Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 23 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 21

 

NO SÁBADO DE MANHÃ, JACKIE DORMIU ATÉ TARDE. EU COSTUMO acordar cedo e, de qualquer modo, é difícil ficar cochilando na cama quando você está no sofá em um hotel de luxo. Então, acordei às sete da manhã e estava sentado na varanda com o café da manhã às sete e meia. O sol nasceu bem na hora, como havia feito nos dias de semana, mas eu tentei tomar meu café um pouquinho mais devagar, em homenagem ao fim de semana.

Bem lá longe na água, alguns barcos passavam, se dirigindo ao sul para as Keys, ou a leste para Bimini, para a Corrente do Golfo, e até para mais longe. Um grande barco pesqueiro passou rugindo bem em cima do buraco profundo onde eu havia colocado Patrick, erguendo uma grande onda em sua passagem. Fiquei pensando se aquela turbulência seria suficiente para livrá-lo de sua âncora; talvez ele subisse à superfície como um flutuador saído de um pesadelo e ficasse saltando atrás do barco em velocidade até as Bahamas.

Provavelmente não. E, se ele subisse, duvido que o grande barco fosse diminuir a velocidade, não com vários tipos de marlim à espera.

Bebi meu suco de laranja. Ele havia sido feito na hora e estava muito bom. E os waffles belgas também estavam bons, e o bacon estava preparado no ponto certo: crocante sem estar seco. E as frutas estavam excelentes também, talvez as melhores que eu já tinha comido – exceto pelas do café da manhã de ontem. E de anteontem. Elas não tinham o gosto das frutas que as pessoas normais compram no supermercado, que sempre têm um gosto aguado, como se tivessem sido injetadas com água para torná-las maiores e mais brilhantes. Estas tinham mesmo um sabor real. Elas tinham o gosto exato que a gente sempre acha que a fruta teria de ter, mas nunca tem.

Bebi. Isso era realmente uma maravilha para mim; pelo menos por enquanto. Fiquei conjecturando se a gente chega a se acostumar com esse tipo de coisa, cansado o suficiente para chamar o garçom e mandar tudo de volta se um pedaço de pera tiver uma mancha na casca. Eu não achava que o faria, mas, quem sabe? Viver desse modo altera as pessoas, e talvez eu acabasse me transformando em um idiota egocêntrico – como Robert, por exemplo. Não era possível que ele tivesse começado a vida do jeito que estava agora, ou os pais dele o teriam estrangulado no berço.

Então, talvez eu também mudasse, depois de alguns anos vivendo uma vida de cobertura. É claro, a gente nunca iria ficar sabendo; tudo isso iria terminar logo, logo demais, e eu voltaria para o mundo das peras com manchas e maçãs com gosto de água. Triste, deprimente e inevitável – mas por que deixar o futuro arruinar o presente? No momento, a vida era boa. Eu estava vivo, e Patrick não, e eu ainda tinha duas fatias de bacon e a maior parte das frutas.

Quando faltavam vinte minutos para as oito, eu tinha comido o último pedaço de cantalupo perfeitamente maduro, afastado o prato e enchido de novo minha xícara de café. Havia tentado, mas não dava mesmo para fazer o café da manhã se estender ainda mais sem me mover em câmera lenta. Então, enchi minha xícara e só fiquei lá sentado à luz do sol esperando Jackie. Apesar do café, o tamanho do café da manhã e o sol em meu rosto me fizeram sentir um pouquinho sonolento, preguiçoso, como uma lagartixa grande e bem alimentada sobre uma pedra.

Às oito e meia, eu estava saturado de café e cheio de impaciência. Nem havia motivo para ficar impaciente; era sábado, afinal de contas, e eu não sabia de nada urgente que estivesse acontecendo em algum lugar que requeresse minha presença. Mesmo assim, ficar sentado lá sem fazer nada me deixou nervoso. Suponho que seja demais reclamar por não ter nada para fazer a não ser ficar sentado na varanda da cobertura e tomar café. Há destinos piores, afinal – eu próprio causei muitos deles. Mas a verdade é que eu me sentia ignorado, até mesmo deixado de lado, e queria que Jackie pulasse da cama e corresse para o meu lado, de modo que eu pudesse protegê-la; algo duplamente estúpido, já que eu sabia muito bem que não havia nada do que protegê-la.

Mas faltavam quase quinze para as nove quando ela finalmente apareceu, e não foi nada do tipo pular-e-correr, mas foi mais um tropeçar-e-arrastar. Ela desabou na cadeira oposta à minha tão pesadamente como se tivesse sido jogada do telhado e me encarou por algum tempo antes de se lembrar como falar.

– Bum dgia – ela cumprimentou, em uma voz que estava em algum lugar entre um crocitar e um grunhido. Ela pigarreou, então fechou os olhos, balançando ligeiramente. – Café – ela disse, e se um resmungo pode soar ao mesmo tempo autoritário como uma ordem e queixoso, o dela soou. Eu a encarei; seu rosto parecia inchado, amarrotado, e o cabelo estava desarranjado e não tinha sido penteado.

Ela abriu um olho atordoado e crocitou:

– Por favor.

Estendi o braço para pegar o bule de café, e ela fechou o olho de novo. Enchi uma xícara e a coloquei na frente de Jackie, e quando ela não se moveu, eu me inclinei, peguei sua mão e a coloquei na asa da xícara. Ainda sem abrir os olhos, ela esvaziou a xícara e a estendeu na minha direção, grunhindo:

– Mais.

Tornei a encher-lhe a xícara. Ela bebeu essa um pouco mais devagar, e mais ou menos na metade dela o rosto de Jackie começou a encolher e a ficar do tamanho normal, e então ela abriu os olhos. Eles eram da cor de lavanda de novo, quase toda a vermelhidão havia desaparecido deles. Terminou a xícara, reencheu-a por conta própria dessa vez e bebeu devagar.

– Desculpe – ela disse depois de alguns minutos. Sua voz ainda estava um pouco rouca, e ela pigarreou. – Eu não consegui dormir esta noite – explicou, e ela soava quase humana de novo. – Então, bebi uns goles do rum escuro. – Deu de ombros. – Tudo bem, mais do que uns goles. Seja como for, não funcionou. Então, tomei uns comprimidos para dormir. – Jackie fechou os olhos e balançou a cabeça lentamente. – Cara, ah, cara, eles fizeram efeito. Eu acho que quase dei uma de Marilyn

– Uma de quê?

– Monroe – ela disse, com um sorrisinho. – Você sabe, deusa das telas toma dose fatal. Ai, minha cabeça.

– Você quer uma aspirina?

– Eu tomei umas quatro ou cinco – ela disse. – Elas vão fazer efeito em um minuto. – Franziu os lábios e suspirou profundamente. – É esse cara. O perseguidor. Patrick Qualquercoisa.

– Bergmann – eu disse, tentando ajudar.

– É. Eu só fico pensando: ele está lá fora, provavelmente me vigiando neste instante mesmo, talvez se esgueirando para dentro do hotel e mexendo na fechadura da porta...

Por meio segundo, brinquei com a ideia de lhe dizer que Patrick não estava se esgueirando na direção de nada a não ser rumo à provável decomposição. E em um mundo racional, por que não? Que pessoa sensata poderia levantar objeções quanto à remoção de um assassino brutal, que fazia coisas pavorosas com seres humanos e gostava disso? Mas, em um momento de reflexão séria, ocorreu-me que, se eu lhe dissesse, Jackie poderia perceber que essa era uma descrição perfeita para mim também; então, poderia não ser uma ideia muito boa. E, afinal de contas, carne apodrecendo dificilmente seria um tópico adequado para uma conversa durante o café da manhã. Então, decidi por lhe dar uma garantia mais banal.

– Há uma corrente na porta – eu disse. – E um Dexter bem armado e bem letal no sofá.

Ela pigarreou de novo.

– Eu sei, mas isso foi a noite passada, no escuro. Tudo fica maior e mais perigoso no escuro.

É claro que ela tinha razão quanto a isso, mas, em vez de concordar, eu só fiz um gesto e ela prosseguiu:

– E então eu comecei a pensar no que você tinha dito, como ele poderia descer do telhado em uma corda, e juro que dava para ouvi-lo arranhando a porta. Eu pulava da cama e olhava e... – Balançou a cabeça e sorriu com tristeza para o seu eu da noite anterior. – Bem idiota, certo?

– Bem – eu disse.

– É, obrigada, você não precisa concordar comigo. – Ela suspirou e olhou a grande bandeja na mesa com sua tampa de prata. – Esse aí é o café da manhã?

– O seu de sempre – eu disse.

Jackie ergueu a tampa de prata e olhou os míseros bocados de comida no prato. Fechou os olhos, deixou a tampa cair e se afastou da bandeja.

– Acho que preciso de alguma coisa um pouquinho mais substancial hoje – ela disse e se levantou. – Vou pedir uns ovos.

– O bacon também está muito bom – avisei.

O café da manhã de Jackie chegou tão rápido que talvez eles o tivessem preparado no hall fora do nosso quarto, e ela caiu de boca nele como se não tivesse comido por uma semana – o que não tinha feito mesmo, pelo que pude observar. As poucas e ínfimas porções de comida que ela geralmente mordiscava, em minha opinião não serviam para nada, e era um estranho tipo de alívio vê-la comendo alguma coisa que fosse mesmo qualificada como comida. E, até melhor, ela deixou duas fatias de bacon em seu prato. Elas pareciam terrivelmente solitárias, então eu rapidamente lhes ofereci um novo lar.

E já que o garçom nos havia deixado um bule de café fresco, enchemos nossas xícaras, e então, quase em uníssono, nós bebemos e nos recostamos.

– Melhor – disse Jackie. – Muito, muito melhor.

E era verdade. Ela tinha uma aparência quase super-humana de novo. A cor e as formas haviam voltado para seu rosto. Suas faces haviam emergido da névoa, e os olhos dela estavam claros e brilhantes, e bem cor de lavanda outra vez.

Por um ou dois minutos, somente bebemos ruidosamente nosso café em um silêncio confortável. Eu não me senti pressionado a dizer coisas inteligentes e interessantes e, aparentemente, nem Jackie. Nosso devaneio foi finalmente destroçado pelo som do interfone, clamando por atenção. Jackie se levantou bruscamente e murmurou:

– Merda. – E entrou pela porta de correr para atendê-lo. Ela voltou um momento depois, fazendo uma careta. – Kathy – ela disse. – Querem me ver nos figurinos. Ela vai nos encontrar lá.

– Mas é sábado – eu disse. – Quer dizer, as pessoas não tiram um dia de folga?

Jackie balançou a cabeça com um sorriso que dizia que eu tinha muito que aprender.

– Nós começamos a filmar na segunda-feira de manhã, Dexter – ela disse. – O pessoal que trabalha com os figurinos e a maquiagem tem milhares de coisas de última hora para fazer, e eles precisam de nós lá para poder fazê-las.

– Oh – eu disse, e com certo esforço assumi meu papel de guarda- costas. – O sedã vai estar aqui para nos levar?

Ela assentiu e se sentou, pegando sua xícara.

– Ele vai estar ali na frente em dez minutos. – Ela esvaziou a xícara, colocou-a na mesa depois e disse: – É melhor eu me arrumar. – Mas, antes de ter tempo de se levantar, o celular dela tocou. Ela balançou a cabeça e reclamou: – Isso não acaba nunca. – Mas quando o pegou e olhou a tela, disse, espantada: – Oh. É sua irmã. – Ela tocou a tela e levou o telefone ao ouvido. – Bom dia, sargento. Não, eu já tomei café da manhã. – Ela me olhou, divertida. – É claro. Ele chegou mesmo a acabar o meu... Eu sei, ele deve ter um metabolismo acelerado, porque...

É sempre bom saber que as pessoas estão falando de você, mas, a julgar pelos sorrisos idiotas que Jackie lançava na minha direção, a conversa não era das mais lisonjeiras. Mas a não ser rosnar e arrancar o celular das mãos de Jackie, não havia nada que eu pudesse fazer exceto suportar aquilo, então eu suportei, e a conversa aparentemente mudou para outro tema logo em seguida.

– É mesmo – disse Jackie. – Em seu dia de folga?... Eu sei, é por isso que tentei evitar isso... Não... Não, eu tenho de ir para uma prova... Uma prova de figurino. Para o seriado... Você sabia que nós começamos a filmar na segunda-feira?... Ah, bom, porque...

Ela olhou rapidamente na minha direção de novo, dessa vez com algo a mais em seus olhos. Desafio? Especulação? Não dava para ter certeza. Sua língua se insinuou entre os lábios, e sua boca se contorceu como se ela estivesse tentando controlar um impulso malicioso e não estivesse conseguindo.

– Claro, por que não? – disse. – É uma excelente ideia, eles vão adorar isso... Bom, eu não me importo... Não, ela é um pouquinho bruxa, mas acho que está tudo bem... Eu vou garantir que fique tudo bem... Claro, isso vai ser demais. Tchau. – Tocou a tela de novo e colocou o telefone de lado. – Sua irmã – repetiu, um tanto desnecessariamente.

– Eu sei – eu disse. – Como estou?

Mas Jackie já havia se levantado e saído às pressas.

– Tenho de me aprontar – ela falou por cima do ombro e então desapareceu, penetrando nos obscuros mistérios de fazer a maquiagem, o cabelo e qualquer outra coisa que as mulheres fazem quando Se Aprontam.

Dez minutos mais tarde, o porteiro interfonou para me dizer que o carro estava lá embaixo; e só uns dois ou três minutos depois disso, nós estávamos no elevador e passando pelo lobby. Benny, o porteiro, havia finalmente tirado um dia de folga, e o substituto dele estava à nossa espera na porta, olhando fixamente para Jackie com tensão visível misturada à reverência.

Embora não houvesse necessidade, eu fiz toda a minha rotina de sair e dar uma olhada ao redor. Tudo parecia bem. Não havia sinal de um perseguidor encharcado e incrustado de craca em nenhum lugar. O Corniche ainda parecia ser muito caro.

O motorista do sedã era o mesmo homem, o que parecia um pouco surpreendente. Abri a porta da frente e enfiei minha cabeça no carro.

– Você não tem os fins de semana de folga?

– Não se estou conduzindo Jackie Forrest – ele disse e deu uma piscada para mim. – E, além do mais, eu recebo hora extra.

Na qualidade de companheiro de trabalho, fiquei muito feliz por ele, fechei a porta e fui pegar Jackie. Fiquei imaginando se eu estaria ganhando hora extra. E me passou pela cabeça que nunca havíamos conversado a respeito do preço de meus serviços, e fiquei pensando em como eu poderia mencionar o assunto sem soar mercenário. É claro, eu era mesmo mercenário – mais do que isso, com Patrick aconchegado em seu cemitério aquático, agora eu era tecnicamente um assassino de aluguel, o que soava tão mercenário quanto uma pessoa possa desejar. Eu não havia pensado nisso por esse ângulo antes; parecia inimaginável que eu tivesse matado por dinheiro. Eu não havia feito isso de propósito – havia matado Patrick para poder relaxar por uns dias e desfrutar da vida de Acompanhante de Celebridade.

É claro, isso fazia com que tudo parecesse ainda pior: eu havia matado para ter o serviço de quarto. Que criatura terrível e vulgar eu era. Fiquei pensando se deveria me sentir mesquinho e ordinário, ou talvez somente empedernido e calejado. Quão mais baixo ainda poderia descer? Eu já era indiferente ao sofrimento de minhas vítimas, então não podia tentar fazer isso se encaixar em um novo eu ainda mais frio, se é que realmente havia um.

Eu não achava que tivesse mudado nada, mas a gente é sempre o último a saber quando mudou para pior. Talvez esse novo eu já fosse um monstro de egoísmo e de indiferença. O que viria em seguida? Perderia minhas maneiras à mesa, ou pararia de dar gorjetas em restaurantes? Mas, na curta caminhada de volta para o lobby do hotel, eu realmente não conseguia elaborar nenhum detalhe a respeito de como essa nova situação poderia me levar a agir, então decidi não me preocupar com isso e voltar a pensar em como poderia trazer o tópico Desembolso para Dexter à atenção de Jackie.

Quando acomodei a estrela no banco de trás do sedã, eu ainda não tinha conseguido pensar em nada que não soasse como uma acusação ou uma grosseria. Então, engavetei o tópico por enquanto e me acomodei para aproveitar o passeio.

Passamos pela cidade com um trânsito mais leve, a maior parte do tempo cada qual com seus pensamentos. Várias vezes peguei Jackie me olhando com o que poderia ser chamado de um sorriso malicioso secreto, e se por um lado é agradável ser o alvo da felicidade de outra pessoa, não senti felicidade nenhuma com a diversão malcontida dela – sobretudo porque eu não tinha ideia do que a estava causando.

A equipe e a maior parte dos membros menos famosos do elenco haviam sido hospedados no Hyatt Regency no centro da cidade. Era um trajeto curto em uma manhã de sábado e paramos na curta e circular entrada para carros na frente do hotel apenas quinze minutos mais tarde. Uma vez mais, desci do carro e fiz a mímica da vigilância eterna, olhando para todos os lados procurando sinais de um Patrick à espreita. Não vi nenhum traço dele – uma péssima notícia para os amantes de zumbis voltei para o carro e ofereci a mão para ajudar Jackie a descer.

O figurino tinha uma suíte no 24o andar, e entramos em um elevador lotado por três executivos, paramentados com ternos cinzentos e pastas, o que parecia um exagero em uma manhã de sábado. Talvez houvesse um encontro na igreja deles. A porta se fechou deslizando, e um deles deu uma olhada rápida em nossa direção, com ar importante. Ele afastou o olhar, condescendente, e então teve uma reação de surpresa.

– Cacete, é a Jackie Forrest?! – deixou escapar, e os outros dois se sobressaltaram e então ficaram nos encarando também.

Jackie sorriu graciosa e fez a parte dela, a noblesse oblige de que havia falado. Quase desejei que ela tivesse sido sem educação com eles, já que tive de manter a porta do elevador aberta por um longo minuto enquanto ela dava um autógrafo em uma das pastas com uma hidrográfica. Houve um toque distante, indicando que outra pessoa precisava do elevador, e a porta ficou batendo na minha mão enquanto tentava se fechar e atender ao chamado.

Mas finalmente Jackie se livrou de seu público admirador e saiu no 24 o andar. Quando as portas deslizaram se fechando, eu ouvi o babaca do autógrafo dizendo excitado para os outros:

– Caramba, mas que gosto...

E então, felizmente, as portas deslizaram se fechando na última sílaba, deixando que eu ficasse imaginando o que Jackie era, e fomos rapidamente pelo corredor até a suíte onde o Figurino havia se instalado.

Entrar na suíte era a mesma coisa que a gente se flagrar em uma colmeia no exato instante em que alguém lhe desse uma porretada. No olho do furacão, uma mulher alta de idade indeterminada estava parada com ar de comando ao lado de um manequim. Robert estava estacionado imóvel à frente dela, usando uma camisa pavorosa em estilo havaiano quando a mulher a puxou, fechando-a, e começou a abotoá-la. Robert dava muito a impressão de que estava com medo de se mexer, e olhei para a mulher com um pouco mais de atenção para ver o que poderia inspirar tal terror.

O cabelo dela era preto, com mechas cinzentas que poderiam ter sido pintadas, e ela usava óculos grandes com armação grossa espiralada para os lados e brilhando com diamantes falsos. A face dela estava fixa em uma expressão de mesquinharia permanente, os lábios comprimidos e os olhos semicerrados, como se automaticamente desaprovasse tudo mesmo e soubesse exatamente o que fazer para dar um jeito nisso e fazer você se sentir mal.

Uma fita métrica pendia ao redor de seu pescoço e ela estava gritando com alguém chamado Freddy, mas que bosta, pegue a porra do revólver de cola quente antes que ele fique gelado. E um jovem delgado, provavelmente Freddy, voou para longe dela apavorado, provavelmente para encontrar a porra do revólver de cola quente.

Embaixo da janela que ia do chão até o teto, em um sofá baixo e diversas cadeiras combinando, um punhado de homens e de mulheres se sentavam juntos, tagarelando. Em uma mesa perto delas havia um grande bule de café de cromo e algumas caixas de doces.

Outro jovem esbelto correu na direção oposta, os braços transbordando de uniformes azuis da polícia. Dei uma olhada em uma das mangas que balançavam; ela dizia POLÍCIA DE MIAMI. Fiquei pensando onde eles tinham arrumado os distintivos, já que eu tinha estado por perto da polícia de Miami a minha vida inteira e nunca tinha visto nada parecido com aquilo.

– Feche a boca – disse Jackie, e eu percebi que estava encarando cheio de espanto, boquiaberto, a movimentação. – Se a Sylvia vir alguma fraqueza, está tudo acabado.

Fechei a boca, e Jackie me pegou pelo cotovelo para conduzir-nos para a segurança. Mas, antes que eu pudesse dar mais um passo, a porta da suíte se abriu com estrondo, e eu me voltei para olhar. E, infelizmente para minha autoimagem, minha boca ficou aberta de novo.

Porque, parados lá, emoldurados pela porta, estavam Cody e Astor. Atrás deles, apareceu um carrinho de bebê com dois passageiros, e meu maxilar ficou ainda mais caído quando reconheci os dois passageiros como minha filha, Lily Anne, e o filho da Deb, Nicholas.

– Papuuuu! – chamou Lily Anne, estendendo os braços para eu pegá- la, e Nicholas ficou se jogando de um lado para o outro com a excitação do momento.

E, é claro, bem atrás deles, usando um sorriso de superioridade e empurrando o carrinho, estava a sargento Irmã Deborah.

– Oi, Dexter – cumprimentou Astor. – Este lugar parece uma loucura. Eles têm donuts, ou qualquer coisa assim?

– A tia Deborah falou – disse Cody, baixinho.

– O quê, mas o que que... – eu disse, e mesmo eu achei que estava parecendo um deficiente mental.

– Deixe de bobagem, Dex – disse Deborah. – E feche sua boca.