Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 30 de 38

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Dexter: Em Cena

Capítulo 28

 

ALCANCEI JACKIE NA METADE DO CORREDOR, NÃO COM TANTA FACILI dade quanto eu pensava, já que ela estava praticamente correndo do Anderson.

– Merda – ela disse, quando eu finalmente fiquei ao seu lado. – Não vou conseguir lidar com as coisas da Kathy, não tão cedo. – Ela balançou a cabeça. – E aquele asqueroso cabeça de merda do Anderson.

– Asqueroso cabeça de merda – eu repeti, e fiquei impressionado com sua vivida, mas acurada, descrição. – Você se expressa muito bem.

No entanto, por algum motivo, meu elogio sincero não a deixou mais animada. Ela mordeu o lábio e balançou a cabeça de novo.

– Não dá... Se olhar as coisas da Kathy agora eu vou desmoronar e não posso aparecer na frente das câmeras com cara de quem andou chorando – ela disse. Hesitou e então me deu uma olhada rápida. – Será... Pode mesmo ter alguma coisa importante nas coisas dela?

– Com o Anderson encarregado do caso? – eu perguntei. – O assassino poderia estar escondido na mala da Kathy e ele não iria perceber.

Jackie parou de andar. Estávamos na bifurcação do corredor, em que o lado principal conduzia de volta para o set.

– Será que eu poderia pedir... Você se importaria de dar uma olhada nas coisas dela, Dexter?

– Eu não a conhecia – falei.

Jackie suspirou.

– Eu sei – ela disse. – É só que... Já é duro demais não começar a chorar a cada vez que penso na Kathy, e eu... – Ela colocou a mão no meu braço e piscou para afugentar as lágrimas. – Por favor? Você faria?

Com o jeito de Jackie me olhar, com aqueles incríveis olhos cor de lavanda começando a ficar cheios de lágrimas, eu teria feito malabarismos com serras elétricas em chamas se aquilo a fizesse feliz.

– Claro – eu disse. – Eu vou dar uma olhada.

Jackie sorriu.

– Obrigada – ela disse. Inspirou profundamente, fungou e endireitou o corpo. – Agora eu preciso mesmo encontrar a Sylvia. – Ela se aproximou de mim e encostou sua testa na minha com delicadeza. – Obrigada. Vejo você mais tarde. – E saiu andando a passos largos pelo corredor.

Eu fiquei olhando-a se afastar por alguns minutos. Até então, eu não tinha percebido como é divertido ficar só olhando alguém andar. Jackie era muito competente nesse setor – não somente pelo fato de não cair, ou não bater em uma parede, embora isso também fosse verdade. Mas havia alguma coisa no jeito de ela colocar um pé na frente do outro que me fez pensar em como eu havia me sentido ao acordar ao lado de seu corpo nu. Isso não fazia o menor sentido, mas era verdade. Por isso, fiquei olhando Jackie até ela desaparecer por uma porta oposta ao set.

Dei meia-volta e me encaminhei de novo para o camarim de Jackie. Não vi Anderson, o que me pareceu estranho. Ele certamente não tinha passado por nós. Poderia ter passado pela porta na extremidade do corredor em que eu estava, mas um recado colocado nela avisava com clareza que um alarme soaria se a porta fosse aberta, e eu não tinha ouvido nenhum alarme. Isso parecia indicar que ele ainda estava no camarim, e isso era muito estranho.

A porta estava escancarada, e dei uma olhada ao redor e dentro do camarim de Jackie. Anderson ainda estava lá dentro. Estava parado no lado mais afastado, junto do armário que continha as roupas de Jackie. Ele estava segurando a manga de uma das blusas dela bem debaixo de seu nariz e aparentemente a estava cheirando. Eu não sabia por que ele estava fazendo aquilo, mas me deu vontade de quebrar uma cadeira na cara dele. Ainda assim, um pouco de bom humor é sempre a melhor saída, então controlei meu impulso e entrei no camarim.

– Procurando pistas? – perguntei, alegre, e ele deu meia-volta com um movimento brusco, praticamente jogando a manga da blusa para longe do rosto. – Porque eu ouvi falar que você não tem nada mesmo.

– Não tenho... Eu só estava, o que você está querendo dizer? – ele perguntou.

– Eu disse que você não tem uma única pista – falei. – Todo mundo sabe.

A testa dele ficou franzida, e eu provavelmente poderia ter contado até cinco ou seis até ele perceber que eu o havia insultado.

– Escute aqui, geniozinho – ele disse. – Estou conduzindo uma investigação de homicídio...

– Cheirando as roupas da Jackie? – perguntei. – A axila dela é suspeita?

O rosto de Anderson ficou vermelho vivo, e ele começou a gaguejar, até ficar claro para nós que nada coerente sairia de sua boca. Ele deu uma olhada ao redor procurando um jeito de fugir e não viu nada além do banheiro. Então, pigarreou, resmungou alguma coisa que eu não consegui ouvir e passou rapidamente por mim, lançando-me um último olhar duro da soleira da porta antes de desaparecer.

Fechei a porta e fui olhar a caixa com as coisas de Kathy. Tirei a mala e a coloquei no chão. Eu duvidava que pudesse ter alguma coisa importante entre as meias e as calcinhas dela, e mesmo que a mancha de urina tivesse sido lavada, eu preferiria não olhar a roupa íntima de Kathy. A bolsa era um lugar mais provável para encontrar alguma coisa, então despejei o conteúdo dela na mesa de maquiagem e dei uma examinada em tudo. Havia o costumeiro amontoado de moedas, de papel de chicletes, de recibos, de cupons, um grande molho de chaves; um pacote de lenços de papel, um batom, um espelhinho, três canetas e um punhado de clipes de papel. Um punhado de notas de um dólar, enroladas em um recibo de estacionamento. Dois absorventes em um saquinho de plástico cor-de-rosa brilhante. Um pacote grande de chicletes sem açúcar sabor canela. Uma carteira com um monte de cartões de crédito, a carteira de motorista, alguns cartões de visita, quarenta e três dólares em dinheiro, três canhotos de cheque.

Eu fiz uma careta ao olhar o monte de coisas inúteis. Alguma coisa estava faltando. Não sou especialista no que as mulheres carregam em suas bolsas, mas alguma coisinha irritante estava escondida em um canto do meu cérebro e sussurrando que estava faltando uma peça nesse quebra-cabeça.

Olhei dentro da caixa, erguendo a capa de náilon preto do laptop e abrindo o zíper. Não havia nada lá dentro além do computador, com seu onipresente logotipo da maçã meio mordida. Dei uma olhada nos compartimentos fechados com velcro: um cabo elétrico, um pen drive em um compartimento, nada mais – e a minúscula voz lamurienta continuou a me importunar e a me cutucar, dizendo que tinha de ter mais alguma coisa. Então, abri a mala e, conforme temia, encontrei apenas calcinhas, meias, roupas, um maiô meio laceado e um par de sandálias.

O tampo da mala se fechou com um estalo; eu a coloquei no chão e, ao endireitar o corpo, eu sabia o que estava faltando: o celular dela. O seu todo-poderoso e onipresente celular, aquele que tinha todos os seus contatos e compromissos. Seu acessório mais característico, a única coisa sem a qual ela nunca ficava. O celular tinha de estar ali, na bolsa dela, ou em outro lugar, e não estava.

É claro, era possível que ele ainda estivesse no laboratório, talvez porque fosse uma maçaroca ensanguentada sem condições de ser liberada para o mundo. Também era possível que alguém – provavelmente Vince, na minha ausência – estivesse checando as chamadas, o calendário, e assim por diante, para tentar encontrar alguma pista sobre a identidade do assassino.

E também era possível que o assassino o tivesse levado. Não como um suvenir, o que era fácil de entender – pelo menos, para mim –, mas porque estava com pressa de ir embora da cena do crime e queria ter a certeza de que nenhum memorando ou anotação no celular pudesse ligá-lo ao crime. Sem tempo para olhar, ele só pega o telefone e sai correndo na escuridão. Isso é o que eu teria feito. Ir embora discretamente e me livrar do telefone mais tarde, jogando-o de uma ponte, ou em um canal convenientemente próximo.

Isso fazia sentido, e eu tinha certeza de estar com a razão. Se o celular da Kathy não estivesse ainda em custódia da polícia, o assassino estava com ele.

E era muito fácil checar, claro. Tudo que eu tinha de fazer era perguntar – não para o detetive encarregado da investigação, claro. Esse era o Anderson, e eu estava bastante certo de que ele não queria me dizer nada, a não ser que fosse “você está preso”. Mas um telefonema rápido para Vince deveria esclarecer as coisas.

Peguei meu celular e me sentei na cadeira em frente ao espelho. Ele tocou seis vezes, e então Vince disse, com sua voz

de Charlie Chan [20]:

– Hong Fat Noodle Company.

– Eu quero, por favor, cat lo mein para viagem.

– Aí depende, Gafanhoto – ele disse. – Pra onde você vai?

– Pergunta rápida – eu disse. – Podrowski. A vítima no Grove Isle a noite passada. Você ainda está com o celular dela?

– Resposta rápida – ele disse –, não.

– Ele foi encontrado na cena do crime?

– Aí já são duas perguntas – disse Vince. – Mas a resposta é a mesma: não.

– Ahá – eu disse. – Se você não achar que isso é idiota demais.

– Por que ahá? – ele perguntou.

– Porque Kathy, a vítima, nunca ficava longe do celular dela. Então, se você não sabe onde ele está...

– Oh, céus – ele disse. – O assassino o levou.

– Oh, céus? – eu perguntei.

– Claro – ele disse. – Porque você disse ahá. Devo supor que você disse isso para o Anderson?

– Devo supor que seja uma piada?

– Hahaha! – disse Vince, com sua terrível risada falsa, muito pior que a minha.

– Parece trabalho do mesmo assassino?

– Bom – disse Vince, cauteloso. – É claro que não sou nenhum detetive Anderson...

– Agradeço a Deus por isso.

– Mas não tinha cara, não. O olho foi arrancado, e naturalmente o Anderson caiu de boca nesse detalhe e disse

Quod Erat Demonstrandum[21].

– Ele disse isso?

– Alguma coisa parecida. Com menos sílabas – disse Vince. – Bom, ele tinha certeza de que era o mesmo. Mas, acontece o seguinte, o corpo estava um horror. Onze punhaladas, incluindo duas que rasgaram a artéria carótida.

– Eca – eu disse, pensando nas grandes manchas de sangue úmido e pegajoso.

– É, é mesmo – disse Vince. – E quer saber o pior? Tinha vômito em todos os lugares. Como se ele tivesse dado uma olhada no que fez e então despejasse para fora a comida. Eu odeio mesmo ter de lidar com vômito.

– Relaxe – eu disse. – Em poucas horas você vai voltar a lidar com cabeças decepadas e matéria fecal.

– Uma coisa fascinante, matéria fecal – disse Vince, pensativo. – Está dentro de todos nós.

– Em alguns mais do que em outros – eu falei. – Obrigado, Vince.

-Ei! – ele disse, antes que eu tivesse desligado. – Você está no set de filmagens? Com o Robert?

– Ele está por aí – eu disse. – Eu devo agir como consultor técnico... e também – eu continuei, tentando soar muito casual – vou fazer um pequeno papel.

– Oh, meu Deus – ele disse. – Você vai estar NO piloto?

Eu cobri o celular com a mão e mudei de voz.

– Faltam cinco minutos, senhor Morgan! –, eu disse e então voltei a falar no celular: – Estão me chamando. Tenho de ir, Vince. Diga oi pro povinho aí.

– Dexter, espere! – ele disse. – O Robert...

Desliguei e fiquei em pé.

Fui pelo corredor até a sala dos figurinos. Jackie ainda estava em reunião com Sylvia, parada com os braços bem esticados enquanto Sylvia fazia marcas na blusa dela com um pedaço de giz e seus dois assistentes corriam de um lado para o outro; um estava com um ferro, e o outro, com um punhado de botas de borracha.

Fechei a porta e dei uma olhada ao redor. Eu não tinha nada para fazer por pelo menos mais uns quinze ou vinte minutos; então cedi à minha curiosidade e fui dar uma olhada no estúdio. Eu nunca tinha visto um antes, e se isso ia passar a fazer parte da minha nova vida como Dexter Demóstenes, achei que precisava ver que cara aquilo tinha.

Passei pela pesada porta de metal e entrei. O local tinha mais ou menos o tamanho e o formato de um hangar para aviões, com um teto alto e o piso de cimento. A não ser por manchas isoladas de luz, vindas das lâmpadas elétricas, estava às escuras. Não havia janelas, ou nada mais que permitisse a entrada da luz, e cortinas grossas e negras pendiam das paredes.

Os membros da equipe de produção estavam no maior atropelo, indo para dentro e para fora das poças de luz como se fossem formigas correndo ao redor de um formigueiro que alguém tivesse destruído com um pedaço de pau. Em duplas ou em trios, eles iam apressados executando suas tarefas místicas, grudando fita adesiva no chão em padrões precisos e sem sentido, carregando suportes de metal para as luzes de um lugar para o outro, desenrolando grossos cabos, dois ou três embrulhados juntos, e carregando partes soltas de um cenário: uma janela, uma porta corta-fogo de um vermelho brilhante, uma cadeira giratória.

Dei uns passos na escuridão e quase fui decapitado por três pessoas carregando o que parecia ser a parede dos fundos da sala do capitão Matthews. – Ei, olha por onde anda disse uma delas com voz alegre, uma moça de porte atlético com cabelos louros curtos e um martelo pendurado no quadril. Ela continuou a andar rapidamente com as outras duas pessoas, transportando a parede com facilidade por entre as luzes, mais cenário, e outros trabalhadores.

Fiquei parado e deixei que meus olhos se adaptassem à escuridão antes de voltar a andar com cuidado pelo estúdio, prestando atenção para ver se havia mais cenários mortíferos. No centro do estúdio, emoldurada por um amontoado de luzes, de câmeras, e de uma intensa ação técnica, estava uma parede cenográfica, a quina à minha frente, e caminhei na direção dela para ver o que era. Passei rapidamente por dois homens que sacudiam pedaços de plástico transparente e colorido na frente de uma luminária e dei uma olhada para ver o que essa parede poderia ser. Quando o lado maior da parede ficou exposto, eu parei e fiquei encarando.

Eu estava olhando para o que parecia ser o interior de um apartamento em Miami Beach. Uma porta de correr levava a uma varanda, onde o topo de uma palmeira ondulava na frente de uma grande extensão de um verde-azulado brilhante da baía de Biscayne. Por uns instantes, aquilo me deixou desorientado, e eu realmente dei um passo para trás e olhei do outro lado da parede, só para ter certeza de que ela era mesmo apenas bidimensional. Felizmente para mim, era.

Eu me aproximei um pouco mais e olhei de novo. A cena ainda parecia muito real para mim, a não ser pelo fato de eu observar um cara ruivo e atarracado abrir a porta de vidro e entrar na varanda falsa para ficar, aparentemente flutuando no ar, parado na frente da palmeira e começar a lidar com a fronde. Era um efeito artístico inusitado; se a palmeira fosse real, então haveria um gigante de cabelos ruivos flutuando no ar ao lado da fronde.

Fiquei admirando a visão surreal até que alguém me deu uma palmada no ombro. Eu me voltei e vi um homem de uns 45 anos de idade, de barba, com três rolos de fita adesiva pendurados em seu cinto.

– A gente tem que ajustar a luz – ele disse. – Dá pro cê ficar pra lá? – Ele indicou com a mão o lado mais distante do estúdio e passou rapidamente por mim, puxando uma longa tira de fita adesiva de um dos rolos.

– É claro – eu respondi para as costas dele e tomei uma nota mental para tentar experimentar o jeito de ele organizar seus rolos de fita em um futuro muito próximo.

Caminhei cautelosamente até o local que o sr. Fita Isolante me havia indicado, e essa acabou sendo uma sábia decisão. Aninhada no canto, na semiescuridão acolhedora, descobri uma mesa grande, que soltava gemidos sob o peso de uma considerável quantidade de comida. Havia bagels, cream cheese, tomate e cebola em fatias finas – e salmão marinado de verdade! E tinha até uma vasilha grande cheia de M&M's, e uma bandeja com três tipos de queijo; uma vasilha imensa com iogurte, bananas, maçãs, laranjas e cereal com frutas secas. E na outra ponta da mesa, bem ao lado de um bule de café, havia uma pilha de oito caixas de doces da Munequita Bakery, minha doceria favorita.

Eu tinha acabado de pegar uma pastelita de goiaba e um donut de geleia e me acomodado nas sombras no canto do set quando senti uma presença hostil soltando fumaça atrás de mim, e me voltei, preparado para trucidá-la com a pastelita. Mas contive meu ímpeto ao ver que era apenas a Dileta e Degradada Deborah, a cara fechada com força suficiente para quebrar nozes.

– Bom dia, caríssima irmã – eu falei. – Não é uma maravilha estar aqui, no coração de Hollywood?

– Vá se foder! – ela disse.

– Talvez um pouco mais tarde – prometi. – Depois de terminar minha pastelita. – Ela não disse nada, só ficou lá dirigindo um olhar duro para o set e rangendo os dentes, alto o suficiente para eu achar que tinha ouvido os molares se despedaçando. – Você quer um donut? – perguntei, esperando acalmá-la só um pouquinho.

Não deu certo. Antes que eu pudesse sequer piscar, ela fincou um punho em mim, pousando-o com força em meu braço, com força suficiente para eu quase derrubar meu donut de geleia.

– Ai! – falei. – Você preferiria um bagel?

– Eu preferiria dar um pontapé no saco do Anderson e voltar a fazer trabalho de polícia de verdade – disse ela, por entre os dentes cerrados com força.

– Ah – eu disse. – Então não deu muito certo quando você falou para o capitão a respeito do Patrick?

– Ele arrancou a minha pele – ela respondeu e rangeu os dentes com força ainda maior. – Com o Anderson olhando. E me olhando com aquele sorriso convencido a porra do tempo todo, enquanto o capitão me dizia que eu sou uma puta de uma idiota.

– Aiaiai – eu disse. – Mas ele não suspendeu você?

– Ele quase fez isso, que bosta – ela falou. – Mas percebeu que, se fosse suspensa, eu iria atrás do assassino em meu tempo livre.

Eu assenti e comi um pedaço de goiaba. Pelo que eu conhecia da Deborah, seria exatamente isso que ela faria. Era um palpite muito perspicaz, e minha opinião a respeito da inteligência do capitão Matthews aumentou.

– E então ele me mandou ficar no set – disse Debs. – Assim, eu não posso fazer porra nenhuma a não ser ficar por aqui e bancar a babá. Enquanto Anderson ferra o caso e dá uma puta risada da minha cara.

– Ah, ele não está só ferrando o caso – eu falei. – Ele disse para Jackie que quer ser o braço protetor dela, vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana.

Ela bufou.

– Ele disse isso? Pra Jackie?!

– É – eu falei.

– E o que ela disse?

Eu sorri com a recordação, algo tão próximo de um sorriso verdadeiro quanto jamais havia sido capaz de produzir.

– Ela disse que já tinha um – eu falei. E dei uma mordida muito satisfeita, colocando o último terço da pastelita na minha boca.

Deborah me olhou, um olhar duro e inquisidor, e fiquei pensando se eu estava, inconscientemente, comendo com a boca aberta. Levei a mão para checar; não estava. Engoli o doce e devolvi o olhar para Deborah.

– O que foi? – perguntei.

– Seu filho da puta – disse Deborah, e, de algum jeito, a raiva dela estava agora concentrada em mim, e eu não tinha a menor ideia do motivo.

– O que foi que eu fiz? – perguntei.

– Você trepou com ela! – Deborah me disse com a voz sibilando. – Você trepou com a bosta da Jackie Forrest!

Olhei para Deborah, espantado, tentando lembrar se eu dissera alguma coisa que pudesse ter dado uma dica para ela; não me lembrei de nada, mas, estava claro, ela sabia. Talvez existisse mesmo alguma coisa ligada a essa história toda de Intuição Feminina a respeito da qual a gente sempre está ouvindo falar. Porque Deborah sabia, e ela estava visivelmente muito chateada com a coisa toda.

– Deborah – eu disse, lutando desesperado para dizer alguma coisa que pudesse explicar tudo, acalmá-la, talvez até mesmo mudar de assunto. Mas nada me ocorreu; eu fiquei lá parado, silenciosamente boquiaberto, e minha irmã me olhando com um olhar duro o suficiente para abrir furos nos para-lamas de um Buick.

– Seu puto de um idiota – ela disse. – Você tem alguma ideia do que fez?

Não era uma pergunta bem formulada: eu tinha uma ideia muito boa do que tinha feito. Eu tinha feito mais de uma vez, e tinha uma ideia de que gostaria de fazer de novo – mas essa não parecia ser a mesma ideia que Debs tinha.

– Esposa e três filhos – ela rugiu – e você tem de aprontar essa. Pular na cama e fazer merda com a bosta da Jackie Forrest.

– É, mas, Deborah – eu disse, e não fazia a menor diferença que não tivesse nada mais para dizer, porque ela continuou a falar sem esperar pela minha contribuição:

– Puta que o pariu. Eu sei que todos os homens pensam com a cabeça de baixo, mas achei que você fosse diferente. – Ela me deu um cutucão no peito com um dedo muito duro. – E então aparece a Jackie e você é um puto de um idiota tanto quanto qualquer outro mané de cabeça-oca, e você tem que ir e trepar com ela.

– Ela me deu mole – eu disse, e isso pareceu horrível até mesmo para mim.

– Puta que PARIU, Dexter! – ela disse, e estava falando em voz alta o suficiente para que alguns técnicos começassem a desviar a atenção do que estavam fazendo e dessem uma olhada rápida na nossa direção.

– Deborah, a gente tem que fazer silêncio aqui – eu falei. – Podemos discutir o assunto mais tarde?

– Não vai haver um mais tarde – ela disse. – Eu acho que nunca mais vou querer falar com você. – E bateu as duas mãos no meu peito, o suficiente para me fazer dar um passo para trás, e então deu meia-volta e se encaminhou para o outro lado do set, passando rapidamente pelo pessoal da produção que corria de um lado para o outro e quase derrubando duas luzes diferentes.

Fiquei olhando Deborah se afastar, pensando se ela havia dito aquilo de verdade. Nunca mais falar comigo? Eu, o único irmão dela? Seria possível? Eu nunca tinha sequer pensado nessa possibilidade – nem por uma fração de segundo tinha pensado que qualquer coisa que eu fizesse com Jackie pudesse de algum modo afetar meu relacionamento com Debs. Ela era minha irmã – isso não deveria ser o tipo de coisa que dura para sempre? Ela havia continuado a ser minha irmã até mesmo quando descobriu meu verdadeiro eu maldoso. Pelo que eu entendia das coisas, o que fazia nas minhas Noites Especiais era considerado muito mais socialmente inaceitável do que o que tinha feito com Jackie.

E, contudo, Deborah tinha imediatamente ficado com um mau humor do cão, talvez para sempre, só porque eu tinha dado uma arranhada em alguns votos conjugais sem importância, umas meras palavras rituais, resmungadas em um ritual destituído de sentido perante uma divindade hipotética – e ela nunca mais iria falar comigo?

Já falei diversas vezes que não entendo o comportamento humano – mas eu sempre fiz justiça à Deborah, excluindo-a da mera humanidade. Ela estava acima da idiotice rotineira da arraia-miúda, com um pé nas alturas olímpicas ocupadas por mim. No entanto, cá estava ela, agindo de um modo tão tolo e falível quanto qualquer criatura que passa o dia na frente da televisão assistindo a reality shows; nunca mais falar comigo só porque eu – por uma vez na vida – tinha agido de modo humano? Não podia ser.

Olhei do outro lado do set, onde ela estava, de costas para mim. Mesmo distante, dava para ver a tensão enraivecida nos ombros dela, e ela não relaxou nem olhou para o meu lado. Parecia que estava brava o suficiente para cumprir sua ameaça – mas por quê? Por que iria uma escapadela tão insignificante incitá-la a ter uma reação tão forte? De que jeito os meus encontros com Jackie afetavam Deborah?

E por que pensar na Vida Sem Debs fazia com que eu me sentisse tão murcho?