Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 38 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 36

 

ASTOR USOU A FACA PARA CORTAR AS CORDAS DAS MINHAS MÃOS. ERA só varal para roupas, de náilon, e ele se partiu com facilidade, e em poucos segundos eu estava em pé e esfregando o sangue úmido e desagradável do meu rosto. Eu me sentia sujo, enxovalhado, e muito perto de entrar em pânico até que desamarrei meus pés também, e tropecei até a pia para lavar aquela coisa nojenta. Olhei no espelho sobre a pia para ter certeza de que tinha tirado tudo, e vi um rosto estranho e indeciso me olhando de volta.

Onde você está agora? Fiquei pensando. Era uma boa pergunta, e eu não conseguia respondê-la. Tinha tentado ser um Dexter novo e diferente – tentado e falhado. Tinha visto o que achava que era uma maravilhosa e iluminada vida nova, um lugar onde o luxo era moeda corrente, todos eram belos e nenhuma possibilidade estava fora do alcance. Tinha visto isso, e tinha desejado isso, e tinha até mesmo sido convidado a entrar nesse mundo, e tinha pensado que, em um lugar com tanto brilho, até mesmo o amor fosse possível: o amor para alguém como eu, que nunca havia sentido nenhuma emoção mais forte do que a irritação.

E eu tinha olhado ao redor do meu pequeno poleiro, um lugar testado e autêntico de segurança comprovada, santificado por anos de experiência e pelo Código de Harry e, subitamente, ele não tinha sido suficiente. Então eu tinha saltado do meu poleiro e havia aterrissado no meu Novo Mundo brilhante e faiscante – só para descobrir que o lugar brilhante e luminoso que parecia tão cálido e sólido não era nada mais do que gelo fino e quebradiço que nunca poderia sustentar o meu peso. E ele se fizera em pedaços e me jogara no mar gelado e salgado.

E quando mais tinha precisado ser o meu verdadeiro eu, o são Dexter da Faca, eu tinha dado um passo padronizado e bem

praticado na Dança Sombria, e caído do meu [23] plié. Tinha sido enganado e preso em uma armadilha por um homem tão estúpido e vazio que era praticamente um holograma; e ele teria acabado comigo se eu não tivesse sido salvo por uma menina de onze anos.

Isso era perfeito; só mesmo os verdadeiramente iludidos podem cair tão fundo. Eu tinha despencado de todas as minhas ilusões, antigas e novas. E agora iria cair o resto do caminho, de volta para a sufocante monotonia do mundo simples e limitado por sua moldura de madeira atrás do belo e falso cenário.

Ei-lo no espelho: Senhoras e Senhores, o Pateta Peso-Pesado do mundo – Dexter Desiludido!

E o meu reflexo assentiu, sábio e caçoísta. É nisso que dá você querer ser o que não é, ele disse, e foi minha vez de assentiu Porque não importa quão longe você vá, você é o que é, e mesmo quando está voando em novas e excitantes alturas, rodeando o sol e pensando que faz parte da auréola daquela perfeita luz dourada, você não faz. As asas sempre se derretem, e você sempre se esborracha em terra, no seu mesmo e velho eu.

Um rosto delicado e bonito apareceu no espelho por trás de mim.

– Dexter? – chamou Astor. – O que a gente tem de fazer?

Eu pisquei, e meu entorpecente egocentrismo desapareceu. Eu me virei para olhar Astor; e, atrás dela, transformando o carpete cor de creme em uma sujeira vermelha e encharcada, vi um astro da televisão. Bem na minha frente estava parada uma menina de onze anos de idade usando um négligé, e em algum lugar da casa minha esposa estava amarrada e inconsciente.

Com uma onda súbita de compreensão paranoica, percebi que essa não era a melhor situação para a gente se encontrar, sobretudo quando a gente está tão longe da melhor forma. A coisa toda subitamente parecia ter sido concebida para apontar diretamente para mim, começando com a morte de Jackie, até a de Robert – e até mesmo Astor em sua improvável roupa sensual, já que eu era, afinal de contas, somente o padrasto dela, e, nos círculos policiais, padrasto é um código para Predador Sexual.

Dava para eu montar esse cenário sem dificuldade, e nele definitivamente havia um papel principal para o Dexter.

Dez minutos de interrogatório básico da polícia com qualquer um envolvido na gravação do piloto iria revelar que eu tinha sido o novo namorado de Jackie. Isso automaticamente me transformava no principal suspeito da morte dela – afinal, escolher entre mim e o Mundialmente Famoso Robert Chase como provável assassino era uma escolha tão simples que até mesmo um retardado como Anderson me escolheria.

E, é claro, seria Anderson, que tinha razões recentes e irrefutáveis para me odiar. Meu usual coringa, a Irmã Sargento, não era mais uma carta no baralho. Pensando na minha última tentativa de falar com ela, eu tinha certeza de que ela ficaria absolutamente deliciada em me ver balançando ao vento. Ela poderia não dar o laço, mas com certeza não ergueria um dedo para desfazê-lo. Iria dar um passo para o lado e observar enquanto Anderson encaixava Dexter direitinho em seu cenário perfeitamente elaborado. E ele iria encaixar: tinha feito a carreira dele arruinando provas acidentalmente e prendendo a pessoa errada. Por que ele não agiria melhor agora, quando poderia fazer isso de propósito e com alegria?

Havia Astor, é claro – mas qualquer coisa que ela dissesse seria em grande parte deixada de lado. Ela era menor e, além disso, todo mundo sabe que padrastos usam a intimidação e o temor para manter em segredo seus prazeres maldosos, e uma pobre e jovem criaturinha iria dizer exatamente o que ele mandasse dizer.

Era a mistura perfeita de clichês – e os policiais amam clichês, porque eles são verdadeiros na maior parte do tempo. É por isso que eles passam a ser clichês.

Quanto mais pensava nisso, mais pensava que eu poderia estar numa enrascada das grandes.

Não era mera paranoia; Jackie tinha sido muito famosa. A pressão para prender alguém pela sua morte seria enorme. Acrescentar Robert a essa mistura aumentava a pressão dez vezes. E só para fechar o negócio, Jackie havia sido morta enquanto estava sob a proteção publicamente proclamada dos Melhores de Miami. Se um assassino tivesse conseguido passar por aquela proteção, os policiais ficariam com uma cara ainda pior. Mas se o assassino fosse alguém de dentro, alguém que pudesse com facilidade passar pela Muralha Azul, mas não um policial trapaceiro, isso daria uma aliviada na situação. Eles se agarrariam a isso com unhas e dentes.

Os policiais prendem e incriminam alguém que sabem que é inocente? Não com tanta frequência. Mas será que o Departamento, de modo geral, se recusaria a dar uma boa examinada quando um companheiro da corporação prendesse alguém plausível e dissesse que ele era culpado? Será que o capitão Matthews não aceitaria tudo sem contestar, somente para proteger a imagem do Departamento?

Um mais um é mesmo igual a dois?

E Deborah – o que quer que tivesse dito antes – ainda estava dividida a respeito da minha inocência. Mas qual metade sairia vencedora? No passado, ela teria ido, incansável, em busca da verdade, sem pensar em nada, enfrentando todos os tipos de críticas e ignorando as flechadas recebidas. A velha Debs teria enfrentado qualquer coisa para libertar um homem inocente – e se esse inocente fosse seu irmão, nada a impediria. Ela iria com toda a boa vontade lutar contra o Departamento inteiro.

Mas agora?

Agora, em um caso de que Debs havia sido chutada com os dois pés pelo capitão Matthews? Agora, que já estava Oficialmente Encrencada, sua preciosa carreira pendendo por um fio? Ela havia levado umas bordoadas em público e lhe disseram para se afastar. Qualquer ligeiro movimento do barco poderia jogá-la na água e encerrar uma coisa que, para ela, significava mais que tudo na vida – será que arriscaria tudo isso por mim, agora? Agora que ela tinha dito com toda a clareza que pensava que eu era um patife tão grande que poderia até mesmo matar Rita, e que nunca mais ia querer olhar na minha cara?

Eu não sabia. Mas não parecia uma ideia muito boa apostar minha vida nisso.

Mas, é claro, eu tinha um jeito muito bom de me livrar disso tudo, um coringa que poderia me tirar da cadeia e que era muito simples e eficiente: Rita. Na verdade, eu não a tinha matado. Ela iria confirmar que Robert havia levado Astor e vestido a menina naquele négligé incriminador e depois atacado Rita. E isso levaria a investigação de volta para o motivo pelo qual ele havia matado Jackie, e até mesmo Kathy – tudo isso se encaixaria, e a morte de Robert repentinamente se transformaria em algo merecido, um caso claro de autodefesa. Anderson provavelmente ainda tentaria colocar tudo nas minhas costas e poderia fazer com que as coisas ficassem muito desagradáveis por uns tempos, mas, no fim, até mesmo um retardado tão grande quanto ele seria forçado a ver a verdade.

Rita era a chave. Ela iria me manter livre da Justiça, e isso parecia ser a ironia final. Por mais que eu tivesse, com todas as minhas forças, tentado fugir dela e do tipo de vida pavorosa, sem graça e comum que ela representava, era a única pessoa que poderia me salvar agora; perfeito. Bem-vindo ao lar, Dexter.

– Dexter? – chamou Astor. – Ei, Dexter?

Ela me assustou, embora eu soubesse que ela estava lá, e a olhei e pisquei. Vi incerteza no rosto dela e alguma coisa que poderia até mesmo ser culpa.

– O que a gente tem que fazer? – ela perguntou de novo. Pela primeira vez em muitas semanas, ela se parecia com uma menina de onze anos de idade: apavorada, insegura, perdida em um súbito ataque de realidade.

– Em primeiro lugar – eu disse –, a gente vai procurar sua mãe.

Encontramos Rita no lado oposto da casa, perto da lavadora e da secadora de roupas. Estava amarrada assim como eu tinha ficado e não se movia; quando me ajoelhei ao seu lado, senti somente uma pulsação muito fraca, muito irregular. Eu a virei com cuidado e comecei a desfazer os nós que prendiam os pulsos dela e, em determinado momento, enquanto puxava as cordas, a pulsação dela parou.

Tentei todas as minhas técnicas básicas de reanimação cardiorrespiratória. Fiz respiração boca a boca. Fiz tudo que o treinamento e uma imaginação desesperada pudessem sugerir, mas depois de cinco minutos de tentativas ela ainda não estava respirando, e a pele dela já havia começado a ficar fria e pegajosa.

Rita estava morta.

E então, com toda a probabilidade, Dexter também.

Olhei para o corpo dela. Pensei nos muitos anos em que tínhamos ficado juntos, e em todas as refeições excelentes que ela tinha preparado, e nas inúmeras coisas que ela havia feito por mim que iam muito além de cozinhar. Balancei a cabeça. Eu sei que deveria ter sentido alguma coisa – raiva, remorsos, pesar, quase qualquer coisa mesmo. Mas o único pensamento que me ocorreu foi que a morte havia suavizado a maior parte das rugas que nos últimos tempos surgiram no rosto dela.

E pensei em Jackie – a morte não tinha lhe caído assim tão bem. Não que isso fizesse a menor diferença, não mesmo. As duas estavam igualmente mortas. Balancei a cabeça lentamente e, por fim, eu senti alguma coisa – senti um profundo entendimento da ironia que a Vida havia infligido ao Profundamente Merecedor Dexter. Eu, que nunca tinha me importado com mulheres, tinha me sentido orgulhoso como um pavão porque tinha duas.

E agora não tinha nenhuma.

Dei as costas para o corpo de Rita. Astor estava em pé atrás de mim, mordendo o lábio inferior.

– Ela está... A mamãe está... morta? – me perguntou.

Fiz um gesto afirmativo.

– Mas não tem alguma coisa... Você não... não pode fazer alguma coisa?

– Eu fiz. E não deu certo. – E eu poderia ter acrescentado: Assim como todas as outras coisas que tentei fazer ultimamente.

Astor olhou o corpo da mãe e balançou a cabeça. Por uns instantes, pensei que ela fosse mesmo chorar – mas, é claro, não era capaz disso, assim como eu também não. Em vez disso, ela se ajoelhou ao lado de Rita e tocou o queixo dela. Durante alguns instantes, ficou encarando Rita, seu rosto tão inexpressivo quanto o da mãe. Então se virou e olhou para mim.

– O que a gente faz agora? – ela perguntou.

Suspirei. Havia muitas coisas que eu poderia fazer – mas todas conduziam, no fim das contas, à mesma cela no Centro de Detenção no centro da cidade. E até eu tinha de admitir que merecia isso. Toda a minha carreira não havia sido mais do que um prelúdio para a prisão. Eu tinha me mantido na dianteira do Merecido Destino por muito tempo mesmo, usando minha inteligência, mas os acontecimentos recentes provaram que ela havia desaparecido, ressecada e soprada pelo vento como as últimas folhas do outono. Tudo havia se acabado; incontestavelmente, inescapavelmente acabado, e quando eu admiti isso para mim mesmo, até senti um pouco de alívio.

Não fazia o menor sentido prolongar tudo isso mais do que o necessário.

Eu fiz Astor se levantar.

– Vamos chamar a polícia – eu disse. – E, daí, a gente dança conforme a música.

Ela estava com ar intrigado, mas isso não fazia a menor diferença.

Peguei meu celular e chamei a polícia. Então me sentei ao lado de Astor e esperei que a música começasse.

 

FIM

1. Expressão francesa que significa “comentário sagaz”. (N. T.)

2. Grafia equivocada da expressão francesa au courant, que no contexto acima significa “na moda”, “habitualmente usada”. (N. T.)

3. Prato típico cubano que consiste de bananas fritas e açucaradas.

4. Ropa vieja: prato composto de carne desfiada no molho; yuca: mandioca; arroz con frijoles negros: arroz com feijão preto; flan: pudim com canela; cafecita: café espresso cubano.

5. Pastelzinho folhado típico da culinária cubana.

6. Membro de uma fraternidade relacionada à maçonaria e conhecida por seus hospitais para crianças. (N. T.)

7. Emily Post foi uma famosa escritora norte-americana de livros sobre etiqueta. (N. T.)

8. “Saúde”, em gaélico. (N. T.)

9. “É um prazer conhecê-lo, senhor”, em francês. (N. T.)

10. Expressão francesa que indica que as pessoas esperam certo tipo de comportamento das pessoas nobres. (N. T.)

11. Marcação de pontos no futebol americano. (N. T.)

12. De mim, em francês. (N. T.)

13. Valhalla, ou “Salão dos Mortos”, é o majestoso local para onde vão os heróis que morrem em combate na mitologia escandinava. (N. T.)

14. Tipo de camisa masculina popular na América Central, com bolsos e pregas.

15. Trocadilho existente no texto original, baseado em “under-five” – menos de cinco – e “plus fours” – mais quatro –, nome dado às calças para jogar golfe, por elas descerem quatro polegadas abaixo dos joelhos. (N. T.)

16. Palavra francesa que indica tecidos, ou quem trabalha com tecidos. (N. T.)

17. Loja de lingerie fundada em 1946.

18. Marcha que ficou famosa por ter sido usada na trilha sonora do filme de 1957, A ponte do rio Kwai.

19. OSHA é a Occupational Safety and Health Administration, agência encarregada de cuidar da segurança e da higiene dos locais de trabalho. (N. T.)

20. Detetive sino-americano fictício que foi o personagem protagonista de filmes e desenhos animados.

21. Frase latina usada por matemáticos e filósofos no fim de um problema de matemática ou de um argumento filosófico, para indicar que haviam conseguido alcançar o resultado final exigido para a comprovação do problema, e cuja tradução em português normalmente é C. Q. D., como queríamos demonstrar. (N. T.)

22. Antagonista do livro de Robert L. Stevenson, A Ilha do Tesouro. Conhecido por ter a perna amputada e usar muleta.

23. Passo básico do balé, com os joelhos afastados e as pernas flexionadas. (N. T.)

Table of Contents

 

Rosto

Créditos

Dedicatória

Agradecimentos

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

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Rosto

Créditos

Dedicatória

Agradecimentos

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

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