Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Ateísmo e transcendência
Sendo o ateísmo o denominador comum para indivíduos que compartilhavam discursos, valores e crenças comuns, ele deixava na penumbra suas origens diversas: o fato de que o deus e as tradições religiosas com os quais se estava brigando e dos quais procurava-se distanciar não eram por vezes os mesmos.
Não se trata de cometer a injustiça de, com o insight do retrospecto e sob novas influências, desvalorizar o que numa época representou o sentimento dominante, ou seja, compartilhar valores que geraram uma comunidade que pretendia transcender os particularismos das crenças religiosas associadas a instituições que excluíam e desumanizavam os que não partilhavam da mesma fé.
Mas hoje os tempos são outros. A história mostrou que o ateísmo pode ser tão inquisitorial e intolerante como a religião, e que portanto o que está em jogo não são as crenças de cada um sobre as dimensões transcendentais da vida, mas a capacidade de aceitar o diferente e de respeitar a diversidade dentro de instituições democráticas que assegurem um espaço comum de convivência e comunicação.
Reconstruir o judaísmo secular hoje implica retornar sobre os passos e caminhos obscurecidos e reprimidos pelo velho ateísmo, entender com que deus estávamos discutindo, com que expectativas (frustradas) de redenção estávamos lidando, que passado desejávamos enterrar e que riquezas de nossa tradição, em nossa precipitação, deixamos de lado. Um retorno que permita repisar velhas pegadas sem abdicar de manter a cabeça aberta aos ares do mundo.
Ateísmo e transcendência A crise de ateísmo desencarnado, isto é, do ateísmo que enfatizava suas dimensões universais, é a crise das crenças dentro das quais o ateísmo surgiu e se desenvolveu na modernidade. Tais crenças, seja em suas versões liberais ou socialistas, repousavam na confiança no homem e em sua capacidade de dominar a natureza e organizar a sociedade, no sentido progressista da história e no potencial da ciência de dar cada vez mais respostas a todos os problemas e dúvidas colocados pela curiosidade humana.
Com o desmoronamento desse conjunto de crenças descobrimos que o ateísmo, pelo menos tal qual foi vivido e construído pelas gerações passadas, tinha aspectos comuns com a religião, na medida em que também era constituído por um sistema de suposições que permitiam um sentimento de transcendência e de onipotência (ou, usando um conceito que já entrou para o vocabulário e ainda carece de uma boa tradução, de empowerment). Hoje podemos seguir sendo ateus, mas trata-se de uma crença pessoal, um sentimento não associado a nenhuma ideologia que ofereça orientações sobre o mundo social nem ao sentimento de estarmos ligados a outra forma de controlar nosso destino individual e coletivo.
Como resgatar o sentimento de transcendência perdido? Como reproduzir a sensação de poder que nos dava a crença de ser parte da História? O velho ateísmo tinha ocupado o lugar de deus, mas hoje, em lugar de pensar que se deus está morto tudo é permitido, resta o sentimento de que se deus está morto, tudo pode ser pensado mas nada é (coletivamente) possível.
O sentimento de transcendência produzido pelo judaísmo secular estava associado a uma imersão em grandes causas sociais e não confrontava diretamente os temas do lugar do indivíduo no universo, do sentido da vida, de como enfrentar o sofrimento pessoal ou como ritualizar os grandes momentos de passagem (nascimento, casamento, morte, para mencionar os principais). Para o sentimento de estar no mundo da sociedade atual, orientado para o interior, para a subjetividade, a religião possui uma linguagem e metáforas que permitem preencher vazios e comunicar sentimentos para os quais o discurso da ciência está mal apetrechado, apesar dos benefícios que o Prozac ou a psicanálise (produtos do mundo secular) possam oferecer.