Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
SENTADOS À MESA NO SÉCULO XXI Nilton Bonder
Sentados à mesa no século XXI
Nilton Bonder
Sentados à mesa no século XXI
Para pensar o judaísmo no século XXI não podemos passar ao largo da noção de família. Isso porque a melhor maneira de definir o judaísmo é uma família. A complexidade do judaísmo está em ser um pouco de tudo que não é: não é religião, não é filosofia, não é cultura, não é etnia, não é estado e não é terra. É tudo ao mesmo tempo. Mordechai Kaplan tentou expressar isso dizendo que somos uma civilização. A definição, no entanto, seja nos estatutos, seja na memória popular, é que somos uma família.
Os estatutos são claros. Somos uma família porque nascemos do rompimento de uma família na busca de criação de uma outra. Para a psicanálise esta é a própria definição de identidade. Rompemos para gerar independência, individualização e personalidade. O Gênesis é claro: pitadas de física, biologia, evolução e aspectos de nossa espécie que não ocupam mais do que 5% do texto. Os 95% restantes são sobre família. Como sair de casa? Como achar a mulher certa? Se vai ter filhos, como educá-los? Como não sacrificá-los? Como tratá-los de forma igual? Como lidar com ciúmes? Como pensar em continuidade? Como, acima de tudo, fazê-los iguais a nós e, ao mesmo tempo, diferentes e individualizados?
No coração da família está seu drama, sua tragédia, seu suspense e sua comédia – dependendo do gosto do freguês. Família é sobre como ser igual e como ser diferente. Como honrar pai e mãe e como honrar a si mesmo. O primeiro é mandamento; o segundo, a lei fundamental da sobrevivência. O final feliz acontece quando os pais atingem a maturidade que os faz entender que são melhor honrados quando os filhos honram a si mesmos; ou os filhos de que honrar a si mesmos inclui honrar pai e mãe. Mas este é o final feliz, a utopia, o modelo, ou o fim (que, diga-se de passagem, é sempre menos importante que o processo).
A descrição bíblica de ser judeu é estar em família, lidar com suas tensões, promover a continuidade e gerar um filho(a)-projeto perfeito: igual a nós e diferente. É invejado nesta sociedade aquele que produz o filho médico. Filho médico quer dizer a perfeição. É o filho que nos ama (nossa comida, nossa casa, nossos hábitos...) e, ao mesmo tempo, é diferente: não vai herdar a “lojinha” (apesar de ser muitas vezes sustentado pela mesma), vai ser doutor! O doutor cuidou de si, é respeitado porque cuida dos outros, mas sua essência é poder cuidar dos pais.
Não é tolo dizer que a Torá registra a criação do primeiro judeu pelo registro bem-sucedido do ciclo da família. E qual é este ciclo? O de traduzir em realidade o sonho de produzir um igual-diferente. Sonho este que não acontece na primeira geração, mas na segunda. Nenhum pai ou mãe bem-sucedido consegue um igual-diferente. Quando são bem-sucedidos conseguem um diferente. O master piece, só o zeide e a bobe (avô e avó) conhecem. Esta é a história bíblica da criação do primeiro judeu. Este judeu obviamente não é Abraão, mas Jacó. Não só porque é Jacó quem recebe o nome de Israel (que não é nome mas título) e dele se cumpre a promessa de uma prole numerosa (12 filhos/tribos), mas porque ali se encerra o livro do Gênesis. Está criado o primeiro judeu. O primeiro neto que venera o avô Abrahão, que se entendem como nunca Abraão e Isaque, ou Isaque e Jacó, se entenderam por que eram (de forma bem-sucedida) diferentes. Mas zeide Abrahão é um igual. Melhor, Jacó permanece na família, diferentemente de Abrahão que teve que sair de sua família para promover identidade. O segredo está em sair da casa dos pais e ingressar na casa dos avós. Está em venerar o avô transgressor e rompedor dos laços de família (portanto uma casa suportável para se estar) e experimentar nele a sensação deliciosa de lar, de não exílio, que na casa dos pais não podemos sentir.