Dexter: Em Cena
Capítulo 14
A TARDE TRANSCORREU DE MANEIRA BEM AGRADÁVEL, CONSIDERANDO que eu a havia passado com um zero à esquerda fútil e egocêntrico e um comediante muito barulhento que bem que poderia estar transportando um Passageiro das Trevas. Renny, aparentemente, era bem conhecido, apesar de eu nunca ter ouvido o nome dele, e na hora do almoço tanto ele quanto Robert foram cercados por admiradores com sorrisos tolos que queriam autógrafos, fotos e um ligeiro lampejo do brilho refletido por meus dois pupilos. Os dois levaram tudo isso numa boa, embora Renny passasse um sermão em seus fãs com insultos profanos ditos em voz bem alta. Eles pareciam gostar disso, e a situação, com certeza, fez Robert se divertir.
E uma vez mais, como tinha sentido com Jackie, percebi que eu tinha essa estranha sensação de apreciar o fato de ser Parte Daquilo, um dos Poucos, no centro das atenções dos meros mortais que nos viam. Comecei a pensar se, nesse meio-tempo, eu por acaso não tinha ficado com um parafuso a menos; com certeza alguma coisa estava errada. Esse não era um comportamento adequado para Nosso Escoteiro Sombrio; ávido por atenção, dando um sorriso convencido para a multidão lá do centro da invejada Panelinha, e absorvendo a luminosidade refletida como se ela fosse algum tipo de tônico. Ser constantemente observado, ter cada par de olhos seguindo cada movimento meu e, ainda pior, gostar disso – uma fantasia impossível para a Coisa que Eu era. Esse era um estilo de vida que destroçaria completamente tudo que eu era, tudo aquilo que eu defendia. Era impensável. Mas, aparentemente, eu gostava disso. Gostava mesmo disso.
Fiquei pensando nisso enquanto observava Renny; ele certamente adorava a atenção – e, no entanto, eu tinha visto o que eu tinha visto. Não tinha? E se tinha, ele claramente conseguira descobrir um modo de viver à luz dos refletores e ainda assim alimentar a besta. Será que eu conseguiria fazer isso também? Pensei em seguir Jackie ao redor do mundo, de vez em quando me afastando discretamente para um pouco de diversão silenciosa. E eu não consegui evitar o pensamento: será que eles têm fita adesiva em Carmes?
Um trio de fãs sorridentes e soltando risadinhas interrompeu; Renny as insultou enquanto Robert dava autógrafos, e depois Renny os deu também, e as três fãs foram embora com seus pés mal tocando o chão. Eu havia acabado de conseguir conter meus sentimentos magoados pelo fato de elas mal terem me olhado, quando me dei conta de que Robert estava argumentando que a Personagem do Seriado interpretada por Renny, Crait, deveria ter uma sexualidade ambivalente.
– Por que cê quer que eu seja gay, seu filho da puta? – disse Renny. – Tá procurando um namorado?
– Não é gay – insistiu Robert. – Ambivalente.
– Ambimerda – disse Renny. – Então cê quer que eu corte pros dois lados? Por quê, caralho?
– Não, não, ambi, só... é assim, nós nunca ficamos mesmo sabendo... ele é hetero? Ele é gay? – disse Robert. – Quer dizer, talvez a gente o veja com uma mulher muito bonita mesmo.
– Gostei mais disso – disse Renny, assentindo.
– E então, tem uma festa, e ele aparece vestido de Carmen Miranda. – Ele me lançou um olhar rápido, franziu as sobrancelhas e voltou a olhar Renny. – Ou, você sabe – ele acrescentou –, Diana Ross.
– O caralho pro que cê diz.
– É tão autêntico, é... Você não consegue imaginar como isso poderia ser poderoso?
Com a vinda da palavra “autêntico” logo depois da referência a Carmen Miranda, eu subitamente percebi o que Robert estava fazendo. Quando tinha dito que ele e Renny eram exatamente como eu e Vince Masuoka, ele não estava simplesmente arrumando assunto para uma conversa. Estava afirmando um princípio estético básico. Assim como havia aprendido a copiar todos os meus maneirismos inconscientes, ele queria que Renny se tornasse Vince para o seriado. De modo que a Arte, se é que isso era arte, literalmente imitasse a Vida.
Balancei a cabeça e me desliguei deles; isso já era demais para a Arte da Criação.
Depois do almoço, nós voltamos para o laboratório e eu dei para Renny seu curso intensivo de perícia forense, enquanto Robert ficava saltitando ao meu lado e interrompia constantemente para mostrar quanta coisa ele já sabia. Justiça seja feita, Renny parecia ser muito mais esperto do que Robert; ele se concentrava, fazia perguntas muito inteligentes e rapidamente aprendeu o suficiente da coisa básica para enganar a mais sofisticada câmera de televisão. Mesmo assim, eu não conseguia me livrar daquela sensação de desconforto que havia sentido ao ficar imaginando se realmente havia visto Aquela Coisa por trás dos olhos de Renny, e, caso tivesse, o que ele poderia fazer com ela.
Na hora de ir embora, eu estava mais do que pronto para fugir uma vez mais para vigilância suntuosa, e foi com um ridículo sentimento de ansiedade que fui rapidamente até o covil de Deborah para pegar Jackie. Ouvi as vozes das duas antes de vê-las, mas, quando surgi com um oi todo feliz, as duas repentinamente ficaram em silêncio e me olharam com toda a seriedade.
– Eu não queria estragar a festa – falei.
– Nada de festa por aqui – disse Deborah, e Jackie balançou a cabeça.
– Então, o que foi? – eu falei. – Você deu para o Anderson o nome e a foto do Patrick Bergmann?
– Na-na-ni-na-não! – disse Jackie, toda feliz.
– O quê? Por que não?
– Ordens do capitão Matthews – disse Deborah com toda a solenidade.
Eu pisquei, e admito que essa era a única coisa que eu era capaz de fazer, a não ser dizer mas, então, fiz isso também:
– Mas...
– Que coisa, né? – disse Jackie, ainda com o que parecia ser uma leviandade muito inconsequente.
– Hum, é – eu disse. – Alguma razão particular?
– O Anderson nem olhou na cara do detetive Echeverría – disse Debs. – Então, o capitão dele telefonou para Matthews e exigiu uma explicação, e agora eu estou na merda.
– Você? – eu falei. – E qual a razão?
– Por interferir com a investigação de Anderson – explicou Debs. – Uma coisa que não aconteceu porque ele não investigou nada.
– E por atrair o Echeverría de Nova York pra cá – disse Jackie. – Aparentemente, isso viola o código não escrito.
– Alguém deveria escrevê-lo – eu falei.
– E, então, agora – disse Deborah, com um gesto irônico com as mãos –, nós temos as mãos livres e vamos pegar esse filho da puta pervertido e foder eles todos. – Ela deu de ombros. – Enquanto eu estou sendo punida.
– Ficar a pão e água? – perguntei.
– Pior – ela falou. – Eu fui oficialmente avisada para me afastar da investigação de Anderson...
– O que inclui – interrompeu Jackie, toda animada –, NÃO dar para ele quaisquer outras pistas, dicas ou conjecturas que possam interferir com o trabalho dele.
– Bem, então essa é a punição perfeita – eu disse.
– E – disse Deborah, fazendo uma careta – eu devo permanecer como consultora técnica para o seriado de Jackie durante toda a gravação. – Ela me lançou um sorriso irônico. – E você também.
– Oh – eu disse, imaginando como seria possível sobreviver à companhia de Robert por tanto tempo. Acho que meu rosto demonstrou o que eu estava pensando, porque Jackie emitiu um som que lembrava um bufo e falou:
– Ei, vocês. Não é assim tão ruim. Tipo, a comida no set é muito boa, e é tudo de graça.
– Ótimo – disse Deborah. – Eu posso comer donuts enquanto os corpos se amontoam ao redor do Anderson.
– Bem, se vai ter donuts... – eu falei.
Deborah balançou a cabeça.
– E você só precisa disso para ficar feliz?
– Isso... e a celebração que está acontecendo lá embaixo, no laboratório. É muito festiva mesmo.
– Um laboratório forense festivo? – disse Jackie, um sorriso se retorcendo nos cantos da sua boca. – Mas isso é trapaça.
– Mais um ator chegou – eu falei. – Renny Boudreaux?
– Oh, Deus, ele é o máximo – disse Jackie, balançando a cabeça. Ela olhou para Debs, que ergueu uma sobrancelha. – Um comediante fantástico. Quer dizer, ele é um idiota completo, mas um idiota muito engraçado mesmo.
Deborah bufou e disse:
– Um idiota engraçado. Grande conceito. – E as duas soltaram uma risadinha como se fossem membros de uma mesma fraternidade.
O sedã estava à nossa espera na porta da frente. Era o mesmo motorista de novo, e eu indiquei para Jackie o banco traseiro, entrando discretamente pelo outro lado. Fizemos a maior parte do trajeto em silêncio. Jackie olhava o trânsito pela janela, de vez em quando me lançando um olhar rápido. Eu olhava rapidamente de volta, conjecturando em que ela estaria pensando, mas ela não me deu dicas, a não ser por um sorrisinho ocasional e cansado. Era óbvio que estava ocupada demais tendo pensamentos profundos para querer uma conversinha banal; então, eu a deixei pensando e embarquei em um doce devaneio particular.
Pouco antes de entrarmos no acesso para a via expressa, um BANG! muito alto soou atrás do nosso carro, e nós dois fomos arremessados para a frente. Olhei pelo vidro traseiro: o motor de uma motocicleta havia produzido um som alto como o de uma explosão enquanto ela abria seu caminho entre os carros mais lentos ao longo da faixa branca. Lancei para Jackie um sorriso tranquilizador, e ela afundou no assento e voltou ao seu silêncio pensativo.
No cruzamento com a Dolphin, o tráfego se transformou em um rastejar, já que todo mundo parava para olhar um Jaguar cor de marfim parado no acostamento. Um fino fio de fumaça saía de uma das janelas e um homem muito gordo estava parado ao lado do carro, gritando com uma mulher esbelta e elegantemente vestida. Ela fumava um cigarro imenso e tinha a aparência cansada enquanto o homem berrava com ela, as veias em seu pescoço se inchando visivelmente.
– Acho que estou começando a gostar de Miami – disse Jackie ao passarmos lentamente pelo Jaguar e seu teatrinho.
– Mais do que de Los Angeles? – perguntei.
Ela fez uma cara feia.
– Ninguém gosta de verdade de Los Angeles – ela disse. – Nós só temos de morar lá. Parte do nosso pacto com o Diabo. – E então ficou quieta de novo, só olhando pela Janela do sedã e perdida em seus pensamentos, até finalmente pararmos na frente do hotel.
O porteiro com o sobrinho talentoso manteve a porta da frente aberta para nós, e Jackie o recompensou com um sorriso.
– Obrigada, Benny – ela disse. – Você está trabalhando até mais tarde hoje?
Benny sorriu para ela.
– Peguei jornada dupla, srta. Forrest – ele falou. – Eu preciso mesmo da grana e, de qualquer modo, tenho que ser honesto, eu não quero ir pra casa enquanto a senhorita estiver por aqui.
O sorriso de Jackie ficou mais amplo e ela deu umas palmadinhas no braço dele.
– Bom, eu não gostaria de ter qualquer outra pessoa aqui na porta – ela disse, e Benny deu um sorriso tão grande que eu pensei que a cara dele fosse rachar. Mas não houve gritos de dor vindos de bochechas explodindo atrás de nós enquanto eu escoltava Jackie até o elevador, e quando as portas deslizaram se fechando, ela fechou os olhos e balançou a cabeça.
– Oh, Deus – ela disse –, aquilo soou idiota demais?
– Ele ou você? – eu perguntei, genuinamente confuso.
Ela se recostou na parede do elevador, os olhos ainda fechados.
– É uma coisa meio... como é que as pessoas dizem?
Noblesse oblige. [10] – Ela abriu um olho e o fixou em mim. – O que soa muito pomposo, eu sei.
– Só um pouquinho – eu disse, encorajador.
– É, obrigada – ela agradeceu e fechou os olhos de novo. – Mas que inferno. Você tem de dizer alguma coisa e não tem de ser Shakespeare para fazer a felicidade de alguém. – Suspirou profundamente. – Faz parte do trabalho. E Benny parece ser um cara legal. Tão... normal...
Eu não disse nada. Afinal, você precisa entender mesmo uma observação antes de respondê-la, e eu não tinha entendido. Era óbvio que Jackie estava em uma veia filosófica – mas se a noite ia se encaminhar para Aristóteles ou para o existencialismo, não dava para eu dizer baseado no comentário dela a respeito da normalidade do Benny. E, como os melhores filósofos podem dizer para a gente, de qualquer modo, o resto é silêncio, então, eu fiquei quieto.
Levei Jackie até a suíte sem nenhum tipo de manifestação de Dialética Kantiana, e quando nos acomodamos em nossas cadeiras na varanda e esperamos os mojitos, Kathy bateu à porta, passando rapidamente por mim com um olhar duro e altivo quando eu a deixei entrar, e se encaminhou diretamente para Jackie, as mãos cheias de papéis e seus eternos celular e copo do Starbucks.
Os mojitos chegaram. Kathy agitou papéis e falou sem parar por mais uns dez minutos, enquanto Jackie assentia, interrompendo umas poucas vezes com perguntas abruptas, assinando uns papéis e acenando cansada para o quase interminável fluxo de detalhes. Quando Kathy finalmente Juntou os papéis e seu copo de café, Jackie tinha a aparência cansada e um pouco soturna. Fiquei imaginando o motivo. Ela havia suportado a artilharia de Kathy, que tinha sido um discurso longo e exaustivo vindo de uma pessoa bastante desagradável; mas, mesmo assim, eu estava surpreso ao ver como Jackie subitamente aparentava ser tão mortal. Ela pegou seu mojito e bebeu enquanto eu conduzia Kathy para fora e acorrentava a porta atrás dela, refletindo a respeito do alto preço da fama. Tudo tinha parecido tão atraente, mas agora eu me flagrei pensando.
Jackie tinha dito que havia desistido de tudo por isso; valia a pena? Quer dizer, não só ter de aguentar uma excrescência irritante como a Kathy algumas vezes por dia, embora isso certamente desse a impressão de ser um fardo muito pesado. Mas trocar todas as outras coisas por causa das quais as pessoas normais viviam, as coisas que elas alegavam que as deixavam felizes: lar, casamento, filhos – todas as coisas que eu havia adquirido como suportes para meu disfarce. Elas não me faziam feliz, é claro, mas eu provavelmente não sou capaz de sentir a verdadeira felicidade. Momentos de uma satisfação muito recompensadora, sim – mas seriam eles o resultado da minha Vida Normal e Feliz? Não dava para eu pensar assim de improviso em tais momentos. Eu nunca tinha lançado um rápido olhar para uma pilha de roupa suja por lavar e me sentido extasiado; nunca sorri feliz enquanto Astor urrava com a mãe e jogava sapatos pela sala. Para ser honesto, nunca tinha sequer carregado minha própria filha, Lily Anne, e pensado Isto é o Paraíso...
Eu tinha meus momentos, é claro. Contudo, a maior parte deles parecia surgir quando eu estava pairando sobre um companheiro cuidadosamente escolhido e firmemente imobilizado com fita adesiva enquanto ele se contorcia tentando fugir da música cristalina da faca – não era bem a mesma coisa que apreciar uma noite tranquila em casa com a esposa e os filhos. Talvez nem mesmo a felicidade; mas dava certo para mim.
Olhando o lado mais positivo das coisas, eu certamente estava apreciando o tempo passado como parte do entourage de Jackie. Viver no regaço do luxo, ser admirado aonde quer que eu fosse – isso era viver na extravagância, uma vida sem a menor preocupação. A não ser, é claro, pela preocupação ínfima de saber que um assassino psicótico maluco poderia bater à porta a qualquer momento. A não ser por isso, eu não conseguia pensar em nada mais que eu pudesse sensatamente desejar como estilo de vida.
Mas seria essa a verdadeira Felicidade? Provavelmente não, ou eu não a estaria sentindo.
Será que Jackie a sentia? Seria ela feliz com a vida de luxo sem limites, admirada e até mesmo festejada aonde quer que fosse? Seria isso assim tão maravilhoso quanto aparentava ser? Será que a deixava satisfeita? Não era da minha conta, é claro – mas, repentinamente, pareceu uma pergunta que eu gostaria de ouvir Jackie responder.
Voltei para a varanda para encontrar a atriz olhando fixamente para a água, ainda parecendo melancólica.
– Tudo bem? – perguntei.
Ela assentiu.
– Não poderia estar melhor – respondeu, e eu torcia para que ela fosse mais convincente quando as câmeras começassem a rodar.
Eu me sentei na cadeira e tomei um gole do mojito. Talvez o rum tivesse afrouxado a minha língua, mas, quando meu drinque começou a diminuir, o silêncio aumentou, e acabei perguntando, bruscamente:
– Você é feliz?
– Eu? – disse Jackie, me olhando como se eu tivesse sugerido alguma coisa indecente. Ela balançou a cabeça e olhou para fora, para a água da baía de Biscayne, e então pegou seu mojito e engoliu o resto dele e, ainda olhando para a baía, disse: – É claro que sou feliz. Eu tenho tudo que qualquer outra pessoa possa desejar. – Ela olhou o copo vazio. – Exceto mais mojitos. Peça uma jarra, tudo bem? – Colocou o copo sobre a mesa e se levantou. – Preciso ir ao banheiro – avisou e, em um leve redemoinho de perfume, sumiu.
Eu farejei a névoa de perfume dela e me acomodei de novo na cadeira, me sentindo um retardado completo. Por que estava pensando em tais coisas, fazendo perguntas tão estúpidas? Tentei me lembrar dos sinais que prenunciavam o Apocalipse; tinha certeza quase absoluta de que eles não incluíam ficar discutindo filosofia com uma estrela da televisão, mas talvez o Concílio de Niceia tivesse excluído esse da lista.
Chamei o serviço de quarto e pedi mais mojitos. Eles chegaram bem quando Jackie voltou, e o garçom quase despencou pela balaustrada da varanda enquanto tentava segurar a bandeja e puxar a cadeira para Jackie ao mesmo tempo. Jackie se acomodou e deu um sorriso cansado para o rapaz, e ele saiu tropeçando porta afora, com um sorriso imenso, como se acabasse de ter sido eleito o presidente da turma da quinta série.
Coloquei a corrente na porta quando ele saiu e voltei para a varanda. Jackie estava amontoada em sua cadeira, olhando para fora, para a água, com a borda do copo apoiada em seu lábio inferior. Eu me sentei, pensando no que poderia ter deixado o estado de espírito dela tão amargo. Achei que era só a tensão por ser perseguida. Mas e se fosse eu? E se alguma coisa que eu tivesse dito ou feito – ou não dito e não feito – a estivesse deixando aborrecida? Isso seria desastroso; isso iria destroçar totalmente a minha nova fantasia de Capitão Entourage. Tentei pensar em como eu poderia tê-la ofendido e fiquei com as mãos abanando. Meu comportamento havia sido exemplar.
Contudo, alguma coisa estava claramente deixando-a aborrecida. Talvez fosse o nível de açúcar no sangue – ela não comia o suficiente para manter um hamster vivo, e o infalível relógio biológico dentro de Dexter estava dizendo que, com toda a certeza, era hora do jantar.
Mas, antes que eu pudesse formular uma sugestão educada de que a comida poderia ser exatamente a coisa que restauraria a saúde física e mental dela, meu celular começou a tocar. Eu o peguei e olhei para a tela. Era Rita.
– Oh – eu disse para Jackie. – Com licença. – Ela assentiu sem me olhar, e eu atendi ao telefone. – Oi – eu disse, com tanta alegria quanto fui capaz de fingir.
– Você disse que iria telefonar – falou Rita. – E isso foi na segunda-feira... e Deborah me disse que é alguma coisa arriscada. Mas eu não consigo entender o que ela quer dizer e... Você tem meias limpas?
– Sim, eu tenho meias – respondi, olhando rapidamente para Jackie e esperando que ela estivesse ocupada demais com seus pensamentos para me escutar.
– Você sempre perde suas meias – disse Rita. – E detesta quando elas estão sujas; se lembra daquela vez em Key West? E elas custaram o dobro do preço lá.
– Bom, não estou em Key West – eu disse. – E tenho umas meias limpas.
Os cantos da boca de Jackie começaram a se torcer, e embora eu esperasse que ela estivesse apenas se lembrando de uma excelente piada do tipo toc-toc, eu tive a distinta e desagradável sensação de que ela estava tentando com todas as forças não rir de mim.
– Você sabe quanto tempo vai durar? – perguntou Rita. – E há umas caixas muito pesadas aqui, coisas da garagem, eu não consigo carregar. Mas elas precisam ir para... Oh. A luz está ligada agora? E a companhia de seguros disse que a nova casa tem um valor de mercado muito mais alto do que... Astor, eu estou falando ao telefone. Astor, por favor! Você ainda está aí, Dexter?
– Estou aqui – eu disse. – Como estão as crianças?
– Um dente da Lilly Anne está nascendo – disse Rita. – Ela está muito mal-humorada, e eu não consigo nem... O quê? Não, primeiro você precisa fazer sua lição. Não. Porque você tem de fazer – ela disse. Para Astor de novo? Ou era Cody dessa vez? Não tinha como eu saber, e descobri que não me importava. Eu estava começando a achar a conversa toda irritante, e o jeito de Jackie lutar tão abertamente contra uma crise de risada caçoísta não ajudava em nada. Eu me afastei dela e abaixei o tom de voz.
– Sinto muito por não ter telefonado – eu disse, tentando dar um tom de fim de conversa para minha voz. – Mas vou tentar telefonar de novo amanhã, tudo bem?
– Amanhã é a reunião com a professora do Cody – ela disse. – Às três em ponto, e você disse... Mas que inferno, Astor, me deixa falar por um minuto!
Eu tenho quase certeza de que não tinha dito nada parecido, mas me lembro de ter dito que eu iria à reunião de pais de Cody.
– Vou tentar ir – falei –, mas estou ocupado demais.
– Bem, você prometeu mesmo – disse Rita. – E para ele é importante, então... Oh, meu Deus, o bebê. Tenho de desligar.
– Tudo bem – falei. – Tchau.
Desliguei meu celular e me voltei para Jackie. Ela estava me observando com uma expressão muito estranha no rosto, em parte diversão e em parte – o quê? Alguma outra coisa que eu não podia definir.
– O quê? – perguntei, mas ela só balançou a cabeça e bebeu outro gole de seu copo.
– Nada – ela disse. – É só... Nada. – Ela me olhou por sobre a borda de seu copo, os olhos cheios de uma diversão amorfa, entre outras coisas. – Sua esposa parece ser uma pessoa muito legal.
– É, ela é – eu falei.
– E uma boa cozinheira também...
Eu simplesmente assenti.
Ela inclinou a cabeça para um lado e me olhou fixamente, séria.
– Então, vale a pena. Toda... – Ela abanou uma das mãos para indicar quase tudo. – ... essa história de casamento? Funciona pra você?
Parecia uma pergunta estranha, o que combinava muito bem com o jeito como a noite estava transcorrendo.
– Acho que sim – eu falei.
– Você acha que sim – ela disse, ainda olhando fixamente, e eu dei de ombros e assenti. – Não é uma afirmação muito forte.
– Bom, o que eu quero dizer é... – falei, tentando pensar em uma resposta apropriada. – Tem seus altos e baixos.
– Hm-hum – ela disse. – Quais são os altos?
– Ah, o, hum... nós estamos nos mudando para uma casa nova – eu disse. – Ela, ahn... tem uma piscina? – Isso soou muito pouco convincente, até mesmo para mim, e Jackie deixou a afirmativa pairar na varanda por alguns segundos, o silêncio fazendo com que ela ficasse ainda menos convincente.
– Hh-hum – ela acabou dizendo. – A piscina precisa de uma cobertura nova.
– Exato. E tem uma cozinha muito maior – eu falei de modo um tanto brusco; não sei o motivo, exceto pelo fato de que eu tinha de dizer alguma coisa.
– Certo – disse Jackie. – E assim Rita pode cozinhar ainda mais.
– Sim, com certeza – disse eu. Agarrei meu mojito, principalmente porque estava chafurdando por um terreno muito lamacento e precisava mesmo da segurança de ter alguma coisa para fazer com as minhas mãos.
– Hh-hum. – Ela bebeu e me analisou com uma sobrancelha erguida. – Então, o casamento faz você feliz?
– É, é, hum – eu disse, com minha habitual eloquência. – Quer dizer, você sabe.
– Não, eu não sei – ela disse. – Nunca passei por isso. – Ela inclinou a cabeça para um lado e deu de ombros. – Mas não dá a impressão de que esteja deixando você superempolgado. – E, embora tenha de admitir que eu estava começando a achar isso também, não parecia uma coisa que diria em voz alta.
– Você ainda não disse como é a Rita – disse Jackie com um franzir de sobrancelhas.
– Oh. Bom, hum... Quer dizer, ela era muito bonita, quando...
– Era bonita? – interrompeu Jackie e tomou um grande gole. Eu vi os músculos de seu pescoço se movendo suavemente enquanto ela engolia. – Meu Deus, eu iria arrancar seu coração se você dissesse isso a meu respeito.
– Oh, mas, isso – eu disse, conjecturando como tudo tinha ficado tão fora de controle. – Quero dizer, eu nunca iria dizer isso a seu respeito...
Ela me olhou por um momento e falou:
– É melhor não mesmo.
Ela acabou com os dois últimos dedos de mojito do copo e o colocou na mesa com um sonoro toc.
– E o jantar?
Depois de me debater com filosofia, com o telefonema de Rita e com o impiedoso interrogatório de Jackie, era agradável ver que finalmente havia alguma coisa real e recompensadora à qual me agarrar.
– É claro – eu disse, com a maior das alegrias que era capaz de simular naquelas circunstâncias. Jackie me lançou um sorriso um tanto cínico e fez um gesto indicando o telefone.
E fiz nosso pedido.