Dexter: Em Cena
Capítulo 25
DURANTE A NOITE, EU ACORDEI COM O SOM DE SIRENES. ELAS ESTAVAM a poucos quilômetros de distância, o som aumentando de intensidade em seu lamento monótono e urgente, mas estava se aproximando cada vez mais, e sem nem mesmo pensar nisso eu sabia o que aquilo significava, e para onde elas estavam se dirigindo: para cá, para este hotel, porque outro corpo havia sido encontrado, o que significava...
“Patrick”, eu pensei. “Ele matou de novo”. E em meu cérebro semidesperto eu vi seu rosto ávido, enquanto ele escapava das correntes que eu havia posto com tanto cuidado ao redor de seu corpo; e em meu horror semiconsciente eu olhei enquanto ele lenta e alegremente começou a nadar na direção do hotel, na minha direção, seu rosto em decomposição fixado em um sorriso morto...
A imagem estava perto demais e era real demais, e abri meus olhos com um sobressalto. “Impossível”, falei para mim mesmo. Mas, no quarto às escuras, com as sirenes soltando o seu lamento e o sono ainda embotando o meu cérebro, não parecia impossível. “Ele está morto”, eu disse para mim, “completa e totalmente morto”. E eu sabia disso com uma certeza absoluta, mas com a mesma segurança as sirenes se aproximavam, e com a mesma segurança eu sabia que elas estavam se dirigindo para cá.
Dei uma olhada no quarto às escuras e tentei me concentrar em coisas reais: uma cadeira, uma mesa, a janela. Os fantasmas começaram a desaparecer no mundo dos sonhos, e respirei profundamente – e então um novo pensamento surgiu rápido, e, à sua maneira, era tão perturbador quando o primeiro pesadelo:
E se eu matei a pessoa errada?
E se aquela tivesse sido uma pessoa qualquer, inocente como um escoteiro do mais alto nível, em seu caiaque, e que por acaso se parecia com uma fotografia borrada no Facebook? E eu havia esmagado a garganta dele e o afogado e transformado em comida para os caranguejos, pensando que era Patrick – e agora o Patrick de verdade estava bem aqui, agora, neste hotel, e ele tinha acabado de matar alguém, e ele poderia até mesmo estar a caminho daqui, deste quarto...
Fiquei acordado. Saí do sofá e fiquei parado por alguns instantes, piscando feito um idiota, e então peguei a Glock e fui silenciosamente até a porta do quarto de Jackie. Fiquei parado lá por um momento, tentando ouvir algum som, e quando encostei meu ouvido à porta, ela se abriu com força e eu quase caí.
Jackie estava lá parada, os olhos muito abertos, uma das mãos na maçaneta da porta e outra na garganta. Ela estava usando uma camisola de algodão bem simples que chegava até a metade das coxas e, sei lá como, nela a camisola parecia mais atraente do que qualquer coisa que a Frederick's de
Hollywood [17] poderia produzir. Fiquei olhando-a boquiaberto por um momento, antes que a voz dela me trouxesse de volta para a vida real.
– Eu ouvi as sirenes – ela disse. – E fiquei pensando... – Ela olhou para baixo e viu a pistola na minha mão, e seus olhos se arregalaram ainda mais. – Oh.
– Eu também pensei a mesma coisa – contei, e ela assentiu.
Por uns trinta segundos, só ficamos lá parados, ouvindo enquanto as sirenes se aproximavam ainda mais. Em minha cabeça, nunca houve a menor dúvida quanto ao fato de elas estarem se dirigindo para o hotel, mas, mesmo assim, prendemos a respiração quando ouvimos o som alto e estridente diminuir aos poucos e então cessar por completo bem abaixo de nós, no pátio. Fui até a porta da varanda e a abri, saí e olhei para baixo. Dois carros de patrulha haviam parado em um ângulo estranho, típico dos policiais apressados. As portas estavam bem abertas e as luzes piscantes se refletiam acima e na frente do hotel e, enquanto eu observava, mais carros pararam atrás dos dois, carros de patrulha cheios de detetives. Eu voltei para a suíte e fiquei ao lado de Jackie; olhamos as luzes piscando através da porta aberta da varanda, até que Jackie finalmente se lembrou de respirar.
– Oh – ela disse –, oh, que merda.
– É – eu falei.
Jackie inspirou com dificuldade, e então disse:
– Não é... quer dizer, nós não sabemos... Merda.
Mesmo com as frases incompletas, eu segui o raciocínio dela perfeitamente. E embora eu tivesse vontade de tranquilizá-la, dizer-lhe que não era mesmo, que não poderia ser, aquela imagem meio sonhada não me abandonava, e eu só fiquei lá parado e senti o suor sair da minha mão e passar para a empunhadura da Glock.
Jackie balançou a cabeça e caminhou rapidamente pelo quarto e foi até o sofá e se sentou, se inclinando para a frente, os joelhos bem juntos, com as mãos na almofada ao lado deles. Eu a segui e me sentei ao lado dela. Parecia que não havia muita coisa a ser dita. Eu me lembrei de que ainda estava segurando a Glock e voltei a travá-la.
Ainda estávamos sentados daquele jeito uns cinco minutos mais tarde quando o interfone tocou. Eu o peguei e disse:
-Sim?
– Mas que merda está acontecendo? – disse uma voz; eu a reconheci, era a minha irmã, Deborah, e ela parecia estar muito tensa. – Vocês estão bem?
– Está tudo bem, Debs – eu disse, com uma voz tão tranquilizadora quanto fui capaz de produzir. – Você está aqui no hotel?
Debs soltou a respiração, soando quase como se estivesse exalando uma grande baforada de fumaça de cigarro.
– Estou aqui embaixo, no lobby – ela disse.
– O que aconteceu aí embaixo? – perguntei, o que era desnecessário. Eu tinha certeza de que sabia o que tinha acontecido; eu só não sabia com quem.
– Tem uma mulher morta aí, um andar abaixo do de vocês – disse Debs, e a voz dela soava muito ríspida. – Ela está bem desfigurada, mas tem uma carteira de motorista em nome de Katherine Podrowski. Isso significa alguma coisa pra você?
– Podrowski? – eu disse, e ouvi Jackie ofegar atrás de mim e então emitir um ligeiro gemido.
– Kathy...? – ela perguntou.
– Um garçom do serviço de quarto viu o sangue escorrendo por baixo da porta. Ele usou uma chave-mestra, deu uma olhada e ainda está chorando – contou Debs. – Parece que nosso cara aprontou mais uma.
– Mas... – eu comecei; e, felizmente para mim, parei antes de dizer mais alguma coisa.
– É a Kathy? – perguntou Jackie em um sussurro rouco e aterrorizado.
– Ela foi retalhada, eviscerada, e um olho desapareceu – prosseguiu Deborah, de um modo bastante determinado, eu achei, e, definitivamente, muito ríspida.
– Qual olho? – eu perguntei.
Deborah soltou um sibilo alto e longo.
– Estou subindo – ela disse e desligou o telefone.
Eu também desliguei e voltei a me sentar ao lado de Jackie.
– É a Kathy – eu disse.
– Oh, meu Deus – exclamou Jackie. Ela passou os braços ao redor do próprio corpo e começou a tremer, depois a chorar. – Oh, meu Deus. Por alguns minutos ela chorou e se balançou; os braços segurando com firmeza o próprio corpo. E então inspirou profundamente, com dificuldade, e inclinou o corpo sobre as coxas. – Oh, Jesus, ai que merda. É minha culpa, tudo isso é culpa minha. – E colocou as mãos sobre o rosto e, depois de uns instantes, os ombros voltaram a tremer.
Como já mencionei, realmente não entendo a maior parte do comportamento humano, mas entendo mesmo uma dica básica quando vejo uma; e quando uma mulher esconde o rosto nas mãos e chora, qualquer homem sentado ao lado dela deve proporcionar conforto e apoio. Então eu fiz isso, colocando um braço ao redor do corpo de Jackie e dando umas palmadinhas ligeiras no ombro dela.
– Não é culpa sua – eu disse, o que era mais do que óbvio. – Você não pediu para ter um perseguidor psicótico.
Ela fungou alto, a primeira coisa não atraente que a vi fazer.
– Eu deveria ter dito para eles – ela falou. – Eu deveria... tão egoísta, e agora Kathy está morta.
– Não tinha como você saber que ele iria fazer isso – eu falei. – Não é sua culpa de jeito nenhum. – E isso pode não ser assim tão lisonjeiro para mim, mas eu estava sentindo muito orgulho do jeito como estava encontrando as coisas adequadas para dizer. Afinal, a maior parte do meu poder cerebral estava dedicada a tentar descobrir quem havia matado Kathy, já que eu tinha certeza absoluta de que não tinha sido Patrick.
– É, sim. É minha culpa – ela insistiu. – Se eu não tivesse ficado tão preocupada com minha carreira idiota... e agora Kathy está morta por causa de um seriado de televisão idiota de que eu nem gosto! – Seus ombros tremeram com ainda mais força, e ela soltou um lamento misturado com uma fungada e se virou para mim, afundando o rosto no meu peito, e quando fez isso eu tive a profunda consciência de que a camisola dela era realmente muito fina, e de que eu ainda estava vestido para dormir – o que significava, sem camisa e usando apenas uma samba-canção meio velha. Meu outro braço instintivamente passou ao redor do corpo dela, e eu a segurei, sentindo as lágrimas e outras coisas escorrendo pelo meu peito. Fiquei imaginando por que não me importava.
Porque eu não me importava; na verdade, estava me sentindo muito bem mesmo. Parei de dar as palmadinhas no ombro dela e comecei a massageá-lo, de um modo que esperava que fosse tão relaxante para ela quanto para mim. A pele dela estava morna, seca e muito macia; eu ainda conseguia sentir um leve cheiro do perfume exalado por ela, e comecei a pensar em todos os tipos de coisas impensáveis que não se encaixavam mesmo no estado de espírito do assassinato recente.
Felizmente para todos nós, umas batidas autoritárias soaram na porta da suíte; eu me afastei de Jackie e fui até a porta.
– Quem é? – perguntei, de modo bastante desnecessário.
– Mas quem diabos você pensa que é? – rosnou alguém que só poderia ser a Deborah. – Abra a porra da porta!
Abri a porra da porta, e Deborah passou por mim como uma fúria e entrou no quarto. Ela parou ao ver Jackie amontoada no sofá, com os olhos vermelhos e o nariz escorrendo e, uma coisa que tem de ser admitida, não estando com a melhor das aparências. Debs se virou para mim e, pela primeira vez, pareceu perceber que minha indumentária era um tanto informal. Ela balançou a cabeça, claramente ainda sentindo o fogo latente dentro dela por causa das coisas de modo geral e procurando algo a que pudesse atear fogo. E, como sempre, esse algo era eu.
– Linda calcinha – disse ela, olhando fixamente para minha roupa. – Você está pensando em perseguir o cara usando isso?
Eu queria mesmo dizer para Deborah que não iria de jeito nenhum perseguir o cara, não sem um cilindro de oxigênio – mas não podia. Debs sabe o que eu sou e, de sua maneira restrita, ela quase aprova – mas Jackie não, não aprovaria, e isso teria deixado a conversa um tanto embaraçosa. E eu ainda estava fechando a boca quando aquela incerteza minúscula e maldosa se insinuou de volta na – totalmente ridícula – dúvida ilógica de que eu poderia ter matado a pessoa errada. Então, em vez disso, eu só disse:
– Dá a impressão de que é o mesmo assassino?
Deborah me olhou feio.
– Quantos desses malucos você acha que a gente tem andando por aí? – ela questionou, e passei por um momento de grande desconforto antes de ela acrescentar: – Ainda não vi o corpo, mas parece que é o mesmo.
– Ah – eu disse, com um ligeiro tremor de esperança. Jackie deu uma fungada das grandes, e eu me lembrei do motivo. – Vocês já identificaram o corpo?
– A foto da carteira de motorista bate – disse Deborah. – É ela, não tem dúvida. Kathy Podrowski. – E olhou para Jackie e disse, desnecessariamente: – A sua assistente.
Jackie emitiu um som que estava a meio caminho entre um lamento e a ânsia de vômito, e Deborah deu uma olhada para ela antes de se voltar para mim:
– Nós dois sabemos o que isso significa. E nós dois sabemos o que temos de fazer a respeito disso.
– Sim – eu falei. – Você tem de contar para o policial encarregado essa história que a gente está deixando de lado.
– Exato – ela rosnou.
– Hum – eu disse. – Quem é o encarregado?
O rosto de Deborah demonstrou uma raiva ainda maior, o que era impressionante, e ela rosnou:
– O Anderson.
Eu pisquei.
– Mas isso é... – eu disse, mas Deborah balançou a cabeça com amargura.
– Dois tiroteios envolvendo carros esta semana, mais uma decapitação ritualística, e aquela carnificina no Grove – ela disse amargamente. – E então é a vez do Anderson de novo porque estou ocupada escondendo essa merda dessa história do demente, e quando o capitão Matthews descobrir eu vou ter muita sorte se só for rebaixada para a Fiscalização e... Mas que merda, Dexter!
Vindo do sofá, houve um ligeiro som de alguém pigarreando, e nós dois nos voltamos para Jackie. Ela estava sentada muito ereta, os joelhos juntos, uma das mãos segurando a garganta. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas ela havia parado de fungar e estava claramente lutando para controlar suas emoções.
– Se isso puder prejudicar sua carreira... – ela disse, hesitante.
– Nem diga isso – disse Deborah, brusca.
Jackie pareceu intrigada e depois chocada. Balançou a cabeça.
– Ah, não – ela disse. – Eu estava só... Eu ia dizer que posso dizer para eles que foi tudo minha culpa. E é isso mesmo, porque você recebeu ordens para fazer o que eu pedisse, e... – Ela ergueu a mão e deixou-a cair no sofá ao lado de seu corpo. – Eu só... eu não quero que ninguém mais seja ferido – ela terminou de dizer com voz fraca. Enfrentou o olhar duro de Deborah por uns instantes, sem piscar, e então afastou os olhos. – É minha culpa. Parecia tão pequena e vulnerável que eu queria matar coisas por ela.
Deborah não parecia encarar as coisas da mesma maneira.
– Não importa o que você diga para eles – ela falou, inflexível. – Eu sou uma oficial que fez um juramento e tenho de saber o que fazer. – Encarou Jackie, mas a atriz não ergueu os olhos, e depois de uns instantes o olhar de Deborah ficou um pouquinho menos duro: – Não é culpa sua. Sou eu que... Eu sei muito bem o que devo fazer, e fiz o que fiz. – Deborah endireitou o corpo, como se estivesse pronta para enfrentar o pelotão de fuzilamento, e era isso mesmo, administrativamente falando. – Eu ferrei tudo. A responsabilidade é minha, então, eu aguento as consequências. Inspirou profundamente, se voltou e se dirigiu para a porta com um passo tão cadenciado que eu quase podia
ouvir a marcha do Coronel Bogie [18] tocando.
– Deborah – eu disse. Ela me olhou com uma expressão gelada, uma das mãos na maçaneta da porta, mas eu não conseguia pensar em nada para dizer que pudesse melhorar a situação. – Hum... Boa noite...?
Debs me olhou sem a menor expressão por um tempo que pareceu longo demais. Em seguida, só balançou a cabeça, abriu a porta e saiu.
Fui até a porta, fechei-a e coloquei a corrente. Fiquei parado ali por uns instantes, pensando no que a morte de Kathy significava. Ou a conversa com Deborah havia mandado um jorro de adrenalina para meu cérebro, ou eu estava apenas ficando completamente acordado, mas comecei a ver inconsistências pequenas e perturbadoras. Se alguém fora capaz de entrar no quarto da Kathy, não teria sido igualmente fácil entrar aqui, no nosso quarto? E, algo ainda mais básico: por que a Kathy? Ela não era loira, nem jovem, e, definitivamente, não era atraente. O corpo dela não tinha sido jogado em algum lugar público, e Debs havia dito que tinha sangue escorrendo por baixo da porta, o que não combinava com o modo como as outras vítimas tinham sido assassinadas. É claro, alguma coisa poderia ter apressado Patrick e ele teria precisado ir mais depressa do que gostaria, e então...
Mas não: de jeito nenhum. Era realmente impossível, e afastei o pensamento com firmeza. Não era Patrick, não poderia ter sido Patrick. Eu O havia matado, e não outra pessoa; Patrick estava mortinho, e já parcialmente comido por uma voraz vida marinha. E, não importava quão popular fosse a ideia difundida agora na televisão, eu me recusava a acreditar que ele havia voltado do mundo dos mortos. Definitivamente, não era Patrick.
Então, quem era?
Quem havia matado Kathy, e por quê?
E o que eu faria a respeito, se é que faria algo? Afinal, isso não era problema meu, de jeito nenhum. Kathy me odiara, e eu não tinha motivos para me importar. A morte dela, não importava quão desagradável tivesse sido, não tinha absolutamente nada a ver comigo, e não havia a menor razão para que eu continuasse a pensar nela.
É claro, Jackie estava chateada, mas encontraria uma nova assistente. Ela estaria mais preocupada com a possibilidade de perder o papel que a havia trazido para Miami. Porque Deborah teria mesmo de relatar a ameaça do perseguidor. Mesmo que eu dissesse para minha irmã que o perseguidor já havia partido desta pra melhor, ela não poderia dizer isso para outro detetive.
Então, provavelmente Debs tinha razão – ela estava encrencada. Quão encrencada dependeria de uma porção de coisas, como o jeito de ela apresentar as informações quando contasse para Matthews o que havia acontecido. Havia possibilidades: enfatizar cuidadosamente que estava seguindo ordens, auxiliando a produção, e que o detetive Anderson poderia facilmente ter obtido as mesmas informações se não estivesse ocupado transformando a investigação em um desastre – daria para fazer isso. Deborah poderia sair ilesa da história. É claro, isso tudo teria de ser feito de modo muito sutil, mas, mesmo assim...
E quando essa palavra, “sutil”, passou pela minha cabeça, eu suspirei. Deborah era tão sutil quanto um elefante roxo. Ela não teria a menor ideia de como proceder em uma situação como essa. Eu poderia até escrever um roteiro para ela, mas Deborah nunca seria capaz de desempenhar o papel assim como ele fora escrito. Eu conhecia minha irmã muito bem e, embora fosse muito capaz como policial, era totalmente incapaz como política. Nunca tinha conseguido seguir as regras do jogo de modo adequado, e não iria começar bem agora. Além do mais, ela já havia se deixado ficar em um frenesi masoquista e estava claramente disposta a levar a culpa no caso, porque era A Coisa Certa a fazer – como se isso realmente significasse alguma coisa.
Não, do jeito que as coisas estavam agora, a cabeça de Debs seria servida em uma bandeja. E quando isso acontecesse, o destino de Dexter seria terminar como sobremesa. Eu também tinha de saber qual era o limite, tão claramente quanto Deborah, e o tinha ultrapassado sem a menor sombra de dúvida. Eu não sabia muito bem qual poderia ser minha punição – a Fiscalização não tinha departamento forense –, mas, com quase toda a certeza, seria alguma coisa desagradável. Suspensão, provavelmente ficar sem pagamento – e bem quando eu mais precisava do dinheiro.
– Dexter – disse Jackie em voz baixa, e eu me virei bruscamente para olhá-la. Por um momento, perdido em meus desagradáveis pensamentos, eu havia esquecido que ela estava lá. – O que vai acontecer? Com Deborah? E com você?
Eu balancei a cabeça e respondi:
– É cedo demais para dizer.
– Mas pode ser alguma coisa ruim?
– Pode ser.
Ela olhou para seus joelhos. Eles eram muito bonitos, mas eu não via uma razão premente para ela ficar olhando-os. Eu a observei, mas ela não fez nada interessante; e, depois de um momento, um grande bocejo se apossou de mim, e percebi que estava muito cansado. Afinal, ainda era o meio da noite, e fingir estar perpetuamente vigilante consome um bocado de energia. De repente, eu não queria mais nada no mundo além de me deitar e dormir – e Jackie estava sentada na minha cama, o que tornaria o ato de esticar o corpo e dormir um tanto embaraçoso, ou, pelo menos, uma ação com a participação de gente demais. Eu havia acabado de formular um jeito educado de pedir para Jackie sair do sofá, de modo que eu pudesse me deitar e dormir, quando ela falou, abrupta, ainda olhando fixamente seus joelhos:
– Ele vai voltar, não vai?
A princípio, eu não sabia o que ela estava querendo dizer, e depois eu não sabia muito bem o que dizer. Após alguns segundos de um silêncio embaraçoso, ela finalmente me olhou e disse:
– O assassino. Patrick. Ele vai voltar e vai tentar de novo.
– Ah, eu não sei.
– Ele vai. Eu sei que ele vai. E da próxima vez...
Jackie estremeceu, mas não disse mais nada, então eu retornei às minhas observações já prontas a respeito do assunto “sono”.
– Seja como for – eu disse –, amanhã vai ser um longo dia. – Eu me aproximei do sofá e fiquei parado ao lado ela, olhando cheio de desejos para meu local de repouso. – A gente deveria tentar dormir um pouco.
Ela se levantou bruscamente, e, ao tentar sair da frente dela, eu quase caí por cima da mesa lateral. Ela agarrou meu braço e me segurou; mas, quando eu endireitei o corpo, ela não me soltou. Pelo contrário, ela se aproximou e me olhou, e aqueles olhos cor de lavanda estavam imensos; parecia que iam me olhar para sempre.
– Ele vai voltar – ela disse. – Eu sei que vai. – Ela inspirou profundamente e com dificuldade. – Ele poderia estar aqui no hotel, agora mesmo.
Ela estava muito mais perto de mim do que precisaria estar para me dizer isso, mas eu não reclamei. Só engoli em seco e respondi com uma boca que, sei lá por que motivo, subitamente estava seca demais.
– Bom, pode ser – eu falei, e, de algum jeito, ela conseguiu se aproximar ainda mais.
– Eu não quero ficar sozinha. Não esta noite. Eu estou... estou com medo. – Ela ergueu o rosto para mim com seus olhos muito abertos e atemorizados, e eu senti que estava caindo em um infinito mar cor de lavanda.
Eu não consegui dormir muito aquela noite, mas nem liguei, mesmo. Acontece que eu não estava nem um pouco tão cansado quanto tinha pensado que estava.