Dexter: Em Cena
Capítulo 33
O TRAILER DO ROBERT AINDA ESTAVA ABERTO E, QUANDO EMPURREI a porta, percebi que ainda estava escuro também. Uma vez mais, parei na entrada e examinei dos dois lados, e uma vez mais não vi nada, não ouvi nada, não senti cheiro de nada. Passei pela porta e olhei ao redor; ainda não havia ninguém em casa. Tanto quanto eu pudesse dizer, nada havia mudado. Mesmo assim, olhei em todos os cantos e em todos os armários, porque a meticulosidade é uma virtude tão importante quanto a limpeza, e encontrei exatamente a mesma quantidade de Nada que tinha encontrado antes.
E agora, o quê? Astor ainda estava desaparecida, Deborah ainda não estava falando comigo, e Jackie ainda estava morta. O mundo não era de jeito nenhum o local feliz que tinha parecido ser tão recentemente, e só por uns instantes parecia não haver o menor sentido em fingir. Todo o propósito, a determinação e a necessidade de Fazer Alguma Coisa se esvaíram de mim, e eu desabei na ponta do sofá na sala de estar do Robert. Tudo tinha parecido tão luminoso e belo hoje de manhã, e agora o mundo havia subitamente retornado para sua real forma, cinzento e destituído de sentido e maldoso, e embora esse certamente fosse um cenário melhor para o Desalentado Dexter, eu não gostei dele. Eu queria que as coisas voltassem a ser o que tinham sido. Assim como um menininho preso em uma aventura sombria e soturna, eu queria ir para casa.
Mas eu não era um menininho, e, algo ainda pior, eu estava em casa. Era isso, essa desalentadora, dolorosa, caminhada sem sentido através do lodo. Era lá que eu vivia; de volta para a velha e feia realidade de novo. E não havia nada que eu pudesse fazer a respeito disso, nada mesmo, a não ser encontrar Astor e levá-la de volta para casa à força e recomeçar o mesmo e velho show de sombras.
Casa: de volta para as meias sujas no chão e os guinchos intermináveis e os monólogos infinitos e sem sentido e desconjuntados de Rita. Rita: a única pessoa que ainda falava comigo, e eu não queria mesmo falar com ela e não conseguia entender o que ela dizia. E, pensando em Rita, eu me lembrei que meu celular havia balido enquanto estava sendo interrogado por Anderson. Tinha de ser a Rita, não sobrava mais ninguém.
E então, com um suspiro profundo e uma sensação de voltar para o dever doloroso, eu peguei meu celular e olhei a tela. É: Rita. Ela tinha deixado uma mensagem, é claro – por que deixar passar uma oportunidade de tagarelar? Acessei a caixa postal e ouvi.
“Dexter”, ela disse. “Eu sei que você está procurando. A Astor? Porque já faz um bom tempo agora e você não... e, de qualquer modo, eu pensei em uma coisa, e eu ia... Eu sei que você disse que ela poderia voltar pra casa, e eu pensei, é claro, ela pode, mas talvez não... E então, seja como for, eu só vou sair por uns vinte minutos. Oh. E eu telefono para você quando eu voltar, caso...” Eu a ouvi respirar, como se fosse continuar a falar, mas, em vez disso, ela desligou.
Dei uma olhada no relógio. A chamada tinha sido feita há cinquenta e oito minutos. Eu tinha frequentado a escola, então sabia que cinquenta e oito minutos eram mais que vinte minutos, e ela não tinha me telefonado de novo.
Liguei para o celular dela, mas ele tocou e tocou, até cair na caixa postal. Desliguei. Eu não conseguia acreditar que Rita tivesse saído de casa, e era ainda mais difícil de aceitar que ela tivesse ido a algum lugar sem o celular. Mas, aparentemente, ela tinha, e eu só precisaria esperar até ela retornar.
Enquanto isso, Astor não estava correndo perigo; estava com Robert, e com quase toda a certeza estava em algum lugar ali por perto, aprendendo truques de maquiagem. Não ia querer ser encontrada, um fato que deixava as coisas mais difíceis, mas seria muito mais fácil localizar Robert. Se ele não estivesse rondando ali por perto, nas proximidades de toda a excitação, alguém teria de saber onde estava – Victor, o diretor, seria um bom lugar para começar.
Encontrei Victor em seu trailer, a apenas duas portas de distância. Dava para eu dizer que ele estava ali porque, quando comecei a passar pelo trailer, Martha, a assistente do diretor, saiu correndo de dentro como se estivesse sendo perseguida por abelhas assassinas. Antes que eu pudesse fazer alguma pergunta, ela passou voando por mim, murmurando:
– Merda merda merda merda merda. – E então desapareceu no fim da fileira de trailers.
Eu subi os degraus e bati à porta. Não houve resposta, mas dava para ouvir uma voz lá dentro, que se erguia em uma agonia desesperada. Abri a porta e entrei.
Victor estava sentado à mesa, a mão com os nós dos dedos brancos segurando com força o celular contra o seu rosto. Um grande copo d'água estava na frente dele. Ele estava ouvindo alguém do outro lado da linha, balançando a cabeça e lamentando:
– Não. Não. Não, é impossível, porra, não. – E, enquanto eu fiquei ali parado, olhando, ele pegou o copo e bebeu toda a água.
E então ele procurou atrás de si uma grande garrafa azul, que reconheci como uma marca de vodca muito popular, encheu de novo o copo, e bebeu mais um saudável drinque. Eu não achava que ele tivesse enchido a garrafa de vodca com água. Ele me olhou sem me ver e, subitamente, explodiu com quem quer que estivesse falando com ele ao telefone.
– Bom, maldição, o que você faria? Nós temos metade de um piloto gravado e uma estrela morta, e a rede está pegando na porra do meu pé para eu FAZER uma porra qualquer, e não posso fazer merda nenhuma sem ela e não posso ressuscitar a porra dos mortos! – Ele ouviu por uns segundos, realmente poucos, e então rosnou no celular: – Bem, então você me telefona quando SOUBER de alguma coisa.
Desligou o celular com um ruído forte e o jogou sobre a mesa.
– Reescrever – ele murmurou, nervoso. – REESCREVER uma porra qualquer a respeito de uma mulher morta... Cretino... – Victor pegou seu copo de “água” de novo e pareceu me notar pela primeira vez. – O que foi? – Não estava com cara de quem ia me convidar para me juntar a ele em um drinque.
– Eu estou procurando o Robert. – Ele só ficou me olhando. – O Robert Chase? – eu acrescentei, tentando ajudar.
Victor franziu a cara toda e ficou muito vermelho, como se fosse me dar uma dose do veneno que havia despejado ao falar no celular, e eu não estava a fim disso. Provavelmente não foi a coisa mais gentil que eu poderia ter feito, mas eu estava pouco me importando.
– Ele está com minha filhinha – eu disse. – Ela tem onze anos de idade.
Toda a cor sumiu do rosto de Victor. Foi uma coisa espantosa; em um instante ele estava inchado como um grande balão vermelho, e, no outro, ele era uma coisa branco-esverdeada com os ossos da face salientes sob a pele flácida.
– Ai, mas que caralho, eu estou morto – ele murmurou e pegou o copo com as duas mãos, erguendo-o entorpecido na altura do rosto e o esvaziando.
Quando o copo ficou vazio, Victor o recolocou sobre a mesa. Suas mãos estavam tremendo, e o copo chacoalhou por uns instantes antes de ficar parado na frente dele. Ficou olhando-o fixamente e, finalmente, olhou para mim com olhos quase tão mortos como os de Jackie.
– Todo mundo dizia que era só fofoca – ele falou, e as palavras dele estavam ligeiramente indistintas. – Eu nunca... quer dizer, você sabe. Richard Gere e o hamster. Tom Cruise é gay. Toda essa merda. Só essa merda de ficar apunhalando pelas costas, típica de Hollywood. – Ele ergueu o copo, viu que estava vazio, e o recolocou sobre a mesa. – Eu juro, eu nunca pensei... eu não achei mesmo.
Victor fechou os olhos e caiu para a frente, até seu rosto quase se encostar na mesa.
– Porra – ele disse. – Por que eu? Por que sempre tem que ser eu...? – Começou a balançar a cabeça, de um modo ritmado e lento. – Eu estou morto. Tudo a merda pra cima de mim e eu estou tãããããão... uma porra... de um morto... – E ele parou de sacudir a cabeça e parou de respirar e só ficou lá sentado, um grande monte esverdeado.
Eu nunca ia pensar que isso seria possível, mas o rosto dele tinha ficado ainda mais verde, e ele ficou sentado lá, por um longo momento, imóvel. Então se endireitou' com um gesto brusco, abriu os olhos com força e inspirou profundamente.
– Você tem que entender, Chase não foi ideia minha – ele disse. – Eu queria alguém mais novo, mas a rede precisa de um astro. Eles têm uma lista, ela indica a audiência de todo mundo...
– O... o quê de todo mundo? – eu disse.
Ele me lançou um olhar impaciente e irritado.
– Índices de audiência. Quão populares eles são. Quantos espectadores eles conseguem para assistir a um programa. – Ele ergueu uma das mãos, depois a deixou cair, impotente. – Robert está bem no alto da lista.
– Certo – eu disse. – Ele é popular.
Victor assentiu.
– Ele é popular. Um astro. E as pessoas sempre fazem cada merda de loucura por causa dos astros. É... Todo mundo diz qualquer coisa parecida, você sabe, a respeito de qualquer um que consegue chegar lá. É um trabalho mesquinho e cheio de rancor, mas se eu soubesse que era mesmo verdade essa história do Chase com as menininhas...
Ele parou de falar e olhou de novo para a mesa.
– Foda-se – ele disse. – Eu escalava o Robert de qualquer jeito. Ele tem índices grandes mesmo. – Ficou olhando fixamente para as próprias mãos por um momento, em seguida se moveu desajeitado para o lado e agarrou a grande garrafa azul de vodca e começou a encher o copo mais uma vez.
Eu o fiquei olhando e senti minúsculos dedos gelados fazendo cócegas na minha nuca.
– O que você quis dizer – eu falei – a respeito de Chase e das menininhas?
Ele não me olhou.
– É só um boato – ele disse, mas não parecia ter soado convincente nem para ele próprio. Tampou a garrafa de vodca e quando se inclinou para recolocar a garrafa ao chão, eu me sentei ao lado dele e peguei o copo cheio. – Mas que porra – ele disse e eu lenta e deliberadamente virei o copo cheio no colo dele.
Victor não tentou me impedir. Ele só ficou olhando a poça de bebida encharcando as suas calças compridas, a boca aberta silenciosamente. Então, olhou para mim e sorriu.
– E qual é o boato, Victor? – eu perguntei. – A respeito de Robert Chase e das menininhas?
Ele me olhou, e seu pomo de adão subiu e desceu, por fim fechou a boca e olhou para o chão de novo.
– Ele gosta delas – ele disse com voz baixa e rouca. – Gosta mesmo delas. – Deu-me uma olhada rápida e então engoliu em seco de novo. – Ele gosta de menininhas.
Deslizei para mais perto dele e coloquei um braço ao redor de seus ombros, sentindo que ele ficava mais tenso à medida que eu o tocava.
– E quando você usa essa palavra, gostar – eu disse –, o que isso realmente significa para você, Victor?
– Ele tem relações sexuais com elas – ele respondeu em um sussurro. – Robert Chase é um pedófilo.
Fiquei pensando nos dias que eu havia passado com Robert, e o jeito dele de falar cheio de desejos sobre crianças. Achei que não era convincente, e não era – mas não porque ele não gostasse de crianças; era porque ele realmente gostava delas. E o retrato de família que ele havia deixado escondido na minha mesa. O interesse súbito e total dele por Astor quando se encontraram, e o jeito de ele instantaneamente conseguir ficar sozinho com ela na sala de maquiagem – e até mesmo o fim de semana de Robert no México em um “resort particular especial”, o que provavelmente queria dizer um lugar que fornecia o que homens com os gostos dele queriam; tudo isso se somava, se encaixava tão perfeitamente que, olhando em retrospecto, só um idiota poderia ter deixado de ver todas as pistas óbvias. E eu tinha sido um idiota. Uma verdadeira ameba, sem tirar nem pôr. Eu tinha achado que ele era gay, e como sou uma ameba fútil e convencida e idiota, até tinha pensado que ele tinha um interesse por mim. E o tempo todo, tinham sido as crianças, afinal.
Não havia mais dúvidas a respeito. Ondas e mais ondas de desprezo por minha completa estupidez caíram sobre meu corpo, e fiquei sentado lá por um bom tempo, só deixando que as ondas me erguessem e depois me jogassem com estrondo na praia rochosa de novo.
É claro que Robert gostava de menininhas, meninas como Astor. E sendo uma verdadeira Filha das Trevas como era, é claro que Astor teria correspondido, adorando a sensação de ter poder e controle enquanto um homem adulto, um Astro, concentrava toda aquela atenção bajuladora nela. Naquele sábado, na suíte dos figurinos, momentos depois de se encontrarem, ela tinha saído às pressas com ele, indo pelo hall até o pequeno camarim...
E mais um filminho curto passou rapidamente pela tela no crânio de Dexter: Kathy indo para aquele quarto onde Astor e Robert tinham desaparecido e depois saindo correndo como se tivesse visto um fantasma, sumindo porta afora. Ela os tinha visto envolvidos em um Comportamento Inadequado – e não tinha dito nada? Porque Robert tinha pedido e implorado por uma chance para se explicar? Sim; mesmo com Kathy, o poder dele, de um astro, tinha servido para alguma coisa. Então ela tinha concordado em encontrá-lo aquela noite, talvez até mesmo pensando em chantageá-lo, e ele a havia assassinado, e levado o celular para que ninguém soubesse a respeito do encontro deles. Ele tinha até mesmo vomitado, o que se encaixava tão bem com o que eu sabia a respeito dele que, no momento em que Vince me falou a respeito disso, eu deveria ter pensado nele, e uma vez mais deixei a maré de recriminação me erguer e me arremessar no paredão rochoso algumas vezes. Mesmo naquele momento eu deveria ter visto isso, e se tivesse visto, a minha vida nova e bela ainda estaria seguindo seu rumo, e Jackie ainda estaria viva. Estúpido, estúpido, estúpido Dexter.
Fiquei sentado e rangi os dentes e me amaldiçoei até que, finalmente, tomei consciência de um som muito irritante nas proximidades. Eu me voltei para perceber que ainda estava com um braço ao redor dos ombros de Victor, e ele estava pigarreando para chamar minha atenção enquanto tentava se libertar com gestos fracos.
– Ei – ele disse. – Ouça, eu realmente não, você sabe, só... você vai...?
– Eu ainda não resolvi – eu disse e o olhei. Ele se encolheu, e percebi pelo som da minha voz e pela sensação de frio em meu rosto que Victor estava vendo o Verdadeiro Dexter, vendo-o de um modo que muito poucas pessoas tinham visto e vivido para contar. – Para onde eles foram? – perguntei.
Ele estremeceu ao ouvir o tom da minha voz, mas só balançou a cabeça.
– Não sei – ele disse. – O Chase estava aqui hoje de manhã, e então... Merda, eu não sei mesmo. Por favor, você está me machucando.
Eu o olhei só por mais uns instantes. Ele estava assustado, bêbado e debilitado demais para mentir; por isso, eu o soltei e me levantei.
– Porra – Victor disse, massageando os ombros. – Cê me deu um puta de um susto.
Eu olhei de novo para ele lá da porta do trailer.
– Porra – tornou a dizer, e, enquanto eu saía, ele estava pegando o copo.
Saí do trailer de Victor e deixei o mágico mundo do show business para trás de mim, para sempre. Nada mais de luzes, câmeras e petardos e encontrar o meu marco. Nada mais de multidões em adoração e de mojitos ao pôr do sol e de sedãs com motoristas. Adeus aos maquinistas e aos extras. E adiós a contratar pedófilos porque eles são populares, e a fingir que qualquer coisa cai bem se ajudar a audiência e você não vê mesmo nada de errado nisso.
E até logo para sempre para o novo eu em um ambiente inconsistente e espalhafatoso que era só cores brilhantes e mentiras felizes na superfície, e nada além de doença e de morte por baixo, que é onde vale mesmo, assim como todas as outras coisas neste mundo vil e corrompido. Para mim, não havia meio de fugir, nenhuma esperança de felicidade, nenhuma carreira nova.
O Début de Dexter tinha descarrilado.
Fui até o meu carro. Eu ainda não sabia muito bem para onde estava indo, mas pelo menos seria para longe disso tudo.