menos lançar um olhar na minha direção. Se eu chegasse só a me inclinar para o lado dela, do outro lado do estúdio, ela sairia batendo os pés, indo tão longe de mim quanto seria possível sem sair do prédio.
E depois de certo tempo, o comportamento da minha ex-irmã começou a me deixar com raiva. Quem era ela para me julgar, e por que eu deveria me importar, se me julgasse? Ela queria me chutar para fora da vida dela? Ótimo; considere-me chutado. Isso não representava uma perda para mim – nós não tínhamos um parentesco real, não de sangue, que é o que realmente importa. Tínhamos crescido na mesma casa, mas eu não conhecia nenhuma lei que decretasse que um imóvel compartilhado era um elo que unia para sempre. Que diferença faria se nunca mais conversássemos? A conversa é algo supervalorizado, uma perda de tempo e de energia quando havia coisas mais importantes a fazer – como experimentar as pastelitas no bufê de comidas.
De qualquer modo, eu já havia abandonado o mundo minúsculo e restringido pela moral e pelas experiências de vida da Deborah e entrado em um mundo novo e muito melhor. Agora estava gravitando na órbita levemente perfumada de Jackie, com flores frescas e chocolates no travesseiro, e eu gostava dele muito mais do que havia gostado de servir de saco de pancadas para a Deborah.
Debs não queria ter nada mais que ver comigo. Tudo bem. Um laço complicado e irritante a menos que me prendia a uma vida que eu estava ansioso para deixar para trás.
Além do mais, eu tinha um trabalho a fazer. Eu aparecia em três cenas como Ben Webster, Perito Forense CDF, e em duas delas eu tinha palavras de verdade para dizer. Não muitas, é claro, mas eram importantes o suficiente para ser incluídas no roteiro, e senti que devia dar o melhor de mim. Então, mergulhei no trabalho brutalmente árduo de me lembrar das vinte e duas palavras que eu tinha de dizer na frente das câmeras – e, para ser justo, somente recordá-las não era o suficiente. Elas tinham de surgir na hora certa, e na ordem certa, e tinham de ser ditas de um modo que fosse convincente e interessante. Atuar era mesmo muito mais difícil do que a maior parte das pessoas possa imaginar, e passei muitas e longas horas procurando o jeito certo de dizer: “Os resultados do laboratório chegaram”. Eu encontrei onze inflexões diferentes antes de me decidir pela melhor.
Dois longos dias no set, e mais duas noites com Jackie, noites que pareciam excessivamente curtas. Nossas horas de ócio, bebendo mojitos e vendo o pôr do sol, eram agora uma lembrança distante: depois de passar doze horas no set, Jackie estava tão cansada que, quando voltávamos para o hotel, não dava tempo para nada além de uma refeição rápida, de um período curto, porém, intenso, de estudo do roteiro para o dia seguinte, e então um banho. É claro, o banho era mútuo e durava um pouco mais que o costumeiro. E daí, direto para a cama, para algumas horas de sono precioso, apenas ocasionalmente interrompidas por atividades não dedicadas ao descanso.
Não existe vida que não tenha seus enigmas, e a minha nova vida não era exceção. Para começar, Robert parecia andar me evitando. Talvez eu tivesse partido o doce coraçãozinho dele, e talvez ele tivesse sabido disso por intermédio da Deborah, mas não havia dúvida a respeito. Assim como minha irmã, ele fugia da minha sombra. Não havia mais convites para almoço, nada de perguntas enfadonhas a respeito de impressões digitais. Ele se transformou em algo indisponível e inabordável, passando o tempo todo ou em seu camarim, “Estudando Minha Parte”, ou bem longe do set, indo para ninguém sabia onde.
Até o Renny falava comigo de vez em quando, jeitosamente arrancando de mim alguns elogios a respeito de sua atuação no especial de sábado à noite. Mas Robert estava esquivo; se eu passasse por ele no corredor, ele me cumprimentava com um gesto e saía correndo antes que eu pudesse falar, e se o visse pegando uma xícara de café, ele me dizia um oi rápido e alegre, e então saía correndo, ainda mexendo sua xícara de café. Para falar a verdade, não me importava em não falar com ele, mas era um tanto desconcertante que isso fosse decisão dele, e me fez ficar pensando se eu deveria mudar de antisséptico bucal. Mas Jackie não havia reclamado, e ela com toda a certeza saberia melhor que Robert se eu estivesse sofrendo da Síndrome do Mau Hálito.
Passou pela minha cabeça que Robert estava me evitando por causa da raiva que ele sentia de Jackie, e por eu estar tão claramente com ela agora – e, para ser exato, a última vez que ele tinha falado mesmo comigo fora na suíte do hotel onde ficavam os figurinos, quando me viu chegar com Jackie. E então as crianças tinham aparecido, e cada qual tinha ido por seu caminho; e é claro que ele não poderia me confrontar, apontar um dedo irado para mim e me acusar de ser hétero. Tanto faz; eu não lamentava o caminho que tinha trilhado, mesmo que Robert provavelmente o fizesse.
Quaisquer que fossem suas razões, Robert estava me evitando, e isso fazia com que fosse muito difícil dar conselhos técnicos para ele. Mas dei um jeito de controlar meu desalento e ainda conseguir a minha cota de pastelitas.
E por algum outro motivo, esses dois dias também se passaram sem nenhum progresso para pegar o assassino de Kathy. Parecia impossível, pelo menos para Anderson, mas, de algum jeito, ele não estava mais perto de botar as mãos em seu criminoso do que estava no dia em que tinha nascido. Ele ainda estava convencido de que o assassinato de Kathy fora obra do mesmo assassino, e então, naturalmente, era muito difícil para ele encontrar qualquer pista. Eu teria ficado muito feliz em conduzi-lo até Patrick, especialmente se pudesse deixar os dois juntos debaixo d'água, mas, isso iria contra as regras: ser um cabeça de merda asqueroso não tornava Anderson um candidato adequado para receber minha Atenção Especial. Além disso, Patrick não tinha matado Kathy. E como eu realmente não tinha o menor interesse em saber quem a tinha matado, deixei que Anderson ficasse se movendo desajeitado em seu nevoeiro estúpido e ignorante. Eu não tinha mesmo gostado de Kathy, e não era minha tarefa levar o assassino dela à justiça. E, além disso, eu estava ocupado demais treinando minhas falas e gravando minhas duas primeiras cenas.
Minha atuação parecia ter sido razoavelmente bem recebida. Pelo menos, ninguém chegou a reclamar de verdade, e quando terminei a primeira cena, aquela em que dizia “Os resultados do laboratório chegaram” para Jackie, ela me deu um abraço.
– Você consegue dizer Emmy? – ela me perguntou, sorrindo.
– Eles dão um para o melhor coadjuvante CDF? – eu perguntei para ela.
– Agora vão ter que dar – ela disse.
Mesmo com a tensão pela espera do meu prêmio, os dois dias e noites passaram rapidamente. E, então, entramos no terceiro dia de filmagens.
Quarta-feira era nosso primeiro dia fora do estúdio, nas ruas cálidas e maldosas de Miami. Iríamos gravar no centro da cidade, a poucos quarteirões do Biscayne Boulevard, em uma rua lateral que margeava um grande estacionamento. Era minha grande cena também, aquela em que eu, no papel de Ben Webster, me afastava das minhas amarras mortais, e Jackie, como a durona detetive Amber Wayne, jurava se vingar impiedosamente sobre meu corpo que perdia o calor.
As ruas haviam sido isoladas por vários quarteirões em cada direção, e os soldados uniformizados mantinham uma barreira mais compacta do que jamais haviam feito em uma cena de homicídio. Dentro do estacionamento, um punhado de trailers grandes e com ar-condicionado havia sido instalado. Um era para todos os atores, o outro, para as atrizes; e um, para minha surpresa e meu deleite, havia sido dedicado inteiramente ao conforto e bem-estar da srta. Jackie Forrest – e isso queria dizer o conforto de Dexter também. Esse era um arranjo delicioso, embora Jackie me garantisse que era um procedimento padrão, um dos privilégios concretos de ser uma Atriz Principal. Era fato sabido que os verdadeiros artistas precisavam de privacidade em uma proporção direta ao salário e à posição deles nos créditos iniciais. Mas, na qualidade de novo namoradinho de Jackie, eu era muito bem-vindo para desfrutar de um pouquinho de semiprivacidade com ela, e não permiti que quaisquer noções antiquadas de solidariedade para com as classes trabalhadoras me impedissem de desfrutar do trailer luxuriante e fresco, e nem de sua geladeira bem abastecida. Pelo contrário, eu me vesti com as roupas de Ben Webster no quarto do trailer da Jackie, e então me estiquei no sofá com uma xícara de café e tentei não me sentir mal por causa de todos os outros atores que faziam pontas e que estavam amontoados em um único trailer. E de algum jeito consegui sobreviver à culpa devastadora, e, lá pelas dez e meia da manhã, eu finalmente fui chamado.
Um moço bastante excitado, de pele bem escura, e com sotaque haitiano, me levou para o local da rua onde eu deveria morrer. Eu poderia com toda a facilidade ter descoberto isso por conta própria, já que ele estava cercado de pessoas, de vans e de caminhões – um deles com um gerador imenso –, bem como câmeras, luzes, e uma cobertura listrada de azul e branco onde um homem, a quem eu reconheci como Victor, o diretor, se sentava com outras pessoas, empoleirados em cadeiras altas de lona na frente de alguns monitores grandes e de telas finas. Victor não olhou quando nós passamos. Ele parecia estar muito ocupado, dando instruções para seus cúmplices. Tentei achar um megafone, ou uma coqueteleira para martínis – qualquer coisa que indicasse as santificadas tradições de Hollywood –, mas havia apenas walkie-talkies e um copo descartável de café, vindo de um restaurante das proximidades, em cada mão.
Meu jovem condutor me guiou passando pelo centro de comando, explicando sem fôlego que estava estudando comunicação social bem aqui na Universidade de Miami-Dade, e que seu tio Hercule estava dirigindo um dos caminhões cenográficos para o seriado e tinha conseguido para seu sobrinho, ele próprio, Fabian, esse emprego fantástico de Assistente de Produção, que não pagava assim tão bem, mas era uma experiência fantástica, e será que daria pra eu passar por ali?
Eu passei. Fabian me levou até uma van branca com abertura na lateral, onde um homem alto com a cabeça raspada e um bigode elaborado estava sentado no para-choque. Ele ficou em pé quando nos aproximamos, e disse em voz alta:
– É ele, Fabian? Brilhante!
Mesmo sem o “brilhante”, seu sotaque dizia que ele era britânico. Ficou em pé e estendeu a mão, pairando muitos centímetros acima de mim e de Fabian.
– E aí, cara – ele disse. – Sou Dickie Larkin. Tenho de fazer você ficar todo ensanguentado.
Apertei a mão dele e Fabian desapareceu em um trotezinho. E quando o haitiano Fabian me entregou para o britânico Dickie, só pude ficar pensando; estaria eu vendo um exemplo de bons empregos norte-americanos sendo roubados por estrangeiros?
Mas Dickie não me deu tempo para refletir a respeito de paradigmas socioeconômicos. Ele me pegou pelo cotovelo e me conduziu até a porta lateral da van.
– Tire a camisa – ele disse e abriu as portas duplas.
– Mas acabei de vestir – eu falei.
– E agora você vai tirar – ele falou. – Tenho que deixar você preparado, não tenho?
– Ah – eu disse. – Você tem?
Ele se virou, segurando uma armação de arame, com quatro pequenos tubos vermelhos pendurados dela, e disse:
– Tenho. Não dá pra você morrer direito sem os seus petardos.
– Eu achei que petardo era um tipo de fruta exótica – falei.
– Achou errado, garotão. – Ele ergueu sua estranha armação e a sacudiu. – Isto... isto é um petardo. Quatro dessas coisinhas tão lindas. – Ele os estendeu na minha direção. – Que não tenho como colocar em você se você não tirar essa droga dessa camisa.
– Bom, então... – eu disse e tirei a camisa de Ben Webster, me sentindo um pouco estranho por estar na rua daquele jeito, meio sem roupa. Mas eu precisava me acostumar com essas coisas; agora eu era um ator, e meu corpo era minha tela, seminu ou não. De qualquer modo, Dickie nem olhou para o meu lado. Ele continuou a trabalhar, assobiando, alegre, e me explicando como os petardos funcionavam enquanto os colocava em seus lugares.
– Isto aqui não é nada além de um pequeno fogo de artifício – ele disse. – E um detonador. – Fez um gesto indicando a van. Tentei dar uma olhada por trás dele, mas ele era alto demais. – Eu tenho uma pequena caixa preta. Dá uma apertada no botão e bum! Erga os braços.
Ergui meus braços o máximo que pude enquanto Dickie passava a armação ao redor das minhas costas, e então procurou atrás dele quatro pequenas bolsas de plástico, cada uma delas cheia de um negócio que se parecia de um jeito perturbador com sangue. Meu rosto deve ter demonstrado algum sinal de ligeira repulsa, porque Dickie balançou a cabeça e disse:
– É sangue falso, garotão. Garantido, à prova de AIDS.
– Tudo bem – eu disse. – Ele vai, hum... fazer sujeira?
– Não se preocupe – ele falou. – Você não vai ter de limpar.
Ele tinha razão, é claro, e aquele foi um pequeno consolo – mas eu realmente não gosto de sangue, e a ideia de carregá-lo perto da minha pele daquele jeito era ligeiramente repugnante. Porém, sufoquei os meus sentimentos com um profissionalismo férreo e deixei que Dickie fizesse seu serviço. Ele colocou uma das bolsas na ponta de cada um dos pequenos tubos vermelhos.
– Os detonadores – ele disse. – Isso aí faz estourar a bolsa de sangue e dá a impressão de que você foi baleado. Barato e legal. Assim – ele disse e deu um passo para trás. – Tudo bem. Dá pra você se mexer direito?
Eu ergui e abaixei os braços, me mexi de um lado para o outro, dei uns pulos.
– Dá – eu disse. – Como, hum... Qual é a sensação?
– Você vai sentir um ligeiro choque – ele disse –, e essa é a sua deixa para você cair morto, entendeu?
– Quanto é “ligeiro”? – perguntei.
Ele piscou para mim.
– Não vai matar você, cavalheiro – ele disse. – Eu já passei por coisa pior. – Não era exatamente um grande consolo, mas, aparentemente, era toda a informação que eu iria receber de Dickie. Ele deu umas ajeitadinhas, recuou uns passos de novo e me olhou com ar satisfeito.
– Tá acabado – ele disse. – Bote a camisa e tá pronto para ir.
Voltei a vestir a camisa. Ela estava um pouco mais apertada com os fogos de artifício do Dickie amarrados por baixo, mas ele me garantiu que eles não apareciam, e em um piscar de olhos fui com passos largos para a rua para encontrar Meu Marco. Marco não era um cara: era um pedaço de fita adesiva no chão que indicava onde você tinha de ficar para que as câmeras pudessem mantê-lo em foco. Eu tinha aprendido tudo sobre Marcos ao gravar a minha primeira cena e me senti muito profissional ao perguntar para Martha, a Assistente do Diretor, onde estava o meu. Ela me levou até um lugar na calçada, apenas a poucos metros de onde uma passarela se erguia e passava por cima da rua.
– O carro vai passar por ali – ela disse. – Eles atiram, e você cai bem aqui. – Ela me mostrou a segunda marca feita com a fita, metade na sarjeta e metade na calçada. – Sua cabeça cai para cá – ela disse, fazendo um gesto na direção da passarela. – Tente não se mexer muito depois de cair no chão. – Ela deu uma palmadinha no meu braço. – Continuidade – ela disse e se afastou rapidamente, falando em voz alta em seu walkie-talkie.
Trabalhar na sétima arte é um bocado mais difícil do que a maior parte de nós jamais possa pensar. Você pode pensar que uma coisa tão simples quanto filmar bandidos matando Dexter seria uma coisa fácil. Afinal, pensem em todos os filminhos maravilhosos que nós fazemos todos os dias com nossos celulares. Mas a coisa de verdade, como a que estávamos fazendo naquele momento, é muito mais difícil. Há uma porção de pequenos gestos que têm de ser coordenados à perfeição, luzes e refletores que precisam ser movidos por aí, microfones sendo colocados e retirados, e muitos acessos de gritos rituais dados pelo diretor às outras pessoas. E então, finalmente, quando tudo está perfeito, um avião passa por cima de nossas cabeças e estraga o som, de modo que você tem de começar tudo de novo.
No grande esquema das coisas, minha morte era apenas um ponto no enredo, um detalhe pequeno e insignificante na história maior e mais importante da bela, mas inflexível, detetive Amber Wayne. Mesmo assim, foram necessárias sete tentativas diferentes antes que tudo acontecesse para a total satisfação do diretor, Victor. Era entediante, e é difícil parecer chocado e surpreso de modo convincente quando a mesma coisa acontece sete vezes em seguida. Mas tudo isso era parte da minha nova profissão, e se eu conseguisse abrir meu caminho escada acima e pegasse papéis maiores um dia, essas sete tomadas se multiplicariam em muitas mais – exponencialmente mais se fosse um longa-metragem em vez de um seriado para a televisão. Jackie tinha me dito que, em um longa-metragem com um orçamento respeitável, cento e cinquenta tomadas não eram uma coisa incomum.
Então, eu executei com toda a paciência a simples ação de olhar com surpresa para um carro que passava, uma vez depois da outra, até Victor ficar feliz – e então tive de aguentar ser baleado três vezes. Estou certo de que teriam sido mais vezes se não fosse pelo fato de que, a cada vez que os petardos explodiam e as bolsas de sangue estouravam, a minha camisa ficava arruinada; e eles tinham apenas três camisas iguais. Então, depois da terceira vez que passei pela rotina da amarração com o Dickie, e atuei como Dexter, o Cisne Moribundo, e caí com toda a graça na sarjeta, Victor berrou:
– Tudo bem, já chega. Tragam Jackie aqui. Não se mexa, Derrick.
– É Dexter – eu disse, me sentindo desconfortavelmente parecido com Robert ao objetar quando era chamado de “Bob”. Victor não respondeu; sem dúvida, ele tinha muitas ordens importantes para dar.
Não me mexi. Ninguém me perguntou se eu estava confortável, o que não estava. O sol estava quente para um dia de outono, e o chão era duro. Mas não parecia muito profissional solicitar um travesseiro ou um guarda-sol; então fiquei lá deitado e perdido em meus pensamentos profundos e sombrios. Fiquei pensando quando Jackie apareceria e fiquei pensando quantas tomadas teríamos de fazer. Fiquei pensando se nossos futuros espectadores seriam capazes de ver um elo especial entre nós dois nessa cena, nossa grande cena juntos. Eu tinha ouvido que “química” entre atores dava um toque mais do que especial para o trabalho deles, e certamente tínhamos química. Talvez ela transparecesse na tela. É claro, eu estava morto, e isso limitava mesmo meus processos químicos. Talvez não fosse essa a ocasião e o lugar para pensar em meu Emmy.
E fiquei pensando se haveria outras cenas em que pudéssemos ficar juntos no futuro. Havia, mesmo, um futuro para Jackie e Dexter? Não tínhamos mais discutido a questão, já que eu havia mudado de assunto de modo tão agradável na chaise longue, na varanda da suíte de Jackie. Seria esse apenas um romance de faz de conta, o tipo de acidente de trabalho de Hollywood, a respeito do qual a gente lê nas revistas de fofocas? Ou seria mais que isso, algo que duraria mais, um novo começo em um cenário completamente novo?
Do jeito que as coisas estavam agora, eu não iria sentir muitas saudades da minha vida antiga: Deborah, minha irmã, aparentemente havia rompido comigo para sempre; minha vida doméstica havia se transformado em uma irritante pedra de moinho pendurada em meu pescoço; e meu trabalho não era nada além da habitual execução de tarefas rotineiras. Eu não tinha amigos de verdade – além do meu barco, não havia nada que pudesse amarrar minha vida em Miami. É claro, havia o Meu Eu Noturno, o Diabólico Dexter que despachava os Malvados para seus merecidos destinos com uma lâmina afiada e um sorriso caloroso. Mas esse outro eu era transportável; e julgando por tudo que havia ouvido falar do mundo do cinema, eu tinha certeza de que havia um monte de Companheiros dignos em Los Angeles – ou, para ser exato, para onde quer que eu fosse. Sendo a natureza humana o que ela é, eu poderia ter a certeza de encontrar diversão de qualidade em todos os cantos deste velho e cansado mundo.
Havia um detalhe pequeno, talvez importante: Jackie ainda não havia me convidado para ir com ela quando partisse, e eu não tinha a menor ideia se realmente fazia parte dos planos dela para qualquer futuro que se estendesse além das noites no hotel. Eu nunca consegui entender seres humanos – sobretudo seres humanos femininos. E bem quando tenho certeza de que sei exatamente o que estão pensando, elas dizem ou fazem alguma coisa tão surpreendente e chocante que só posso ficar espantado e perceber uma vez mais que não sou a única criatura que está andando por aí com uma completa mentira colada em meu rosto.
Eu achava que Jackie gostava de mim – e talvez fosse além de gostar. Se não, ela com certeza estava me dando uma imitação incrivelmente convincente. Mas eu não sabia, e não sabia como descobrir, a não ser que acabasse fazendo a pergunta desajeitada bruscamente. E se a resposta fosse “não”, o que eu faria? Será quê conseguiria só apertar a mão dela e ir embora, voltar a ser o tão Decepcionante quanto Desnecessário Dexter?
Ouvi uma batida de porta de trailer nas proximidades, e Martha se aproximou de mim.
– Ela vem vindo – ela disse e se debruçou sobre mim falando acusadoramente: – Você se mexeu. – Arrumou meu braço esquerdo e depois o direito. – Assim – ela falou e virou minha cabeça uns dois centímetros para a direita. – E assim... tudo bem, ótimo. – Desapareceu, e um momento depois Jackie estava parada ao meu lado.
– Você parece tão natural – ela disse, com um sorrisinho.
– É muito mais duro do que parece – eu falei. – E o chão também é.
– Bom, então vamos ver se conseguimos fechar essa cena em uma tomada só – ela disse.
Em seguida, Victor estava berrando instruções, o pessoal das luzes começou a se mover ao redor dos refletores, e o sonoplasta passou por ali e ficou pairando nas proximidades, segurando um longo cabo com um microfone na ponta sobre a cabeça de Jackie.
Jackie desviou o olhar de mim e fiquei olhando enquanto ela passava pela estranha transformação pela qual sempre passava quando as câmeras se voltavam para ela. O rosto dela ficava mais frio, mais rígido, e seus traços pareciam se alterar sutilmente, até que não era mais o rosto de Jackie.
A primeira tomada começou – e foi interrompida abruptamente, por nenhum motivo que eu pudesse ver, antes que Jackie pudesse falar. Que enganação essa história de fechar em uma tomada.
A segunda tomada foi um pouco melhor. Jackie até chegou à parte em que ela vê meu corpo estraçalhado e exclama:
– Ben! Oh, meu Deus, Ben! – E então uma motocicleta passou rugindo em uma rua das redondezas, e Victor gritou:
– Corta!
Tomada número três, e Jackie chegou até a parte em que ela se ajoelha pesarosa ao lado do meu corpo, e diz, por entre os dentes cerrados:
– Eu vou pegar os desgraçados que fizeram isso. Eu juro! – Porém, em vez de olhar, vingativa, à distância, ela se voltou para o diretor e disse:
– Mas que inferno, Victor, tem uma droga de uma sombra bem no meu rosto durante todo o tempo, pô!
E assim foi. Longe de fechar em uma tomada só, nós ainda estávamos tentando acertar depois de onze tomadas. Eram apenas poucas palavras e poucas ações simples, mas cada uma delas requeria dúzias de ajustes precisos, e cada ajuste levava vários minutos, e o tempo não para, nem mesmo para o diretor. Os ânimos começaram a esquentar, até mesmo o de Jackie. Eu tinha descoberto que ela era uma pessoa diferente durante as horas de trabalho: exigente, impaciente e ocasionalmente – como agora – irritadiça. De jeito nenhum uma diva, pelo menos não em minha opinião. Mas ela sabia exatamente o que queria e não tinha vergonha de pedir.
O pessoal das luzes começou o seu rebuliço e mexeu as coisas por ali; o sonoplasta andou de um lado para o outro e uma vez ou duas gritou umas frases misteriosas na direção de Victor; Jackie ficou ainda mais nervosa; e esse tempo todo o pobre Defunto Dexter ficou deitado sem se mover no duro e desconfortável pavimento, e ficou pensando quando seu tormento iria cessar, e se já era hora de comer. E finalmente, provando uma vez mais que o sol ilumina os malvados tanto quanto os justos, eu ouvi Victor gritar:
– Mas que saco! – Houve um murmúrio premente de vozes apaziguadoras, e então Victor disse: – Merda. Tudo bem, pessoal, hora do almoço!