Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 17 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 15

 

EU ESTAVA SENTADO NA VARANDA NO COMEÇO DA MANHÃ SEGUINTE, paparicando minha segunda xícara de café, quando Jackie apareceu e se sentou à minha frente.

– Bom dia – ela disse, animada, afastando uma mecha de cabelos ainda molhados que caía sobre sua testa. Pegou o bule de café e encheu uma xícara. – Hum... Sinto muito se a noite passada eu estava um pouco... – Agitou uma das mãos. – Eu não sei. Só fiquei pensando que, você sabe. – Deu de ombros. – Eu realmente não sei o que fazer com você.

Eu devo ter olhado para ela de um jeito que mostrava como sua afirmativa soava estranha, porque ela ficou vermelha, olhou para o outro lado e agitou uma das mãos no ar e falou:

– O que eu quero dizer é que nunca tive um guarda-costas antes.

– Para ser honesto, eu também nunca fui um antes.

– Certo – ela disse e bebeu o café. – Mas vendo você aqui o tempo todo, esqueço por que você está aqui e eu meio que... você sabe. Não tem tanta gente assim com as quais eu possa só, assim, passar o tempo. – Fez uma careta. – Sobretudo homens. – Ela me deu um sorriso amarelo. – Mas eu me sinto muito... confortável com você.

Eu poderia ter-lhe dito que aquela não era realmente uma garantia muito boa do bom senso dela, mas Jackie bebeu o café e prosseguiu:

– Você me trata como um ser humano – ela disse. – Não como se eu fosse uma peça rara de porcelana, ou o segundo advento, ou algo assim, e isso é... você sabe como, para mim, isso é pouco comum? Ser tratada como... alguém normal?

– Não exatamente – eu disse. – Mas estou começando a ter uma ideia.

– É muito pouco comum – ela disse. – O que eu quero dizer é, eu sei que faz parte do pacote, e tem até algumas pessoas que gostam disso.

– Sim – eu disse, pensando em Robert. – Eu percebi isso.

Jackie me olhou e então me deu um sorriso meio convencido.

– É, ele gosta mesmo, não gosta? – ela disse para me mostrar que sabia o que eu estava pensando.

– Ele com certeza dá essa impressão.

Ela deu de ombros e bebeu um pouco mais de café.

– Bom, eu não. Quer dizer, é legal todo mundo achar que você é maravilhoso, mas às vezes eu só quero me sentir como... você sabe. – Ela jogou as duas mãos para o alto, como se estivesse

indicando um [11] half a touchdown, e então rapidamente as deixou cair de novo. – Idiotice, hein?

– De jeito nenhum – eu disse, cortês, e só um pouco espantado.

– Então, ter você por perto, falando comigo como se nós fôssemos só duas pessoas comuns, me faz... eu começo a ficar relaxada e a me sentir normal mesmo, e isso é muito bom. – Ela bebeu café de novo, olhando para a mesa. – E então lembro por que você está aqui, e... Ah, eu não sei. – Ela tomou mais um gole e então colocou a xícara sobre a mesa. – Fico pensando, sabe, como as coisas poderiam ter sido diferentes. Se... – Ela esticou o lábio inferior e soltou a respiração. – Esquece – ela disse e pegou de novo a xícara de café. – É idiotice.

– De jeito nenhum – eu falei, e não era idiotice mesmo. Incompreensível, sim, mas não idiotice.

– Tanto faz. – Deu um estranho sorriso forçado. – Só mais uns dias, e você pode voltar pra sua vida normal.

– Ah, mas, quero dizer, eu realmente não me importo.

Jackie ergueu uma sobrancelha na minha direção por cima da borda da sua xícara e disse:

– É mesmo?

– É, é mesmo – confirmei. Com um gesto com a mão, eu indiquei a suíte, a varanda e a vista. – Tudo isso é novidade para mim. Não tenho esse estilo de vida assim com tanta frequência. – Eu sorri, meu melhor sorriso Caipira na Cidade Grande. – É verdade mesmo, isso é divertido.

Ela me olhou por um longo momento e depois bufou.

– Bom, ótimo. Que bom que posso ser uma fonte de entretenimento.

Jackie ficou olhando fixamente dentro da sua xícara, e fiquei pensando o que eu teria dito de errado. Era óbvio que eu tinha tocado em um ponto sensível em algum lugar, e eu não queria ter feito isso. Sempre tinha achado perigoso chafurdar em águas conversacionais desconhecidas, especialmente as que envolviam sentimentos humanos, mas eu não queria que Jackie voltasse a ficar melancólica – sobretudo se fosse me culpar por isso. Então, dei o melhor de mim e disse:

– Jackie, é sério. Eu estou realmente me divertindo. Gosto de ficar perto de você. – Ela me olhou sem mudar de expressão, então eu acrescentei: – Eu gosto de você.

Ela me olhou por cima da borda da xícara, inexpressiva. Os olhos dela dardejaram da direita para a esquerda sobre meu rosto. Finalmente, bebeu seu café e sorriu.

– Bom, que ótimo – ela disse. – Eu estava começando a pensar que era somente o serviço de quarto.

– Para ser bem honesto – eu disse –, ele é muito bom também.

Jackie riu, um som breve e musical, e seu rosto perdeu as marcas de preocupação e voltou a ser perfeito.

– Tudo bem – ela disse.

Terminamos nosso café da manhã com fragmentos escassos de conversa inconsequente e uma rápida invasão de Kathy – mais papelada e lembretes de futuras chamadas telefônicas – e em pouquíssimo tempo estávamos no lobby tentando passar por Benny, o porteiro, sem ouvir outras cem páginas da história de sua vida.

– Ei, srta. Forrest! – ele exclamou alegre quando saímos do elevador. Ele me ignorou por completo, e embora eu realmente não fosse capaz de culpá-lo por preferir olhar para Jackie, mesmo assim senti a esnobada.

Jackie, naturalmente, encarou tudo numa boa. Ela lhe endereçou um grande sorriso e cumprimentou:

– Benny! Você não dorme nunca?

– Eu posso dormir quando estiver morto – ele falou. – Mas agora estou com a mais bela estrela do mundo no meu hotel.

Jackie colocou uma das mãos no braço de Benny.

– Que amor – ela disse, e o cara ficou vermelho de verdade.

– Não, ouça, eu falei sério – disse Benny.

– Bem, muito obrigada – disse Jackie, dando umas palmadinhas no braço dele e tentando seguir em frente.

– Deixa eu abrir a porta – disse Benny, passando apressado na nossa frente para manter a porta aberta, com um sorriso imenso.

Jackie me olhou com um ar interrogativo.

– Espere aqui enquanto eu checo – eu pedi, e ela fez um gesto de aquiescência.

Saí pela porta da frente e acenei para Benny.

– Obrigado, meu bom homem – eu agradeci, mas acho que o sorriso dele tinha se expandido demais e lacrado suas orelhas, porque ele continuou a olhar para Jackie e nem pareceu me ouvir.

Fui para fora e cumpri o meu pequeno ritual de segurança. O Corniche ainda estava ostensivamente estacionado na frente, e nosso novo e brilhante sedã estava parado atrás. Comparado ao Corniche, ele parecia um bêbado agachado ali, pedindo umas moedinhas de esmola.

Mas o motorista era o mesmo, e todo o resto parecia em ordem; então eu voltei e arranquei Jackie das patas ávidas do Benny e a levei até o banco traseiro do sedã. Assim como tinha acontecido no dia anterior, um pequeno grupo de observadores se amontoava na porta da frente do hotel e nos desejou tudo de bom em voz alta. O carro já estava se movendo pela saída do hotel quando coloquei o cinto de segurança, e quando o motorista fez a curva para a ponte que levava ao continente, ouvi o mesmo ruído de motor que tinha ouvido a noite passada. Eu me lembrei de ter ouvido uma moto sendo ligada na manhã de ontem também e fiquei pensando se elas estavam em todos os lugares agora. Talvez houvesse uma convenção da Harley em nossa cidade. Ou talvez o preço do combustível estivesse forçando mais pessoas a abandonar seus SUVs e a adotar as duas rodas.

Ou talvez fosse algo além disso.

Senti um sussurro seco das asas internas de morcego enquanto o Passageiro das Trevas se agitava em seu sono e murmurava: Só é coincidência quando você não está prestando atenção, e eu fiquei pensando nisso.

E se não fosse coincidência? E se não fossem muitas motocicletas, mas só uma motocicleta muito persistente e ela estivesse nos seguindo?

É lógico, mesmo que isso fosse verdade, poderia não ser mais que um paparazzo esperando tirar uma foto de Jackie sem sutiã, ou enfiando o dedo no nariz, ou dançando bêbada em um clube em South Beach. Esse tipo de pessoa é atraído pelas celebridades assim como as mariposas são atraídas pela chama. Com certeza alguns rodeavam por ali, e provavelmente não era mais do que isso; só alguém procurando um bom lugar para tirar uma fotografia.

Por outro lado...

Tenho uma sensação de paranoia muito saudável e natural, e Jackie estava, afinal de contas, me pagando para eu exercitá-la. Nosso perseguidor poderia muito bem resolver nos seguir em uma motocicleta – era o veículo ideal para evitar as armadilhas do trânsito com facilidade e para fugir de uma perseguição se você for identificado. E três encontros com uma motocicleta pareciam um pouquinho suspeitos.

Eu me virei no assento para olhar pelo vidro traseiro, esperando conseguir dar uma olhada rápida no motociclista, mas o meu cinto de segurança enroscou, quase me estrangulando, e não consegui me mexer direito. Levei a mão para o fecho – mas, antes que eu abrisse o cinto, o celular de Jackie começou a tocar.

– Merda – disse Jackie, ansiosa. – Acho que é o Times. Dá pra você atender, por favor, Dexter?

Eu atendi ao telefone; era, sim, o Times – mas o de Los Angeles. Jackie começou a conversar e, quando consegui me soltar do cinto de segurança homicida e me voltei para olhar para trás, não havia nada a ser visto, exceto o costumeiro comboio enlouquecido e brilhante de veículos irados e potentes. Olhei em todas as direções, mas não vi motocicletas e não ouvi mais aquele barulho de explosão do motor. Então deixei a história toda de lado antes mesmo de estarmos na metade do trajeto para o trabalho e não pensei mais em motocicletas.

E também não houve uma real pausa para que eu pudesse pensar quando chegamos ao trabalho. Entreguei Jackie aos cuidados de Deborah e fui lentamente para meu laboratório e a cansativa labuta de mais um dia como pastor de Robert.

Eu esperava que Renny também estivesse lá, mas encontrei Robert sozinho, os pés apoiados na minha mesa, encarando intensa e extasiada- mente para um jornal dobrado. Quando eu entrei, ele ergueu o rosto com um olhar assustado e estranhamente culpado, e no mesmo instante deixou o jornal cair sobre a mesa. Parei na soleira da porta, e ele me olhou e se lembrou de sorrir.

– Oh! Ei! – ele disse. Então ficou com uma expressão muito culpada, e rapidinho tirou os pés de cima da mesa e os colocou no chão. – Quer dizer, bom dia!

– Renny não vai vir hoje? – eu perguntei.

Robert deu de ombros e disse:

– Ele vai vir mais tarde. Nunca chega no horário.

Esse me parecia um hábito estranho para alguém do show business, e eu cresci em Miami, onde o Horário Cubano é um padrão universal, e aparecer cedo significa que você está apenas vinte minutos atrasado.

– Por que não? – eu perguntei.

Robert fez uma cara do tipo que-é-que-você-estava-esperando?

– Ele é um comediante – disse, como se aquilo explicasse tudo.

– Bom, desde que ele esteja aqui para o almoço.

– Ah, ele não vai perder o almoço – disse Robert. E bufou, acrescentando: – E não vai pagar por ele também.

Por mim, tudo bem, desde que Robert pagasse o almoço. E eu estava também feliz por não ter Renny por ali, já que eu ainda não conseguira decidir o que ele era. Então, Robert e eu passamos os noventa minutos seguintes lidando com cromatografia gasosa e então, assim como havia sido previsto, Renny entrou no laboratório, usando a mesma camiseta do Metallica, mas uns shorts diferentes de um tecido xadrez desbotado e caindo pela cintura.

– Saudações – ele disse, parando desajeitado, com um lado da bunda amontoado no balcão do laboratório.

– Ei – disse Robert. – Você não deveria dizer “qual é” ou algo parecido com isso?

Renny encarou Robert com a cabeça inclinada para um lado, uma sobrancelha erguida e a outra abaixada.

– Cê vai me ensinar a falar como negro, Robert? – ele perguntou. – Droga, essa é boa, eu tô morrendo de vontade de aprender.

– Rá! – exclamou Robert, uma interjeição muito artificial, até mesmo para ele. – Tudo bem. Minha culpa. Ei! Dá só uma olhada nisto, Ren. – Ergueu o gráfico que estávamos analisando. – Cromatografia gasosa – pronunciou o nome cuidadosamente, embora ele a estivesse destruindo.

– Hm-hum – disse Renny. – Se cê quer fazer um gráfico do meu gás, vai ficar bem ocupado. – Cruzou os braços e pareceu muito satisfeito consigo mesmo, o que, em minha opinião, não era justificado pela piada sem graça. Mas ficou olhando para nós com aquela expressão satisfeita, até eu estar pronto para jogar um microscópio na cabeça dele, e Robert acabou dizendo:

– O que está acontecendo, Renny?

Renny deu um sorriso imenso e disse:

– Estou acabando de chegar de um encontro com a produção. Para o meu especial.

– O seu o quê? – perguntou Robert. – Quando você conseguiu um especial?

Renny o olhou e balançou a cabeça, penalizado.

– Bobby, Bobby, Bobby, você não lê nada além do The Advocate?

– Ah, que é isso, Ren...

– Porque tava em todos os jornais, Bobby.

– Hum, não, você sabe – disse Robert. – Eu acho que não vi isso.

– É, eu sei – disse Renny. – Você não lê a não ser que seu nome apareça.

– Rá! Rá! É, tudo bem – disse Robert. – Mas quando ele vai ser gravado?

– Sábado à noite – respondeu Renny, parecendo muito feliz.

– Sábado... este sábado à noite?

– Hm-hum.

– Quê? – disse Robert. Ele parecia tão alarmado que eu tive de supor que Gravação de Especiais era um tipo de ameaça pessoal para ele. – Quer dizer, ei, isso é muito bom, mas eu quero dizer, você não pode ir embora, ou... você tem de estar aqui para o seriado, certo?

Renny o encarou com ar de superioridade – não era muito difícil, já que Robert estava praticamente hiperventilando, e disse:

– Bobby...

– É Robert – corrigiu Robert automaticamente.

– Bobby, cê andou cheirando aquele analisador de peido por muito tempo. Cê não sabe porra nenhuma a respeito do show biz?

Eu tinha de dar a Renny muito pouco crédito por ter aumentado sua piada do gás transformando cromatografia gasosa em análise de peido, mas Robert não pareceu perceber.

– Quer dizer, com certeza, é muito bom pra você... – ele disse, esfregando as mãos inconscientemente –, mas nós temos de começar a filmar, e... a rede sabe a respeito disso?

Renny mostrou para ele uma grande coleção de dentes brilhantes e disse:

– Si-im. Ideia deles.

– O quê?! – disse Robert.

Renny o deixou sofrer por mais um segundo antes de dizer:

– Meu especial é na Big Ticket Network. – Ele apontou para Robert, ainda sorrindo. – É a mesma rede em que o seriado vai passar. Você sabia disso, Robby?

Robert empalideceu e disse:

– Merda. Eles acabaram com a gente.

Renny deu risada. Apesar de suas piadas quase constantes, essa era a primeira vez que eu o ouvia fazer isso, e fiquei muito feliz por ele ter se contido até então. Era uma risada alta, mas não terrivelmente alegre; o som dela me fez ficar um pouco apreensivo, e senti uma sutil sacudidela de simpatia vinda do Passageiro.

Mas Renny ficou rindo por vários segundos, batendo palmas para marcar o tempo, antes de finalmente ficar com pena de Robert.

– Oh, Bobby. Oh, Bert. Cara. Sempre é tudo a seu respeito, não é? – Ele riu ainda mais alto, o que me deixou com os nervos à flor da pele, de verdade. E a risada também não pareceu tranquilizar Robert. – Oh, cara. A vida de ator é uma droga, não é? Faz você ficar com a cabeça cheia de merda.

– Eu não acho isso engraçado – disse Robert. – Porque, você sabe, esse seriado é muito... Eu investi muito nele... – Ele fechou a cara e balançou a cabeça, e então olhou para Renny com uma leve esperança em seu rosto. – Quer dizer... o que você quer dizer?

– Eu quero dizer – disse Renny – que há muito, muito tempo, eu devia fazer o especial em Vegas. – Ele mostrou os dentes de novo. – Mas então eu consegui esse papel? E então o sr. Eissen diz: vamos gravar em Miami e usá-lo para promover o seriado. – Ele ergueu uma sobrancelha para Robert. – Isso pode indicar que meu papel fica um pouquinho maior. Eu sei que você gosta de grandes papéis, Bo.

– Robert – corrigiu.

Renny o ignorou.

– ENTÃO... a gente vai gravar o especial aqui, neste sábado à noite, com todo o elenco presente. Eu digo que estou aqui em Miami para gravar o seriado. Faço uma piada a respeito de todos os corpos com que a gente vai ter de trabalhar aqui. A câmera corta pra Jackie Forrest rachando sua linda carinha branca de

tanto rir de... [12] moi. – Ele ergueu as duas mãos, as palmas voltadas para cima. – Todo mundo tem uma chance. Todo mundo feliz.

– Por que a Jackie? – disse Robert. Eu estava feliz por ver que ele já havia passado para a sua preocupação neurótica seguinte. – Por que ela aparece na câmera? Quer dizer, eu posso dar risada mais alto do que ela a qualquer hora.

Renny olhou Robert, balançou a cabeça e se voltou para mim:

– Que bom que cê tá aqui, Dexter. O Robert é fácil demais.

– Não quero desapontar você – eu falei. – Mas o que tudo isso significa em inglês? – E como ele estava olhando para mim exatamente do jeito que tinha olhado para Robert, eu acrescentei: – Ou em espanhol, se você preferir.

Renny juntou as mãos, baixou a cabeça e as olhou, fingindo rezar. Pelo menos, suponho que fosse fingimento.

– Senhor – ele exclamou –, livrai-me dos idiotas. Por favor, Senhor... ajudai-me nesta situação. – Ele me olhou e disse, como se estivesse falando com uma criança: – Um especial, Dexter. Um especial de comédia de uma hora. Estrelando... eu, porque é isso que eu faço. Comédia. Porque sou um Comediante, e isso significa alguém que faz comédia. E a rede vai gravar meu especial aqui, neste sábado à noite, e vai usá-lo para promover o seriado do Bobby, deu pra sacar?

– Espera aí – disse Robert, com ar nervoso, mas esperançoso. – Então eles usam seu especial para promover o seriado...

– Obrigado, Jesus – disse Renny com ar devoto.

– Então o seriado não foi cancelado?

– Nós estamos nessa, irmãos e irmãs, e Renny Boudreaux está ainda mais nessa, porque ele vai aparecer primeiro e vai fazer cês rirem até a barriga doer, porque minha cabeça já tá funcionando faz tempo e eu sou de matar.

E quando disse “matar”, ele olhou para mim – e lá estava de novo, aquele súbito lampejar da chama sombria – e então Robert interrompeu, e o lampejar desapareceu, e uma vez mais eu fiquei pensando se tinha mesmo visto alguma coisa.

– É, mas... – disse Robert. Ele fechou a cara e então continuou: – Ah, tudo bem, ei, eu acho... quer dizer, isso é demais, você sabe. Eu quero dizer, desde que eles não... Ei, de qualquer jeito uma mão lava a outra, certo?

– Cerrrrrrrrto – disse Renny e olhou para mim.

Já que eu era novo no mundo do show biz, eu não sabia muito bem o que era esperado de mim, então só disse “parabéns” e isso pareceu ser muito adequado. Renny fez um gesto com a cabeça na minha direção, franziu as sobrancelhas e tornou a olhar para Robert:

– Ah... Quase que ia me esquecendo. O pessoal do figurino quer ver você. Eles estão no hotel, na suíte 2417.

– Figurino – disse Robert, soando ligeiramente assustado outra vez, por alguma razão muito particular.

Renny o olhou com o rosto cheio de piedade.

– É, você sabe, figurinos. Tem aquela mulher maldosa e os dois amigos gays dela, e eles vão vestir você para essa merda. Você se lembra dos figurinos, não lembra, Robert?

Robert o olhou por meio segundo e então soltou sua peculiar risada artificial de novo.

– Rá! Rá! Tá, tudo bem, bom, eu tô caindo fora. – Ele se voltou e exibiu alguns dentes brilhantes na minha direção. – Vejo você mais tarde, Dexter – ele disse. Fez um som parecido com um click, de novo acompanhado por aquele irritante gesto “o meu dedo é uma pistola” e saiu andando tranquilo.

Renny ficou olhando Robert se afastar e então balançou a cabeça.

– Não dá pra resolver se o cara é uma porra de um idiota ou só mesmo estranho demais. – E então ele se voltou e fechou a cara para mim. – Você é fácil. Você é só estranho.

– Obrigado – eu falei.

– Mas tudo bem. Eu consigo aguentar quem é estranho – ele disse. E então sorriu de novo; um tipo de sorriso que dava uma impressão estranha e fez com que um ligeiro tremor de alarme percorresse os enrodilhados tentáculos do Passageiro que cochilava. – Você quer ir assistir ao meu show, Dexter?

Admito que ele me pegou de surpresa; eu não tinha nenhuma resposta pronta, a não ser uma piscada e um:

– Oh. Bom, quer dizer, é este sábado? –, que soou muito medíocre.

– Que bom, cê andou escutando, eu sabia que cê não era idiota – ele disse. Na verdade, eu não queria assistir ao show dele; nem nesse sábado nem em qualquer outro. Mas, é claro, se Jackie ia comparecer, eu teria de ir junto. Então, fiz um gesto com a cabeça e disse: – Bom, hum, claro, seria muito agradável.

– Ah, não vai ser agradável. Mas talvez eu faça você dar umas risadas. E sua esposa. Você tem esposa, certo, Dexter? Porque eu sei que cê quer que todo mundo pense que você é normal e essa merda toda.

Mais uma vez, senti uma desconfortável movimentação de tentáculos bem dentro de mim; a observação sarcástica que Renny me dirigira chegava perto demais da verdade para ser completamente inocente, mas ainda não era nada definido o suficiente para eu ter certeza. Minha única chance de verdade era continuar a fazer o papel de Normal Estranho – por enquanto.

– Ah, sim, tenho – eu disse. – Eu tenho mesmo uma esposa.

– Hh-hum, bom – disse Renny. – O sr. Eissen quer que os consultores técnicos estejam lá, aparecendo nas câmeras. – Deu uma piscada para mim. – É você. E aquela moça bem durona.

– Deborah – eu disse. – A sargento Morgan.

– Hm-hum. O sr. Eissen diz que é algo como apoio para as tropas, mostrar os tiras lá, dando risada. E isso dá Credibilidade Policial para o seriado, e até mesmo mostra pra todo mundo que consigo me entender com tiras quando eu quero. Uma coisa que, para ser honesto... – Ele ergueu uma sobrancelha na minha direção, como se eu tivesse de dizer alguma coisa a respeito disso, mas eu não tinha a menor ideia do que poderia ser, então só assenti. Renny deu de ombros. – Seu chefe vai estar lá também – ele disse. – Ele quer ter certeza de que cê vai aparecer, COM sua esposa.

– Bom, então – eu disse –, acho que vou aparecer por lá.

– Vou colocar você na lista, com acompanhante.

– Obrigado – falei. E como essa parecia ser uma resposta ligeiramente inadequada para o fato de eu ter ser sido forçado a aceitar dois ingressos grátis para um show, eu acrescentei: – Você quer um pouco de café?

– Sim, quero – aceitou Renny. Endireitou o corpo e se afastou do balcão. – E é por isso que vou descobrir um Starbucks e não vou beber essa merda de veneno que vocês fazem por aqui. – Ele se voltou e se encaminhou para a porta. – Vejo você mais tarde, cara.

E, subitamente, lá estava eu, sozinho de novo.