Dexter: Em Cena
Capítulo 8
DURANTE ALGUNS INSTANTES, HOUVE UM SILÊNCIO ABSOLUTO NA sala de Deborah. Debs ficou só olhando fixamente, e Jackie simplesmente ficou sentada lá, segurando os cabelos, os nós dos dedos das mãos brancos, os lábios ligeiramente afastados, parecendo muito pálida e, aparentemente, nem mesmo respirando.
– Eu, eu, como eu, hum... – ela disse.
– Merda, de onde vem tudo isso? – perguntou Deborah.
– É, hum... é só que tudo faz sentido – eu falei.
– Não para mim – retrucou Deborah.
– Eu não acho – disse Jackie em voz baixa. – Eu, eu não sei se...
Deborah empurrou sua cadeira contra a mesa, fazendo um barulho que, subitamente, pareceu terrivelmente alto.
– Isso é tudo merda, Dexter – ela disse. – A não ser que você consiga alguma coisa concreta para eu me apoiar.
– Você tem as datas e os lugares – eu falei. – E as vítimas todas se parecem com ela.
Deborah balançou a cabeça, os lábios franzidos, e disse:
– Um monte de mulheres se parece com ela.
– Deborah, eu tenho certeza a respeito disso...
– Bom, eu não tenho – ela disse, cortante. – Você não tem nada com que prosseguir além de um de seus... palpites? E isso não é suficiente. Não posso ir até a sala do capitão e dizer: veja o que descobri quando Dexter fechou os olhos. Não quando não é nem mesmo meu caso. Preciso de evidências. Não apenas de mais uma de suas merdas de detetive vidente.
Aquilo doeu um pouco mais do que deveria. Afinal, tinha sido ela quem tinha me obrigado a fazer aquilo, de um modo ostensivo demais para o meu gosto, e agora ela estava me dando uma bronca por ter feito uma coisa que eu não queria ter feito de jeito nenhum. E tinha feito aquilo somente por ela, porque a família tem de servir para alguma coisa, e tinha sido muito bem-feito. E agora ela me tratava com desprezo, caçoava de mim, acusava-me de sofismar. Então, eu vasculhei bem lá no fundo, para um retorno verdadeiramente doloroso, algo que pudesse mesmo acabar com ela. Mas, antes que eu pudesse ao menos dizer “Ah, é?”, Jackie falou:
– Ai, merda. – Me encarou e balançou a cabeça com movimentos bruscos de um lado para o outro. – Ah, meu Deus, Deborah... – Ela inclinou a cabeça para o lado e disse: – Eu quero dizer, sargento. Eu quero... ai, que merda.
– O que foi? – perguntou Deborah.
Jackie continuou com sua série de movimentos rápidos e espasmódicos com a cabeça.
– ... eu acho que ele tem razão – ela falou, com um fiozinho de voz.
– Por quê? – quis saber Deborah.
Jackie finalmente percebeu que ela ainda estava balançando a cabeça e parou. Ela inspirou profundamente, fechou os olhos, abriu-os e piscou para mim, e então olhou para Deborah.
– Tem um cara que me persegue – ela disse. – Ele andou... ele me mandou um monte de cartas.
– Que tipo de cartas? – perguntou Deborah.
Jackie passou a língua pelos lábios.
– Elas começaram, sabe, meio assustadoras; mas, era só uma coisa comum de fã. – Ela deu de ombros. – Recebo um monte delas. E, tipo, tem uma resposta padrão que minha assistente manda. Às vezes com uma foto. Ele não gostou daquilo. Queria algo mais... real. – Ela ergueu as mãos e agitou-as como se fossem dois passarinhos indefesos. – Alguma coisa pessoal – ela disse. Deixou as mãos caírem no colo. – O que eu não faço, nunca. Quer dizer, se é uma criança com câncer, ou algo assim, tudo bem, mas só uma carta comum de um fã, de um homem? Em geral, eu nem as vejo, quanto mais respondê-las. Minha assistente não as responde, e, se eles não entendem a dica, simplesmente os ignoramos. Mandamos as cartas deles de volta.
Jackie mordeu os lábios e olhou as mãos.
– E foi o que fizemos. Devolvemos as cartas dele, e... ele ficou furioso com isso. E escreveu de novo, mas... as cartas dele ficaram extremamente... desagradáveis. E ele devolveu a minha foto, toda... em frangalhos. Cortada, e coisas escritas nela, e, hum... – Ela chegou mesmo a engolir em seco, inspirou profundamente, olhou fixamente para mim e disse: – E um dos olhos arrancado.
– Porra – disse Deborah, em voz baixa.
– E as cartas diziam umas coisas horríveis mesmo. Ruins a ponto de Kathy... – Ela ergueu o olhar. – Kathy é minha assistente – explicou.
– Certo – disse Deborah.
– As cartas eram tão sombrias e pervertidas e ameaçadoras que Kathy ficou preocupada. Ela as mostrou para mim. Eu, hum... Eu não sei. Realmente não acreditei que aquilo fosse sério, mas... – Deu de ombros e ergueu as mãos e então as deixou cair no colo de novo. – Falei para ela mostrá-las para a polícia.
– E ela mostrou? – perguntou Deborah.
– Sim – disse Jackie. – Quer dizer, eu acho que sim. Eu realmente não... Quer dizer, Kathy faz o serviço dela muito bem, então, eu tenho certeza de que ela mostrou.
– Tudo bem – disse Deborah. – E daí?
Jackie balançou a cabeça.
– E daí, nada – ela falou. – Sei lá, eu nem pensei mais nisso, simplesmente achei que as providências tinham sido tomadas, e eu precisava trabalhar. Você sabe.
– Onde estão as cartas agora? – perguntou Deborah.
Jackie piscou.
– Hum. Não tenho a menor ideia. Tipo, eu poderia perguntar para a Kathy?
– Onde ela está?
– Ela está aqui, comigo – disse Jackie. – Quer dizer, aqui em Miami.
– Telefone pra ela – disse Deborah. – Preciso ver essas cartas. E quero o nome do policial que as viu... em Los Angeles?
Jackie confirmou com um gesto de cabeça, mordendo o lábio inferior.
– Isso – ela disse. – Quer dizer, no Valley, mas...
– Tudo bem – disse Deborah. – Onde está sua assistente agora?
– Eu, hum... provavelmente no hotel. – disse Jackie.
– Telefone para ela – ordenou Deborah, de novo.
Jackie fez um gesto de aquiescência e se voltou para sua bolsa, que estava em cima da mesa, na ponta. Pegou um celular e digitou um número, se afastando de nós para falar. Falou umas poucas frases em voz baixa, então desligou, recolocou o celular em sua bolsa e nos encarou de novo.
– Eu falei com a Kathy – ela disse, o que teria sido meu primeiro palpite. – Perguntei se o policial em Los Angeles ainda tinha as cartas. E ela vai procurar o cartão de visitas dele e me telefonar. – Balançou a cabeça, nos olhou e então, quase como se alguém tivesse puxado a tomada e tirado todo o ar de dentro dela, afundou na cadeira dos visitantes ao lado da mesa. – Mas que merda – ela disse em voz baixa. Fechou os olhos e soltou o ar lentamente. – Mas que merda – repetiu. Abriu os olhos de novo e olhou de Deborah para mim. – Vocês acham que ele... Quer dizer, vocês acham que eu estou mesmo correndo perigo?
– Sim – Deborah e eu dissemos em uma só voz.
Jackie piscou diversas vezes. Os olhos dela ficaram úmidos e a cor de lavanda pareceu escurecer uns tons.
– Ai, cacete – ela disse. – O que devo fazer?
– Vou pedir para o capitão designar alguém para ficar com você – disse Deborah.
– Alguém... você está querendo dizer, como um guarda-costas? Como outro policial? – perguntou Jackie, ansiosa.
Deborah ergueu as sobrancelhas.
– Tem alguma coisa errada nisso? – ela perguntou.
Jackie hesitou, franziu os lábios, e então entrelaçou os dedos sobre a boca.
– É só que... – ela disse. – Ai, cacete, isso vai soar tão... – Ela olhou para mim e depois para Deborah. – Posso ser muito honesta com vocês?
– Espero que sim – disse Deborah, com uma expressão de ligeira descrença em seu rosto.
– É que... Como é que vou dizer – disse Jackie. Balançou a cabeça, se levantou e foi olhar pela janela. Não tinha muita coisa para ver lá fora, mas ela continuou olhando. – Minha carreira está meio... que... Acabando? Não é bem... As ofertas não estão mais aparecendo com tanta rapidez. E elas não são tão boas. – Mordeu o lábio e balançou levemente a cabeça uma vez. – Isso acontece. Para uma mulher nesse meio, tudo acaba aos trinta anos, e eu estou com trinta e três.
Jackie ergueu os olhos e forçou um sorrisinho.
– Isso é informação confidencial – ela disse, e Deborah e eu balançamos a cabeça, assentindo.
Jackie voltou a olhar pela janela.
– Seja como for – disse. – A verdade é: eu preciso que esse seriado vá em frente e que ele faça sucesso, ou então minha carreira vai estar praticamente acabada, e não tenho alternativa a não ser, talvez, me casar com um negociante de armas grego, ou algo assim. – Suspirou. – E até essas propostas estão diminuindo – admitiu.
Já era difícil demais sentir muita dor e pesar por Jackie simplesmente pelo fato de que ela não estava mais recebendo propostas de casamento de bilionários em número suficiente – e ainda mais difícil ver como isso afetava nossa atual situação.
– Sinto muito – eu disse. – Mas... ahn...?
Jackie balançou a cabeça.
– Eu sei – falou. – Tadinha de mim. – Soltou a respiração e por fim acabou se voltando rapidamente da janela. – O negócio é o seguinte. Se a rede de televisão descobrir que houve ameaças sérias à minha vida, vai ter de dizer para a companhia de seguros, e os valores do seguro para as filmagens vão aumentar tipo, milhões e, já que nem começamos a filmar ainda, de repente é muito mais barato se livrar de mim e escalar o papel de novo com alguém mais jovem e, provavelmente, com melhor aparência.
– Impossível – eu disse, sem pensar, e Jackie me dirigiu um sorrisinho luminoso.
– Mais barato – falou Deborah. – Você quer dizer que eles jogariam você na rua para economizar dinheiro?
– Você está brincando, certo? – perguntou Jackie. – Eles colocariam Jesus na rua para economizar cinquenta pratas.
– Merda – disse Deborah.
– Nós vamos começar as filmagens na próxima semana – disse Jackie. – Se eu conseguir, digamos, uma semana de filmagem antes que eles descubram, tudo bem para mim. – Ela inspirou profundamente e olhou com seriedade para Deborah. – Eu sei que é pedir muito. Mas... dá pra gente não dizer nada pra eles por uma semana?
Deborah deu de ombros.
– Eu não preciso falar com uma rede de televisão – ela falou. – Não devo porra nenhuma para eles.
– E o Robert? – perguntei. Afinal, ele era meu companheiro quase constante agora.
Jackie estremeceu de verdade.
– Oh, que droga – ela disse. – Se ele descobrir, vai contar para todo mundo. Ele faria qualquer coisa para que eu fosse demitida do seriado.
– Seria meio difícil impedir que ele descobrisse – eu falei. – Ele está comigo o dia inteiro.
– Por favor – ela disse. – É só por uns dias.
– Bom – eu falei –, vou fazer o melhor possível.
– Obrigada – disse Jackie, e Deborah pigarreou.
– Eu não preciso falar com a rede de televisão – ela falou –, e não tenho de contar para o Robert. – O rosto dela tornou a assumir a cara de tira forjada a frio, a que a impedia de demonstrar qualquer coisa, não importava o que estivesse sentindo. – Mas eu tenho de contar para o detetive Anderson. É o caso dele.
– O quê? Mas isso... Não! – disse Jackie.
Deborah cerrou o maxilar.
– Eu tenho de contar – ela disse. – Sou uma policial que fez um juramento e agora possui informações vitais relacionadas a um caso de homicídio, e Anderson é o encarregado desse caso. Se não contar para ele, perco meu emprego. E provavelmente vou para a cadeia.
– Oh – disse Jackie, dando a impressão de estar muito murcha. – Mas isso é... Quero dizer, você acha que Anderson iria, hum, não contaria para ninguém?
Deborah desviou o olhar.
– Ele vai contar – ela disse.
– Provavelmente vai pedir uma coletiva com a imprensa – eu disse.
– Merda – disse Jackie. – Merda, merda, MERDA. – Ela afundou na cadeira, dando a exata impressão de ser uma boneca de pano desamparada. – Eu não posso... Não vou pedir para você arriscar sua carreira – ela disse com uma resignação tão desesperançada e nobre que fiquei com vontade de matar alguma coisa por ela... o Anderson, por exemplo.
Mas esse pensamento feliz foi instantaneamente substituído por um daqueles maravilhosos momentos de inspiração que acontecem apenas uma vez na vida, e só para os Justos.
– Ah – eu disse, e uma parte da minha surpresa cheia de alegria claramente transpareceu em minha voz, porque Jackie ergueu o rosto, e Deborah fez uma cara feia para mim.
– O que foi? – perguntou Jackie.
– Deborah tem de contar para o Anderson – eu disse, todo feliz, e repeti isso para enfatizar. – Anderson.
– Eu sei a porra do nome dele – reclamou Deborah.
– E você também conhece a porra da personalidade dele – eu falei.
– Caralho, Dex, mas o que...
– Deborah, pense um pouquinho – eu falei. – Pode não doer tanto assim.
Ela me lançou um olhar duro por uns instantes mais, então soltou uma respiração malévola.
– Tudo bem, porra, eu estou pensando – ela disse, e o rosto dela assumiu a expressão de uma garoupa cheia de más intenções e com uma ligeira dor de barriga.
– Maravilha – eu falei. – Agora, imagine isso em sua cabeça: você, sargento Deborah Morgan, Defensora da Fé e Protetora da Justiça...
– Comece a falar da porra da coisa importante, tá? – ela disse.
– Você vai falar com o detetive Anderson – eu disse, paciente. – Você, uma pessoa a respeito de quem ele tem uma opinião muito elevada.
– Ele está cagando e andando pra mim – ela rosnou. – E daí?
– E é essa exatamente a questão – eu disse e deixei que a alegria se insinuasse outra vez em minha voz. – Ele realmente está cagando e andando pra você. E você leva pra ele seu arquivo sobre o caso e diz que tem uma pista muito importante... você diz para ele, Deborah. Não eu, ou Jackie, ou o capitão Matthews... você diz para ele. Com testemunhas. – Eu olhei para ela cheio de expectativas e, tenho de admitir, dei um sorriso convencido também. – O que ele vai fazer?
Deborah abriu a boca para dizer alguma coisa que parecia que ia ser extremamente ofensiva – e então o queixo dela caiu perceptivelmente, os olhos se arregalaram, e ela inspirou profundamente.
– Cacete – falou com a respiração entrecortada e me olhou com uma expressão que se aproximava do espanto. – Ele não vai fazer nada. Ele vai perder a porra do arquivo. Porque sou EU.
– Na mosca – eu falei, e era uma coisa que sempre tive vontade de dizer. – Ele vai ficar com medo de que você ganhe todos os créditos, então não vai fazer nada. Mas você fez tudo de acordo com as regras, com testemunhas. Você está livre, o segredo da Jackie está seguro, e tudo está bem no mundo.
– Isso daria mesmo certo? – perguntou Jackie.
Debs ficou estrábica, esticou o queixo e fez um gesto positivo com a cabeça.
– Até que pode dar.
– Ah, o que é isso? – eu perguntei. – Isso merece, pelo menos, um provavelmente.
– Tudo bem, provavelmente vai dar certo – ela falou.
– E se você forçasse a barra um pouquinho? – falei. – Você sabe, dizer como a pista é importante, e que ele deveria largar tudo que está fazendo para trabalhar com o que VOCÊ descobriu?
Debs bufou.
– É – ela disse. – Isso daria certo.
– Oh – disse Jackie –, isso é... Dexter, você é tão... Obrigada, obrigada mesmo, a vocês dois.
– Mas mesmo que isso dê certo – disse Debs, se voltando para uma subitamente esperançosa Jackie –, não vai manter você segura.
– Oh – disse Jackie, murchando outra vez.
– Temos de descobrir esse cara antes que ele descubra você – disse Deborah. – E, nesse meio-tempo, temos de colocar você em um lugar que ele não possa alcançar.
– Eu, hum... Dá pra eu ficar com vocês, aqui no quartel-general, durante o dia? – perguntou Jackie. – E então no hotel à noite, com a porta trancada e com corrente.
É sempre agradável se deparar com a inocência, mas, nesse caso, eu achei que deveria dizer alguma coisa.
– Hotéis não são seguros – eu falei. – É fácil demais entrar no quarto e agarrar alguém. – Eu tentei dizer isso como tivesse muita certeza, e tinha, mas sem dar muito a impressão de que soubesse que isso era verdade por experiência própria, o que eu consegui. Deve ter dado certo, porque Jackie parecia acreditar em mim.
– Bom, então, hum. – Olhou implorante para Debs. – Para onde vou?
– Você não pode ficar comigo – disse Deborah. Ela deu de ombros. – Sinto muito. Não vou colocar Nicholas em uma situação de risco. – Nicholas era o filho dela, nascido alguns meses depois de o pai ter desaparecido em um ímpeto de nobre sacrifício. Ele era um bebê muito simpático, apenas alguns meses mais novo que minha filha, Lily Anne; e Deborah o adorava.
– Eu poderia contratar um guarda-costas, mas eles são sempre tão... – Ela suspirou de novo. – Algum SEAL aposentado e musculoso, com uma pistola e cheio de pose. Se o Talibã estivesse me perseguindo, eu estaria segura. Mas isto? Quer dizer, um psicopata homicida? Eu preciso de alguém que entenda mesmo do assunto. – Ela olhava diretamente para mim enquanto dizia isso, o que, suponho, era muito justo, mas, mesmo assim, ainda um pouco perturbador. – Não apenas uma pessoa que saiba atirar. – Ela voltou a olhar para Deborah. – É claro, é legal se eles sabem atirar também, mas... – Ela tornou a me olhar e piscou, os olhos pareciam grandes e úmidos. – Eu preciso de alguém em quem eu possa realmente confiar. Assim como confio em vocês dois. – Ela balançou a cabeça.
Continuou a me olhar, e se eu fosse realmente tão inteligente quanto gosto de pensar que sou, teria percebido onde aquilo iria chegar – mas, por algum motivo, não percebi.
– Dexter – ela falou –, sei que é pedir muita coisa, mas... tem algum jeito de que você possa... você sabe.
Devo ter ficado com cara de quem não sabia, porque ela caminhou na minha direção e colocou uma das mãos sobre meu braço.
– É só por uns dias – ela disse. – E eu pago o que você pedir, mas... Você faria?
Eu certamente estava pronto para concordar – teoricamente –, mas, mesmo assim, ainda não sabia o que ela estava me pedindo. Entendi que ela queria que eu ajudasse, mas eu não conseguia ver exatamente como poderia ajudá-la a encontrar um lugar seguro para ficar. Tudo em que consegui pensar foi em Jackie dormindo no meu sofá, com Cody e Astor passando por ela nas pontas dos pés para ir para a escola, e a imagem era tão inverossímil que eu nem consegui responder, a não ser para dizer:
– Hum...
– Por favor...? – ela pediu, com uma voz que era subitamente doce e um pouquinho rouca, e bem mais íntima do que um beijo. E embora ainda não soubesse o que ela estava me pedindo para fazer, eu queria desesperadamente fazê-lo.
– Bom, hum – eu falei, tentando soar muito disposto, o que pode ser difícil quando você não sabe com o que está concordando.
– Não é uma má ideia – disse Deborah, prestativa. – Eu posso ajudar você a dar um jeito nisso com Rita. – Acenou para Jackie. – E, na verdade, ele também sabe atirar – ela disse. Vasculhou a gaveta de baixo da sua mesa e tirou uma pistola Glock 9 mm em um coldre para colocar na cintura. – Você pode usar minha arma de reserva.
Olhei para a Glock e depois para o rosto implorante de Jackie, e a luz finalmente começou a se fazer.
– Você quer dizer – eu disse. – Quer dizer, você... Isso é, isso é... – E embora em ocasiões normais Eloquência seja o segundo nome de Dexter, eu não conseguia dizer nada que fosse ao menos inteligível.
– Por favor? – repetiu Jackie, e o olhar que ela me lançou teria derretido uma estátua de mármore.
Dexter, é claro, é feito de um material mais rígido do que qualquer outro mortal, e olhares implorantes vindos de uma bela mulher nunca tinham exercido o menor poder sobre Nosso Perverso Pelejador. E era uma ideia absurda, algo estranho demais até mesmo para imaginar. Eu, um guarda-costas? Fora de questão.
E, de algum modo, quando o expediente de trabalho terminou naquela noite, e todos os bons escravos assalariados trotavam conscienciosamente rumo ao aconchego e ao lar, eu me flagrei na varanda de uma suíte no Grove Isle Hotel, bebericando um mojito e observando enquanto um pôr do sol espetacular incendiava o céu às nossas costas, se refletindo em tons de laranja e vermelho e cor-de-rosa na água da baía de Biscayne. Havia uma bandeja com queijos e frutas frescas na mesa ao meu lado, e a Glock era uma desconfortável protuberância na minha cintura. E eu estava repleto de espanto em relação à inevitável noção de que a Vida não tem o menor sentido, sobretudo quando as coisas haviam dado uma virada extravagante e repentina rumo ao luxo surreal e não merecido. Terror, dor e náusea eu consigo entender; mas isso? Eu conseguia apenas supor que estava entrando em uma armadilha que me levaria a algo ainda pior. Mesmo assim, o mojito estava muito bom, e um dos queijos tinha um sabor excelente.
Fiquei pensando se alguém chegava mesmo a se acostumar a viver desse jeito. Não parecia possível; não fomos todos destinados a suar e a sofrer e a suportar privações dolorosas enquanto mourejamos infinitamente no abjeto esgoto que é a vida na terra? Como queijos com sabor acentuado, morangos frescos e luxo extremo se encaixavam nessa ideia?
Olhei para Jackie. Ela não tinha cara de quem jamais havia posto os pés no abjeto esgoto. Ainda tinha uma aparência viçosa, composta, e perfeitamente à vontade nesse ambiente opulento, como uma semideusa vagando pelo Olimpo. Era um contraste gritante com a cena que me havia acolhido em casa um pouquinho antes.
Eu havia deixado Jackie no quartel-general com Deborah e ido para casa para pegar uma escova de dentes e uma muda de roupas. Afinal, até mesmo guarda-costas precisam manter os bons hábitos de higiene. Fui até meu quarto e peguei uma sacola de ginástica de náilon azul. Coloquei uns pares de meias e cuecas nela – engraçado, da última vez que tinha usado a sacola, eu colocara nela fita adesiva e algumas lâminas e saíra para uma noitada de folguedos com um novo amigo: um homem encantador que engabelava moças para sair em seu barco e, de um jeito ou de outro, sempre voltava sozinho. Eu tinha o ajudado a entender que não era legal tratar os outros como brinquedos descartáveis; ensinei isso ajudando-o a se transformar em algo descartável. Tinha sido um verdadeiro prazer trabalhar com ele, uma noite imensamente agradável. Teria isso acontecido mesmo há três longos meses?
Meu sonho delicioso foi estilhaçado por um estrondo vindo da porta da frente, seguido imediatamente por um uivo nasal e penetrante, um som que só poderia ser Astor em uma profunda agitação pré-adolescente. A voz de Rita se elevou para se igualar àquilo, a porta bateu com ainda mais força, e então houve uma confusão de batidas de pés, gritos, e outra porta, mais próxima, se fechando com força.
Rita entrou no quarto com Lily Anne debaixo do braço, a sacola do bebê com as coisas da creche em um dos ombros e a própria bolsa no outro. Seu rosto estava vermelho, brilhando de suor, e as marcas de preocupação ao redor de sua boca pareciam subitamente ter se tornado permanentes. E me ocorreu que Rita não se parecia mais com a imagem dela que eu levava em minha cabeça. Ela havia envelhecido e, por alguma razão, eu estava percebendo isso pela primeira vez.
– Oh, Dexter, você chegou cedo em casa – ela disse, empurrando Lily Anne na minha direção. – Você pode, por favor, trocá-la? Astor está completamente... Eu não sei o que fazer.
Lily Anne gorgolejou para mim, feliz, e chamou:
– Papuuu! – E eu a levei para o trocador enquanto Rita jogava as sacolas sobre a cama.
– Oh – disse Rita. Eu a olhei rapidamente; ela estava segurando minha sacola de ginástica. – Mas isto é... Quer dizer, você não...
– Notícias maravilhosas – eu falei, tirando uma fralda muito molhada de Lily Anne. – Tenho uma oportunidade de ganhar muito dinheiro, o suficiente para pagar a nova cobertura da piscina na nossa casa nova.
– Mas é... você sabe quanto custa? – Ela balançou a cabeça, e uma gota de suor voou de sua face e caiu na minha sacola de ginástica.
– Não tem problema – eu disse. Joguei a fralda molhada e peguei os lenços úmidos. – Eu vou ganhar esse dinheiro e muito mais.
– Fazendo o quê?
Hesitei; não apenas porque o fato de Jackie precisar de um guarda-costas era confidencial, mas também porque, repentinamente, me pareceu uma boa ideia não contar para Rita que eu ficaria isolado com uma bela estrela de cinema por muitas noites. – É confidencial – respondi. Limpei Lily Anne direitinho e peguei uma fralda limpa.
Rita ficou quieta. Eu a olhei. Ela estava franzindo as sobrancelhas, e as linhas em sua testa pareciam muito fundas. Uma mecha de cabelos mole e úmida caiu sobre as linhas.
– Bom, mas – ela disse –, quer dizer, é lícito? Porque... – Ela balançou a cabeça de novo.
– Perfeitamente lícito – eu disse. – E muito bem pago. – Coloquei as fitas adesivas na nova fralda e peguei a bebê. – Deborah disse que iria telefonar e falar com você a respeito do assunto.
– Ah, tudo bem – disse ela. – Se Deborah está... Mas não dá pra você me dizer o que é?
– Sinto muito – falei.
– É que tem tanta coisa pra fazer agora – disse Rita. – O dia da mudança está se aproximando... e Astor está completamente... – Ela largou minha sacola de ginástica e cruzou os braços no peito. – Sinceramente, Dexter...
– Eu sei – eu disse, o que era uma mentira, já que não sabia, porque ela não havia terminado frase ainda. – Mas é só por uns dias, e precisamos mesmo desse dinheiro extra.
Por um longo instante, Rita só ficou me olhando. Seu rosto parecia uma máscara de angústia cheia de incerteza, e ela parecia estar completamente sem forças. Tentei imaginar em que estaria pensando que poderia fazê-la ter a aparência de um pano de cozinha esfarrapado e úmido. Ela não me deu nenhuma dica, mas, por fim, disse:
– Bom... Nós precisamos mesmo de um dinheiro extra...
– Exato – eu disse. Devolvi Lily Anne para ela e peguei minha sacola de ginástica. – Então, vejo você daqui uns dias.
– Você me telefona? – ela perguntou.
– Mas é claro – eu assegurei, e ela se inclinou e me deu um beijo suado no rosto.
– Tudo bem – ela disse.