Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Estudos judaicos no Brasil

A frágil comunidade judaica brasileira ficou totalmente exposta à colonização pelas tendências ideológicas e institucionais provenientes de Israel e dos Estados Unidos. As novas tendências de globalização cultural das classes médias – na qual os judeus estão majoritariamente inseridos –, diluem ainda mais as chances de desenvolvimento de uma tradição cultural judaica brasileira. Assim, embora exista claramente uma identidade nacional judaico-brasileira, isto é, judeus que se identificam com a cultura nacional e possuem uma forma judaica de serem brasileiros – e uma forma brasileira de serem judeus –, em geral ela não tem impacto nas expressões culturais ou institucionais centradas no judaísmo.

Isso obviamente não implica que a comunidade judaica tenha mimetizado a frágil sociedade civil brasileira. Ela manteve e consolidou um sistema institucional que dá continuidade às suas tradições de valorização do ensino judaico, de solidariedade comunal e de apoio ao Estado de Israel.

 

Estudos judaicos no Brasil

Nas últimas décadas, a agenda das ciências sociais no Brasil deu pouco peso ao estudo do racismo ou das etnias de imigrantes que constituem a sociedade brasileira. Só recentemente o tema do racismo foi introduzido no debate acadêmico com certa força. A explicação para esse fato reside sobretudo nos fatores mencionados anteriormente: uma cultura nacional pouco disposta a valorizar a diferença e que renega o racismo explícito.

Outros fatores colaboraram para consolidar essa falta de preocupação. Na vida acadêmica, os estudos étnicos geralmente contam com apoios de financiamentos ou são feitos em função dos interesses dos próprios integrantes das etnias ou dos poderes públicos que lidam com conflitos étnicos. Como temos visto, no contexto brasileiro a autorreflexão diferenciadora não é particularmente valorizada, nem as elites “étnicas” se predispõem a atos de generosidade que incentivem esse tipo de trabalho. O Estado, até recentemente, não tinha nenhuma preocupação com a problemática étnica ou do racismo. Os próprios cientistas sociais, de diferentes origens étnicas, identificam-se por sua vez com uma agenda de pesquisa que prioriza os problemas sociais associados a classe, e recentemente a gênero, e para a qual praticamente não existe espaço para outros tipo de recorte.

Assim, essa agenda mostrou muito pouca sensibilidade para com as dimensões étnicas da vida social. As preocupações teóricas no Brasil, assim como no restante da América Latina, se orientaram amplamente pelo esquema conceitual marxista, pouco preparado para tratar o que Benedict Anderson denomina “comunidades imaginárias” fora da classe social e da nação. O próprio marco normativo, centrado nas dimensões de dominação e exploração e procurando desenvolver projetos nacionais, valorizou análises voltadas para as classes sociais e a unificação da nação em torno de um projeto comum. Assim, o tema da cultura e identidade aparece quase sempre ligado a preocupações com a “cultura popular” e um projeto nacional.

Os estudos sobre os judeus no Brasil contemporâneo são, portanto, poucos e esparsos. Inexistem centros de pesquisa, instituições ou publicações que possam ser considerados como referência intelectual e geradores de debates ou linhas de reflexão.

Assim, na bibliografia existente, são raros os esforços autóctones de reflexão sobre a condição judaica no Brasil. Apesar dos inúmeros profissionais judeus nas diferentes áreas das ciências do homem, é quase inexistente o desenvolvimento de uma reflexão específica sobre os judeus e o judaísmo. Possivelmente isso indica o próprio sucesso da integração na sociedade brasileira, que não gera no intelectual judeu angústias específicas sobre sua condição.

Falta portanto uma reflexão, inclusive de caráter normativo, gerada pelos intelectuais da comunidade, sobre as especificidades do judaísmo no Brasil. Abandonadas em boa parte pelos intelectuais judeus, majoritariamente seculares e com pouca participação na vida da coletividade, as lideranças comunitárias encontram-se numa situação defensiva, apoiando-se em discursos defasados e materiais educativos “importados” de Israel, e em menor medida, dos Estados Unidos. Esse discurso centrado no tema do antissemitismo e da memória das perseguições sofridas pelo povo judeu leva muito pouco em consideração a experiência real do jovem judeu brasileiro.

Os estudos de generalização do judaísmo latino-americano realizados nos Estados Unidos e em Israel são bastante insensíveis às diferenças culturais e às especificidades brasileiras. Assim, por exemplo, a distância enorme que existe entre a vida judaica na Argentina, onde o antissemitismo é uma experiência cotidiana, e a vivência dos judeus no Brasil não é suficientemente analisada.

Uma das características específicas da formação histórica da identidade nacional das elites brasileiras a diferencia dos outros países latino-americanos: o Estado nacional não se constitui em guerras de independência através de uma confrontação armada entre suas elites e de um rompimento com o país colonizador. No Brasil não houve rompimento via guerra de independência, tendo havido desde o início uma escolha pela continuidade e renovação da Europa no Novo Mundo. Assim, a formação da ideologia do Estado nacional no Brasil foi um processo lento de afirmação das características próprias, enquanto na América hispânica a guerra contra a Espanha obrigou desde o início a que se criasse uma ideologia de afirmação do nacional pela negação da potência colonizadora.

Assim, enquanto no Brasil as raízes lusitanas foram sempre reconhecidas, na América hispânica a formação da identidade nacional deu-se pelo rompimento com a potência colonial e a afirmação de símbolos pátrios centrados no poder do Estado. Dessa forma, enquanto a ideologia nacional no Brasil não problematiza as raízes “estrangeiras” e aceita a continuidade histórica, no restante da América Latina, a afirmação contra o estrangeiro passou a ser parte da própria definição da identidade nacional.

A inexistência de um Estado nacional no Brasil contemporâneo, com forte ideologia cívico-nacionalista, exigindo – seja pelo sistema escolar, seja via partidos políticos – lealdade unívoca do “povo”, fez com que a assimilação do judeu ao meio ambiente não tivesse sido vivida como uma questão de escolha entre a identificação com a “pátria” ou com a comunidade judaica. Fora da experiência comunista, onde a identificação com o Partido exigia romper com outros vínculos de lealdade coletiva, a assimilação dos judeus no Brasil não implicou em um esforço ativo de autonegação. A Argentina, em contrapartida, apresentou um quadro muito diferente. Ali, as classes dominantes e mal integradas à cultura nacional, a mobilização protofascista das classes dominadas, o papel do catolicismo tradicional, a integração/normatização da ideologia cívica com forte componente “patriótico” – tudo isso gerou uma sociedade permeada pelo antissemitismo e que mobilizou em forma constante o problema da “dupla lealdade”. O antissemitismo ativo da ditadura militar argentina no fim dos anos 70 e início dos 80 levou essa tendência ao extremo e ao homicídio de militantes pelo fato de serem judeus. As forças de rejeição, da xenofobia e do antissemitismo geraram por sua vez, na Argentina, uma comunidade mais ativa, reflexiva, e uma integração maior entre parte da elite intelectual judaica com sua comunidade, apesar da crescente perda de densidade demográfica e cultural.

Cada cultura estabelece um equilíbrio particular entre o peso e a significação que tributam ao presente, ao passado e ao futuro. Em certos casos, como na Europa, na Argentina e no Uruguai, a valorização do passado como período de um esplendor que dificilmente voltará faz com que o presente seja visto como um período de decadência e o futuro como prenúncio de novas incertezas. Na cultura americana, o passado, não muito distante, oferece um sistema de valores e imagens de autoconfiança que permite transformar o presente numa plataforma para um futuro repleto de oportunidades e sonhos de autorrealização. No Brasil, a confiança no presente se alicerça no esquecimento do passado.