Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 11 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 9

 

E ENTÃO CÁ ESTAVA EU NO REGAÇO DO LUXO, LONGE DOS GRITOS E DOS guinchos e das meias sujas da minha vida doméstica normal. Provavelmente não era justo comparar, é claro, qual era a coisa boa. O hotel fazia com que mesmo minha casa nova equipada com piscina parecesse esquálida – fazia com que toda a minha vidinha parecesse um pouquinho menos brilhante e ensolarada.

Olhei para Jackie. Ela estava pegando um grande morango da bandeja e tinha uma aparência tão viçosa e perfeita quanto um ser humano pode ter. Definitivamente, não era justo compará-la com Rita.

– Os frutos do mar são muito bons aqui – disse Jackie, mordendo a ponta do morango. Ela engoliu e lambeu os lábios. – Acho que é o esperado. – Sorriu e bebeu um pouco do seu mojito. – Provavelmente você come frutos do mar muito bons o tempo todo.

– Na verdade, não – eu falei. – As crianças não comem.

– Crianças – ela repetiu, e me lançou um olhar estranho e divertido.

– O que foi? – perguntei.

Jackie balançou a cabeça.

– Nada. É só que... você parece tão, hum. – Ela agitou uma das mãos enquanto tomava outro gole de bebida. – Eu não sei – ela disse, colocando o copo sobre a mesa. – Tão... independente? Reservado? Quer dizer, eu não conheço você assim tão bem, e talvez esteja sendo, hum... – Ela tocou meu braço, ligeiramente, e então afastou a mão de novo. – Me diga se eu estiver sendo pessoal demais. Eu só tive essa impressão de que conheço você, sabe? E parece assim... – Pegou um pedaço de kiwi. – Como se você tivesse uma existência completa, tipo, só você. Para mim, é difícil imaginar você com filhos.

– É ainda mais difícil para mim – eu falei, e Jackie deu risada. Era um som agradável.

– Como é sua esposa? – ela perguntou.

– O quê, Rita? – disse eu. A pergunta me pegou um pouco de surpresa. – Ora, ela é, ahn. – Jackie me olhou sem piscar, e pensando nas horas de novelas diurnas a que tenho assistido com o intuito de compreender o comportamento humano, eu sabia que deveria dizer algo lisonjeiro a respeito de Rita, já que ela era, afinal de contas, minha esposa. E pensei a respeito disso, pensei quão cansada estava a aparência dela pouco antes e tentei pensar em algo agradável para dizer sobre ela, mas tudo que passou pela minha cabeça foi que eu estava acostumado com ela, que era cega para minhas inofensivas fraquezas com facas e facínoras; e isso não parecia ser o que a situação requeria. Pensei um pouco mais. Jackie continuou me olhando. O silêncio cheio de expectativa aumentou e, desesperado, eu acabei dizendo: – Ela cozinha muito bem mesmo.

Jackie inclinou a cabeça para um lado e continuou a me olhar até que comecei a pensar se havia dito alguma coisa errada.

– Isso até que é engraçado – ela acabou dizendo.

– O quê?

Um sorrisinho brilhou no rosto dela e depois sumiu.

– Se você pergunta para a maioria dos caras a respeito da esposa deles, a primeira coisa que eles dizem é, ah, ela é muito bonita mesmo, maravilhosa. Algo desse tipo. E você fica pensando nisso um tempão e tudo que consegue dizer é que ela cozinha muito bem?

Eu fiquei com vontade de dizer para ela que, afinal de contas, eu tinha minhas prioridades e, no que me dizia respeito, Rita poderia ter a cara do Shrek desde que fizesse paella de mangas do jeito que ela fazia. Entretanto, essa não parecia ser a melhor observação para se fazer, e eu não sabia direito qual era a correta, então gaguejei:

– Ora, mas você sabe. Quer dizer, ela é bonita.

– Ela tem de ser – disse Jackie, pegando o copo de novo. – Casada com um bonitão como você.

A conversação entre seres humanos é algo que eu tenho estudado diligentemente, já que ela não faz o menor sentido para mim, a não ser que siga a confortável trilha dos clichês, o que acontece em 99% das vezes. Então, para poder me encaixar, eu aprendi as fórmulas da conversinha vazia e preciso segui-las, ou então fico perdido em uma selva de sentimentos e de impulsos e de noções de que não compartilho. Eu sou cego para as nuanças. Mas teria de ser surdo – e burro também – para não perceber que Jackie estava me fazendo um elogio. Tentei encontrar uma resposta apropriada, mas apenas consegui dizer:

– Ora, obrigado –, o que soou medíocre demais, até mesmo para mim.

Jackie segurou o copo com as duas mãos e olhou além da baía de Biscayne.

– Às vezes, eu me pego pensando – ela disse. – Você sabe. Assim como... Talvez eu devesse ter encontrado um cara decente como você e me estabelecido. Ter uma vida de verdade. – Ela ficou imóvel, só segurando o copo e olhando fixamente o horizonte, e eu a observei. Admito que eu estava surpreso ao ouvir o que soava como um pesar cheio de desejo na voz dela; afinal, ela era bonita, rica e famosa, uma estrela, e mesmo o observador mais equilibrado teria de dizer que ela tinha praticamente tudo que alguém poderia desejar.

E, para seu grande crédito, Jackie demonstrou ser bastante equilibrada ela própria, porque soltou uma risadinha e balançou o copo. Ele tiniu; estava vazio, a não ser pelo gelo.

– Eu sei – ela falou. – Não é muito convincente, nem mesmo para mim. Além do mais, eu já encontrei um monte de caras decentes e nenhum deles me fez ter vontade de desistir disto tudo. – Ela fez uma cara de arrependimento e colocou o copo na mesa. – E uma porção de caras não tão decentes também. Mas a verdade mesmo é que eu não trocaria minha vida por nada.

– Nem mesmo por um negociante de armas grego? – perguntei.

– Nem mesmo por dois – ela me disse, com um sorriso convencido. – E, de qualquer modo, esses caras são terrivelmente possessivos, então eu seria propriedade dele, sabe. Acho que eles têm de agir desse jeito, mas... – Ela deu de ombros. – Isso não funciona comigo.

Ela me olhou e eu devolvi o olhar, e o momento pareceu ir além do que seria confortável, mas não conseguia pensar em nada adequado para dizer, e, já que ela não parecia estar se sentindo incomodada com o silêncio, resolvi que também não me sentiria. Por trás de nós, o sol estava começando a sumir na linha do horizonte, e a água à nossa frente tinha aquela tonalidade dourada que apresenta ao anoitecer, ela se refletia no rosto de Jackie e, eu suponho, no meu também. Finalmente, os cantinhos da boca de Jackie se ergueram em um sorriso, e disse:

– Tudo bem. Provavelmente é hora de pensar em jantar. Você está com fome?

Eu poderia ter dito que é claro que estava com fome; o maquinismo poderoso que é o corpo de Dexter funciona o tempo todo em uma rotação muito alta e requer combustível regularmente. Mas me decidi por um educado:

– Para ser sincero, um pouquinho.

Jackie fez um gesto com a cabeça, subitamente com a aparência muito séria.

– Certo. Tem algum lugar muito bom mesmo aqui por perto? A rede de televisão está pagando, então não seja pão-duro.

Para ser honesto, meu gosto quanto a comida tende a ser mais robusto do que refinado, mas, de qualquer modo, havia outras considerações no momento que eram mais importantes do que o que poderia estar no menu.

– Hum – eu disse. – Que tal o serviço de quarto?

Jackie ergueu uma sobrancelha para mim, começou a dizer alguma coisa e então pareceu se dar conta da situação.

– Ah – ela disse. – Você quer dizer por causa... – Franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça. – Você acha que pode ser perigoso sair – falou.

– Sim – eu disse. – Está escurecendo, e devo supor que, a esta altura, ele já descobriu onde você está.

– Ah – ela repetiu e pareceu murchar um pouquinho, soltando o corpo na cadeira e deixando o queixo afundar no peito. – Eu estou sempre me esquecendo – ela disse. – Estava só aproveitando... – Suspirou profundamente, o que pareceu uma reação estranha, a não ser que estivesse mesmo querendo um jantar sofisticado e extremamente caro. – Seja como for, o serviço de quarto é bom. Já que você está... – ela agitou uma das mãos com um gesto vago – cuidando da minha segurança.

– É por isso que estou aqui – falei.

Ela me olhou por um momento longo demais.

– Vou tentar me lembrar disso.

E antes que eu conseguisse descobrir o que aquilo significava, ouvi um som como se alguém estivesse arranhando a porta da suíte.

– É... – Jackie começou a dizer, mas eu ergui uma das mãos e a interrompi, ouvindo atentamente por um segundo. Não havia dúvidas, alguém estava tentando abrir a porta e entrar.

Nós ainda não tínhamos pedido nada, e como Jackie estava hospedada aqui há quase uma semana, eu não achava que a direção do hotel estivesse mandando uma cesta de frutas. Isso abria espaço para uma possibilidade óbvia e desagradável.

Eu me levantei cautelosamente e tirei a Glock do coldre.

– Dexter – disse Jackie –, eu acho que é...

– Você se tranque no banheiro – eu disse. – Pegue seu celular, por via das dúvidas.

– Mas eu só...

– Rápido! – ordenei, minha voz como um sibilo, e me movi rápida e silenciosamente para a porta, verificando se a pistola estava destravada e segurando-a na posição de prontidão, exatamente do jeito como Harry, meu pai adotivo, havia me ensinado há tanto tempo. Eu não gosto de armas. São barulhentas e, realmente, deixam muito pouco espaço para uma verdadeira expressão artística. Mas são eficientes, e Harry tinha me ensinado a usá-las apenas como um veterano de guerra e policial de carreira poderia ensinar, e com uma arma tão boa quanto esta eu seria capaz de abrir buracos em coisas a uma distância muito boa mesmo.

Entretanto, nesse caso eu esperava não precisar atirar. Então, apressei-me até o lado da porta, mantendo a mim e a minha Glock em prontidão.

Quando me aproximei da porta, ela começou a se abrir lentamente, quase timidamente; quem quer que fosse estava sendo muito cuidadoso para não deixar ninguém saber que estava entrando. Infelizmente, para essa pessoa, eu já havia sido alertado. Com minha mão esquerda, segurei a beirada da porta é a abri com um puxão. Rapidamente, dei um passo adiante, agarrei o braço que segurava a maçaneta da porta e o puxei com força, e enquanto uma cabeça com cabelos castanhos e curtos enfiava o braço para dentro do quarto, eu deslizei para trás e pressionei o cano da Glock bem em sua orelha direita.

Um amontoado de papéis, chaves, celular e um copo do Starbucks caíram no chão e, quando tudo caiu, ouvi um ligeiro gemido de terror, e olhei para quem eu estava mantendo sob a mira da pistola.

Era uma mulher atarracada, com aparência comum, de uns trinta e tantos anos, usando óculos imensos no estilo do Elton John e um vestido leve de verão, de jeito nenhum como eu havia imaginado que nosso assassino seria. Ela tremia descontrolada.

– Por favor – ela disse com voz rouca –, por favor, não me mate.

Senti um cheiro desagradável e olhei para baixo na direção dos meus pés. O café estava escorrendo do copo, e uma poça de urina ao redor dos pés da mulher estava se expandindo para alcançar o café – e se esparramando agora na direção dos meus sapatos também, um belo par de tênis New Balance, praticamente novos.

– Por favor – a mulher sussurrou e tremia tanto que eu mal conseguia manter a pistola na orelha dela.

– Ahã – disse Jackie, e eu olhei em sua direção. Ela estava a cerca de três metros de nós, nos olhando com uma expressão de verdadeira preocupação. – Foi muito impressionante. Quer dizer, é bom ver que você realmente sabe o que está fazendo, mas... – Ela mordeu o lábio. – Eu, hum, eu tentei dizer – ela falou e acenou na direção da mulher que eu havia capturado. – Hum... – ela disse com um tipo de sorriso espantado. Jackie deu um sorriso amarelo e embaraçado e fez um gesto com a mão na direção da minha prisioneira. – Permita-me que eu apresente minha assistente, Kathy?

Eu olhei a mulher que estava segurando. Ela ainda tremia e me olhou com olhos arregalados e aterrorizados.

– É um prazer conhecê-la – eu disse.