Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 22 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 20

 

MAIS MEIA HORA SE PASSOU ANTES DE EU DEIXAR PATRICK BEM ACON chegado no buraco profundo mais próximo, com uma âncora imensa cuidadosamente presa às suas pernas. Eu sempre tenho uma âncora extra; elas são bastante úteis, em muitas situações tão comuns ligadas à navegação. Gosto de comprá-las sempre que posso nessas ocasiões de família vende tudo, porque a gente nunca sabe quando pode precisar lançar uma âncora extra, ou ajudar um companheiro de navegação em uma situação difícil, ou esconder um corpo recém-falecido. Era uma âncora Danforth, própria para tempestades, boa e sólida, e eu tinha certeza de que ela iria manter Patrick lá embaixo até que os caranguejos o tivessem comido e deixado só os ossos limpos. E se de algum modo ele por acaso subisse à superfície, seria em algum momento no futuro, quando Dexter estivesse bem longe e completamente inocente, e nunca poderiam investigar a âncora, nem me conectar com o irreconhecível cadáver mordiscado pelos peixes – afinal, eu nunca havia sido formalmente apresentado a Patrick.

E também pode ser que eu não devesse ter me sentido tão bem em relação ao meu estranho interlúdio ensolarado. Ele havia sido executado rápido demais, e com uma arma terrivelmente desajeitada, e, ainda pior, sem nenhum dos meus rituais Tão Importantes Mesmo – mas tinha sido executado, e Jackie estava segura, e agora eu estava livre para colher os frutos dos meus diligentes serviços. Poderia relaxar no luxo sem me preocupar, saboreando mojitos, tournedos e ocasos sobre a baía, sem uma só preocupação. Patrick havia desaparecido para sempre.

E eu também não me preocupava com o fato de alguém achar o corpo dele. Ele estava muito bem escondido, eu nunca poderia ser ligado a ele, e não havia nada além de rosas e de arco-íris em Dexterville. Eu estava tão imerso em meu fulgor de contentamento completo que não me preocupava com nada mesmo; na verdade, até navegar de volta pelo canal até a doca – bem devagar, dessa vez, o que me valeu um aceno emburrado do homem sem camisa. E foi só depois de amarrar o barco e Começar a andar com passos lentos através do gramado em direção ao meu carro, que dei uma olhada rápida no meu relógio – e então, finalmente, comecei a me preocupar.

O ponteiro pequeno estava apontando para o três, e o grande, para o onze, e só foi preciso um instante de um brilhante trabalho detetivesco para perceber que isso significava que faltavam só cinco minutos para as três horas, e que eu ia me atrasar para o meu álibi.

Fui correndo até o carro e dirigi pela ruazinha de um modo que nenhum velho sem camisa que se prezasse poderia jamais aprovar. Felizmente, ninguém estava na rua para me ver, e em poucos minutos eu estava na Main, rumo à Douglas, e então virando à esquerda na Dixie.

O trânsito não estava complicado, mas, mesmo assim, mais uns vinte minutos se passaram antes de eu parar em uma vaga no estacionamento da escola. Entrei tão rápido quanto pude sem chegar a correr; seguindo pela calçada e me dirigindo para a sala principal, onde assinei o devido registro, grudei com um tapa uma etiqueta autocolante de VISITANTE em minha camisa e me apressei através do hall até a sala de aula de Cody.

A professora de Cody desse ano era uma mulher de meia-idade incansavelmente alegre que se chamava sra. Hornberger. Ela estava sentada à sua mesa quando eu entrei, com Cody e Rita sentados à frente dela como duas crianças travessas chamadas à frente da sala. Os três me olharam quando eu entrei; Cody quase sorriu, a sra. Hornberger ergueu uma sobrancelha inquisitiva, e Rita, sem nem ao menos respirar, imediatamente começou o ataque:

– Oh, Dexter, pelo amor de... Já são três e vinte, e você nem ao menos telefonou... É sério, isso é tão...

– Peço desculpas por me atrasar – eu disse. Ninguém me ofereceu uma cadeira, então arrastei uma das carteiras da sala para perto de Cody e me espremi nela. – A coisa tá muito ruim? – sussurrei para Cody, e ele deu de ombros.

– Tudo bem – ele disse baixinho. É claro, ele teria dito exatamente a mesma coisa se a professora tivesse ateado fogo nos dois.

Eu tenho de admitir, Cody tinha mesmo um pequeno problema na área de comunicação. O trauma causado pelo pai biológico, um canalha viciado em crack, que costumava espancar Cody e Astor até ele ser finalmente instalado com todo o conforto na prisão, havia deixado Cody excepcionalmente silencioso. O que a selvageria do pai havia feito com Astor ainda não havia ficado bem claro, a não ser que extremo mau humor fosse induzido por trauma.

Mas as surras do Papai Biológico também tinham empurrado Cody eternamente para fora do mundo da luz do sol, e para dentro da escuridão fria em que os predadores vivem. Elas o haviam transformado em meu verdadeiro herdeiro, o Príncipe Coroado das Trevas de Dexter, ansiosamente aguardando meu treinamento, de modo que pudesse assumir seu legítimo posto no Trono das Sombras. Eu tinha certeza de que a reunião de hoje não iria abordar essa parte da educação de Cody.

– Sr. Morgan – disse a sra. Hornberger, severa. Todos os olhos se voltaram automaticamente para ela, e Rita até parou de falar. A professora olhou para cada um de nós individualmente, para ter certeza de que estávamos prestando atenção. Então o sorriso voltou para seu rosto, e todos respiraram de novo. – Nós estávamos discutindo as... dificuldades conceituais de Cody... com a socialização.

– Oh – eu disse, e como não tinha ideia do que mais poderia dizer, acrescentei: – sim, é claro. – E ela acenou para mim com ar de aprovação.

E então nós embarcamos em busca de Chegar a um Acordo Significativo Em Um Contexto de Alcançar Objetivos Sociais e Educacionais Apropriados e Simétricos, parando ao longo do caminho para acariciar cada sonora palavra com um toque new age relativa a Sentir-se Bem já pronunciada. Aquilo era tão tortuoso quanto eu tinha temido que pudesse ser, e claramente era muito pior para Cody. Ele só podia entender uma palavra de cada quatro e se contorcia e retorcia as mãos e movia as pernas para a frente e para trás, e, depois de só uns dez minutos, havia dado uma nova dimensão para a palavra “inquietação”.

Rita seguia cada palavra que saía dos lábios da sra. Hornberger com uma concentração ofegante, a testa franzida por causa da preocupação. De vez em quando, ela a interrompia com uma de suas frases fragmentadas que terminavam com um ponto de interrogação. A sra. Hornberger assentia como se ela realmente entendesse e introduzia mais um clichê de seu arsenal, e Rita assentia avidamente e voltava a franzir o rosto todo em uma máscara de preocupação.

Eu observava o rosto dela se contrair em sua máscara enrugada e me espantei uma vez mais ao ver como Rita aparentava ter envelhecido repentinamente. As linhas de preocupação em sua testa pareciam permanentes, acompanhadas por outras ao redor da boca. Além disso, sua pele havia perdido a cor e parecia estar se transformando em um pálido e flácido mapa tridimensional de relevo de um deserto qualquer. Seria isso apenas preocupação por causa de Cody ou ela havia mesmo ficado tão velha quanto aparentava? Nós tínhamos a mesma idade – isso queria dizer que eu também estava ficando velho? Isso não era visível quando eu me olhava no espelho – pelo menos, não para mim. Talvez eu estivesse cego para a minha real aparência e também estivesse começando a ficar enrugado e pálido. Esperava que não fosse o caso; eu ainda tinha uma porção de coisas importantes por fazer, e não queria parecer uma uva-passa andante branca e pálida enquanto as estivesse fazendo.

É estranho ver por onde a mente vagueia quando é subitamente atacada por platitudes sinceras e inúteis. Tenho certeza de que eu teria sentido mais simpatia por Rita, mais empatia por Cody e mais admiração pelo fantástico domínio que a sra. Hornberger tinha da inutilidade educacional polissilábica. Mas eu não senti; tudo que realmente sentia era uma irritação de fazer ranger os dentes por causa do Tormento Pelo Jargão e uma ligeira repugnância pelo visível declínio de Rita rumo à velhice – e um ligeiro susto por pensar que eu também poderia estar me encaminhando lentamente para a senilidade.

Depois de meia hora ter se passado com muita luta, eu perdera todo o brilho do contentamento que havia tão recentemente iluminado minha vida e estava começando a me contorcer quase tanto quanto Cody. Porém, mais uns quinze minutos se passaram até que a sra. Hornberger finalmente marchasse rumo à sua triunfante conclusão: Objetivos Sociais devem ser Integrados em um Plano Individualmente Elaborado para a Aprendizagem Cooperativa, com um Compromisso Total voltado para o Alcance Bem-Sucedido dos Objetivos em Casa e na Escola, em Níveis Individuais e Institucionais. E eu finalmente pude cambalear com passos fracos para fora da sala de aula, segurando minha testa febril e ansiando, de modo surpreendente, mas intenso, por um mojito gelado com Jackie.

Fui com Rita e Cody até o carro dela, onde paramos para permitir que ela terminasse uma frase. E então ela olhou para mim com aquela mesma face cheia de rugas causadas pela preocupação e disse:

– Dexter, você está mesmo...? Porque eu quero dizer, eu não sei.

– Com certeza – eu disse. Algo bastante surpreendente, eu a entendia, ou pelo menos achava que entendia. – E vou mesmo voltar para casa em poucos dias, com dinheiro suficiente para uma cobertura para a piscina novinha. – E, ao dizer isso, eu senti o pesar se revolvendo; seriam mesmo somente uns poucos dias mais?

– Bom – ela disse. – Mas é que... eu só... – Ela agitou as duas mãos, impotente. – Seria legal se você... você não pode mesmo nem me dizer o que está fazendo?

Eu abri a boca para dizer que não, eu não podia mesmo – e então lembrei que sim, de certa maneira eu tinha de dizer, ordens do capitão.

– Hum – eu disse, sem saber muito bem por onde começar. Repentinamente, eu me senti um pouco como uma criança pedindo permissão para comer um biscoito depois de ter comido todos, menos aquele, e eu não sabia o motivo. Não havia razão para me sentir culpado ou inquieto; eu havia feito exatamente o que deveria fazer, e pelo mais nobre dos motivos: uma cobertura para a piscina. Então, deixei o assunto de lado, como se fosse uma ressaca causada pela invectiva da sra. Hornberger e mergulhei de cabeça.

– Estão filmando um seriado de televisão na cidade – eu disse, e Rita se acendeu como se fosse um bolo de aniversário e se lançou em uma reação sem fôlego.

– Oh! – ela disse. – A do jornal? Eles disseram que Jackie Forrest... Você sabia que ela tem trinta e três anos? Eu não acho que ela aparente isso, mas, é claro, ela deve ter um monte de... E Robert Chase! Ele é TÃO charmoso, mas ele não tem feito nada em praticamente... é isso que você... Oh, meu Deus, Dexter, alguma coisa horrorosa aconteceu com Robert Chase?

– Não ainda – respondi, lutando para manter o pesar fora da minha voz. – Mas a questão é a seguinte: o capitão Matthews me designou para ser um consultor técnico para o seriado. E, você sabe, ensinar para Robert o que eu faço.

– Oh. Meu. DEUS! – disse Rita. – Você ENCONTROU mesmo... Dexter, não dá pra acreditar... quer dizer, isso é simplesmente demais!

– É só um serviço – eu disse. E admito que estava um pouquinho irritado ao ver Rita tão excitada só com a simples ideia de Robert Chase. – Seja como for – disse, esperando que pudesse falar a coisa toda sem mais um dos frenesis verbais de Rita –, há outro cara no elenco, um comediante, Renny Boudreaux?

– Sei, ele é muito bom – disse Rita, com toda a seriedade. – Ele usa umas palavras que... E você se encontrou com ele também?

– Sim – respondi. – E ele vai gravar um programa especial no sábado à noite. E o capitão quer que eu vá.

– Quer que você vá? – ela disse. – Isso não faz nenhum... e por que você não gostaria de ir, de qualquer modo? Por que...

– Ele acha que é bom para a imagem do Departamento – eu disse. – Para mostrar tiras e estrelas todos juntos. E então eu tenho dois ingressos...

– Ohmeudeus ohmeudeus ohmeuDEUS! – disse Rita. – Mesmo? Oh, Dexter, Oh, meu Deus! Isso é incrível... Mas nunca que vou conseguir uma babá a tempo!

Mais cinco minutos foram necessários para Rita se acalmar o suficiente para dizer com coerência que me encontraria às 7h30 no lobby do Teatro Gusman sábado à noite, e percebi que estava ficando cada vez mais ansioso por meu mojito. Isso era muito estranho, nunca fui um bebedor, e tinha certeza de que não tinha virado um da noite para o dia – e certamente não era bebedor o suficiente para ficar todo trêmulo quando as cinco horas da tarde se aproximassem sem eu ter minha dose usual. Mas eu quase conseguia sentir o gosto da bebida fria deslizando sobre minha língua e descendo pela garganta, quase via Jackie me olhando por cima da borda do seu copo perolado de gotas d'água, seus grandes olhos cor de violeta cheios de humor por causa de alguma coisa que eu não tinha dito ainda, e senti que estava ficando cada vez mais irritado com a enrolação em alta velocidade de Rita.

E ela enrolou mesmo. Balbuciou de modo reverente a respeito de Jackie, chegou mesmo a soltar risadinhas por causa de Robert e lançou vários cumprimentos desconexos para Renny, como ele parecia ser inteligente, embora realmente usasse uma linguagem muito grosseira. E então entrou em um frenesi paralisado porque não tinha nada mesmo que pudesse vestir – embora eu soubesse com toda a certeza que o armário dela estava transbordando de roupas – e como eu podia esperar que ela aparecesse no mesmo ambiente com alguém como Jackie Forrest...!

Eu não tinha a menor ideia de que Rita soubesse mesmo alguma coisa a respeito de estrelas da televisão, e ainda menos ideia de que ela se importasse com isso, de que fosse ficar impressionada a ponto de atingir uma incoerência infantil só de pensar em se encontrar com Robert Chase e de ver Jackie Forrest em uma roupa elegante. O que quero dizer é, eu me sentava no sofá ao lado de Rita todas as noites, e nós assistíamos a TV juntos – mas vê-la desabar em um tipo de adoração balbuciante a um herói só porque ela ia assistir ao show de Renny e poderia até mesmo respirar o mesmo ar que Robert Chase! Esse era um lado dela do qual eu nunca vira um indício antes e não tinha bem certeza a respeito do que fazer com ele agora.

Mas, felizmente, até Rita precisa respirar de tempos em tempos, e quando ela finalmente parou para fazê-lo, eu interrompi rapidamente e com muita firmeza:

– Rita, preciso voltar – eu disse. – Você estará lá no sábado?

– Mas é claro que vou... quer dizer, tenho de achar uma roupa em algum lugar e não tenho ideia... Talvez a filha da Nancy, Terry? Mas ela está na banda marcial, então não sei...

– Você não precisa usar uma roupa sofisticada – eu disse. – Eu não vou nem usar gravata.

– Dexter, eu vou aparecer na televisão! Com a Jackie Forrest! É claro que tenho de usar alguma coisa... Oh, palavra de honra, você não tem a menor ideia... Talvez ainda dê pra eu usar aquela roupa de Key West? Você sabe, aquela que você disse que parecia uma camisola?

– Perfeito – eu falei. – Encontro você às 7h30 no lobby.

– Sim, é claro – ela disse. – Mas eu não sei mesmo...

Eu me inclinei e lhe dei um beijinho no rosto.

– Tchau. Vejo você no sábado.

Rita também me beijou, e eu me virei para finalmente poder ir.

– Dexter – ela me chamou, e suspirei e me voltei.

Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não a disse. Por um longo momento, não disse nada mesmo, só ficou me olhando, e eu fiquei pensando no que havia interrompido o frenesi. Eu estava prestes a dizer alguma coisa, quando ela falou:

– É só que... você tem roupas limpas?

– Meias E cuecas – assegurei.

– E uma camisa decente para usar nesse negócio?

– Sim – respondi, extremamente intrigado com a mudança de

paradigma. – Uma bela [14] guayabera.

Rita assentiu, ainda me olhando fixamente.

– Porque é só... – Ela agitou uma das mãos, como um passarinho com a asa quebrada, e olhou para Cody, e depois para mim de novo. – Estou sentindo sua falta. Nós todos estamos.

– Eu também – disse Cody, em sua voz rouca e baixa demais.

Eu pisquei para os dois, com uma surpresa que se aproximava do choque. Não apenas porque a ideia de lavar minhas roupas havia levado Rita diretamente a dizer que sentia minha falta. Achei chocante ela sentir minha falta de qualquer jeito. E Cody também? Por quê? Sei exatamente o que eu sou – embora, felizmente, ninguém mais pareça saber – e o que sou não é um prêmio assim tão grande, a não ser que agora estejam dando medalhas por vivissecção inspirada. E ouvi-la dizer que todos sentiam minha falta? O que isso significava? Por que alguém iria sentir minha falta? Tudo que eu fazia era voltar para casa para as refeições, me sentar no sofá por uma hora ou duas e então ir para a cama. Por que alguém iria sentir falta disso?

Esse era um maravilhoso paradoxo do comportamento humano que tinha me intrigado a vida inteira, e normalmente teria sido divertido ficar ponderando por um tempo sobre ele. Mas Rita estava me olhando cheia de expectativa, e anos de estudo do comportamento humano, sobretudo em novelas diurnas, ensinaram-me a reconhecer uma deixa quando ouço uma. Então, dei para Rita um cálido sorriso sintético e disse:

– Eu sinto falta de vocês também. Mas são só uns poucos dias a mais. E – acrescentei quando a face dela continuou paralisada naquela expressão preocupada – precisamos mesmo do dinheiro.

Foram necessários vários minutos, mas Rita finalmente concordou:

– Bom, sim. Mas é que... você sabe. – Eu não sabia, e ela não me esclareceu. Apenas deu de ombros e falou: – Tudo bem, então. – Deu três passos na minha direção, se inclinou, e eu lhe dei um beijinho no rosto. Olhei para Cody, que estava observando com seu habitual estoicismo alerta.

– Relaxe – eu lhe disse. – Não vou dar um beijo em você.

– Valeu – ele agradeceu.

– E vejo você em poucos dias – falei. – Lembre-se de Visualizar seus Modelos de Procedimento.

Cody fez uma careta horrível, balançou a cabeça e disse:

– Eca. Tenho de admitir que nós dois estávamos de pleno acordo.

Virei-me de novo, e Rita me chamou.

– Dexter... telefone só umas... Quer dizer, se não for demais?

– Tudo bem – eu disse, vendo o mojito flutuando no ar na minha frente. – Eu telefono.

Já passava das quatro da tarde. O trânsito estava começando a ficar lento com o início da hora do rush, e as filas uniformes de carros estavam se espremendo, se coagulando em nós ruidosos e raivosos, começando a formar uma crosta imóvel nas vias expressas. Levei mais de uma hora para abrir caminho por entre os rosnados e voltar para o meu escritório, e ao longo do caminho tive tempo de sobra para refletir a respeito do que havia sido, afinal de contas, um dia muito longo. Embora a reunião com a professora tivesse levado embora o fulgor de meu encontro com Patrick, eu não senti preocupações nem remorsos. Ninguém iria sentir falta dele, e tudo tinha acontecido bem mais rápido do que ele merecia.

O sedã de Jackie estava esperando do lado de fora do quartel-general, o motor funcionando, quando eu finalmente voltei. O motorista estava recostado no para-lama dianteiro, fumando um cigarro, e ele me acenou quando me aproximei. Eu me encaminhei até o carro, e a janela traseira se abriu deslizando.

Jackie me olhou com um sorriso pequeno, mas que de algum modo me fez sentir que tudo ficaria bem.

– Ei, marinheiro, você gostaria de uma carona? – E o sorriso ficou só um pouquinho maior quando ela disse: – Eu acho que é hora de mojitos.

Eu também achava. Entrei no carro.