Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 6 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 4

 

COMO EU TINHA FICADO ATÉ TARDE NA CENA DO CRIME, A HORA DO jantar já tinha chegado e passado quando finalmente cheguei em casa. O hall na porta da frente estava superlotado com três grandes pilhas de caixas de papelão que não estavam lá pela manhã, e tive de me agachar ao lado delas para fechar a porta. Rita e eu recentemente tínhamos nos aproveitado do falido mercado imobiliário e comprado uma casa hipotecada, maior que a nossa atual, e equipada com uma piscina. Todos tínhamos chegado a um estado de ansiedade absoluta só com a ideia de nossa nova residência palaciana, com mais espaço para todos, e nossa própria piscina, e até mesmo uma churrasqueira de tijolos nos fundos. E então... nós esperamos.

A filial local do banco nos deu um número para telefonarmos. Ligamos para esse número e nossas chamadas foram transferidas para um escritório em Iowa, no qual nos ofereceram um complicado menu pré-gravado, fomos mantidos na espera, e então desligaram o telefone. Chamamos outras vezes, tentando todas as opções do menu, uma por uma, até que finalmente conseguimos alcançar uma voz humana não gravada que nos disse que não poderia nos ajudar, que tínhamos de fazer tudo através do escritório local, e desligou.

Retornamos ao escritório local, onde nos explicaram que o banco deles tinha acabado de ser comprado por um banco maior, e que, agora que a fusão estava completa, tudo seria rápido e simples.

Telefonamos para o escritório central do novo banco, no qual nos ofereceram um complicado menu pré-gravado, fomos mantidos na espera, e então desligaram o telefone.

Quem me conhece bem pode dizer para vocês que eu sou um homem manso e paciente, mas houve mais do que alguns poucos momentos em nossa batalha épica com o grande sistema financeiro de nossa nação em que me senti extremamente tentado a botar alguns rolos de fita adesiva e uma faca para peixe em uma malinha e resolver nosso problema de comunicações de um modo mais direto. Mas, felizmente para todos, depois de dezoito reuniões com diferentes vice-presidentes assistentes para a Repetição de Redundâncias Irritantes, Rita se manifestou e tomou a dianteira. Ela havia passado sua vida profissional no mundo da grande burocracia do dólar e sabia como as Coisas funcionavam. Finalmente encontrou a pessoa certa, telefonou para o número certo, preencheu o formulário correto, levou-o ao escritório correto e a papelada finalmente entrou no sistema.

E então nós esperamos.

Muitos meses se passaram enquanto o banco diligentemente perdeu os papéis e se esqueceu de arquivar os formulários; e então nos mandou cartas ameaçadoras exigindo taxas exorbitantes por todos os tipos de coisas que nunca tínhamos feito e das quais nem ao menos tínhamos ouvido falar. Mas, milagrosamente, Rita foi persistente e firme, e o banco finalmente esgotou seu arsenal completo de burradas burocráticas e reptilianas e relutantemente permitiu que fechássemos o negócio da nossa nova casa.

O dia da mudança estava então se aproximando rapidamente, só duas semanas adiante, e com sua costumeira eficiência selvagem, Rita estava passando cada momento livre enfiando coisas em caixas de papelão, fechando-as, rotulando-as com marcadores mágicos – uma cor diferente para cada cômodo em nossa nova casa – e ajeitando-as em pilhas bem organizadas.

Mas, enquanto eu me contorcia passando pelas caixas e entrava na sala de visitas, onde Lily Anne estava profundamente adormecida em seu chiqueirinho, eu descobri que, esta noite, Rita havia feito muito mais do que simplesmente encher caixas; uma farejada rápida foi suficiente para encher minhas narinas com o aroma, que ainda pairava no ar, de carne de porco assada, uma das especialidades culinárias de Rita. Certamente teria um prato de sobras esperando por mim, e, só de pensar nisso, minha boca começou a se encher de água. Então, passei correndo pela sala de visitas e entrei na cozinha.

Rita estava na pia, com luvas de um tom pálido de azul colocadas nas duas mãos, enquanto lavava a assadeira. Astor estava amontoada ao lado dela, enxugando os pratos do jantar com uma expressão emburrada no rosto. Rita ergueu o olhar e franziu as sobrancelhas.

– Oh, Dexter – ela disse –, finalmente você está em casa?

– Acho que sim – respondi. – Meu carro está lá na frente.

– Você não telefonou – ela disse. – Eu não sabia se... Astor, pelo amor de Deus, não dá pra você ir um pouquinho mais rápido? E, então, eu não sabia a que horas você estaria em casa – ela terminou, me olhando com ar acusador.

Era verdade. Eu não tinha ligado, principalmente porque havia me esquecido. Tinha ficado tão distraído por causa de Chase, e de Jackie, e pensando na bagunça horrível e fascinante na caçamba, que a ideia de telefonar simplesmente tinha sumido da minha cabeça. Suponho que apenas assumi que Rita ia saber que eu ia voltar para casa e assim guardar um pouco de comida para mim.

Mas, a julgar pelo jeito como ela estava me olhando, comecei a pensar que talvez essa minha ideia tivesse sido um erro. Relacionamentos humanos, especialmente toda essa História de Estar Casado, eram um território estranho para mim. Era claro que eu deveria ter telefonado para dizer que iria me atrasar – mas poderiam as consequências ser realmente tão calamitosas? Seria realmente possível que não houvesse um prato com o nome de Dexter nele, cheio de suculenta carne de porco assada e vai lá saber quais outras coisas maravilhosas? Um destino muito pior do que a morte – pelo menos, pior do que a morte de alguma outra pessoa.

– Nós tivemos um caso muito duro hoje – respondi. – Quando recebemos o chamado já era tarde, depois do almoço.

– Bom – Rita disse. – Eu preciso mesmo saber quando você vai voltar para casa. Já chega, Astor. Diga para Cody tomar banho.

– Eu quero tomar banho também – rosnou Astor.

– Você demora uma eternidade – disse Rita. – Cody vai entrar e sair do banho em dez minutos, e aí você pode gastar todo o tempo que quiser.

– Com os germes nojentos dele por toda a banheira! – disse Astor.

Rita ergueu um braço e apontou.

– Vá – ela disse, séria.

– Me desculpe – falei para Rita, enquanto Astor passava por mim batendo os pés, parecendo a Miss Fúria Pré-Adolescente de 2012. – Hum, nós ficamos bem, hum, enrolados, e... então, tem um pouco de carne de porco sobrando?

– Já está quase na hora de dormir – disse Rita, enfiando a assadeira na cuba da pia. – E esta noite era para assistirmos juntos ao novo filme do pinguim, lembra?

Quando ela mencionou o fato, eu, na verdade, lembrei de que havíamos falado a respeito de ter uns bons momentos familiares, assistindo juntos a um DVD. Normalmente, eu teria aceitado isso como uma daquelas cansativas tarefas que simplesmente tenho de desempenhar para manter a educada ficção do meu disfarce: Papai Dexter, Pilar da Vida em Família. Mas, naquelas circunstâncias, pareceu que Rita estava evitando o único assunto que realmente suscitava interesse: havia, de fato, um pouco de carne de porco sobrando?

– Me desculpe – repeti. – Se é tarde demais, talvez nós pudéssemos, hum... tem? Sobrou um pouco de carne de porco para mim?

– Carne de porco? – perguntou Rita. – Isso não... Oh, é claro que tem um pouco de carne de porco. Eu não ia deixar... Está na geladeira. Mas, Dexter, é sério, você tem de ser um pouco mais... – Agitou uma das mãos, e então começou a tirar as luvas de borracha. – Vou esquentar pra você. Mas Cody ficou esperando pra... Acho que nós podemos assistir ao filme amanhã à noite, mas, mesmo assim...

Ela se apressou até a geladeira e começou a tirar as sobras de comida, e uma imensa sensação tomou conta de mim. Para ser exato, me senti mesmo muito satisfeito comigo na hora em que o micro-ondas começou a esquentar meu jantar e a reacender o aroma maravilhoso. Afinal, eu ia ter um jantar excelente sem ter de assistir a mais um filme sobre pinguins. A vida era boa.

E ela era ainda melhor quando eu finalmente me sentei à mesa na cozinha com meu prato e comecei a manejar meu garfo. Tinha bananas fritas, bem como a carne de porco assada, e tortellini em um molho de alho, em vez dos mais tradicionais arroz e feijão. Mas não perdi tempo lamentando a queda de uma instituição. Eu me dediquei à comida com afinco, e em alguns poucos minutos felizes eu estava satisfeito, e já deslizando naquele estado de sonolência idiota que acontece depois de você adicionar uma boa refeição a uma consciência tranquila. Nem sei bem como, mas consegui ficar em pé e cambalear até o sofá, onde desabei nas almofadas e comecei a digerir minha refeição e a pensar os profundos pensamentos de uma sexta-feira à noite.

Já que eu estava em tão profundo estado de contentamento, afastei todas as irritantes e desagradáveis trivialidades da semana e me concentrei em coisas mais agradáveis. Pensei no corpo na caçamba e me ocorreu que uma caçamba era um local estranho para desovar um corpo que havia sido despedaçado de um modo tão completo e singular – sobretudo uma caçamba bem ali perto do campus, a poucos quarteirões da parte mais movimentada do centro de Miami. Como eu muito bem sabia, é incrivelmente fácil colocar um corpo onde ele nunca será encontrado – especialmente aqui no esplendor tropical a que eu chamo de casa. Praticamente na frente da minha porta da rua havia um delicioso cemitério aquático que era quase sem fundo. E também havia o Parque de Everglades, com seus adoráveis esconderijos de crocodilos, e os matagais repletos de buracos fundos – o sul da Flórida era, sinceramente, o Paraíso para quem queria desovar um cadáver.

Havia tantas opções maravilhosas para desovar corpos, até mesmo para a pessoa com a mais limitada das imaginações. E então, na minha experiência, quando os restos são colocados onde eles fatalmente serão descobertos, geralmente é pelo fato de que a descoberta é uma parte importante do conjunto do pronunciamento artístico. Vejam o que eu fiz; vocês não conseguem ver por que eu tinha de fazer isso?

Eu não via, não ainda – mas ao pensar naquela palavra, ver, me lembrei do detalhe mais perturbador, o sêmen na cavidade ocular. Não havia mistério nenhum a respeito de como ele havia ido parar lá, mas o porquê disso era certamente a peça mais importante do quebra-cabeça. Era a consumação, o clímax literal de todo o acontecimento; e entender o que fazia com que isso fosse necessário era a chave para entender quem havia feito aquilo.

Enquanto eu refletia a respeito na sonolência induzida pela carne de porco, uma voz suave e sibilante que não havia sido alimentada e, portanto, não estava nem um pouco sonolenta, sussurrou uma pergunta capciosa em meu ouvido interior: Ela ainda estava viva quando ele fez isso?

O choque causado por esse pensamento me fez sentar empertigado. Estaria ela viva no fim, quando ele arrancou um dos olhos? Teria ela observado com o outro olho quando ele iniciou sua derradeira violação? Eu tentei imaginar isso a partir do ponto de vista dela; a dor insuportável, o conhecimento esmagador de que tinham sido feitas Coisas com ela que jamais poderiam ser ressarcidas; a lenta e brutal aproximação daquela indignidade ocular derradeira...

No mais profundo das sombras do Castelo Dexter eu senti o Passageiro se endireitar com um movimento brusco e sibilar em uma objeção desconfortável. O que, afinal, eu estava fazendo? Não havia propósito nenhum em tal ato destituído de sentido, e eu estava incorrendo no erro terrível de tentar sentir empatia, um defeito extremamente humano a respeito do qual eu tinha apenas um conhecimento acadêmico. E também não sabia nada a respeito de ser uma vítima mutilada e indefesa. No geral, eu tinha de acreditar que era uma coisa boa.

Não: era a perspectiva do predador que era importante para entender tudo isso – um ângulo que era muito mais natural para mim. Enviei um silencioso pedido de desculpas ao Passageiro e mudei meu ponto de vista mental.

Tudo bem: a parte básica da perseguição, da captura e do cativeiro, e todas as outras partes das preliminares, era padrão, sem o menor interesse. Aí começa o verdadeiro trabalho, e eu me recostei no sofá e tentei ver como aquilo havia acontecido. Ao meu redor, em nossa casinha, dava para ouvir o clamor do banho, da escovação de dentes, da hora de deitar. Fechei meus olhos e tentei afastar tudo aquilo enquanto me concentrava.

Inspirar, expirar, focalizar; imagino os danos causados ao corpo, vejo como tudo deve ter acontecido; as mordidas e os talhos selvagens. A menina se contorce, apavorada, os olhos arregalados; sem saber o que vai acontecer em seguida, mas sabendo que vai ser algo além do horror; e, em minha imaginação, eu ergo a faca – e percebo que há alguma coisa pouco característica aqui, a primeira variação significativa. Pelo fato de ser a Minha Imaginação, tinha imaginado uma faca sendo erguida – afinal, é assim que eu faço. É um momento maravilhoso: ver os olhos ficando arregalados, os músculos se contraindo sob a fita adesiva, a respiração sibilar laboriosamente tentando soltar o grito que nunca vai ultrapassar a mordaça. Sempre uso facas e outros utensílios semelhantes, sem exceção. Não é apenas uma escolha estética, o orgulho de fazer cortes limpos e precisos; a ideia de quaisquer abomináveis fluidos corporais entrando em contato com minhas mãos é repulsiva, indizível, uma depravação horrorosa.

Partindo de minha experiência profissional, contudo, eu sabia muito bem que muitos companheiros de hobby preferem a abordagem manual, até mesmo necessitam dela para se sentir satisfeitos. Pensar no contato direto com a carne pulsante, úmida e sangrando me dava uma sensação de desgosto crescente; mas eu conseguia, pelo menos, entender isso, até mesmo aceitar. Afinal, a gente precisa tentar ser tolerante em relação aos demais. Entre nós, alguns querem colocar as mãos, os pés e os dentes no trabalho; outros preferem a abordagem mais civilizada de um trabalho distanciado feito com o frio aço inoxidável. Há lugar para todos; cada macaco no seu galho.

Mas, dessa vez, era diferente. Dessa vez, o assassino havia usado uma combinação de técnicas. A vítima havia recebido cortes profundos e sido apunhalada com algum tipo de lâmina; mas os danos mais significativos, a verdadeira assinatura do assassino, foram feitos com os dentes, os punhos, as unhas, e outras – e mais íntimas – partes do corpo. Era uma abordagem pouco usual, e isso, com toda a certeza, significava alguma coisa muito importante.

Mas o quê? Eu sabia muito bem o que era o trabalho com facas; era o modo perfeito de obter controle, de causar danos precisos e permanentes. E então as mordidas – o desejo de ter o contato, de ter a conexão mais íntima possível com a agonia? Exceto pelo fato de que o que havia sido feito com a cavidade ocular era algo muito além de um chamego pervertido. Era uma declaração de poder absoluto, uma afirmação de que eu possuo você e posso fazer o que quiser com você. E era um grito de comando: OLHE PARA MIM! Mais: era uma punição, um modo de dizer que seus olhos me causaram mal; você deveria ter prestado atenção e me visto, mas você não viu e agora vou dar uma lição e vou fazer isto.

Lá no hall, a porta do banheiro bateu com uma força cataclísmica e meus olhos se arregalaram. Escutei por alguns momentos enquanto a voz de Astor passou das lamúrias para as ameaças e se ergueu em fúria estridente acima das palavras calmas e cheias de autoridade de Rita, finalmente diminuindo para um resmungo em surdina de descontentamento geral. A porta bateu de novo; Lily Anne começou a chorar, e a voz de Rita ficou apaziguadora; um minuto depois, a paz havia sido restabelecida, e eu retornei para meu alegre passatempo de imaginar uma carnificina pessoal.

O assassino desejava ser percebido; por todos nós, é claro, e era por essa razão que o corpo fora desovado de modo tão ostensivo. Mas, muito mais importante, ele tinha desejado que a vítima prestasse atenção nele, que o visse real e completamente, apreciasse a importância dele. Eu refleti a respeito disso por um minuto, e parecia certo. Você deveria ter me percebido, mas não o fez. Você me ignorou e agora seu olho vai pagar por aquilo que seus olhos falharam em fazer.

Fechei meus olhos novamente e tentei uma vez mais ver aquilo, imaginar o modo como tudo aconteceria; fazer com que ela Me sentisse e entendesse quão estúpida era por não saber que eu estava lá e vendo-a e precisando que ela Me visse, e ela não vê e então eu a pego e lhe dou uma lição e a conduzo através do terror, da dor, da paixão da carnificina; e sinto o lento aproximar da satisfação até que, finalmente, ela entende e está pronta e eu também, e vejo aquela bela cabeça espancada, com o cabelo dourado, e minha excitação aumenta e estou pronto para a consumação...

Deve ter sido a carne de porco. Combinada com o dia extremamente longo de trabalho, e acrescentando a isso o stress de ter Robert me seguindo a semana inteira, a carne de porco simplesmente tinha me deixado esgotado. De qualquer modo, eu adormeci. Mas não caí naquela escuridão atemporal e destituída de sonhos que normalmente me recompensa quando fecho os olhos à noite. Pelo contrário, as visões continuavam: Fico acima do corpo ainda vivo e olho para baixo para ver o que eu fiz. Sinto tamanha onda doce e crescente de êxtase e de satisfação. Me ajoelho ao lado do corpo e agarro um punhado do belo cabelo dourado e dou um puxão na cabeça de modo que ela tenha de olhar para mim. E o rosto se volta lentamente, e seguro a respiração enquanto as feições ficam claras, e é um rosto perfeito, sem marcas e cheio de desejo por mim, por aquilo que estou prestes afazer, e quando olho bem dentro dos insondáveis olhos cor de violeta, percebo que é Jackie Forrest, e o que vou fazer subitamente começa a mudar.

E abaixo a faca e olho para ela, olho para a perfeita curva de seus lábios e as sardas em seu nariz, e aqueles olhos profundos e improváveis, e de algum modo as roupas dela sumiram e me reclino mais perto de seu rosto, e ele se ergue na minha direção, e há um momento infindável em que o toque quase acontece, quase completando alguma coisa que está quase ao meu alcance...

Abri meus olhos. Ainda estava no sofá, e a casa havia ficado escura e silenciosa ao meu redor, mas a imagem do rosto de Jackie Forrest ainda estava junto de mim.

Por que eu havia pensado nela? Estava tendo um sonho acordado tão agradável com uma vivissecção perfeitamente normal, e ela havia se intrometido e estragado tudo com suas exigências de que eu largasse a faca e tentasse algo mais humano. Eu não queria ter o tipo de fantasia dela; esse não era eu, não Dexter, o Destruidor. Ela estava me forçando a me transformar em alguma criatura nova e assustadora, uma criatura que havia mergulhado de cabeça na sedução passional e sentido um imenso prazer com verdadeiros sentimentos humanos e um desejo por alguma coisa que estava tão fora do alcance do meu ser real como se ela estivesse em Marte.

Eu sabia que isso era totalmente ilógico, mas me flagrei profundamente aborrecido com Jackie, como se ela tivesse forçado sua presença de propósito. Mas, para minha maior surpresa, descobri que estava excitado na realidade, e não apenas em minha imaginação. Teria isso acontecido por eu pensar na vítima – ou por pensar em Jackie Forrest? Eu não sabia, e isso era ainda mais irritante.

Havia alguma coisa nela que eu achava intrigante, até mesmo constrangedora. E não era por ser uma atriz famosa – eu não tinha tido a menor ideia de quem ela era, tiveram de me dizer que ela era uma estrela. A celebridade nunca havia me interessado antes, e eu estava bastante certo de que não me interessava agora. E eu estava, com certeza, muito enfronhado nos modos maldosos para ficar interessado em qualquer tipo de namorico que fosse meramente sexual. Quando Dexter tem um caso, o brilho do seu parceiro dura para sempre.

E, no entanto, cá estava Jackie, preenchendo a tela em minha televisão particular interna, balançando seus cabelos perfeitos e sorrindo somente para mim com um lampejo de diversão inteligente em seus olhos, e por alguma razão enlouquecedora eu gostava disso e eu queria...

Queria o quê? Tocá-la, beijá-la, sussurrar tolices doces em suas perfeitas orelhas em formato de conchinhas? Isso era absurdo, coisa de desenho animado. Dexter com Tesão. Tais coisas não acontecem com nosso Terrível Escoteiro das Trevas. Eu estava além do alcance do mero desejo mortal. Eu não o sentia, não tinha capacidade de senti-lo, nunca tinha tido e não queria ter – e seja lá o que fosse que o fato de pensar em Jackie Forrest estivesse fazendo comigo, eu nunca iria ter. Esse não era mais que um instante de um ator que trabalha segundo o Método, uma fugaz identificação com o assassino, uma mistura de papéis, quase certamente ocasionada porque o processo de digestão da carne de porco havia tirado todo o sangue do meu cérebro.

O que quer que aquilo fosse de verdade, não importava. Eu estava cansado, e meu pobre cérebro subnutrido estava escapando de mim, indo por um caminho que eu não apreciava e pelo qual jamais poderia caminhar. Eu podia ficar sentado aqui rangendo os dentes e me preocupando a respeito disso tudo, ou podia ir para a cama e esperar que uma boa noite de sono mandasse esses pensamentos perturbadores e absurdos de volta para a floresta escura que era o lugar deles. Amanhã era outro dia, e era sábado, um dia para fazer nada, o que é conhecido como uma cura infalível para o que atormenta você.

Eu me levantei e fui para a cama.