Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Tach’lis, na prática

O processo de dificultar as conversões, assumindo aspectos cada vez mais rígidos, é bastante moderno. No século XVII, os conselhos judaicos da Lituânia e da Morávia impuseram severas penalidades para o ato de proselitismo e para guarida oferecida a conversos. A razão para tal deriva de fatores externos e internos. O externo devia-se a várias acusações, tanto na Lituânia como na Polônia, de que os judeus eram proselitistas. Não sabemos se estas eram falsas acusações ou se realmente representavam uma atitude da comunidade. No campo interno, por sua vez, o mundo moderno fez recrudescer o desejo por fronteiras nítidas e definidas entre os membros do grupo dos judeus e os outros. A ameaça trazida pela emancipação, pela assimilação e pela miscigenação acabaram por produzir exigências cada vez mais estritas no que diz respeito à conversão. Mais recentemente, a volatilidade com que os indivíduos cruzam as fronteiras de tradições e culturas adicionou suspeita ao processo de conversão ao judaísmo.

É interessante notar que essa atitude mais severa para com as conversões é de origem nitidamente ashkenazi. O mundo sefaradita até há poucas décadas agia de forma bastante pragmática para com a conversão, admitindo sua prática como uma necessidade intrínseca a um povo de “moradores e estrangeiros”, como se sentiam os judeus.

Tach’lis, na prática

A rigidez na conversão e o abandono de atitudes mais pragmáticas são nitidamente um reflexo de sentimentos de insegurança e falta de controle sobre os destinos do judaísmo. É interessante notar que a literatura rabínica trata a questão da conversão com toda a sua riqueza e “diversidade”. Não há a expectativa atual de uma fidelidade básica que seja absoluta. Fidelidades parciais eram também reconhecidas, o que demonstra grande interesse num tratamento mais pragmático. Vejamos os termos usados para distinguir as diversas atitudes dos conversos:

Guer Toshav (prosélito residente) – aquele que, para adquirir cidadania limitada na Palestina, renunciava à idolatria (Gitt. 57b)

Guer Sheker (prosélito insincero) – aquele que ocultava a preservação de costumes e crenças de sua fé de origem

Guer Tzedek (prosélito justo) – aquele que se convertia com conhecimento do judaísmo, com sinceridade e com compromisso

Guer G’erurim (um converso autorrealizado) – não formalmente admitido e convertido, mas que é recebido informalmente pela comunidade (Av. Zara 3b)

Guer Ariot (prosélito por medo) (Hull 3b) – aquele que é pressionado direta ou indiretamente para a conversão. O exemplo clássico são os “guerei Mordechai ve-Esther” – conversos de Esther (Esther VIII, 17)

Guer Chamolot (prosélito por sonho) – converso por conselho místico, por sonho ou por interpretador de sonhos (San. 85b)

Guerin To’in (prosélitos em erro) – conversos que não seguem os direcionamentos do judaísmo mesmo sem traí-los por outros preceitos (Iev. 25a)

Após mais de uma década atuando como um rabino que realiza conversões como uma forma de conviver com fenômenos inerentes à realidade dos judeus do Brasil, posso distinguir todos os diferentes grupos definidos pelos rabinos do passado. Há os que se convertem de forma plena e são exemplos para os próprios judeus de um judaísmo vivo e com valores intrínsecos que muitos desconhecem. Há os que são apenas “residentes”, que convivem bem com o judaísmo, mas sem demonstrar por ele interesse intelectual ou espiritual. São sinceros na sua adoção do judaísmo, criam seus filhos como judeus e acabam funcionando de forma semelhante à grande massa de judeus aculturados que, mesmo assim, preservam sua identidade e pertinência. Há os que se converteram por medo. Medo do cônjuge, ou da sogra, ou pressionados por seus próprios preconceitos (“a mulher deve seguir o marido”) ou pelo desejo de penetração em grupos sociais judaicos. Há cada vez mais os “prosélitos por sonho”, que fazem do misticismo um substituto para a falta de identidade própria. Há prosélitos mentirosos que manipulam o ato de conversão para a obtenção de favorecimentos afetivos e mesmo materiais. Há os conversos em “erro”, que, diferentes dos “residentes” que cumprem com práticas destituídas de paixão, não renegam o judaísmo, apesar de este ter pouca presença em sua vida.

Essa variedade de casos mostra algo interessante: há diferentes tipos de guer. Eles não são apenas a categoria dos “justos”, dos prosélitos absolutos, mas toda a gama que mencionamos acima. Até mesmo o guer sheker – o prosélito mentiroso e manipulador – é um guer. É óbvio que, se detectada a malícia, aqueles responsáveis pela conversão devem impedi-la. Mas é importante perceber que esses estilos de guer são conhecidos apenas depois do ato de conversão formal. Até então, todos os guerim terão que se apresentar como candidatos a guer tzedek (justos) ou no mínimo guer toshav (residentes). Esse fenômeno é parecido com a intervenção religiosa no casamento, por exemplo. Um casal pode estar se casando por amor e com plena consciência do significado de um casamento. Ou então sem amor, para angariar proveitos materiais, só para cumprir a vontade dos pais, apenas por querer uma casa afetiva que não tinha com os pais e assim por diante. Até que ponto o rabino deve interferir para que o casamento seja feito apenas entre um zug tzedek (um casal de justos)? Afinal, se a chupá é um compromisso nas esferas celestes, por que quereria um rabino envolver D’us numa situação que não fosse sempre “absoluta”, certa e incontestável? Sabem por quê? Porque não haveria casamentos.

É óbvio que em casos patéticos em que processos maliciosos sejam detectados por um rabino, este deve se envolver até o ponto de se negar a oficiar “tal casamento”. Recordo-me de um casal de “crianças”, ambos com 18 anos, que me procurou para realizar seu casamento. Tinham certeza do que queriam e tinham a bênção de seus pais. Na conversa com ambos fiquei impressionado com sua imaturidade e, de acordo com meus parâmetros, não deveriam se casar, pelo menos naquele momento. Ao questioná-los sobre vários aspectos, vi que estavam seguros de seu desejo. Por instantes saí de minha sala para refletir, pois estava confuso: qual era o meu papel? Seu desejo era genuíno por razões que eu julgava erradas. Mas quem era eu para querer controlar o futuro? Acaso o próprio erro não pode ser o caminho escolhido por alguém? Sabe-se lá qual a função que o erro (admitindo-se que eu tivesse razão) teria na vida dessas pessoas! Como diz um ditado judaico: “Nunca retire o fardo das costas de uma pessoa porque você não sabe a função que este pode ter. Ajude-a sim com o fardo, ajude-a a reconhecer que há outras maneiras de lidar com o fardo, mas não o remova por julgamento seu”.

Fiz esse casamento como faria o casamento de um casal no qual um dos cônjuges estivesse buscando vantagens materiais (casamento sheker – insincero), desde que dentro de minhas possibilidades tivesse feito tudo o que julgasse ético para advertir o outro cônjuge de uma possível malícia envolvida. Mas se este optasse por concretizar sua decisão, não me caberia outra atitude a não ser realizar o casamento.

E dessas uniões já surgiram muitas bênçãos, mesmo porque bênçãos não são produto de acertos momentâneos que determinam destinos, mas sim produtos da interação constante dos indivíduos com sua vida. A incerteza está presente em todas as certezas e não reconhecê-lo é querer impor-se ao futuro. Nossa responsabilidade inclui também compreender a partir de que ponto não somos responsáveis.

Retornando às conversões, acredito que é fundamental ter seriedade e compromisso nessa questão. Nossa congregação possui um processo de conversão extremamente exigente no que diz respeito a comprometimento de tempo, participação, doação, questionamento emocional, intelectual e espiritual. No entanto produzimos todos os tipos de guerim descritos acima. Repito, não os produzimos sem a exigência de ser guerei tzedek (justos), e muitos (uma quantidade gratificante) se tornam, mas também todos os demais tipos se revelam com o passar do tempo.

Há conversos justos que não produzirão uma continuidade judaica e há conversos mentirosos que nos trarão Rabi Akivas e Rabi Meirs. O problema não são os conversos, o problema são os judeus. Qual é o judaísmo em que os judeus acreditam e qual querem praticar? Somente este pode ser o judaísmo exigido daqueles que querem ser judeus. Alguns têm proposto uma conversão não religiosa, o que parece, à primeira vista, maravilhoso. Eu adoraria que todos os demais guerim que não fossem tzedek (justos), que não quisessem ser judeus observantes, se dirigissem a um cartório ou a um consulado que faria sua conversão civil. Mas, muito menos por uma questão de poder ou interesse rabínico, percebo que isto é um engodo.

Da mesma forma que acredito num casamento religioso não só para os observantes do judaísmo – mas vejo neste ato de casamento religioso uma forma em si de observância –, imagino o mesmo para as conversões. Acredito que o judaísmo não é apenas uma cidadania civil e que, em sua complexidade, contém as tradições, os rituais, o folclore e o misticismo. Não contemplar as conversões num ambiente que inclua tudo isto é abrir mão do que acredito.

O custo é o mais difícil que existe para um mortal: reconhecer que não se tem controle sob processos dessa ordem. Vou continuar a realizar conversões que tenham a qualidade de gerar guerei tzedek (conversos justos), mas vou produzir todo o tipo de guerim. Eu e todos os rabinos, sejam de que orientação forem. Mas se há custos, há benefícios também em não se controlar processos. E isto diz respeito às surpresas e às bênçãos inesperadas.

Não me considero proselitista nem para os não judeus e nem para os judeus. Na verdade não acredito no convencimento. Mas respeito o desejo e a intenção do outro, até prova em contrário. Enfim, acredito na dignidade de um judaísmo sem medo, sem segregação e receptivo.

Realmente a questão das conversões não deveria estar na agenda nem da ortodoxia nem dos judeus assimilados. Para os diferentes é difícil “produzir” diferentes. Para os que não precisam de qualquer convenção da linguagem e da liturgia, para iguais absolutos, é perda de tempo.

Mas para todos aqueles que se sentem como iguais e ao mesmo tempo identificados com costumes, práticas e tradições de uma cultura e de visão de mundo específicas, fronteiras sempre existirão. Não existirão como barreiras mas como forma e como especificidade. Para que existam fronteiras em nossos dias, é fundamental que elas sejam abertas. Como a pele que nos dá identidade e delimita o nosso corpo, sua porosidade é nada menos do que vital.