Dexter: Em Cena
Capítulo 24
RENNY DEIXOU QUE OS APLAUSOS AUMENTASSEM E AUMENTASSEM E AÍ aumentassem um pouco mais até a audiência ficar em pé e gritar e fazer um barulho imenso, e o velho teatro começar a tremer. Então, ele se encaminhou com os ombros encurvados para os três degraus do palco e parou, olhando para a audiência com desaprovação evidente. Os aplausos ficaram ainda maiores; Renny balançou a cabeça e caminhou até o microfone enquanto a risada aumentava e se misturava com os aplausos. Ele tirou o microfone de seu suporte, se voltou para nós e ficou encarando a audiência.
Mais risadas, mais aplausos; Renny só ficou com a cara fechada. E no instante preciso em que o barulho da multidão começou a diminuir, ele falou:
– Porra, o que tem de errado com vocês, pessoal? – E nós estávamos de novo em um efervescente e exuberante mar de alegria.
De novo, o timing dele era perfeito, e no momento exato ele disse:
– Eu vou dizer o que tem de errado: vocês são idiotas!
Por estranho que pareça, isso ocasionou uma grande risada, o que pareceu enfurecer Renny, e ele berrou:
– Estou falando sério! – E as risadas ficaram ainda mais fortes, até que Renny estendeu um braço e, quando o barulho diminuiu um pouco, ele disse: – Sentem, caralho!
Com uma ligeira surpresa, eu percebi que estava em pé, junto com todas as outras pessoas; e quando me sentei, todos os outros também se sentaram. Renny esperou até que ficássemos em silêncio e então começou a falar. Ele mencionou o piloto que estávamos filmando e apresentou Robert e depois Jackie, e quando ela se levantou para agradecer os aplausos, eu vi Deborah olhando vigilante ao redor do teatro, bem no estilo guarda-costas. Eu me lembrei de que deveria estar protegendo Jackie também, então me voltei e fingi estar procurando quaisquer sinais de encrenca. Não havia nada, é claro. Jackie voltou a se sentar, em segurança, e Renny pegou um pedaço de papel amarrotado em seu bolso. Ele fechou a cara ao vê-lo e depois olhou para nós.
– Eu devo dizer muito obrigado para os tiras aqui de Miami. – Ele balançou a cabeça. – Isso faz sentido para vocês? EU... dizendo muito obrigado para tiras? Mas a Big Ticket disse “por favor”, e eles estão pagando por essa bosta, então... Muito obrigado, tiras. – Ele deu uma olhada para o papel amarrotado. – Ei, capitão Matthews, você tá aqui? – O capitão se levantou, com um sorriso modesto e másculo em seu rosto, acenou para a multidão e recebeu aplausos educados. – É, eu só perguntei se você estava aqui, capitão. Eu não disse, levante e roube a porra da atenção que eu recebo. – E ele sorriu pela primeira vez. – Ei, é verdade... primeira vez que posso dizer porra pra um tira... e além disso ele é capitão. Ei, capitão Matthews! Porra porra porra porra porra porra porra...!
Renny esperou que as risadas acabassem e começou a falar a respeito de Miami, do trânsito de Miami, da comida de Miami, da diversidade das pessoas aqui – e com muita frequência, quando alguma observação escandalosamente cínica dele causava uma grande risada, ele fazia uma pausa, olhava fixamente a audiência e exclamava:
– Estou falando sério!
Aparentemente, esse era o seu bordão, as palavras pelas quais ele havia se tornado famoso, como o “QUÉÊÊÊ!!!!!?????” do Steve Martin; e a cada vez que ele dizia isso, metade da audiência entoava “Estou falando sério!” junto com ele.
E ele estava mesmo sendo sério; só estava sendo engraçado ao fazer isso. Ele mencionava assuntos sérios e fazia o povo olhá-los de um jeito novo, um jeito que era ao mesmo tempo provocativo e engraçado.
Ele se meteu a falar de política de um modo que teria de ser chamado de carnívoro, e isso levou à educação pública.
– Vocês todos cortam o auxílio para as escolas públicas. Tirem todo o dinheiro destinado a ensinar os malditos dos seus filhos, e aí vocês vão reclamar porque os médicos são todos da índia! Vocês preferem ter um médico americano que passou por suas escolas públicas, e agora ele é um puta de um idiota tão grande que pensa que o dr. Jivago é o novo diretor do hospital onde ele trabalha?
“E aí vocês dizem, ei! Podemos dar um jeito nas escolas... com uma loteria! E todo o dinheiro vai para as escolas públicas! E os lobistas tomam conta disso, e agora uma parte do dinheiro vai para as escolas. E então os políticos se intrometem e, de repente, uma parte dos lucros vai para as escolas. E, agora, o que vocês fizeram não está mais só ligado a levantar fundos: vocês transformaram a educação dos seus filhos em uma loteria. E vocês sabem como isso funciona, certo? Um de cada dez milhões é um vencedor; o resto... todos uns merdas sem sorte.
“Eu estou falando sério!
“E quem ganha a maior parte desses bilhetes perdedores, ahn? É, certo, é o cara negro. A mesma velha merda. Vocês todos pensam, ah, agora tudo está diferente, porque a gente elegeu um presidente negro, mas ainda é difícil pra cacete ser um cara negro nos Estados Unidos. Ainda mais porque eu odeio basquete...!
“Mas, a coisa poderia ser pior”, ele prosseguiu. “Eu poderia ser gay.” Seu olhar perscrutou a plateia e disse: “Levantem as mãos... quantas bichas nós temos aqui esta noite?”. Por incrível que pareça, umas poucas mãos se levantaram, mas Renny balançou a cabeça. “Que é isso, cara, eu sei que tem muitos mais de vocês... eu vejo seus sapatos.” Ele balançou a cabeça de novo e esperou que a risada acabasse. “É, ser gay hoje em dia, deve ser um saco... Quer dizer, pro resto de vocês... Dá um tempo, tá? Vocês acham que é nojento, tudo bem, vocês não precisam olhar. Mas, fala sério, por que vocês se importam com quem os outros estão trepando, porra? E se eles gostam tanto de trepar com a criatura que eles querem se casar, por que porra cês se importam?” Ele assumiu uma expressão solene e disse, com uma voz desagradável: “Oh, Renny, mas está na Bíblia.” Renny bufou e balançou a cabeça. “Grande merda, é, tá na Bíblia, eu dei uma olhada lá. Um de vocês, seus filhos da puta, fez isso...? Eu acho que não. Bom, eu olhei. É, tá na Bíblia. Tá bem lá, perto de onde diz que vocês não podem arredondar o corte da vossa cabeleira e vocês não podem comer camarão. E dá pra eu ver umas porras de umas cabeleiras arredondadas aí na plateia. E quantos de vocês, que ficam descendo o cacete nas bichas, comem camarão? Porque se cês pensam que Deus quer que cês mijem nos gays, cês também têm que parar de tomar aquele borbulhante coquetel de camarão... Eu estou falando sério!”
Umas fileiras atrás de mim, uma voz disse bem alto:
– Bicha!
Renny olhou bem para a cara do homem e sorriu.
– Não é legal? Vocês veem o que acontece quando dão uma cerveja para um homem com pinto pequeno?
A plateia caiu na gargalhada, mas o cara importuno não tinha terminado ainda. Ele gritou de novo, ainda mais alto:
– Você é uma BICHA!
E Renny sorriu e disse:
– Se cê pensa mesmo que eu sou uma bicha, por que você não chupa o meu pau, e se eu gostar... Maldição, você tinha razão. E se eu não gostar... pelo menos você se divertiu um pouco esta noite.
A plateia aplaudiu Renny entusiasticamente, e o cara intrometido se afundou em seu assento, enquanto Renny continuava. E acho que aquilo não foi uma conversa notável, nada mais do que o comentário crítico rotineiro que acontece toda noite, em todo lugar em que um comediante ficar parado na frente de uma plateia. Mas, para mim, foi memorável – não pela grande qualidade do humor cintilante, mas por uma coisa completamente diferente.
Porque, quando os olhos de Renny passaram por mim para se concentrar no cara intrometido, bem atrás de minha cabeça, eu senti meus cabelos ficando em pé no meu pescoço, e bem nas profundezas do Castelo Dexter um alarme começou a soar enquanto meu Passageiro se punha em estado de Atenção Máxima e começava a sibilar avisos para mim.
E quando Renny olhou firmemente o cara que o havia criticado e acabou com ele, eu vi a Coisa por trás de seus olhos, a Coisa que eu achei que poderia ter visto, e agora não havia dúvida, não havia a menor dúvida. Acima do barulho da multidão eu ouvi o rugido sibilante da imensa Coisa Sombria que se erguia triunfante lá das sombras profundas por trás do sorriso de Renny. E eu a observei enquanto ela se desenrolava e lampejava em sua grande extensão tenebrosa e estendia suas garras longas e afiadas na direção do cara que tinha interrompido Renny, e estava lá para que todos vissem; e embora ninguém mais visse, eu vi e entendi.
Um Passageiro. Não dava para duvidar.
Não sei como, nem o porquê, mas sempre sei quando eu o vejo. Eu sempre vi. E agora não havia dúvida, nem a menor sombra de dúvida: Renny tinha um Passageiro das Trevas, assim como eu.
Renny continuou a falar, e tenho certeza de que o resto do show dele foi igualmente engraçado e repleto de comentários ferozes, mas não percebi. Eu estava perdido em uma linha de pensamentos que me levou para bem longe dali, não teria percebido se Renny ateasse fogo em seu próprio corpo.
Em primeiro lugar, só pensei no fato de Renny ser um monstro, assim como eu. Porém, isso me conduziu para pensamentos que eram bem mais elevados, e muito mais relevantes. Porque Renny tinha um Passageiro. Eu não sei como ele lidava com os cuidados e a alimentação dele, mas ele tinha um. E se conseguia sobreviver, e até mesmo florescer, em Hollywood... Por que não eu?
Eu criei tudo em minha imaginação: Dexter, recostado à beira da piscina, em Bel Air, observando as sombras ficando cada vez mais profundas à medida que o sol mergulhava no oceano Pacífico e uma lua lenta e grande começava a ficar cada vez maior no céu; e Dexter sente a excitação da velha Noite Alegre começar a se apoderar dele, e ele se ergue do seu posto à beira da piscina e com seu costumeiro cuidado entra silenciosamente na grande e arejada casa com seus pés de predador e pega sua sempre pronta sacola com brinquedos e utensílios e silenciosamente adentra na noite que é tão escura e acolhedora, não importa que o sol esteja se pondo na água, em vez de se levantando.
Poderia dar certo. Não tinha razão para não dar. E eu não conseguia me livrar da ideia de que seria muito mais feliz na Costa Oeste, em uma terra de novas oportunidades, um panorama novo de escuridão inexplorada.
Mas, é claro, eu não tinha sido realmente convidado. E não havia razões para pensar que o seria. Jackie certamente tinha a vida dela na Califórnia, com seus próprios amigos e rotinas e medidas de segurança; e além de um rápido beijo, ela não havia me dado indícios de que eu poderia ser parte dessa vida. Se eu fosse lógico em relação às coisas, tinha de admitir que, com toda a probabilidade, quando terminassem de filmar o piloto aqui, ela iria me agradecer, me abraçar, e voltar para a Costa Oeste, deixando Dexter para trás como nada mais do que uma lembrança ocasional e terna.
E não importaria quanto eu quisesse que as coisas fossem além disso; eu não teria como fazer isso acontecer e nem sabia dizer o que esse além poderia ser.
Então, quando o show de Renny se dirigiu para o final indubitavelmente hilário, foi um Desencorajado Dexter que finalmente recobrou os seus sentidos irritadiços enquanto percebia que todos ao seu redor estavam ficando em pé e aplaudindo enlouquecidos. E como o Artigo Principal do Código de Harry é se adaptar, Dexter se levantou e aplaudiu também.
Rita estava ao meu lado, aplaudindo com um entusiasmo muito excitado. Suas bochechas estavam levemente ruborizadas, e um imenso sorriso estava grudado em seu rosto, um sorriso como eu nunca vira antes, alegria e entusiasmo misturados com excitação. Ela tinha um ar extático, como se tivesse acabado de dar uma rápida olhada em um mundo de beleza mágica. Eu tinha certeza de que o show fora agradável, mas Rita parecia ter sido transportada para outro plano. Eu havia me sentado ao lado dela no sofá e assistido a televisão com ela todas as noites por anos, mas nunca suspeitei que o mundo do entretenimento e seus habitantes tivessem tanto prestígio e fossem tão excitantes para ela. Eu não conseguia imaginar como alguém com um QI de três dígitos pudesse ficar tão hipnotizada – mas, é claro, eu conhecia Renny e Robert muito melhor do que ela.
E quando os aplausos finalmente diminuíram, ela ainda ficou lá, parada, olhando para o palco como se fosse um local onde um milagre tivesse acabado de acontecer. Só depois de Robert me dar uma palmada no ombro e dizer que precisava sair fora foi que Rita finalmente parou de dar aquele sorriso imenso para o palco vazio e voltou para a realidade com um choque.
– Oh – ela disse. – Oh, meu... Dexter, o sr. Chase está... – E ela emudeceu, piscando e ficando vermelha.
– É Robert – ele disse, como era de se esperar, e sorriu para ela. – E eu posso chamá-la de... hum?
– Rita – eu respondi para ele.
– Rita, certo! Bom, ei, Rita, você tem um cara legal aqui do seu lado. – Ele me deu uma palmada no ombro para mostrar como me apreciava. – É melhor você ficar por perto dele. – Piscou para ela e colocou a mão no braço dela. – Você deixa ele ficar por aí com essa turma de Hollywood, e alguém pode tentar roubá-lo.
Rita ficou ainda mais vermelha.
– Obrigada, senhor, aahh, eu quero dizer Robert, eu... oh. Ela colocou os nós dos dedos da mão direita na boca, como se tivesse dito algo vergonhoso e quisesse punir seus dentes.
Robert nem pareceu perceber. Ele só apertou ligeiramente o braço dela e falou:
– O prazer foi todo meu. Foi bom conhecer você, Rita. – Deu outra apertada no braço dela e olhou para mim. E então, com uma inevitabilidade irritante, ele me deu um tiro com seu dedo-indicador-revólver e disse: – Vejo você na segunda, parceiro. – Passou por nós e saiu caminhando pelo corredor. Rita ficou olhando-o ir, os nós dos dedos ainda na boca.
– Oh, meu Deus – ela disse.
Dei uma olhada ao redor. Jackie estava parada em seu assento junto com Deborah, mas ela estava olhando para mim, e de repente eu me senti muito cansado da tagarelice cheia de adoração de Rita em relação a Robert.
– Vamos – eu disse –, vou acompanhar você até seu carro. – E, para minha completa surpresa, ela jogou os braços ao meu redor e deu um abraço apertado, acompanhado por um monte de beijos úmidos no meu rosto.
– Oh, Dexter, muito obrigada. Foi a coisa mais incrível... ver Robert Chase e falar mesmo com ele...! – ela me disse no ouvido, e me deu mais um beijo úmido. – E Renny Boudreaux foi maravilhoso... quer dizer, a linguagem foi um pouco rude. Mas falando sério... obrigada. Muito obrigada mesmo por tudo isso.
Isso tudo parecia meio exagerado; os ingressos não tinham me custado um centavo, e eu tinha recebido ordens para aparecer lá com Rita. Mas eu só disse:
– Foi um prazer. – E me livrei do abraço dela. – Onde você estacionou?
– Oh, a uns quarteirões daqui... no hotel?
– Tudo bem – eu disse e tentei levá-la para fora. Mas, aparentemente, ela ainda não tinha terminado.
– Eu, realmente... eu estou falando sério. Obrigada, Dexter, tudo isso foi tão, assim, como um sonho.
E ainda teve mais disso, e eu só continuei a acenar e a sorrir, até que ela se esgotou e fiz com que fosse caminhando pelo corredor na direção do lobby e, finalmente, porta afora, e saísse para as ruas iluminadas da noite de Miami.
Eu a acompanhei até o estacionamento, ouvindo-a fazer uma recapitulação do show, me contando as melhores frases de Renny – todas elas eu tinha, afinal de contas, acabado de ouvir pessoalmente. Mas ela sentia um prazer muito grande em repeti-las, e acabei me desligando dela por completo até chegarmos ao carro.
– Boa noite – eu disse e abri a porta do carro para ela. Ela se inclinou e me deu um beijo no rosto outra vez.
– Muito obrigada mesmo, Dexter – ela disse. – Foi incrível demais... E quando você vai voltar para casa?
– Só mais uns dias – eu falei, e tenho certeza de que mantive o pesar fora da resposta.
– Tudo bem – ela disse. Bem... – Comecei a pensar que ela iria ficar ali parada ao lado da porta aberta do carro até ser atingida por um raio. Então, dei um beijinho na bochecha dela.
– Boa noite – eu disse. – Vejo você em poucos dias. – E dei um passo para trás para lhe dar espaço suficiente para fechar a porta do carro, com ela dentro. Ela piscou para mim por uns instantes e sorriu.
– Boa noite, Dexter – disse, se sentou no banco do motorista, deu a partida no carro e foi embora. E voltei para me encontrar com Jackie, pensando que poderia muito bem me divertir um pouco agora.
Tudo isso acabaria em muito pouco tempo.