Dexter: Em Cena
Capítulo 3
O CORPO ESTAVA DENTRO DE UMA CAÇAMBA EM UMA RUA SEM SAÍDA perto do campus central da Universidade de Miami-Dade. A rua estava escura, mesmo sob a luz do sol do meio-dia, sombreada pelos prédios que a rodeavam, e provavelmente ficava ainda mais escura à noite, quando um Alguém maldoso havia escolhido o local para sua diversão e seus joguinhos, provavelmente por essa mesma razão. A julgar pelo estado do corpo, tinha sido uma ideia muito boa. Era melhor que não fossem vistas as coisas que haviam sido feitas com o que uma vez fora uma mulher jovem e atraente.
A caçamba ficava em um ângulo no canto mais afastado da rua sem saída. Um dos lados da tampa estava escancarado, e mesmo a uns três metros de distância dava para a gente ouvir o zunido dos nove milhões de moscas que voavam ao redor em uma grande nuvem escura. Angel-Batista-Sem-Parentesco estava polvilhando o lado de fora da caçamba para procurar impressões digitais. Ele estava trabalhando cuidadosamente ao longo da parte superior, espalhando o pó com uma das mãos, e com a outra espantando as moscas.
Vince estava apoiado em um dos joelhos, no lado mais próximo da gente, ao lado da caçamba, onde uma parte do lixo mais mole havia se esparramado sobre a calçada. Ele estava cautelosamente vasculhando o grude imundo com seus dedos envoltos em luvas de borracha. Não parecia estar muito feliz.
– Deus do céu – ele me disse, sem olhar para cima. – Não dá para eu respirar.
– Respirar é algo superestimado – eu falei para ele. – Descobriu alguma coisa?
– Sim – ele respondeu quase rosnando. – Encontrei um bocado de lixo. – Rangeu os dentes e removeu alguma coisa que havia grudado em suas luvas.
– Se a gente tiver mais um como este, eu me transfiro para a Fiscalização.
Senti um pequeno e sombrio formigamento de interesse vindo do Passageiro.
– Mais um? – perguntei. – Será que vamos pegar mais um?
Vince limpou a garganta e cuspiu para o lado.
– Não parece uma morte acidental – ele disse. – E, definitivamente, não uma briga com o namorado. Meu Deus, eu odeio lixo.
– O que isso quer dizer com “outro”? – Chase perguntou de seu posto ao lado de meu cotovelo. – Vocês querem dizer que pode ser, assim, um serial killer?
Por um momento, Vince esqueceu que estava de joelhos no meio do lixo e deu um grande sorriso para Chase com adoração profunda.
– Oi, Robert – ele disse. Depois de uma semana inteira vendo Chase todos os dias, Vince ainda chegava quase a desmaiar na presença dele. Mas, pelo menos, ele não estava mais gemendo “aimeudeus”.
– Então, por que você acha isso? – perguntou Chase. – Como... você sabe... não é algo acidental?
– Ah – respondeu Vince. – É só, você sabe. Um pouco... extravagante? – Ele agitou uma das mãos alegremente, mandando um pequeno punhado de lixo voando pelo ar até cair no meu sapato. – Opa.
– Extravagante – Chase disse, pensativo. – Assim, como, você quer dizer, hum... O quê?
Vince continuou a sorrir. Nada que Chase dissesse, não importava quão cretino fosse, poderia causar um arranhão em sua armadura polida e brilhante.
– Complicado – disse Vince. – Assim como, você sabe. Ele não queria apenas matar a moça. Ele tinha de fazer coisas com ela.
Chase assentiu, e mesmo nas sombras da rua sem saída, eu achei que ele havia ficado um pouco mais pálido.
– Que, hum – ele disse e engoliu em seco. – Que tipo de coisas?
– Dê uma olhada – disse Vince. – É meio difícil descrever.
Chase transferiu o peso do corpo de um pé para o outro, claramente desejando estar em praticamente qualquer outro lugar. Mas, de minha parte, eu não conseguia esperar mais. Gostaria de poder dizer que eu sentia uma premente sensação de dever em relação à Cidade de Miami, que me pagava para investigar essas coisas. Mas, na verdade, o peso de minhas obrigações profissionais não era nada comparado à crescente onda de sussurros pressurosos vindas dos mais profundos subterrâneos da Sombria Fortaleza de Dexter, me incitando a dar uma espreitada na caçamba e me deliciar com o que pudéssemos encontrar. Então, passei ao lado de Vince para me aproximar do local onde Angel-Sem-Parentesco estava meticulosamente fotografando as dúzias de impressões digitais borradas que havia encontrado.
– Angel, o que nós temos? – perguntei.
Ele não me olhou; apenas fez uma cara de desgosto profundo e acenou na direção da caçamba.
– Mira – ele disse.
Olhei lá dentro. A caçamba estava com uns dois terços dela repletos de uma deliciosa mistura de papel, plástico e de restos de comida apodrecendo. Esparramado por cima da bagunça perfumada estava o corpo nu e mutilado de uma moça. Dei um passo adiante para olhar melhor, e mesmo antes que quaisquer detalhes fossem registrados por mim de forma consciente, em um local escuro estéril e escondido dentro de mim, a imagem foi devidamente fotografada, e senti o Passageiro das Trevas sair de sua sonolência com um sacudir de asas de couro e um crescente sibilar de palavras que não eram bem palavras, sussurrando ao subir a escadaria cheia de sombras vindo do mais profundo subterrâneo do Castelo Dexter e rumo às muralhas defensivas para uma vista mais detalhada e docemente dizendo Sim, Oh, Sim, Sim, Isso; e com uma nova sensação de respeito, olhei cuidadosamente para ver o que havia despertado o Passageiro de seus sonhos sombrios.
Ela estava praticamente virada de costas para mim, escorregando parcialmente pela encosta do lixo amontoado; mas, pelo que dava para ver de modo geral, sua morte não havia sido fácil. Um grande punhado de cabelos dourados no lado de sua cabeça havia sido arrancado pela raiz, revelando uma orelha parcialmente arrancada por uma mordida.
A parte visível de seu rosto estava tão brutalmente danificada que a própria mãe dela não reconheceria jamais o que havia sobrado. Seus lábios haviam sido cortados de modo desajeitado, deixando somente uma ruína rubra e irregular. Seu nariz havia sido esmagado até virar uma polpa achatada e vermelha, e a cavidade ocular visível estava vazia.
O resto dela parecia ter sido igualmente destroçado; o mamilo estava faltando, aparentemente arrancado com os dentes, assim como a orelha, e seu estômago tinha sido cortado bem abaixo do umbigo. Dava para ver pelo menos três ferimentos que poderiam tê-la matado, e mais uma dúzia que teriam sido horríveis o suficiente para fazer com que a morte parecesse uma boa ideia.
Mas antes que pudesse dar mais que uma olhada rápida, ouvi um som pavoroso atrás de mim, como se alguém estivesse estrangulando um animal bem grande; e me voltei para ver Chase se afastando rapidamente com as duas mãos pressionadas sobre a boca, o rosto ficando com um tom verde-claro quase tão rapidamente quanto ele se afastava. Com uma sensação de verdadeiro prazer, eu o observei ir correndo para a barreira. Aquela era uma reação comum ao ver uma morte grotesca pela primeira vez; porém, neste caso, muito satisfatória. E isso também me deixou em paz para dar uma olhada mais detalhada e com mais calma; e eu o fiz.
Vistoriei o corpo da cabeça aos pés, maravilhando-me com o grande alcance da devastação, e o Passageiro murmurou sua apreciação. Alguém gastara muito tempo e esforço fazendo isso; e embora os resultados certamente não estivessem no nível de meus elevados padrões artísticos, mesmo assim eles mostravam um pouco de vigor primitivo e de abandono que eram admiráveis, até mesmo contagiosos. A técnica era rudimentar, ineficaz, brutal, mas apontava para uma louca alegria experimental no trabalho que era uma delícia de ver. Afinal, tão poucos de nós parecem apreciar nosso trabalho atualmente. Quem quer que tenha feito aquilo, claramente apreciou o ato. E, de modo igualmente claro – pelo menos para mim o assassino estava explorando, buscando alguma coisa que não havia encontrado direito, apesar de uma busca bastante meticulosa.
Dei mais uma olhada longa e cuidadosa nos restos despedaçados da moça e não precisei da aprovação sussurrada do Passageiro para concordar com Vince. Aquela poderia ter sido a primeira vez que Nosso Criminoso tinha feito aquilo, mas não seria a última. As coisas sendo como são, até que seria uma boa coisa pegá-lo antes que ele transformasse muitas outras moças em comida para peixe; e isso queria dizer que era hora de Dexter colocar seu poderoso cérebro na ativa e se mexer. Havia um serviço urgente e verdadeiro para fazer, e com Chase exilado perto da faixa amarela, pelo menos eu estava livre para fazê-lo.
Mas eu não tinha feito nada além de encontrar um local relativamente limpo para acomodar minha sacola, quando ouvi o que soava como uma salva de aplausos vindo de perto da fita amarela. Eu já tinha estado no local de centenas de homicídios, tanto na vida profissional quanto na busca pelo meu hobby, e vi e ouvi muitas coisas surpreendentes. Entretanto, posso honestamente dizer que nunca tinha ouvido antes um corpo mutilado ser aplaudido de pé. Eu me voltei para olhar com mais do que um pouco de curiosidade.
Bem naquele instante, Deborah estava passando por baixo da fita amarela, e por uma fração de segundo fiquei pensando se ela, de algum modo, havia finalmente conseguido o reconhecimento público que tão verdadeiramente merecia por seus anos de trabalho duro a serviço da Justiça. Mas não; alguns passos atrás da minha irmã, uma cabeça dourada e cuidadosamente despenteada apareceu, e percebi que o ávido soar aprobativo havia sido na verdade dirigido à sombra de Deborah, Jackie Forrest. Ela parou junto da fita amarela para acenar para a multidão e dar um sorriso estonteante, e as pessoas ao redor dela se moveram para a frente – não como se tencionassem agarrá-la ou tocá-la, mas era mais como se não pudessem evitar, pois havia alguma coisa nela que as impelia a se aproximar ainda mais.
Fiquei olhando enquanto Jackie trocava palavras com algumas das pessoas ansiosas e idiotamente sorridentes, e achei aquilo fascinante, de um modo estranho. O que havia nela que agia como erva-dos-gatos sobre essas pessoas? Ela era famosa, sim, mas Robert também era, e a reação da multidão não havia sido nada parecida. E ela era bonita – mas dava para eu ver pelo menos três mulheres na multidão ao redor dela que eram, sinceramente, mais bonitas. E, no entanto, todos saíram correndo na direção de Jackie, aparentemente sem saber o motivo.
Fiquei observando enquanto Jackie dizia umas poucas palavras finais para a multidão, um último sorriso, e então se esgueirou sob a fita amarela e se encaminhou para a caçamba. Eles ficaram olhando-a se afastar, incapazes de tirar os olhos, e percebi que eu não estava em melhores condições. Agora que havia visto uma multidão acéfala e babona encarando um ator de televisão, eu me senti compelido a observá-la também. Disse para mim que estava simplesmente tentando entender por que o populacho a achava tão enfeitiçadora, mas eu próprio não parecia acreditar.
Finalmente afastei os meus olhos e fui me encontrar com minha irmã. Debs já estava dando uma olhada na caçamba com uma expressão muito dura em seu rosto.
– Caralho – ela disse. – Porra de um caralho. – Ela balançou a cabeça. – Você descobriu alguma coisa?
– Eu acabei de chegar – respondi.
– Quem pegou o caso? – ela perguntou, os olhos dardejando sobre o corpo.
– Anderson – falei. Ela balançou a cabeça.
– Merda – ela disse. – Ele é incapaz de achar a própria bunda com as duas mãos.
– O que é isso? – perguntou uma voz rouca, e Jackie Forrest se juntou a nós.
– Talvez você não queira ver – eu avisei, mas ela já havia me colocado de lado para olhar dentro da caçamba. Relembrando a reação de Chase, eu me preparei para a inevitável explosão de horror, de angústia e de vômito, mas Jackie só ficou olhando.
– Nossa – ela disse. – Oh, meu DEUS. – Ela deu uma olhada na direção de Debs. – Quem faria isso?
– Um monte de pessoas – rosnou Deborah. – Mais e mais a cada dia.
– Nossa – disse Jackie outra vez, ainda olhando a moça morta, e então ela fechou a cara. – E aí, o que você faz agora?
– Nada – respondeu Deborah por entre os dentes. – O caso não é meu.
– Okay, certo – disse Jackie com um impaciente gesto com a mão. – Mas, se fosse seu caso, o que você faria?
Deborah desviou o olhar do corpo e encarou Jackie. Depois de uma longa pausa, Jackie desviou os olhos da coisa que estava na caçamba e olhou diretamente para minha irmã.
– O que foi? – ela perguntou.
– Isso não incomoda você? – perguntou Debs, acenando na direção do corpo.
Jackie fez uma careta.
– É claro que me incomoda – ela respondeu, a voz repleta de irritação. – Mas eu só estou tentando ser, sabe, profissional. Quer dizer, isso não incomoda você?
– É o meu serviço – disse Deborah.
Jackie acenou positivamente com a cabeça.
– Exatamente – disse ela. – E agora é o MEU serviço também. Eu preciso aprender a respeito de tudo isso. Quer dizer, ora. Você quer que eu saia por aí feito uma menininha assustada, e grite e desmaie?
Debs analisou-a por mais um longo tempo. Jackie analisou-a de volta.
– Não – Debs acabou dizendo. – Acho que não.
Jackie assentiu.
– Então está tudo certo – ela disse. – E então, se fosse seu caso, o que você faria agora?
Deborah olhou-a por mais um longo momento. Então balançou a cabeça na minha direção.
– Normalmente, falo com ele – ela disse, e Jackie voltou para mim os seus olhos cor de violeta. Eu não vou dizer que meus joelhos ficaram fracos e trêmulos, mas com certeza senti que deveria fazer uma reverência, endireitar meu smoking e dar-lhe uma orquídea.
– Por que ele? – ela perguntou.
– Dexter é um perito forense – disse Deborah –, e às vezes ele tem sorte, encontra alguma coisa que pode me ajudar. E, além do mais – ela deu de ombros –, ele é meu irmão.
– Seu irmão! – ela exclamou com o que parecia genuíno prazer. – Isso é perfeito! Então, você é a policial durona, e ele é o nerd! Assim como no seriado!
– O termo preferido é CDF – eu disse. – Embora geniozinho possa ser usado em ocasiões difíceis. Mas nunca nerd.
– Oh, desculpe – ela disse e colocou uma das mãos sobre meu ombro. Dava para eu sentir o calor dela através da camisa. – Não tive a intenção de insultar você. Desculpe.
– Hum – eu disse, com uma grande consciência da mão quente dela sobre meu ombro. – Não tem o menor problema.
Ela sorriu e retirou a mão.
– Ótimo – ela disse. – Então, ahn, você já conseguiu achar alguma coisa que, você sabe... alguma coisa que possa ajudar?
Na verdade, a única coisa que eu tinha descoberto era uma ternura por ter tido a mão dela sobre meu ombro e, por algum motivo, aquilo era tremendamente irritante. Afinal, eu tinha passado a vida inteira sem sentir nem um ínfimo zéfiro dos ventos tempestuosos da concupiscência humana – e a troco de quê eu deveria começar agora, com uma inalcançável deusa de cabelos dourados? E, falando sério, eu tinha coisas muito mais importantes para fazer, muitas delas envolvendo fita adesiva e facas para peixe. Mas controlei a rabugice crescente e, dentro do espírito de cooperação estipulado pelo capitão Matthews, respondi:
– Em primeiro lugar – falei –, você deveria dizer: “Você descobriu alguma coisa?”. E não: “Hum, você já conseguiu achar alguma coisa?”.
Jackie sorriu de novo.
– Tudo bem – disse ela, e acrescentou: – Você descobriu alguma coisa?
– Não dê a impressão de estar tão feliz – eu disse. – É mais um tipo de rosnado casual e irritado. Assim. – Mudei minha cara para a minha melhor imitação da Cara de Policial de Deborah e disse: – Você descobriu alguma coisa?
Jackie riu. E era um som tão contagiosamente alegre que, por um momento, eu esqueci que estávamos parados ao lado de um corpo mutilado desovado em um monte de lixo.
– Okay – ela disse. – Então, você não é apenas um perito forense CDF, é um instrutor de interpretação também, hein? Tudo bem. Que tal assim? – E ela contorceu seu rosto em uma máscara com ar de peixe emburrado que realmente se parecia muito com a expressão de Deborah. – Você descobriu alguma coisa? – ela perguntou, com voz inexpressiva. Então deu uma risadinha de novo, e eu senti um sorriso responsivo se insinuando em minha face.
Contudo, Deborah não parecia compartilhar do nosso bom humor. Fechou ainda mais a cara e disse:
– Se os dois dementes já acabaram de fazer suas palhaçadas, nós ainda temos um corpo despedaçado aqui.
– Oh – Jackie disse, na mesma hora assumindo uma expressão séria. – Desculpe, sargento. É claro, você tem razão.
Embora não pudesse deixar de pensar que Deborah estava sendo um pouco desmancha-prazeres, eu também sabia que ela tinha razão. E, de qualquer modo, eu não gostava dos estranhos sentimentos humanos que Jackie estava causando em mim. Então, acenei ligeiramente para as duas, de modo muito profissional, e voltei ao trabalho.
Eu estava trabalhando não fazia muito tempo quando ouvi Vince emitir um som nauseado e dizer:
– Oh, Jesus. Oh, meu Deus. – E já que estava praticamente seguro de que Robert não tinha voltado para dar outra olhadinha no pessoal, eu me voltei para olhar Vince e ver o que havia causado aquele tipo de reação em alguém normalmente tão impassível, mesmo quando confrontado com a maior das carnificinas.
Vince havia arrastado uma caixa até a caçamba. Estava em pé sobre ela, examinando cuidadosamente o corpo, mas alguma coisa o havia feito ficar petrificado naquele local, completamente imóvel, meio encurvado sobre a caçamba. Senti um novo sibilar de interesse por parte do Passageiro.
– O que houve? – perguntei, lutando para manter a ansiedade afastada da voz.
– Oh, caralho – ele disse. – Não dá pra acreditar nisso.
– Acreditar em quê? – eu perguntei, já me sentindo bem irritado com o jeito de ele se expressar com um dramático crescendo, em vez de simplesmente responder à minha pergunta.
– Sêmen – ele respondeu, sacudindo a cabeça e se voltando para me encarar com uma expressão de completa repulsa. – Tem sêmen na cavidade ocular.
Eu pisquei; tenho de admitir que aquilo parecia demais, até mesmo para mim.
– Na cavidade ocular? Você tem certeza? – perguntei, e que eu ter dito algo assim estúpido é uma indicação de quão chocado estava.
– Tenho certeza – ele respondeu, se voltando para olhar o corpo uma vez mais. – Na verdade, ele está DENTRO da porra da cavidade ocular, e isso significa que... Oh, mas que porra de caralho.
Eu me aproximei dele e olhei mais uma vez para os esfrangalhados restos da moça. Ela ainda estava morta. Vince havia virado ligeiramente a cabeça dela, de modo que dava então para ver o outro lado de seu rosto, e embora ele estivesse igualmente mutilado, o outro olho não havia sido arrancado. Ele estava bem aberto, olhando fixamente à sua frente, na direção da morte improvável que havia chegado até a moça. Fiquei pensando no que ela havia feito para causar esse tipo de fim monstruoso. Não que eu esteja papagueando a Fala do Estuprador Homicida: Ela merecia isso, Ela só podia esperar isso se vestindo daquele jeito, e por aí vai. Eu tinha certeza de que, quem quer que aquela moça tivesse sido, ela não havia feito nada para provocar deliberadamente uma coisa como aquela.
Mas sempre tem alguma coisa que a vítima faz de modo inconsciente, algum estímulo especial que faz o Passageiro se erguer das sombras e se sentar no banco do motorista. Cada Monstro tem seu próprio ponto de ebulição específico que incendeia a Necessidade, e ele é quase sempre diferente.
E cada Monstro reage à sua maneira característica, seguindo um programa que proporciona uma satisfação única, uma série de rituais que tem sentido somente para ele, e que termina da maneira como deve terminar, não importa quão surpreendente possa ser para a testemunha humana acidental. E quando a imprensa e um público ultrajado se encolhem horrorizados, exigindo saber a razão, e entoam seu lamentoso e espantado coro do “Por que alguém iria fazer isso?", nós, que temos conhecimento das coisas, podemos apenas sorrir e dizer: Porque sim. Isso nunca vai fazer sentido para você, ou para qualquer outra pessoa, e não precisa fazer. Isso precisa somente Me satisfazer, realizar Minha fantasia especial. Esse é um bilhete eletrônico para uma viagem com apenas uma cadeirinha, a Minha, e ninguém jamais vai poder sentir essa excitação da montanha-russa do Só-Eu, a única coisa que proporciona somente para Mim essa satisfação máxima, e quer isso seja lenta e alegremente fatiar um companheiro cuidadosamente selecionado, ou destroçar uma moça e encher a cavidade ocular vazia com sêmen, é sempre o mesmo ato individual com a mesma conclusão de libertação, de satisfação e de gozo.
Mas isto...
Sei muito bem que todos nós temos nossos impulsos sexuais, até um ponto ou outro, até mesmo nós da Irmandade Sombria. Isso pode ser a mais básica e difusa parte do relógio humano: todos somos impulsionados pelo sexo. Mas os ponteiros se movem em velocidades diferentes para todos nós, e a coisa que faz com que os carrilhões comecem a soar é quase sempre única. Mesmo assim, isso estava muito além até do meu entendimento. Eu não conseguia me lembrar de ter visto alguma coisa parecida com essa concupiscência ímpar.
Sêmen na cavidade ocular; um gozo que era tanto real quanto metafórico. O que aquilo significava? Porque sempre tem algum significado. É sempre um símbolo fundamental em um mundo de significados pessoais, uma chave básica para entender quem havia feito aquilo. Sêmen deixado em cadáveres é, na verdade, bastante comum, e o local específico onde ele é encontrado é sempre importante. Ele indica um desejo de controlar, de degradar, de conquistar aquele local particular. Então, era bem possível que o assassino tivesse algum problema muito especial relacionado à visão, ou à observação – ou também poderia muito bem ser um problema relacionado a olhos azuis, ou a lentes de contato, ou com alguém piscando.
Mesmo assim, esse era um ponto de partida para alguém com minhas habilidades especiais – as profissionais – e fiquei pensando enquanto trabalhava. Afinal, aquela era uma área de interesse real para mim. E, mais uma razão, se aquele fosse um caso de Deborah, ela certamente teria me pedido algum tipo de esclarecimento do Eu Perverso e Doentio. Então, fiquei pensando no assunto e, embora não conseguisse pensar em nada que fosse útil, pelo menos ajudou a passar o tempo.
Como tínhamos chegado na caçamba já um pouco tarde, depois do almoço, já havia passado bastante a hora do fim do expediente quando finalmente conseguimos terminar tudo lá na cena do crime. Empacotei minhas amostras, agarrei minha sacola e me preparei para ir embora. Chase estava parado ao lado da fita amarela que cercava a área do crime, conversando com uns policiais uniformizados. Aparentemente, ele não estava mais se esforçando para manter o almoço no estômago; na verdade, ele parecia estar no meio de uma narrativa hipnotizante, e os policiais estavam seguindo cada palavra dele com um interesse cheio de espanto. Sem ter a menor vontade de interromper uma cenazinha tão amigável, passei bem longe.
Mas Chase surgiu ao lado do meu cotovelo no instante em que eu estava sob a fita amarela.
– O que você descobriu? – perguntou. – É um serial killer?
Para ser franco, eu já estava ficando um tanto irritado com essa obsessão dele por serial killers. Por que todo mundo imagina que Miami está lotada de serial killers? Além do mais, Robert fazia com que eles parecessem uns esquisitões, umas aberrações, um tipo de bestas sub-humanas selvagens e agourentas; e, como eu poderia muito bem ter-lhe dito, eles realmente não são. São perfeitamente normais. Quero dizer, a maior parte do tempo.
Mas ser sincero nem sempre é a melhor política, não importa o que os escoteiros digam para você. Então, balancei a cabeça diante da pergunta estúpida.
– É cedo demais para dizer – respondi.
Robert ficou ao meu lado o tempo todo durante o caminho de volta para o quartel-general, fazendo perguntas cujas respostas ele poderia ter conseguido com facilidade se tivesse me observado trabalhar; o que eu tinha feito na cena do crime, o que tinha descoberto, que tipo de amostras havia recolhido, por que fazia aquilo, o que iria fazer com aquilo, o que ia acontecer em seguida. Aquilo tudo era extremamente irritante, e eu não podia deixar de pensar que Jackie Forrest com certeza teria feito perguntas mais inteligentes – e teria uma aparência muito melhor ao fazê-las.
Chase me acompanhou até o laboratório e ficou observando enquanto eu apressadamente passava pela rotina de catalogar as amostras que havia trazido da cena do crime. Eu estava com fome, e suas perguntas faziam com que tudo demorasse mais do que deveria, já que eu tinha de explicar cada passo do processo. Pelo menos, ele já tinha ouvido falar de cadeia de evidências, o que poupou alguns minutos. Mas, quando finalmente terminei tudo e estava pronto para ir correndo até meu carro e ir rápido rumo ao meu fim de semana, ele me fez parar uma última vez.
– Então, é isso, certo? – ele disse. – Quer dizer, sexta-feira à noite. O fim de semana. Então, hum, nada acontece com tudo isso até a manhã de segunda-feira?
– Exatamente – respondi, mantendo um equilíbrio maravilhoso entre responder educadamente e sair correndo para a porta.
– Então, tudo bem – ele disse. – Então, ora. Você, ahn... você só... – Ele olhou para o outro lado e então virou rapidamente a cabeça na minha direção, de um modo abrupto o suficiente para me fazer ter um sobressalto.
– O que você faz nos seus fins de semana?
Eu realmente gostaria de dizer que saía procurando pessoas como ele e as despachava deste mundo em pacotes bem arrumados, cuidadosamente embrulhados em sacos grossos de lixo. Porém, percebi que essa não seria a resposta mais politicamente correta.
– Sou casado – eu disse. – Fico com minha esposa e as crianças.
– Casado – ele falou, como se eu tivesse dito que era um astronauta.
– Então, assim, você leva as crianças ao parquinho? Encontros com outras crianças, esse tipo de coisa? Quantos anos têm seus filhos?
Lá no fundo, bem lá no fundo, no mais confortável e escuro recanto do Forte Dexter, eu ouvi um som muito leve semelhante ao do couro, um mero pigarrear, nem mesmo um agitar de asas – mas, com toda a certeza, um sinal de que o Passageiro havia se entusiasmado ligeiramente por algum motivo; não como se existisse algum perigo para mim, de jeito nenhum, mas, pelo contrário... o quê? Alguma coisa.
Eu olhei Chase, esperando algum tipo de dica a respeito do que poderia ter disparado o quase alarme do Passageiro. Mas ele apenas me encarou de volta, e eu não senti nenhum tipo de ameaça vindo de sua parte, embora ele estivesse me olhando com tanta intensidade como quando me havia feito as perguntas a respeito dos procedimentos forenses.
– Isso é por causa do seu personagem? – eu perguntei.
Ele passou a língua pelos lábios e desviou o olhar.
– Não, eu... sinto muito. Não quis me intrometer. Eu só, você sabe. – Ele deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos. – Eu, hum, nunca me casei. Cheguei perto, uma vez, mas... – Tirou as mãos dos bolsos e fez um gesto de desamparo. – Eu não sei. Nunca tive filhos e sempre fiquei pensando, você sabe, se eu poderia ter feito isso, ser pai. – Ergueu os olhos para mim e rapidamente acrescentou: – Quer dizer, não a coisa física... a parte biológica, porque, você sabe, nunca tive nenhum problema nessa área. – Ele me lançou um sorriso rápido e estranho, então desviou o olhar e inspirou profundamente. – É só, as outras coisas. Coisas de todos os dias, tipo ensinar a criança a andar de bicicleta, e colocar um band-aid no joelho dela, e, você sabe, as coisas que você faz o tempo todo. – E ele me olhou com aquela expressão de novo, aquela que dizia que ele desejava alguma coisa, mas não tinha a menor ideia de como obtê-la.
E, uma vez mais, senti um pequeno e hesitante murmúrio vindo do Subterrâneo, e mais uma vez não tinha a menor ideia da razão. Certamente, Chase não estava me ameaçando de jeito nenhum – e o murmúrio do Passageiro não tinha me indicado uma ameaça imediata; apenas um tipo de vago desconforto. Mas por quê?
Então olhei Robert e pensei no que ele havia dito. Não era nada sombrio e ameaçador, mas era ligeiramente estranho de um jeito que eu não conseguia identificar. Se ele realmente gostasse de crianças, por que não ter umas? E se estivesse inseguro, ele tinha condições de alugar meia dúzia delas para fazer uma experiência.
Mas eu não tinha resposta e não obtive uma de Chase, que havia se virado e dava a impressão de ter esquecido que havia qualquer outra pessoa na sala com ele. Ele estava com os olhos fixos na distância, mergulhado em seus próprios pensamentos e inclinando a cabeça para o lado como se estivesse escutando uma música fraca tocando em algum lugar. Inspirou profundamente, e com dificuldade, e então, de repente, se endireitou de novo e voltou a me olhar, espantado. Sacudiu o corpo.
– Seja como for – ele disse, animado. – Tenha um bom fim de semana. Com sua esposa... e as crianças. – Deu-me uma palmada no ombro, apertando-o por um breve instante, e então se afastou com passos rápidos para fora da porta e desceu as escadas, adentrando na solitária noite de Miami.
Fiquei pensando em Chase e sua estranha atuação até chegar ao meu carro. Com certeza, tinha alguma coisa a mais naquele homem do que eu havia suspeitado; uma profundidade de sentimentos que ele havia mantido muito bem escondida por trás de sua máscara cotidiana de frivolidade autocentrada. Ou suas diversas máscaras, já que ele certamente escondia todos os tipos de coisas a respeito de si – como por que ele detestava tanto Jackie. Provavelmente tudo isso fazia parte do fato de Ser um Protagonista. Ele teria de esconder qualquer coisa que não se encaixasse com perfeição em sua imagem pública de machão-porém-sensível. Então, não podia deixar ninguém saber se ele gostava de cachorrinhos peludinhos e brancos, ou gostava de ler romances. Se o público ficasse sabendo disso, esse tipo de coisa poderia lhe custar a carreira. Eles poderiam pensar que ele era um boiola, ou pior – até mesmo um liberal! Não ia dar certo.
Mas, com toda a honestidade, isso não fazia a menor diferença, nem um pouquinho. Essa era apenas mais uma das dúzias de contradições cretinas que constituíam a multifacetada bagunça que era a humanidade; e, levando tudo em consideração, era muito menos interessante do que pensar no que Rita poderia ter feito para o jantar.
Dei a partida no meu carro e tirei Chase da minha cabeça enquanto abria caminho em meio à alegre brutalidade do tráfego noturno de uma sexta-feira em Miami.