Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
O preço da integração brasileira
No caso particular dos judeus, um outro fator que poderia fomentar sentimentos antissemitas – o antijudaísmo que a Igreja católica alimentou até recentemente – também se dilui no contexto de uma sociedade em que predomina o sincretismo religioso. Com efeito, o sincretismo e a diversidade religiosa assinalam a interpenetração de culturas no Brasil pelo fraco desempenho dos aparelhos ideológicos das classes dominantes, atuando no sentido de assimilar o novo, não discriminar o diferente e não desenvolver preconceitos frente a outras formas religiosas. As práticas sincréticas no Brasil igualmente expressam um universo em que a integração do outro não supõe sua eliminação nem hierarquização, e sim sua absorção.
O preço da integração brasileira
Derrubadas as muralhas das autonomias jurídica e organizacional das comunidades judaicas tradicionais, o judaísmo moderno passou a interpenetrar-se com a sociedade local de forma tal que a identidade judaica, individual e coletiva, passou a ser parte integrante da sociedade nacional onde ela se encontrava. Como mostrou Saio Baron em sua monumental História social e religiosa do povo judeu, o judaísmo sempre se desenvolveu reagindo às e apropriando-se das influências do universo gentio. O que é novo na sociedade contemporânea é a diluição das barreiras institucionais que até então filtravam e limitavam o impacto do meio externo. Assim, embora sempre houvesse uma pluralidade de identidades judaicas locais na diáspora, estas nunca chegaram à intensidade integradora do mundo moderno. A modernidade para o povo judeu implicou uma barganha na qual recebia igualdade de direitos e abria mão de suas instituições jurídicas e de vida comunitária diferenciada. O direito à cidadania significou para os judeus a aquisição de uma identidade que os integrava a uma nova totalidade: a sociedade nacional. A modernidade acarretou a separação existencial e política entre o indivíduo judeu e sua comunidade, rompendo com os mecanismos de reprodução e socialização “natural” e colocando assim como uma questão permanentemente em aberto a continuidade voluntária da vida judaica e do significado da identidade judaica.
A integração dos judeus no Brasil naturalmente apresenta similaridades com processos análogos em outras regiões do mundo moderno, porém as especificidades da cultura e da sociedade brasileiras determinam o perfil particular das instituições e
identidade do judeu brasileiro. 5
O Brasil, para o imigrante judeu oriundo de regiões onde foi permanentemente discriminado e perseguido, teve muitas características de Terra Prometida. Ele se integrou na sociedade nacional, passando a compor, em sua maioria, as classes médias, que se orgulham do fato de serem brasileiras. Sua rápida absorção pela sociedade provocou, em contrapartida, uma constante erosão das fronteiras diferenciadoras e das tradições próprias. Uma sociedade que valoriza a sociabilidade gregária em torno de valores de convivência, que valoriza o lúdico no lugar de discursivo ou o artístico no lugar da reflexão conceitual, é particularmente não propícia à constituição, na modernidade, de identidades étnicas diferenciadas.
A identidade judaica moderna, formada com base em um esforço autorreflexivo e como resposta ao antissemitismo, não encontrou no Brasil condições ideais para seu desenvolvimento. Numa sociedade em que a integração social se dá ao nível de relações pessoais intensas, a distinção entre o público e o privado é frágil ou quase inexistente. Mas é nessa distinção, que no Brasil tem um espaço limitado, que se sustenta o desenvolvimento das novas formas de judaísmo na modernidade. Numa sociedade em que a “privacidade” não é um valor consolidado, não há espaço para desenvolvimento de uma consciência individual diferenciada – e angustiada–, e nem para a procura de raízes identitárias. Ser brasileiro é “curtir” a vida, viver o presente, estar aberto ou ser muito tolerante com todas as formas de tradições religiosas e experiências místicas. Isso pouco se enquadra nas tradições judaicas de monoteísmo rígido, diferenciação ritual extrema entre o mundo judeu e não judeu e uma mitologia que se sustenta na valorização do passado, do sofrimento coletivo, e na “curtição” da ansiedade e angústia existencial.
Enquanto a cultura brasileira cultiva o esquecimento, a cultura judaica se sustenta na lembrança. A cultura judaica é uma cultura de angústia. Angústia implica insatisfação com o presente, vontade de mudar, enquanto a cultura brasileira enfatiza o “deixa pra lá”: vamos viver o presente e esperar que surjam dias melhores. Se o judaísmo constitui uma atitude de “voluntarismo pessimista”, a cultura brasileira exibe um “fatalismo otimista”, excelente antídoto para a depressão embora alimente a irresponsabilidade social e a aceitação do status quo. A cultura brasileira, graças à influência africana, tem no corpo e nas expressões artísticas sua principal linguagem de comunicação, enquanto no judaísmo a hegemonia é do conceito e da abstração.
Uma cultura que não teme o futuro – que, ao contrário, confia e acredita no amanhã – centra-se no presente, pois o futuro não preocupa e o passado não oprime. Ao passo que na tradição judaica, o passado – seja na elaboração mitológica ou na memória histórica ainda presente – faz do futuro algo temido, fonte de incertezas e angústia. O presente se transforma num espaço de preparação para futuras calamidades e de lembrança do passado, portanto esvaziado de conteúdo ou realidade própria. Se a convivência das mitologias judaica e brasileira não deixa de ser altamente terapêutica para os judeus, a elaboração de uma síntese implica num verdadeiro desafio.
A confirmação dessa hipótese pode ser verificada, inversamente, pelo fato de a comunidade judaica do Rio Grande do Sul, embora muito menor que a de São Paulo e a do Rio de Janeiro, apresentar o único caso de uma fundação cultural judaica que teve um certo dinamismo: ser a terra natal de Moacyr Scliar, único romancista judeu consagrado que aborda temas judaicos em sua obra. Isto possivelmente porque em termos demográficos o Rio Grande do Sul apresenta uma composição étnica de predominância europeia, com forte tradição localista, que cultua as tradições do passado “gaúcho”, valorizando a reflexividade étnica e onde o antissemitismo parece
ser mais presente. 6
O judaísmo brasileiro beneficiou-se do sincretismo e também participa dele. Embora não existam estudos quantitativos, a absorção de crenças e práticas espíritas e a predisposição para utilizar serviços de curanderia originados de outras crenças é bastante difundido entre os membros da comunidade. Contudo, a socialização familiar e, particularmente, a educação formal judaica ainda estão centradas na criação de uma identidade através da lembrança das perseguições e do antissemitismo sofrido ao longo da história, o que gera uma certa dissonância entre o discurso escolar e a experiência efetiva dos judeus no Brasil.
Uma sociedade em que mesmo na vida acadêmica predominam a cordialidade e as relações mútuas de dependência-clientelismo – e que portanto foge à confrontação e à individualização do debate intelectual – não favorece o desenvolvimento de um judaísmo discursivo-racional. É nas dimensões artísticas e místicas da cultura brasileira que o judaísmo poderia encontrar um espaço maior de interação. É sintomático que o rabino Nilton Bonder, possivelmente o único autor com obras sobre judaísmo lidas por um amplo público judeu e não judeu, explore a tradição do pensamento místico judaico
e temas de autoajuda.7
Na comunidade judaica as elites econômicas mimetizam em certa medida as características do restante da classe dominante, incluindo o limitado sentido público e a baixa predisposição ao mecenato e ao desenvolvimento de fundações de incentivo à cultura e ao conhecimento. Do ponto de vista da criação e cristalização de uma reflexão e expressões culturais próprias, o judaísmo brasileiro é de uma pobreza atroz. Essa pobreza de expressão coletiva sustenta-se no sucesso de sua integração individual, afetando o potencial de renovação das tradições judaicas dentro de um espírito de diálogo, confraternização e ausência de antissemitismo. Esse potencial, porém, dificilmente se realizará, contribuindo para isso a convergência de várias forças internas limitadoras, como a força integradora da sociedade brasileira e o novo contexto de globalização cultural.