Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

MEDITAÇÕES POLÍTICO-EXISTENCIAIS 2 Bernardo Sorj

Meditações político-existenciais 2

 

Bernardo Sorj

 

Judaísmo e sionismo, diversidade e democracia

Como explicar às novas gerações que certos fenômenos, óbvios para elas, não existiam poucas décadas atrás, como é o caso, por exemplo, dos computadores ou da internet? E se já é difícil imaginar um mundo sem certos objetos, ainda mais difícil é imaginar mundos cujos debates e crenças que os sustentavam desapareceram de cena, como a discussão sobre a existência ou não de um povo judeu.

Pois é, durante boa parte do século XX, gerações de intelectuais e ideólogos – entre os quais Moises Hess e Leon Pinsker, Beer Borochov e Simon Dubnow, Lenin e Rosa Luxemburgo – argumentaram a favor e contra a existência de uma nação judaica, partindo do fato de que os judeus não possuíam uma base territorial comum. O sionistas, inclusive, defendendo a existência de um povo judeu, reconheciam que a vida na diáspora se tratava de uma “anormalidade” e se propunham corrigi-la.

A luta pela afirmação de uma nação judaica, na primeira metade do século XX, deu-se particularmente contra a visão dominante no movimento comunista, mas também contra a maioria das correntes no seio do judaísmo. Para um grande número de judeus – religiosos ortodoxos ou reformistas, ou mesmo socialistas ligados ao Bund que propunham autonomia cultural ou territorial na própria diáspora (sustentando uma identidade fundada na cultura iídiche) –, o sionismo estava fadado ao fracasso e o judaísmo podia ser conceitualizado de diversas formas, mas não como uma nação que incluísse todas as comunidades da diáspora. A primeira metade do século XX foi de forte fragmentação, confrontos e debates na rua judaica, cada ponto de vista sendo vivenciado como excludente em relação ao outro. O sionismo, primeiro como movimento social e depois como ideologia de um Estado que devia criar uma nova cultura homogênea, participou dessa tendência excludente. Centrado no dogma de que a diáspora era a origem de todos os males do povo judeu, o sionismo desvalorizava as outras expressões do judaísmo moderno. Assim, a nova cultura nacional israelense foi construída em torno de uma mitologia nacional que enfatizava os laços com o período antigo, pulando dois mil anos de vida diaspórica.

O Holocausto e os sentimentos de solidariedade em relação ao Estado de Israel extinguiram, ou jogaram para as margens, grupos, seitas e indivíduos que propunham formas não nacionalistas de conceituar o judaísmo. O único centro com vitalidade para reconstruir visões alternativas de judaísmo, os Estados Unidos, é totalmente autorreferente, não refletindo nem se refletindo na prática como parte de uma diáspora. O sionismo, apesar dos esforços de renovação de suas relações com as comunidades judaicas na diáspora, continua preso a uma visão da história em que Israel é o único centro autêntico de produção de cultura judaica.

Neste início de século XXI começam a surgir sinais de pluralização do judaísmo, de uma diversidade que ficou na penumbra durante quase meio século, calada pelo trauma do nazismo e pelo sentimento de que a solidariedade para com o Estado de Israel era a prioridade da vida judaica na diáspora.

Mas se o sionismo triunfou politicamente – e hoje o Estado de Israel é, de uma forma ou outra, parte da identidade e do sentimento de segurança (e insegurança) ontológica da grande maioria dos judeus–, ele se mostrou totalmente inadequado em seu diagnóstico e suas teorizações sobre as dimensões sociais e culturais do povo judeu. Em defesa do sionismo na primeira metade do século XX poder-se-ia argumentar que ele teve de enfrentar pontos de vista concorrentes numa Europa que caminhava para a barbárie, mas seguir afirmando hoje a visão sionista da história é um desserviço e um empobrecimento inaceitáveis da cultura judaica.

Paradoxalmente é em Israel que a visão sionista está tendo o custo mais alto, por um processo típico de retorno do recalcado.

Toda a diversidade da vida judaica na diáspora, que a política educacional e a ideologia oficial do Estado de Israel procuraram escamotear, renegar e esquecer, reaparece hoje na forma de movimentos políticos e culturais que fragmentam e colocam em questão o projeto de criação de uma nova cultura nacional homogênea, de um povo “normalizado”. Assim, por exemplo, os judeus da Rússia não querem se desfazer de sua cultura natal, criando o maior centro de cultura russa no exterior, com canais de televisão, rádio, jornais e editoras, enquanto os judeus do mundo árabe identificam-se com um partido religioso, o Shas, que renega o sionismo como um fenômeno do judaísmo europeu que os levou a uma sociedade em que ocupam posições subordinadas e que desvalorizou sua cultura diaspórica.

A identidade judaica sempre foi hifenizada (isto é, judaísmo-espanhol/ -polonês/ -alemão/ -português/ -babilônico/ - romano/ -brasileiro etc.), e continua sendo em Israel (judeu-israelense/ -iraquiano/ -russo/ -brasileiro/ -francês/ -georgiano etc.). Israel, que deveria produzir uma nova cultura nacional, transformou-se numa nação de diásporas e o Estado nacional, no representante e administrador dos conflitos de um mundo de identidades fragmentadas. Isso não é um demérito para o Estado de Israel nem para o projeto sionista, contanto que estes sejam capazes de desenvolver instituições democráticas dentro das quais os interesses e conflitos gerados pela diversidade cultural possam ser elaborados e substituam o atual rateio de recursos públicos em função de alianças políticas circunstanciais. Esse reconhecimento da diversidade cultural e a criação de instituições democráticas são parte do caminho de pacificação da região, na medida em que irão ao encontro de outra cultura hifenizada e que constitui quase um quarto da população do país: os israelenses-árabes (ou israelenses-árabes-palestinos).