Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Reinventar a diáspora e o judaísmo
Essas transformações, que se encontram no centro da vida cultural do povo judeu, colocam a necessidade de se reconhecer e negociar a diversidade interna das formas de expressão cultural e de identidades judaicas. O século XIX e a primeira metade do século XX produziram uma diversificação e divisão do povo judeu em correntes até mesmo antagônicas, na forma de grandes ideologias inclusivas e excludentes, nas quais cada uma reivindicava uma resposta aos dilemas de integração do judaísmo dentro das instituições e ideologias modernas. Durante um certo período histórico – para cuja cristalização convergiram a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto, as guerras de Israel contra os países árabes, o declínio do comunismo e uma forte tendência à homogeneização social –, as comunidades judaicas viveram uma tendência unificadora, com o silenciamento das diversas correntes que o perpassam.
Essa situação parece estar chegando ao fim. Mas a nova diversidade interna não repete aquela que caracterizou o judaísmo moderno: em lugar de identificação com ideologias “coerentes”, o judaísmo passa a ser uma construção pessoal, individual, um bricolage em constante mutação, no qual cada um se apropria de e consome produtos das diversas correntes. O judaísmo passa a assumir o caráter de um mercado de produtos culturais, circunstancialmente consumidos, formado por diversos nichos, dos quais se entra e sai cotidianamente, sem preocupação com coerência ideológica ou intelectual.
Reinventar a diáspora e o judaísmo
O desafio que o judaísmo irá enfrentar neste novo século é o da reconstrução de suas instituições de forma a adequá-las ao novo sentido que a diáspora assume num mundo globalizado, individualizante e organizado em torno de subculturas de consumo e da superposição de redes sociais mais variadas. Um desafio central para a diáspora judaica é construir uma nova identidade que não esteja fundada na perseguição e na vitimização. A identidade judaica é cada vez mais a expressão de uma escolha positiva, uma identidade étnica, em lugar de uma identidade estigmatizada. Ela é cada vez mais liberdade e menos destino. Caso o período atual de não perseguição se alongue, o judaísmo deverá se reconstruir, por
seus aspectos positivos no que tem a oferecer no presente, 10 o que implica igualmente a abertura para os casamentos mistos e para uma visão menos fechada e xenófoba em relação ao goy (não judeu).
A consolidação do Estado de Israel igualmente passará pelo reconhecimento de que um povo diaspórico constrói uma nação de diásporas, o que exige enfrentar o problema das relações entre democracia e direitos culturais das minorias. No momento o Estado de Israel não assegura plenamente os direitos ao desenvolvimento e prática da livre consciência. Ele dá o monopólio na área de direito civil a uma única corrente dentro do judaísmo, excluindo outras
correntes religiosas judaicas e os judeus (e árabes) seculares.11
A nova condição do século XXI, do fim da história como espaço
onde se constrói o sentido da vida ou, nas palavras de Gauchet,12 de fim das ideologias seculares sobre o sentido da história, obriga a um redirecionamento do judaísmo secular e das correntes religiosas orientadas pelas ideologias modernas. A revalorização da Cabala e do judaísmo místico em geral indica uma transformação do mercado de produtos judaicos, que tem inclusive apelo para um público amplo, não judeu, de consumidores de produtos esotéricos.
O atual auge do judaísmo ortodoxo reflete – mais que o mérito próprio, embora este não possa ser negligenciado – a profunda crise do judaísmo humanista secular e as transformações geracionais do povo judeu. A busca de raízes e de tradições por parte de uma geração que perdeu qualquer referência existencial mais profunda com a tradição judaica faz parecer autêntico aquilo que tem uma aparência externa de “diferente”. Assim, falar iídiche (uma língua derivada do alemão), porém sem cultivar sua rica cultura literária, pois de conteúdo secular, e vestir-se à moda antiga da Europa oriental (inclusive no quente clima israelense), impressiona como sendo “verdadeiro”.
A orfandade intelectual das instituições fica dramatizada pelo abandono por parte da maioria dos intelectuais judeus da vida comunitária, deixando esta em geral nas mãos de pessoas, ainda que bem-intencionadas, geralmente culturalmente conservadoras e dependentes de doações de empresários cujos valores (por opção, temor ou ignorância) não são muitas vezes os de renovação do judaísmo.
Mas a crise do judaísmo é antes de tudo interna. As ideologias em torno das quais ele se construiu ruíram, seja pelo sucesso, no caso do sionismo, seja pela história, no caso do socialismo. No centro dessa crise está a ausência de uma utopia solidária, coletiva, que repense o sentido da história, capaz de produzir uma versão renovada da mensagem profética. Não sabemos como e quando esta nova mensagem será (se é que será) elaborada, mas, em caso afirmativo, deverá ajudar a viver num mundo onde seremos todos, judeus e não judeus, diaspóricos.
1 Este artigo é uma versão modificada, atualizada e corrigida, de conferência apresentada em Bruxelas no colóquio “Le Judaïsme au pluriel dans la cité”, 12-14 nov 1999, e de trabalho publicado em B. Sorj e M. Grin, Judaísmo e modernidade.
2 Cf. D. Feuerwerker, L’Émancipation des Juifs en France.
3 Para um síntese a história sociopolítica do povo judeu nos tempos modernos, cf. S. Ettinger, Toldot Am Israel Vaet Hachadasha.
4 Passando a ser judeus – alemães, franceses, etc. – de “fé mosaica”.
5 Os debates sobre autonomia cultural foram praticamente esquecidos, embora hoje tenham sido retomados e reconhecidos pelos países da União Europeia.
6 Consultar o interessantíssimo livro de M. Harris Jay, How Do We Know This – Midrash and the Fragmentation of Modern Judaism, onde mostra as complexas negociações e os malabarismos – em cada geração de rabinos, até os tempos modernos – usados para dar sustentação nos textos bíblicos a práticas originadas na vida social.
7 O caráter de assimilação/reelaboração do judaísmo é apresentado de forma brilhante por Martin Buber, em Moïse. A interação entre povo judeu e seu contexto, cf. S. Baron, A Social and Religious History of the Jews.
8 Paradoxalmente quanto mais os antissemitas afirmavam a diferença, mais os judeus procuravam negá-la, gerando assim uma dialética perversa na qual o judeu se afirmava autonegando-se e o antissemita negava o judaísmo afirmando sua especificidade.
9 Não no sentido de absorver elementos do meio circundante – o que sempre aconteceu –, mas no sentido de um esforço para ser assimilado, digerido e aceito pelos outros como igual. Cf. Z. Bauman, “Exit visas and entry tickets: paradoxes of Jewish assimilation”.
10 Cf. B. Sorj, “A dialética do Holocausto”. Sobre os dilemas de auto-organização política do judaísmo e suas relações com Israel, consultar o excelente trabalho de D. Biale, Power and Powerlessness in Jewish History.
11 Sobre a pós-modernidade, cf. Z. Bauman, Intimations with Postmodernity, e D. Harvey, The Condition of Postmodernity.
1 Este artigo é uma versão modificada, ampliada e corrigida de texto publicado na revisa Pardes, número 0, 2000.
2 Que as diásporas constituem redes de alavancagem social e econômica aparece claramente em toda a literatura de estudos socioeconômicos. Um interessante estudo de caso é apresentado por T. Faist, “International migration and transnational social spaces”.
3 D. Biale, M. Galchinsky e S. Heschel, Insider/Outsider: American Jews and Multiculturalism.
4 Cf. Ch. Greenber, “Pluralism and its discontents”, em D. Biale, M. Galchinsky e S. Heschel, op. cit., onde mostra como para os judeus a America com suas instituições deu certo, e para os negros não. E também M. Galchinsky, “Scattered seeds: a dialogue of diásporas”, no mesmo livro, p. 201.
5 A única área onde o pós-modernismo e judaísmo convergiram fortemente foi o feminismo, pois, se as mulheres judias permaneceram oprimidas e excluídas dentro da prática cultural judaica, socialmente foram em parte beneficiadas pelas políticas de affirmative action a favor das mulheres.
6 “Após a II Guerra Mundial os judeus... não eram mais uma minoria que definisse o discurso central da cultura majoritária”. D. Biale, “The melting pot and beyond”, in D. Biale et al., op. cit., p. 27. Paradoxalmente, é através do Holocausto, um fenômeno europeu, que os judeus norte-americanos conseguem se manter como a minoria escolhida.
7 Embora existam certos esforços isolados nesse sentido. Cf. L. J. Silverstein e R. L. Cohn (orgs.), The Other in Jewish and History, e S. Kepnes, Interpreting Judaism in a Postmodern Age.
8 A imposição do hebraico, mais que um retorno saudosista à língua bíblica, foi o principal mecanismo de aglutinação e reconstrução de uma nova cultura nacional. No início da colonização sionista existiam outros candidatos à língua nacional, particularmente o iídiche e o alemão.
9 Um caso significativo é a última leva de emigração judaica da ex-União Soviética: em Israel fazem questão de proteger e manter a língua e cultura russas. Ou dos falashim, que estão começando a integrar componentes da cultura afro-black norte-americana.
10 “... os judeus no final do século XX estão rapidamente se tornando... uma comunidade de escolha”, D. Biale, op. cit., p.31.
11 Cf. o número 3 do vol.21 (maio 1998) de Ethnic and Racial Studies, dedicado à análise da sociedade israelense,e G. Flint e Bila Sorj, Terra em transe – Israel, democracia ou teocracia?.
12 M. Gauchet, La religion dans la démocratie.