Dexter: Em Cena
Capítulo 5
ACORDEI NA MANHÃ SEGUINTE COM O ESTRÉPITO DE PANELAS E O aroma de café e bacon que vinha da cozinha flutuando pelo hall. Comecei a cambalear para fora da cama e então me lembrei de que era sábado; por isso, eu me concedi alguns minutos a mais para ficar relaxando e desfrutar do pensamento de que não tinha para onde ir e nada para fazer, e que Rita estava me preparando um maravilhoso café da manhã. Eu podia só ficar ali, deitado, confortável e complacente, com a consciência de que tudo estava bem no mundo e que nesta manhã não havia dragões para matar. Eu tinha o dia inteiro para dedicar a uma atividade: não fazer nada – e, ainda melhor, fazer isso sem ninguém ficar me seguindo e tomando notas a respeito de como eu fazia isso.
Fiquei deitado quase adormecido, embalado pelos agradáveis aromas do café da manhã, e deixando minha mente vaguear, o que foi muito bom até ela retornar ao breve sonho que eu tinha tido a noite passada no sofá. Quando a recordação do rosto de Jackie Forrest se intrometeu de novo, eu me sentei rígido na cama, irritado. Por que ela não podia me deixar em paz?
Toda a paz se fora; eu me levantei, me arrastei até o banheiro, tomei banho, me vesti e fui para a mesa da cozinha, esperando que o café da manhã me botasse nos eixos de novo. Lily Anne estava em seu cadeirão, atacando um pouco de purê de maçã e, quando eu entrei, ela agitou os pés e gritou:
– Papuuuuu! – que era o novo nome para mim.
Parei ao lado do cadeirão e fiz cócegas sob o queixo dela.
– Lily Willy disse eu, e ela gorgolejou. Limpei o purê de maçã do meu dedo e me sentei à mesa.
Rita estava no fogão e se voltou sorrindo.
– Dexter – ela disse –, tem café. Você gostaria de comer alguma coisa?
– Mais do que a própria vida – respondi, e alguns segundos mais tarde eu estava encarando uma fumegante caneca de café e uma pilha das rabanadas de Rita. Não sei o que ela coloca nelas, mas são mais saborosas que quaisquer outras que eu já tenha comido, e depois de quatro pedaços de rabanada, uma fatia de cantalupo perfeito e maduro, e três crocantes fatias de bacon, eu me afastei da mesa e enchi uma segunda caneca de café, pensando que poderia haver algum sentido para esta curta e dolorosa existência, afinal.
Eu estava bebendo a metade da minha terceira caneca de café quando Cody e Astor apareceram. Eles chegaram juntos, ambos rabugentos e despenteados por causa do sono. Cody usava pijamas dos Transformers, e Astor vestia uma camiseta extremamente grande que tinha um desenho de algo que parecia ser um ornitorrinco, e eles desabaram em suas cadeiras como se alguém tivesse roubado todos os seus ossos. Cody atacou as rabanadas sem uma palavra, aparentemente ainda adormecido, mas Astor encarou seu prato como se ele estivesse repleto de larvas.
– Eu vou engordar se comer este treco – ela disse.
– Então não coma – disse Rita, alegremente.
– Mas eu estou com fome – se lamuriou Astor.
– Você prefere tomar um iogurte? – perguntou Rita.
– Eu odeio iogurte – sibilou Astor.
– Então coma suas rabanadas – Rita respondeu. – Ou então fique com fome. O que você preferir. Mas pare de choramingar, tudo bem?
– Eu não estou choramingando – choramingou Astor, mas Rita a ignorou e se voltou para o fogão. Astor ficou olhando as costas dela com um ar de desprezo venenoso. – Esta família é uma droga – ela resmungou, mas começou a dar umas bicadas na comida; e, enquanto eu bebia o resto do meu café, de algum modo ela se obrigou a comer tudo que tinha no prato e a pegar uma segunda porção.
Eu tinha quase deslizado de volta para uma versão um pouco mais atenta do estado de contentamento em que me encontrava ao acordar, quando Rita me arrancou do meu sonhar acordado.
– Vão terminando, vocês todos – ela disse, feliz. – Temos um montão de coisas para fazer hoje.
Aquilo soava como um pronunciamento agourento. Um montão de coisas para fazer? Exatamente o quê? Tentei me lembrar se eu havia visto uma longa lista de tarefas a executar – tarefas tão urgentes que pudessem invadir e conquistar um sábado que eu esperava poder dedicar à vagabundagem. Nada surgiu em minha mente, e nenhuma lista apareceu. Rita estava tão concentrada em sei lá quais fossem essas tarefas que havia assumido que nós todos poderíamos receber as instruções dela telepaticamente. Talvez minha antena psíquica e tivesse quebrada, mas eu não tinha a menor ideia da tarefa que deveria realizar, e parecia meio grosseiro perguntar.
Felizmente, Astor não era assim tão tímida.
– Eu quero ir para o shopping – ela disse. – Por que tenho que fazer um serviço idiota com vocês?
– Você é nova demais para ir ao shopping – disse Rita. – E, além do mais...
– Eu estou com quase doze anos – interrompeu Astor com voz sibilante, fazendo “doze” soar como uma idade tão provecta que requeria tratamento geriátrico constante.
– Bom, isso pode parecer idade suficiente para você – disse Rita. – Porém, o primeiro sinal da maturidade é... Cody, pare de ficar tamborilando na mesa. Vão se vestir e coloquem roupas velhas.
– Eu só tenho roupas velhas – disse Cody do jeitão meio silencioso dele.
– Por que nunca posso fazer o que eu quero fazer?! – quis saber Astor, e Lily Anne começou a berrar, queo, queo, queo, batendo com a colher na sua bandeja de modo sincopado.
– Porque você é parte desta família, e todos nós temos de... Dexter, dá pra você fazer o bebê parar com isso?
– Eu não quero ser parte de uma família – disse Astor.
– Bom – respondeu Rita, se afastando da mesa e pegando a louça suja –, se você consegue pensar em um modo melhor de ter Seu Próprio Quarto em uma Casa Nova... Dexter, por favor, o barulho da Lily Arme está me dando dor de cabeça.
– Ela não é uma casa nova – resmungou Astor, mas estava claramente se inclinando para a ideia de seu Próprio Quarto. O único entusiasmo verdadeiro que eu vira nela recentemente tinha ocorrido quando ela estava pensando em se mudar para a casa nova, onde teria um espaço privativo e pessoal pela primeira vez. Mas, é lógico, ela não podia simplesmente ceder e admitir que estava empolgada.
– É nova para nós – retrucou Rita –, e vai parecer ainda mais nova quando nós a pintarmos e... Dexter, pelo amor de Deus, por favor, pegue a bebê e troque a roupa dela.
Eu me levantei e fui até o cadeirão, onde Lily Anne havia passado para o compasso de marcha com seu bate-que-bate com a colher. Mas, quando me aproximei, ela ergueu os dois braços e gritou:
– Papuuuu! Cóio coió! – Eu soltei a bandeja de metal do cadeirão e a peguei no colo, e com a pura e profundamente sentida gratidão que somente as crianças muito pequenas podem demonstrar, ela bateu no meu nariz com sua colher com toda força. – Papuuuu! –, ela repetiu, toda feliz, e enquanto eu ficava lá carregando-a, com lágrimas nos olhos e purê de maçã no meu nariz, eu não consegui pensar em nada mais para dizer além de:
– Ai.
Astor havia transformado suas reclamações em um tipo de ronco em segundo plano quando saí carregando Lily Anne e fui para o trocador. Eu estava feliz por ter descoberto quais importantes tarefas esperavam por mim; “roupas velhas” para Cody e “pintarmos” para Astor. Com meus legendários poderes de dedução, foi coisa de um instante concluir que íamos trabalhar na casa nova, muito provavelmente com rolos e pincéis e baldes de tinta de tons pastéis. Não era bem o dia de vagabundagem esquentando o sofá que eu tivera em mente, mas há destinos piores do que passar o dia pintando sua própria casa nova.
Eu limpei e troquei Lily Anne, e a coloquei no chiqueirinho. Limpei o purê de maçã e a correspondente baba de mim mesmo, e me vesti de novo, colocando umas roupas devidamente amarfanhadas, e então coloquei no carro toda a tinta, os pincéis e panos para proteger o chão que estavam amontoados na garagem.
Daí, entrei de novo em casa e fiquei sentado por uma meia hora, maravilhando-me com os sons caóticos que ressoavam com maior ou menor intensidade por toda a casa enquanto o resto da minha família se aprontava. Era realmente notável como eles podiam tornar complicada a mais simples das tarefas: Astor não conseguia encontrar meias velhas que combinassem e ficou ainda mais petulante quando sugeri que não fazia diferença se combinassem ou não, já que ela iria apenas sujá-las de tinta. Então, Cody apareceu com uma camiseta com o desenho do Bob Esponja, e Astor começou a berrar que a camiseta era dela, e que era melhor ele tirar naquele instante, e começaram a brigar para resolver de quem era a camiseta, até Rita aparecer correndo e resolver a questão pegando o Bob Esponja e dando para Cody uma camiseta do Avatar, que ele não queria vestir porque ainda gostava do Avatar e não queria que caísse tinta nela. E daí Astor apareceu usando uns shorts tão pequenos que poderiam ser uma tanga de jeans e brigou com Rita por mais dez minutos pelo direito de usar o que ela queria.
Cody finalmente apareceu e se sentou ao meu lado, e nós dois esperamos em uma camaradagem silenciosa, observando enquanto Rita e Astor trocavam de sapatos, camiseta, shorts, prendedor de cabelo e boné, brigando a cada etapa do processo. Na hora em que finalmente estavam prontas, eu estava tão cansado só de olhar as duas que não sabia nem se conseguiria erguer um pincel. Mas, de algum modo, nós todos entramos no carro, e eu dirigi até a casa nova.
Foi um dia surpreendentemente tranquilo. Cody e Astor ficaram cada qual em seu quarto, esparramando tinta em quase todos os cantos, de vez em quando chegando mesmo a passar um pouco nas paredes, que era o lugar para onde deveria ir. Rita pintou a cozinha e a sala de jantar, correndo de um lado para outro entre as pinceladas para supervisionar Cody e Astor, e Lily Anne ficou em seu chiqueirinho naquela que seria um dia a nossa Sala Familiar, gritando instruções.
Eu trabalhei do lado de fora da casa, arrancando ervas daninhas, pintando as partes decorativas da fachada e descobrindo dois ninhos de formigas lava-pés do pior modo – pisando neles. Encontrei outras coisas ainda menos agradáveis – aparentemente, havia um cachorro imenso vivendo nas vizinhanças. Felizmente, havia uma mangueira ainda atarraxada na torneira na lateral do jardim.
Na hora do almoço, peguei o carro e fui até a rodovia Dixie e peguei duas pizzas grandes, uma só com queijo e a outra com salame duplo, e todos nos sentamos no recanto sombreado perto do que um dia seria nossa piscina, se conseguíssemos imaginar um jeito de tirar da água toda a crosta verde que boiava nela. Grandes pedaços da tela pendiam da estrutura da cobertura da piscina como barba-de-velho; várias das hastes de metal estavam encurvadas ou tinham desaparecido, mas tudo era nosso.
– Oh, meu Deus – disse Rita, agarrando um pedaço de pizza de queijo e olhando fixamente ao redor de si para ver seu novo reino. – Vai ser tão... – Ela agitou o pedaço de pizza de um jeito que deveria indicar uma magnificência ilimitada. – O que eu quero dizer é, ter nossa própria... Ah, Dexter, a Carlene disse que o sobrinho dela trabalha com manutenção de piscinas?
– O sobrinho da Carlene é advogado – eu disse. Lembrava-me perfeitamente de tê-lo encontrado na festa de Natal do escritório de Rita e de ter voltado para casa com três de seus cartões de visita.
– O quê? – disse Rita. – Não seja tolo, por que um advogado iria fazer manutenção de... ah, você está pensando no Danny. – Ela balançou a cabeça e comeu um pedaço de pizza. – Mmm. É o Mark. O irmão mais novo do Danny. – Falou isso com a boca cheia de pizza e mesmo assim conseguiu fazer com que soasse como se ela estivesse ensinando uma pessoa com problemas cerebrais a dar o laço nos sapatos. – Enfim, ele consegue tirar toda a sujeira da piscina e deixá-la completamente... mas poderíamos poupar bastante dinheiro se... – Mordeu mais um pedaço de pizza, mastigou e engoliu. – Quer dizer, não pode ser assim tão difícil. E ainda precisamos de uma nova cobertura para a piscina, que custa... mas dá pra gente comprar os produtos químicos na loja? Se você não se importar de fazer... Cody, você está com tomate em todo seu... assim, deixe que eu dou um jeito. – Ela se inclinou para o lado de Cody e esfregou o rosto dele com uma toalha de papel, enquanto ele fechava os olhos com força e fazia uma cara irritada.
– Seja como for – disse Rita, se afastando de Cody. – Isso pouparia um pouco de dinheiro. Do qual nós vamos precisar para a nova cobertura da piscina, porque elas custam muito caro.
– Tudo bem – eu disse, sem saber exatamente com o que estava concordando.
Rita suspirou e sorriu toda feliz.
– Enfim... ela repetiu, e eu tive de concordar.
Eram 5h30 quando achamos que já tínhamos feito o suficiente. Limpamos nossos pincéis, e nós mesmos, tanto quanto possível, e entramos no carro. Aumentei o ar-condicionado na volta para casa; tínhamos passado o dia inteiro sem ele, já que a eletricidade ainda não estava ligada na casa nova, e embora fosse um agradável dia de outono, todos estávamos suados.
O dia seguinte foi um repeteco do sábado, a não ser pelo fato de termos começado a trabalhar uma hora mais tarde, já que, afinal de contas, era domingo. A única diferença foi que eu comprei nosso almoço em um Burger King nas redondezas. Percebi que eu realmente não me importava com o trabalho. Na verdade, entrei em um tipo de estado zen de não pintura, permitindo que a tinta se colocasse sozinha na parede sem nenhum tipo de esforço consciente da minha parte, e para mim foi um susto imenso perceber quanto eu havia feito quando demos as atividades por encerradas. Eu parei e olhei a grande extensão da casa recém-pintada, e pela primeira vez comecei a ter a sensação de ser um proprietário. Caminhei pela casa toda, deixando que a ideia de que logo estaria morando ali entrasse lentamente na minha cabeça. Não era uma sensação ruim, de jeito nenhum.
E então, na segunda-feira, eu cheguei para trabalhar ligeiramente dolorido por causa de toda a atividade física, mas bastante feliz apesar disso. Havia tirado quase toda a tinta do cabelo, das mãos e das unhas, e ainda estava com uma sensação de satisfação complacente com as coisas que perdurou até eu chegar à minha mesa, onde encontrei Robert
Chase sentado na minha cadeira, comendo um [5] pastelito de goiaba e bebendo ruidosamente o café da minha caneca pessoal. Uma grande caixa de doces estava sobre a mesa bem na frente dele. Havia duas grandes canecas de isopor com tampas ao lado da caixa, o que me fez perceber com um súbito lampejo de irritação que Chase havia usado minha caneca simplesmente pelo fato de ela ser minha, e que ele estava começando a nova semana sendo Eu.
– Ei, Dexter – ele disse, com um sorriso afetado e feliz. – Como foi o fim de semana?
– Muito bom – respondi, deslizando na esfarrapada cadeira dobrável que eu mantinha para as visitas.
– Ótimo, demais – ele disse. – Saiu com as crianças? Parquinho, e essas coisas? Empurrou elas no balanço...?
Eu olhei para ele, sentado ali à minha mesa, na minha cadeira, usando minha caneca, e descobri que não queria ter uma conversinha agradável com alguém que estava se esforçando tanto para se transformar em mim. Mas o que eu realmente desejava fazer para ele requeria um pouco mais de privacidade do que a que tínhamos ali no âmago do quartel-general da polícia, bem como um longo período de tempo sem interrupções e alguns rolos de fita adesiva. Mas, é claro, alguém da rede de televisão poderia mais cedo ou mais tarde sentir a falta de Robert, e desse modo as realidades do discurso civilizado não me deixaram outra escolha a não ser jogar o jogo de modo adequado. Então, estendi a mão até o outro lado da mesa – minha mesa – e peguei um pastelito da caixa.
– Só trabalho e nenhuma diversão – falei, dando uma dentada no doce. – Sinto dizer, mas foi muito monótono.
– Não, não, de jeito nenhum – disse Robert. – Quer dizer, passar um tempo com os filhos é... Você sabe: é importante.
– Suponho que seja – falei e dei uma mordida no doce. Estava muito bom. – E você? – perguntei, por mera cortesia. – Como foi seu fim de semana?
– Oh – ele disse, dando de ombros. – Eu voei até o México.
– É mesmo? – eu disse. – E você ficou...?
Ele tomou café – na minha caneca! – e olhou para o outro lado.
– É, hum – ele disse. – Vou sempre pra lá. Tem um lugar onde eu, você sabe. – Bebeu outro gole. – É, ahn. Um tipo de um resort particular. Eles me conhecem lá, e eu posso só, hum, relaxar. Nada de mais. Então – ele continuou, dando um tapa na mesa e se voltando para mim com um sorriso brilhante. – O que você fez com seus filhos? Você disse que são três?
Eu o olhei, sentado ali à minha mesa, claramente tentando fingir que estava interessado na minha vidinha – e ao mesmo tempo tentando fazer com que essa história toda de que ele era o tipo de criatura que vai para o México para o fim de semana não fosse nada de mais. E porque estava realmente começando a não gostar muito dele, resolvi não lhe dar uma chance.
– Nossa – falei. – Isso deve custar caro. Passagens aéreas na última hora... e você tem de voar de primeira classe, não tem? Quero dizer, para que ninguém incomode você. Então, isso custa provavelmente o quê? Uns dois mil dólares? E depois um resort particular? Eu nunca nem ouvi nada a respeito de uma coisa assim. Também não dá pra custar baratinho.
Ele desviou o olhar de novo e, para minha suprema alegria, começou a ficar vermelho sob seu bronzeado perfeito. Pigarreou e deu a impressão de estar bastante desconfortável.
– É, são, você sabe – ele disse. – As, hum, as milhas do cartão fidelidade... – Agitou a mão em um tipo de gesto de recusa convulsivo, infelizmente se esquecendo de que ainda estava segurando minha caneca de café. Um pingo de café se espalhou sobre minha mesa, e ele ficou olhando-o com a boca aberta quase uns dois centímetros. – Mas que bosta – ele disse. – Eu sinto muito. – Ele se levantou com dificuldade da cadeira, passou por mim com um pulo e foi para a porta. – Vou pegar umas toalhas de papel – ele disse por sobre os ombros.
Por um segundo, fiquei observando-o se afastar, impressionado com o fato de uma atuação assim desajeitada ter surgido tão naturalmente em um homem aparentemente perfeito. Era algo tão estranho que por um momento pensei que ela tinha de ser deliberada; talvez um modo de mudar de assunto? Será que ele estava mesmo se sentindo tão desconfortável ao falar a respeito dos seus hábitos de gente rica? Ou estaria ocultando alguma coisa ainda mais abominável do que o dinheiro?
Mas é claro que isso era absurdo. Eu estava simplesmente sendo meu eu normal, nojento e suspeitoso, vendo a maldade espreitando em cada sombra – até mesmo quando não havia uma sombra de verdade. Pus o pensamento de lado e fui até minha mesa para ver se algum estrago sério havia sido causado. O café havia caído bem no centro do mata-borrão, o que foi sorte. Uma gotinha havia respingado em uma pasta do lado direito, mas apenas o suficiente para deixar uma ligeira marca na parte externa, não o suficiente para molhar os papéis dentro.
Robert entrou rapidinho, segurando um punhado de toalhas de papel, e eu me afastei para deixar que ele limpasse a sujeira que tinha feito; o que fez com uma fúria convulsiva, murmurando o tempo todo:
– Desculpe. Droga. Me desculpe.
Era uma atuação patética, quase o suficiente para me fazer sentir pena. Mas, é lógico, sentir pena não é algo que eu possa fazer de verdade e, mesmo se pudesse, não iria desperdiçar o sentimento com Robert. Então, só fiquei parado observando-o, e durante a maior parte do tempo consegui não dar um sorriso afetado.
Robert havia limpado a maior parte do café derramado quando o telefone tocou. Passei pelo ator e peguei o aparelho.
– Morgan – falei.
– Preciso de você em minha sala – disse uma voz familiar que era resmungona, mas cheia de autoridade. – Traga o arquivo.
– Qual arquivo? – perguntei.
– O da moça na caçamba – Deborah me disse, sibilando. – Mas que droga, Dexter. – Ela desligou, e fiquei olhando o telefone por uns momentos, imaginando o que minha irmã estava aprontando. Esse caso não era dela, Anderson havia assumido, e Deborah, teoricamente, não estava envolvida nele de jeito nenhum, a não ser como observadora, uma guia destacada para conduzir Jackie Forrest através do labirinto de seu primeiro caso verdadeiro de homicídio. Talvez ela fosse mostrar para Jackie que cara tinha um arquivo forense. Isso provavelmente queria dizer que Jackie estava com ela lá, neste instante, e só de pensar nisso um pequeno lampejo de excitação se agitou dentro de mim, até me lembrar de que eu estava bravo com ela por me fazer pensar nela com tanta frequência e de modo tão agradável. Mas não dava para eu ignorar as ordens de Deborah sem me arriscar a levar um de seus dolorosos socos no braço; então, eu teria de me arriscar a ser assaltado por mais um pouco dos pavorosos sentimentos humanos de alegria causados pela exposição a Jackie.
Desliguei o telefone. Robert havia terminado sua faxina e estava parado perto da mesa com o monte de toalhas de papel encharcadas de café em sua mão.
– O que está acontecendo? – ele quis saber.
Eu tirei o mata-borrão manchado de café da minha mesa e o joguei na lata de lixo.
– Fomos convocados – eu disse. – Traga os doces.