Dexter: Em Cena

Jeff Lindsay · Capítulo 2 de 38

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Dexter: Em Cena

Introdução

 

NÃO É ASSIM TÃO RUIM ESTAR MORTO. É surpreendente, mesmo, quando você pensa a respeito. Quer dizer, todo mundo parece sempre ter tanto medo da história toda, chorando e se lamentando e passando anos com pensamentos cheios de angústia relacionados à possibilidade de uma vida após a morte. E, no entanto, cá estou eu em um repouso tranquilo, quieto, livre da dor, e sem uma única preocupação na vida, não fazendo nada mais metafisicamente complicado do que relembrar minha Última Refeição – um excelente sanduíche de pastrami. Ele me foi trazido, ainda quente, apenas quarenta minutos atrás, enquanto eu estava sentado em uma confortável cadeira dobrável, e me lembro de ter pensado: onde eles encontraram um pastrami tão suculento em Miami atualmente? Os picles estavam muito saborosos também. E só para ser etnicamente autêntico, tinha pedido um cream soda com o sanduíche, que eu não tomava fazia muito tempo. Delicioso. De modo geral, uma experiência culinária que fez com que estar morto parecesse um detalhe sem grande importância.

... embora, para ser honesto, que é uma coisa que às vezes não dá para evitar, ficar deitado aqui no chão sem me mexer já estava ficando um pouquinho entediante. Eu realmente esperava que alguém me descobrisse logo; a morte não era algo suficiente para manter a mente ocupada, e parecia que eu tinha ficado aqui já fazia um bom tempo. Sei que essa não parece ser a primeira coisa com a qual você fosse implicar a respeito de estar morto – longas horas e nenhum tipo de desafio no trabalho –, mas eis a questão. Eu estava entediado. E o chão por baixo do meu corpo estava quente e começando a parecer muito duro. E, para complicar ainda mais, havia uma poça de imundície grudenta e vermelha se espalhando ao meu redor que fazia com que me sentisse bastante desconfortável – quero dizer, claro, que aquilo teria me deixado desconfortável se eu estivesse vivo de verdade. Mas, de qualquer maneira, não era algo bom de olhar; devo ter uma aparência extremamente destituída de atrativos.

Outra preocupação excêntrica para o recém-falecido, talvez, mas verdadeira: eu estava destinado a ser uma visão não atraente. Aquilo era inevitável; não existe nada muito charmoso em um corpo morto a tiros, e nenhuma dignidade em ficar deitado na rua sob o sol de Miami, esperando em uma grudenta poça vermelha que alguém encontre seu corpo. E quando meu pobre cadáver atravessado por balas fosse finalmente descoberto, não haveria nem uma genuína manifestação de sentimento; nenhuma demonstração sentida de angústia e de desgosto. Não que eu alguma vez tenha achado a verdadeira emoção terrivelmente emocionante, mas, mesmo assim, a gente gostaria de ser pranteado de verdade, não gostaria?

Mas não hoje, não para o pobre Defunto Dexter. Afinal, quem poderia prantear um monstro como eu? Não, isso seria apenas proforma, e até mesmo menos convincente do que o costumeiro; e eu, entre todas as pessoas, realmente não poderia reclamar. Eu havia passado toda a minha vida profissional – e uma grande parte do recompensador tempo dedicado a meu hobby – perto de cadáveres. Sabia muito bem que a reação mais natural quando alguém encontrava um corpo cheio de sangue coagulado era algo parecido com “eca, que nojo!", enquanto seu Descobridor bebe com voracidade uma bebida energética e aumenta o volume do seu Ipod. Até isso era mais honesto do que o ranger de dentes excessivo e destituído de sentido que eu sabia que iria merecer quando meu pobre corpo fosse descoberto. Eu não podia nem esperar por uma elegante declaração de pesar e de perda do tipo: “Oh, meu Pai do Céu, o pobre do Dexter!”. Ninguém mais diz “Oh, meu Pai do Céu”; e, já que estamos falando do assunto, também duvido que alguém realmente sinta isso hoje em dia.

Não, haveria muito pouca dor verdadeira pelo Dileto Defunto Dexter; ninguém pode expressar esse sentimento pela simples razão de que ninguém é capaz de senti-lo. Talvez eu seja a única pessoa honesta o suficiente para admitir que não sinto; no entanto, também nunca tive evidências muito fortes de que alguma outra pessoa sentisse. As pessoas são excessivamente empedernidas e inconstantes, e até mesmo nas melhores ocasiões – e esta não era uma delas – eu não poderia esperar por mais do que um momento de repugnância com a visão do monte de esterco que era o meu corpo (mais ou menos) humano, e uma pontada de irritação por ter mais uma encrenca com a qual lidar. E então, sem dúvida, a conversa iria se voltar para o futebol americano, ou os planos para o fim de semana; e a lembrança do meu sanduíche de pastrami iria durar muito mais do que o sentimento de perda de qualquer pessoa em relação à minha morte prematura.

Mas, afinal, não havia alternativa. Eu tinha de tirar o melhor proveito da situação e ficar deitado aqui feito um peixe defumado até ser descoberto – o que me parecia um acontecimento que deveria ter ocorrido há muito tempo. Eu tinha sido jogado aqui sob a luz direta do sol há pelo menos meia hora. Será que um cadáver pode ter queimaduras causadas pelo sol? Eu tinha certeza de que os mortos evitavam cabines de bronzeamento artificial – até em filmes de zumbi –, mas aqui, sob a luz do sol do meio-dia, será que a pele morta poderia ficar queimada? Isso não parecia de acordo; todos gostamos de pensar em cadáveres pálidos e fantasmagóricos, e uma saudável epiderme beijada pelo sol certamente estragaria o efeito.

Mas agora estou ouvindo um coro crescente de estardalhaço e de preocupação nas proximidades: uma porta metálica se fecha com estrondo, vozes abafadas sussurram com premência; e finalmente ouço o som pelo qual estava ansiando, o ruído apressado de passos se aproximando. Eles se interrompem bruscamente ao meu lado, e uma mulher arqueja e exclama em voz alta: “Nããããão!”. Finalmente: um pouco de preocupação real com minha trágica condição. Um tantinho melodramática, talvez, mas ela é tocante; e chegaria mesmo a amolecer o coração, isso se Dexter tivesse um coração para amolecer.

A mulher se debruça sobre mim e, no halo brilhante de luz do sol que rodeia sua cabeça, não consigo distinguir suas feições. Mas não tem como se enganar com o formato da arma que aparece em sua mão direita. Uma mulher com uma arma – seria ela a Dileta irmã de Dexter, a sargento Deborah Morgan, tropeçando no pobre corpo de seu adorado irmão tragicamente assassinado? Quem mais poderia manifestar uma tão rara exibição de pesar bem armado por mim? E há uma ternura real em sua mão esquerda quando ela se aproxima do meu pescoço para sentir a pulsação: em vão, ai de mim, ou qualquer outra coisa que a gente diga em vez de “em vão” atualmente. Sua mão esquerda se afasta do pescoço e ela ergue o rosto em direção aos céus e diz, com dentes entrecerrados:

– Eu vou pegar os desgraçados que fizeram isso. Eu juro...

Esse é um sentimento que merece toda a minha aprovação – e, na verdade, ele soa um pouquinho como Deborah, mas não o suficiente. Há uma modulação hesitante e musical na voz que minha irmã jamais permitiria.

Não, não é Deborah, mas uma imitação histrionicamente terna. E ela soa ainda menos parecida com a enfurecida boca-suja da minha irmã quando acrescenta, em um tom de voz ligeiramente nasalado e muito mal-humorado:

– Mas que inferno, Victor, tem uma droga de uma sombra bem no meu rosto durante todo o tempo, pô!

Um homem, que parece ter vivido por um período interminável de exaustão que o conduziu para muito além do ponto da simples exasperação humana, exclama:

– Corta! Onde está a porra do maquinista?

Victor?

Maquinista?

O que isso pode significar? O quê, de verdade, está acontecendo? Como pode haver uma reação tão estranha à trágica morte de alguém tão jovem, tão talentoso e tão profundamente admirado – pelo menos por mim mesmo? Será um soluço cósmico, uma alucinação enlouquecida causada por eu ter penetrado no interior do Véu e adentrado no Além? Talvez algum momento confuso de transição na Unidade com Todas as Coisas, enquanto Dexter se afasta lentamente das amarras mortais e se dirige para a Última Morada?

E agora tudo fica ainda mais estranho à medida que uma cena surreal de atividade fervilhante começa a acontecer em volta do meu corpo. Dúzias de pessoas, silenciosas e escondidas até então, pulam para a calçada e explodem em um frenesi furioso e focalizado, como se fosse a coisa mais natural do mundo passar ao lado de um Dexter coberto de sangue coagulado e se movimentar como se fossem formigas. Dois homens e uma mulher passam por cima do meu trágico cadáver e começam a lutar com grandes luzes montadas em tripés, refletores e montes de cabos elétricos, e a gente realmente tem de ficar pensando: Será assim que tudo se acaba para todos nós? Não com uma Explosão, mas com uma troca de luz?

Infelizmente para minha descoberta metafísica, nós precisamos esperar um pouquinho mais para responder a todas essas questões tão boas. Porque hoje não é, na verdade, o longamente temido dia de infâmia em que Dexter Desencarna. Ele é, pelo contrário, uma pequena e inofensiva fraude; o Dolo de Dexter. Pois, hoje, Dexter adentrou o agitado e alvoroçado mundo do show Business profissional e de sucesso. Concederam-nos o grande e despretensioso obséquio de um Trabalho de Ator de verdade, e hoje estamos desempenhando, representando um papel para o qual pesquisamos uma vida inteira. Fomos escalados como extras, um cadáver de brincadeira, um pequeno e imóvel peão no grande tabuleiro de xadrez que é Hollywood.

E agora, a mulher que não é Deborah dá umas palmadinhas amigáveis no meu rosto e se dirige para seu trailer, murmurando comentários homicidas a respeito daquelas pessoas que permitiam que sombras caíssem em seu rosto quase perfeito. A equipe se manteve ocupada com as suas intensas e obscuras tarefas e, por cima de tudo isso, a voz mais que exausta de Victor entoa uma série de ordens cheias de cansaço, e então acrescenta:

– E você precisa ir até o pessoal dos figurinos, e eles precisam limpar você para OUTRA tomada, tudo bem, Derrick?

– É Dexter – eu digo, me levantando dos mortos e me sentando. – Com X.

Victor não dá o menor sinal de ter me ouvido, ou mesmo de ter percebido que eu existo.

– Nós já estamos três dias atrasados, pessoal – ele lamenta. – Dá pra gente ir um pouco mais rápido?

Não percebo ninguém se movendo um pouco mais rápido, o que me parece algo perfeitamente justo. Afinal, se Victor decide me ignorar, ele não pode mesmo reclamar se os outros o ignoram, pode?

Um homem jovem e elegante aparece perto de mim e se ajoelha ao meu lado, trazendo consigo o perfume distinto de colônia floral.

– Muito bom – ele me diz, dando umas palmadinhas no meu braço. – Você parecia tããããããão morto mesmo?

– Obrigado – respondo.

Ele coloca sua mão macia em meu braço.

– Vamos limpar você? – ele diz. Até então, praticamente tudo que saiu de sua boca foram perguntas, até mesmo afirmações simples como: “Oi, meu nome é Fred?”. Eu não o pressiono por causa disso – embora esteja começando a suspeitar que Fred gostaria muito que eu pressionasse alguma coisa contra ele. Mas, mesmo que estivesse muito inclinado a fazer isso, e disponível, o que não estou, isso nunca daria certo. Ele não passa de um mero assistente de figurino, e Dexter é Talento – está escrito isso no contrato que eu assinei! –, e então me levanto com grande dignidade e me encaminho para o grande trailer ocupado por Fred e seus companheiros. E enquanto ando, fico ponderando, e talvez a própria pergunta seja um clichê, um eco absurdo da obsessão humana por encontrar um sentido onde não existe absolutamente nenhum. Mas, apesar disso, enquanto olho ao redor para todo aquele estardalhaço e algazarra absurdamente caros, eu pergunto:

Como foi que vim parar aqui?