Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 34 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 32

 

NÃO SEI QUANTO TEMPO FIQUEI LÁ PARADO OLHANDO PARA O CORPO sem vida de Jackie. Pareceu que foi uma eternidade. Eu não tinha o menor motivo para fazer isso; ficar parado olhando para o seu corpo desconjuntado não a traria de volta, não iria nem ao menos levar o pavoroso sangue vermelho e pegajoso de volta para ela. E também não me ajudava nem um pouco a aceitar o fato de ela estar morta.

A morte não é uma estranha para mim. Ela tem sido toda minha vida por muitos anos, e eu sei que cara ela tem, qual é o cheiro dela, qual o som dela – mas, pela primeira vez, achei que sabia a sensação que ela causava, também, porque era ela, Jackie. E, de repente, a Morte era uma coisa nova, errada, ruim e difícil de lidar. Ela não tinha nenhum direito de se apoderar de Jackie e de consumi-la e de me deixar aqui sem ela. A Morte não fazia parte do mundo de Jackie: ela não combinava com Jackie, não com alguém com tanta vida e tão bonita e tão cheia de belos planos para mim. Não era certo. Não era justo. Não podia ser.

Mas era. Ela estava morta e não havia um caminho de volta. A morte havia soprado sua feia película cinzenta sobre aqueles olhos cor de lavanda, e ela parecia ser uma coisa muito definitiva e dolorosa de um modo repentino, de um jeito que nunca havia sido antes.

Eu não sou sentimental, de jeito nenhum – acredito que os sentimentos exigem alguns traços de humanidade –, mas Sentimentos que não tinham lugar no interior de uma Coisa como eu percorreram o meu corpo. Eu os observei passando em sua pressa enlouquecida; remorso pesar arrependimento, até mesmo culpa; uma amarga sensação de oportunidades perdidas, e raiva de novo. Sentimentos gradualmente se alastraram para fora do Subterrâneo Sombrio e subiram os frios degraus de pedra do Castelo Dexter, guinchando com desprezo e deslizando corrimão acima, soltando gritos agudos ao longo dos cômodos e arrancando as tapeçarias.

E então esses sentimentos se foram, e eles tinham deixado para trás o sentimento final e mais duradouro de todos:

Vazio.

Esse era o fim. Tudo tinha acabado. O sonho estava morto, tão frio e exangue quanto o mísero amontoado de carne aos meus pés. Jackie tinha partido, mas Dexter tem de seguir em frente de algum modo, se afastar do futuro mágico que estivera oscilando ali na frente dele e voltar para a dolorosa sordidez que tinha sido sua vida antes que tudo isso o arrebatasse para um mundo de esperanças luminosas e faiscantes – um mundo que havia demonstrado ser tão sólido e real quanto uma peça de um cenário para a televisão.

Eu me afastei do corpo de Jackie e voltei a ficar na porta do trailer. Eu sabia o que tinha de fazer agora. Não seria muito divertido, mas eu voltaria a me acostumar com aquilo de novo. A diversão havia desaparecido para sempre do mundo de Dexter.

Peguei meu celular e chamei Deborah. Ela não respondeu e deixou a chamada cair na caixa postal. Eu desliguei e telefonei de novo. De novo, nada. Tentei pela terceira vez e, finalmente, ela atendeu.

– O que foi? – ela disse, com uma voz tão monótona e sem vida que poderia ter sido a da Jackie.

– Dá para você ir para o trailer da Jackie? – eu disse.

Silêncio; então, finalmente, ela disse:

– Sim.

– Pois faça isso agora – eu disse. – Rápido. – E desliguei.

Eu sabia que, o que quer que fosse que estivesse entre nós, isso não impediria Deborah de vir. Ela não é idiota e saberia que eu não a chamaria a troco de nada a essa altura.

E, é claro, em quatro minutos, eu ouvi os passos dela nos degraus lá fora, e então a porta do trailer se abriu com força e ela estava parada lá, franzindo a testa na relativa escuridão do interior.

– O que foi? – ela disse, com a mesma voz inexpressiva.

Eu me afastei da porta e indiquei o quarto.

– Lá dentro – eu disse. Ela balançou a cabeça uma vez, ainda com a testa franzida, e então entrou e olhou à minha frente, onde Jackie jazia esparramada em seu amontoado desleixado.

Deborah ficou imóvel por um segundo, e então sibilou:

– Porra. – E se aproximou rapidamente do corpo. Ela se agachou ao lado dele e estendeu a mão na direção do pescoço de Jackie, mas interrompeu o gesto pela metade ao ver que não havia necessidade de sentir o pulso. Ficou lá agachada por longos segundos antes de finalmente se levantar, olhar para o corpo de novo e se aproximar de mim.

– O que aconteceu? – ela disse, e havia uma raiva fria em sua voz. – Ela tentou romper com você?

Por um momento, só fiquei piscando para ela, como um idiota, sem ter a menor ideia do que ela queria dizer, e então entendi.

– Não fui eu, Debs.

– Eu não vou abafar esse caso, Dexter – ela prosseguiu, como se não tivesse me ouvido. – Eu não posso ajudar você e não ajudaria nem se pudesse.

– Deborah, não fui eu. Eu não a matei.

Acho que ela me ouviu dessa vez, mas ainda não acreditava em mim. Inclinou a cabeça para um lado e me lançou um olhar duro com olhos frios e fixos, como uma ave de rapina decidindo se vai atacar ou não.

– E quem foi? – ela disse.

Eu balancei a cabeça e respondi:

– Não sei.

– Hm-hum. Onde você estava?

– Eu não estava aqui – eu disse. – Rita me telefonou; Astor fugiu, e eu fui para casa para procurá-la.

Deborah retorceu a boca.

– Casa – ela disse, com uma ironia pesada.

Eu a ignorei.

– Astor veio pra cá, pra ficar na locação, e eu vim perguntar se Jackie a tinha visto, e... – Sem nenhum motivo aparente, eu tornei a olhar para o lugar onde estava o corpo dela. – E ela estava ali – eu completei, sem nenhuma convicção.

Deborah ficou em silêncio, e voltei a olhar para ela. Ainda estava me encarando sem piscar, friamente, mas pelo menos ainda não tinha procurado suas algemas.

– Onde ela está agora? – Deborah finalmente disse.

Eu a olhei, pensando se ela tinha perdido a cabeça.

– Deborah, ela está bem ali – eu disse, acenando na direção do corpo. – Ela não vai para lugar nenhum.

– Astor – ela disse, por entre os dentes cerrados. – Onde está a Astor?

– Oh – eu disse, estranhamente aliviado. – Eu não sei. Está com o Robert, em algum lugar.

Deborah olhou para o corpo de Jackie de novo e balançou a cabeça.

– Você a deixou aqui sozinha – ela disse –, e ele a pegou.

– O quê? – eu disse, cheio de uma justa indignação e de certeza. – Não foi Patrick. O perseguidor... não pode ser!

Ela tornou a me olhar.

– Por que não?

E ela tinha me pegado, é claro. Se ainda estivéssemos desfrutando de nossas boas relações, eu poderia ter dito para ela por que não, explicado que Patrick, o perseguidor, não estava mais no mundo dos vivos. Mas, do jeito que as coisas estavam entre nós, eu não achava que poderia me eximir de uma morte confessando outra. Então fiz o que Dexter faz e contemporizei, cauteloso:

– Não parece ser o jeito de ele proceder. E, você sabe. Os dois olhos ainda estão aí.

– Hh-hum – ela disse, bem do jeito que eu a tinha ouvido dizer inúmeras vezes antes, quando estava tentando fazer com que um suspeito continuasse a falar. E, por algum motivo, isso funcionou comigo também.

– E, além do mais – balbuciei como ele conseguiria entrar aqui? Temos policiais ao longo de toda a barreira, em todos os lugares. Ninguém conseguiria passar por eles.

– Ninguém que já não fizesse parte daqui – ela acrescentou.

– Sim, é claro.

– Como, por exemplo, um extra? Talvez um extra que também fosse o namorado dela? – E ela deu uma inflexão totalmente maldosa àquela palavra.

– Tudo bem, Deborah – eu disse, e se o tom da minha voz revelava que eu estava tão irritado que já nem me importava mais, tudo bem. – Se você está com tanto ódio de mim que prefere me colocar na cadeia em vez de pegar quem quer que seja que realmente fez isso, tudo bem. Pegue as algemas. Me prenda e seja uma heroína, a durona que botou o irmão atrás das grades por um crime que ele não cometeu. – Eu estendi minhas mãos, os pulsos unidos à espera das algemas. – Vá em frente.

Deborah me olhou um pouco mais, como se realmente fosse fazer isso. Então, balançou a cabeça e soltou uma respiração longa e sibilante por entre os dentes.

– Tudo bem – ela disse. – De um jeito ou de outro, não é meu problema.

– Deborah...

– Nem tente – ela disse. – Eu estou pouco me importando. – E se afastou de mim e pegou o celular para fazer uma ligação.

Eu já estive presente em muitos homicídios mesmo, tanto profissional quanto pessoalmente, mas nunca tinha estado em um deles como a pessoa que encontrou o corpo. E também nunca tinha estado em um deles como suspeito, nem mesmo quando eu era o culpado. Descobri que essa era uma experiência totalmente diferente e não gostei dela – ainda mais quando o detetive Anderson chegou para assumir o controle.

A primeira coisa que Anderson fez foi botar Deborah da porta para fora e em seguida saiu pisando duro por todo o trailer e resmungou e sibilou e atormentou Angel-Sem-Parentesco, que tinha chegado para cuidar da parte forense do assunto. E quando ele finalmente me levou de lado para me fazer perguntas, não se comportou como um homem falando com um colega de profissão que se encontrava em circunstâncias infelizes. Pelo contrário, ele me pegou pelo cotovelo e me arrastou até perto da geladeira. Nós ficamos lá parados, e ele me lançou um olhar longo e ameaçador com os olhos semicerrados. Eu esperei, educadamente, mas ele continuou lá parado, claramente convencido de que poderia me dar uma amolecida antes de arrancar uma declaração incriminatória de mim.

Meu telefone tocou. Levei a mão para pegá-lo, mas ele estendeu sua mão rapidamente e segurou a minha com força. Eu o olhei com as sobrancelhas erguidas; ele balançou a cabeça com um gesto negativo. Não valia a pena brigar por causa disso, então, soltei o celular e olhei para Anderson, esperando que ele fizesse alguma coisa que pudesse indicar um grau de inteligência maior do que o da geladeira. Esperei em vão, mas ele finalmente balançou a cabeça com outro gesto negativo e me agraciou com um ligeiro sorriso de escárnio.

– E que belo braço protetor.

Levei alguns segundos para entender o que ele estava querendo dizer. Isso deve ter transparecido em minha face, porque ele prosseguiu:

– Você disse que a estava amparando. – Ele deu outro sorriso de escárnio. – Como um braço protetor.

Normalmente, a melhor política quando você está sendo interrogado por um detetive é permanecer educado e manso, mas a mansidão havia se esvaído de mim com a morte de Jackie, e eu estava irritado o suficiente com a tentativa grosseira dele para retrucar na hora:

– E que belo detetive. Você disse que iria encontrar o assassino.

Ele ficou ligeiramente ruborizado e balançou a cabeça.

– Talvez eu tenha – ele disse, e não havia como não entender o que ele estava dizendo dessa vez.

– Você não achou – eu falei.

– Hm-hum – ele disse. – A não ser pelo fato de que é sempre o namorado, não é?

– Claro – eu disse. – Mesmo quando a vítima está sendo perseguida por um maníaco homicida que já matou antes e jurou matá-la. Faz todo o sentido suspeitar do namorado, e não do perseguidor psicopata. Pelo menos, faz sentido para você.

Ele me encarou e achou que ia dizer mais alguma coisa, algo extremamente perspicaz e intimidante e arrasador. Mas, como todos nós já observamos previamente, a Sagacidade floresce em um galho de árvore que está perpetuamente fora do alcance do detetive Anderson, então ele só ficou me encarando e depois balançou a cabeça de novo, quando finalmente percebeu que nenhum bon mot estava a caminho.

– Você não está livre dessa – ele disse e se afastou para atormentar Angel um pouco mais.

E eu não estava fora. Não dava nem para arriscar. Fiquei lá por quase uma hora, olhando. Sempre que ele pensava no assunto, Anderson me lançava um olhar intimidante, mas, exceto isso, nada mais aconteceu.

Eu não me importava. Na verdade, estava feliz por ser Anderson o encarregado da investigação, em vez de alguém como Deborah, que poderia mesmo resolver o caso, porque eu não queria que ele fosse solucionado bem agora. Quem quer que tivesse feito isso, tinha feito para mim tanto quanto para Jackie. Tinham matado meu belo futuro ao lado dela, e me atirado de volta para o monte de esterco da enjoativa existência da mão para a boca na desesperança da vida mesquinha e sem sentido que eu havia superado; e quem quer que tivesse feito isso comigo, eu iria encontrar essa pessoa e fazê-la pagar. Não, eu não queria que ninguém encontrasse esse assassino. Ninguém, a não ser Eu.

Então, fiquei parado perto da geladeira, olhando Anderson pisando duro por ali, o perfeito Ideal Clássico do som e da fúria sem significado algum, e dei uma examinada nos dois ou três pequenos fatos interessantes que eu sabia a respeito desse assassino.

Em primeiro lugar, eu sabia que não tinha sido Patrick. Mas eu era o único que sabia, e outra pessoa poderia muito bem ter tido a esperança de usar essa história toda do Perseguidor Psicopata como disfarce. Eles já tinham feito isso, para ser exato, se eu supusesse que a mesma pessoa havia matado Kathy. Eu pensei só por uns instantes e fui em frente e supus isso: o olho de Kathy tinha sido arrancado, não havia razão para fazer isso a não ser para desviar a atenção da investigação. O mesmo assassino havia matado as duas.

Portanto, eu tinha dois acontecimentos que me forneciam pistas. Se estivesse me sentindo otimista, isso teria me alegrado, porque dois assassinatos fornecem o dobro de provas. Mas eu acrescentei o que sabia sem nenhum otimismo; ele havia me abandonado para sempre, deixando para trás apenas um resíduo amargo.

Kathy havia sido uma não entidade, quase uma não pessoa. Eu não pensava mal dos mortos, embora eles não pudessem me impedir se eu o fizesse. Mas meu doce e curto período de tempo nos píncaros do show biz tinha me ensinado que, na hierarquia daquele mundo, uma Assistente Pessoal não ocupava nem a mesma posição que o manobrista do serviço de valet parking, que poderia, afinal de contas, ser um ator em ascensão.

Entretanto, Kathy havia sido um pau para toda a obra profissional vinte e quatro horas por dia, e era impossível que ela pudesse ter o tipo de inimigos exacerbados que desejassem matá-la, sobretudo com tanta frieza e premeditação e de modo tão vívido e visceral. Mas alguém tinha, de fato, a matado – e levado seu celular, no qual ela mantinha todos os compromissos, números de telefone e contatos de Jackie e etc. Isso queria dizer – pelo menos para mim – que a morte de Kathy estava ligada a alguma coisa que havia no celular.

Até mesmo em Hollywood, poucas pessoas iriam matar para conseguir um endereço ou um número de telefone – a não ser, talvez, o número de telefone de um agente muito bom. Mas, no caso, isso parecia improvável; tinha certeza quase absoluta de que o telefone não havia sido levado por causa de informações a respeito dos contatos. E com isso sobravam os compromissos, e esse pensamento suscitou um ligeiro e ressecado rumor de interesse do Detetive das Sombras aninhado em seu covil interno.

Tudo bem: o celular havia sido levado para ocultar um dos compromissos. Isso queria dizer que ou valia a pena matar para ocultar um dos futuros compromissos de Jackie – ou o compromisso não era de Jackie. Era o celular de Kathy, afinal de contas. Por que ela não poderia manter coisas pessoais nele, também? E SE alguém havia marcado uma hora para encontrá-la no quarto de hotel e tinha ido lá especificamente para matá-la, fazia sentido que essa pessoa levasse o celular para esconder o registro do compromisso.

Mas espera aí: isso só fazia sentido se o assassino soubesse que Kathy mantinha todas essas coisas em seu celular. E isso queria dizer que era alguém que a conhecia e sabia como ela trabalhava – e isso significava que era ou alguém ligado ao passado dela, que tinha vindo de Los Angeles só para matá-la... Ou, muito mais provável, alguém que estava aqui e agora envolvido na produção desse piloto. Alguém com um motivo muito forte para impedir que Kathy... o quê? Fosse a algum lugar, fizesse alguma coisa, dissesse alguma coisa...

Um filminho apareceu na tela da sala de projeções particular de Dexter: poucos dias antes, na suíte dos figurinos, e Kathy dando um tapa em Renny, se afastando dele às pressas, gritando alguma coisa parecida com: “Da próxima vez, eu vou contar para todo mundo!”.

E outro filminho: Renny me encarando enquanto a escura e reptiliana sombra de Alguma Coisa agitava as suas asas por trás dos olhos dele.

E mais um: Renny olhando para a plateia de seu Especial com aquele mesmo olhar, um olhar que eu conhecia tão bem, porque era o olhar de um assassino, e eu ensaiava todos os dias para ocultar o meu com falsos sorrisos meigos que fossem convincentes.

E Renny partindo para cima do cara que o tinha criticado com um ataque agressivo que só poderia ser chamado de letal, rapidamente exibindo sua verdadeira personalidade de assassino para quem quisesse ver.

Renny.

Tudo se encaixava: ele tinha o motivo, quaisquer que fossem os detalhes, e eu sabia que ele tinha aquela coisa especial dentro dele que transformaria um assassinato em uma opção simples e viável. E então, para esconder essa coisa, não importa o que ela fosse, ele tinha matado Kathy – e então vomitado, segundo o Vince, quando viu a porcaria que havia feito? Mas tinha também matado Jackie, apesar de sua repulsa, que ele não deveria sentir, se realmente tivesse o seu Passageiro das Trevas?

O estrondeante trem de cargas da Dedução de Dexter parou subitamente. Não fazia sentido. Ninguém capaz de matar com facilidade poderia jamais vomitar ao ver o que tinha feito. E, de qualquer modo, como isso se ligava ao fato mais importante, a morte da Jackie?

Tudo bem, talvez não fosse Renny. Mas eu ainda tinha os dois corpos e a certeza de que havia uma conexão entre eles. Então, deixei Renny de lado por um momento e tentei recolocar o trem nos trilhos.

Alguém, possivelmente não o Renny, matou Kathy e levou seu celular para evitar que alguma coisa fosse descoberta. Então, apesar de não ter gostado de matar, o que me parecia um desperdício, havia matado Jackie. Pela mesma razão? Mas essa pessoa já tinha o telefone; portanto, se preocupar por quê?

Anderson passou por mim pisando duro e saiu pela porta do trailer, e eu olhei para o lugar onde Angel estava calma e metodicamente vasculhando o local ao redor do corpo de Jackie, bem na frente da grande caixa com as coisas de Kathy. Em algum lugar, uma moedinha de latão caiu em uma abertura com um tinir suave. Eu pisquei.

Eu me aproximei de Angel. Ele olhou rapidamente para cima e tornou a olhar para um pedaço de carpete que estava colocando em um saco plástico de evidências.

– Cai fora – ele disse. – Você está com vibrações ruins.

– Eu preciso ver uma coisa – eu disse.

– Não – ele disse. – O Anderson poderia me dar um tiro.

– Só vai levar um segundo – eu disse. – É muito importante.

Angel se sentou nos calcanhares e me olhou, visivelmente tentando decidir se valia a pena se arriscar por mim.

– O quê? – ele acabou dizendo.

Eu fiz um gesto indicando a grande caixa de papelão atrás dele.

– O computador – eu disse. – Ainda está na capa?

Ele me olhou por mais uns instantes, então suspirou profundamente. Inclinou-se para a caixa, onde a capa de náilon preto do computador se amontoava no topo da pilha. Com um dedo coberto pela luva de borracha, deu um piparote e abriu a capa.

– Não – ele disse. – Nada de computador. – Ele retirou o dedo e a capa se fechou, molenga. – Ele deveria estar aqui?

– Estava aqui hoje de manhã – eu falei.

– Merda – ele disse. – Bom, eu não peguei.

– Não – eu disse. – Mas alguém pegou.

Angel soltou um suspiro profundo, obviamente sentindo-se infeliz pelo fato de que um computador pudesse ter sumido quando ele era o encarregado da investigação forense, e disse:

– É importante?

– Acho que sim – respondi.

– Por quê?

– Porque é um Apple – eu disse.

Angel balançou a cabeça.

– Coño, Dexter, que história é essa.

– Obrigado, Angel.

Ele suspirou de novo e voltou a ficar de quatro.

– Acho que não gosto mais de você – ele disse.

Voltei para o meu posto ao lado da geladeira, muito feliz comigo mesmo. Agora eu sabia por que a Jackie tinha sido assassinada. Porque, se você tem um smartphone da Apple e um computador da Apple, você conecta os dois, então, todos os dados do celular vão para o computador. E Jackie tinha ligado o computador, visto o compromisso e sido assassinada por causa disso.

Mas se Kathy tinha mantido todas as suas atualizações, todos os dados teriam sido copiados no sistema de nuvem também, o que significava que eles ainda deveriam estar lá, compromisso incriminador e tudo o mais. Mas a conta da nuvem da Kathy não poderia ser acessada por ninguém mais, não sem a senha dela. E, ao levar o laptop, o assassino tinha garantido que a informação ficasse fora de alcance.

Não cheguei a dar umas palmadinhas nas minhas costas, mas estava muito satisfeito. Já tinha descoberto quase tudo – exceto, é claro, o minúsculo detalhe sem importância: quem era o assassino.

Tentei fazer Renny se encaixar de novo, e ele se encaixou, quase. Mas, finalmente, eu não conseguia acreditar que alguém que tivesse um Passageiro pudesse vomitar depois do simples, relaxante e, muitas vezes agradável, ato de matar alguém.

Por outro lado, se eu eliminasse Renny, quem sobrava? Talvez Renny tivesse vomitado porque tinha comido ostras estragadas. Tinha de ser Renny – não havia mais ninguém que se encaixasse. De qualquer modo, eu com certeza tinha de dar uma investigada no passado recente dele e ver se ele se encaixava. Talvez fazer com que Deborah checasse isso, e...

Deborah. Aparentemente, ela ainda não estava falando comigo, a maior parte do tempo, e não seria fácil eu me aproximar agora, com Anderson conduzindo sua palhaçada por todos os cantos e botando Deborah para fora da porta. Parecia impossível que o fato de ela ter sido expulsa da cena do crime a tivesse deixado sensível a ponto de estar pronta para esquecer e perdoar.

Mesmo assim, eu tinha uma pista que ela podia usar, e ela era uma policial até a medula dos ossos. Ela queria resolver esse caso – ainda mais por ser um caso do Anderson. E era pelo menos possível que quisesse enfiar a cara dele na lama mais do que queria me evitar. Valia a pena tentar.

É claro, eu não podia tentar enquanto estivesse ali parado ao lado da geladeira e esperando que Anderson voltasse para me intimidar. Eu precisava estar na ativa e pensei em minha nova e curiosa posição como Pessoa Envolvida No Caso. Na verdade, ninguém tinha me dito para permanecer ali, não sair da cidade, chamar um advogado. Eu simplesmente tinha ficado por ali devido à necessidade instintiva de ser útil de algum modo. Era óbvio que isso não ia acontecer – a não ser que dar um motivo para Anderson ficar olhando feio para alguma coisa seja considerado útil. Por isso, dei uma olhada ao redor para ver se alguém estava me observando; ninguém estava, e eu saí despreocupadamente pela porta do trailer.

Deborah estava andando de um lado para outro perto do trailer e parou para me olhar enquanto eu descia os três degraus. Por um instante, pensei que ela fosse dizer alguma coisa, e talvez ela também tenha pensado. Mas não falou nada. Só balançou a cabeça e deu meia-volta para retomar sua caminhada.

– Deborah – eu falei para as costas dela.

Ela parou de andar e os ombros se ergueram até quase alcançar as orelhas. Então ela se voltou e me olhou com uma versão muito mais convincente do olhar hostil que Anderson tinha tentado.

– O que foi? – ela disse.

– Acho que sei quem matou Jackie – respondi.

Ela não falou nada por uns instantes, então balançou a cabeça.

– Vá falar para o Anderson – ela disse.

– Prefiro falar para você – eu disse. – Assim, alguma coisa boa pode surgir de tudo isso.

Ela me olhou com a cabeça inclinada para um lado.

– Você não vai me convencer a entrar em uma droga de momento “perdoe e esqueça” digno de uma fotografia, Dexter. Você fez merda, e das grandes, e por sua causa Jackie está morta e Rita está... o quê? – ela disse, e suas palavras ficaram ainda mais exaltadas enquanto falava. – Você já matou Rita, Dexter? Porque isso faria sentido pra você, não faria?

– Deborah, pelo amor de Deus...

– Faz mais sentido do que ir embora e deixá-la viva pra estragar tudo mais tarde, não é?

– Eu não matei...

– E se não matou, e agora? Você ainda vai largar Rita e os seus três filhos, agora que fez merda das grandes em sua cama nova em folha? Ou vai rastejar de volta e tentar fingir que isso nunca aconteceu? Porque ela pode aceitar você de volta, mas não sei se eu vou.

– Tudo bem – eu disse. – Vou falar para o Anderson. – E como eu também sei dar as minhas cartadas, acrescentei: – E ele vai fazer merda e com certeza um assassino vai escapar porque você está ocupada demais tendo um ataque para fazer alguma coisa a respeito.

Eu fiquei muito feliz por estar a uns dez passos de distância dela porque, a julgar por seu olhar, se estivesse perto o suficiente, ela teria cometido algum tipo de ato violento, com toda a probabilidade resultando em ferimentos graves. Mesmo a dez passos de distância, dava para eu ouvir os dentes dela rangendo.

– Desembuche – acabou dizendo, os dentes ainda cerrados.

Falei para ela a respeito do celular e do computador, e como isso significava que a mesma pessoa tinha matado tanto Jackie quanto Kathy, e ela ouviu. Ela não irrompeu em sorrisos luminosos e me abraçou, mas ouviu. Quando terminei, ela me olhou por um minuto e então disse:

– Tudo bem. Então, quem fez isso?

– Renny Boudreaux – eu respondi. – Ele teve um tipo de briga com Kathy, e ela gritou que da próxima vez iria contar para todo mundo.

Deborah me deu um olhar escarnecedor. Eu quero dizer, mesmo – um escárnio de verdade, do tipo que você dá para uma pessoa patética que nem merece seu desprezo, mas por quem, mesmo assim, você sente desprezo.

– Renny Boudreaux está em Nova York – ela disse. – Gravando os programas matutinos pra promover o especial dele. Ele foi embora ontem.

– O quê? – eu disse. Devo admitir que estava pelo menos parcialmente chocado.

– Nova York – ela repetiu. – Todo mundo no set sabe disso, e você também saberia, se tivesse lido a programação da produção em vez de passar todo o seu tempo transando com a Jackie.

Esse parecia ser um golpe muito baixo, mas ela ainda não tinha acabado comigo.

– E enquanto isso – ela disse, passando sem o menor esforço do escárnio de volta para um rosnar dos muito bons, –, enquanto você fica trepando por aí e me faz perder meu tempo com merda, você ainda não encontrou a Astor.

Eu não cheguei a cambalear por causa do choque, mas os ataques dela definitivamente me deixaram um pouco fraco e incerto.

– Bem – eu disse, com voz fraca –, mas...

– Encontre a sua filha, seu retardado – disse. – Esqueça o caso. Você já causou estragos demais. – E ela deu meia-volta e se afastou com passos largos para a outra ponta do trailer. Eu fiquei lá parado, fitando-a, mas ela passou por mim sem nem me olhar, como se eu fosse um tipo de vida vegetal comum e bastante sem graça. Eu queria agarrar Deborah pelos ombros e sacudi-la e dizer que aquilo não era minha culpa. Patrick estava morto, e outra pessoa tinha assassinado Jackie e arruinado a única oportunidade que eu jamais teria de me erguer acima da lama e alcançar a genuína luz dourada do sol. E então eu queria encontrar o assassino de Jackie e prendê-lo confortavelmente com fita adesiva sob a lâmina da minha faca e dar-lhe um bom tempo para refletir a respeito do que tinha feito. E iria; eu não deixaria isso de lado, um caso esquecido e arruinado pela incompetência do cabeça-dura do Anderson e pela indiferença burocrática da Deborah.

No entanto, por mais que fosse irritante admitir isso, Deborah tinha razão a respeito de uma coisa. Eu tinha de encontrar Astor, e esse era um problema mais iminente do que minha vingança.

Tudo bem: por onde começar? O trailer do Robert era o lugar óbvio, mas eu já tinha olhado lá. Ainda assim, isso tinha sido uma hora antes. Era pelo menos possível que tivessem voltado, e nem que fosse para eu proceder com todo o zelo, eu deveria dar uma checada de novo.

Deborah passou por mim mais uma vez sem me olhar, e enquanto ela ainda estava no lado mais distante da sua neurótica caminhada de sentinela, eu passei pelo caminho dela e me encaminhei para o trailer do Robert.