Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Judaísmo democrático

O judaísmo do século XX foi um judaísmo reformulado pelo socialismo e o nacionalismo – especialmente na Europa –, e pelo liberalismo – em particular na Alemanha e posteriormente nos Estados Unidos. Todas essas ideologias permitiram renovar e reconstituir as comunidades em suas orientações diante do mundo exterior e do próprio judaísmo. Essas soluções hoje mostram-se insuficientes e, no vazio do judaísmo secular, avançam o nacionalismo xenófobo e o fundamentalismo religioso.

O judaísmo secular reciclou inicialmente a mensagem messiânica, mas o aburguesamento das comunidades judaicas na segunda metade do século XX – inclusive em Israel – retraiu a força da esperança utópica ou a metamorfoseou num misticismo sem sentido social. A capacidade do judaísmo secular de reconstruir o espírito de utopia depende tanto do contexto interno das comunidades como de movimentos sociais renovadores na sociedade mais ampla, que, no momento, não estão claramente delineados.

Enquanto a humanidade não encaminhar novas utopias, o desafio para o judaísmo secular consiste em reconstruir o diálogo com a tradição judaica – inclusive e em particular com a tradição religiosa que aceita os valores da modernidade – para criar um judaísmo em que a comunidade seja uma ponte para o mundo, em que a identidade não seja uma forma de excluir, em que a tradição seja uma fonte de sabedoria e não de dogmas, em que o sionismo se mantenha fiel às suas origens e continue sendo uma ideologia política e não uma teologia. Nesse sentido, o judaísmo secular tem tudo a compartilhar com as tradições religiosas como a reformista e a conservadora. Menos deus.

O judaísmo secular talvez se diferencie também das tradições religiosas em seu reconhecimento explícito de que o judaísmo não detém o monopólio e tampouco constitui necessariamente a melhor fonte de respostas para muitos dos problemas e desafios deste novo milênio. As tendências renovadoras da religião judaica desde o século XIX fizeram um tour de force para traduzir a tradição nos valores da modernidade, para mostrar como o judaísmo pode ser moderno e a modernidade vivenciada em forma judaica. Esse esforço teve sentido no contexto das lutas culturais no seio da coletividade judaica, mas muitas vezes estenderam demais o judaísmo e pouco agregaram à sabedoria moderna. Quem sabe, pelo menos hoje em dia, ajudaria mais reconhecer que o judaísmo não possui respostas para todos os problemas e que, ao contrário, como uma tradição que se desenvolveu em outras épocas, contém muitos elementos que não se conjugam com uma perspectiva democrática e radicalmente humanista.

O renascimento do judaísmo secular exigirá um esforço enorme para superar o impacto cultural do Holocausto, não permitindo sua transformação num instrumento de empobrecimento do judaísmo, numa barreira que separe mundos, em que os interlocutores terminem sendo os carrascos e não os que tiveram a vida ceifada. A melhor forma de honrar os mortos, pelo menos para aqueles que não desejem construir um judaísmo fundado no medo e na perseguição, não é tanto procurar as razões do Holocausto, por maiores que sejam os méritos que esse esforço intelectual signifique, mas resgatar e atualizar o mundo que foi destruído, com sua enorme riqueza de correntes e expressões intelectuais e artísticas.

Embora na defensiva, o judaísmo secular tem para mobilizar, além de um enorme capital histórico e cultural, uma tradição de participação nos grandes desafios políticos da humanidade, pelo ativismo e participação nas lutas pela justiça social e por um mundo mais solidário. Portanto, o diálogo entre o judaísmo religioso humanista e o secular se impõe para ambos: para o primeiro, no sentido de expandir seus horizontes e não ter seu olhar reduzido ao umbigo da vida comunitária ou a um misticismo individualista e narcisista; para o segundo, no sentido de restaurar o tecido que o liga às fontes da tradição judaica. Esse diálogo já existiu, de forma explícita ou implícita, tendo sido destruído pelo Holocausto e reprimido pelo comunismo. Quem ler hoje os grandes vultos do judaísmo secular – como, por exemplo, Chaim Zhidowsky ou Ahad Aam – ficará impressionado pelo conhecimento que possuíam da tradição religiosa, assim como hoje ficamos impressionados diante de jovens cuja religiosidade ortodoxa se constrói na ignorância de toda a tradição de solidariedade e luta por um mundo melhor que caracterizou o judaísmo moderno.