Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Sentados à mesa

Desde o tikun (a reparação) de Jacó, que retorna à casa de seu avô,portanto não dependendo de romper com sua cultura e raízes originais para encontrar seu lugar no mundo, recorremos ao mesmo chavão: não podemos deixar de estar sentados à mesma mesa. Por mais distinta que seja nossa visão de mundo, por mais particular que seja a terra prometida de cada um de nós, devemos estar sentados juntos à mesma mesa. Essa é a mensagem transcendente da Hagada (texto lido durante a refeição) de Pessach através dos quatro filhos que se sentam à mesa. É, na verdade, o pacto original que Deus faz com Abraão: tu, que abandonaste tua terra, tua cultura e tua parentela, terás uma prole numerosa como as estrelas do céu e eles não farão contigo o que fizeste com os teus ancestrais – serão diferentes e ousados, mas não terão que abandonar seu passado e sua herança.

Os quatro filhos distintos sentados à mesa de Pessach são figuras míticas fundamentais. Mais do que simplesmente sentados juntos eles têm uma função: perguntar. Quem pergunta, questiona. Sua qualificação de filhos no judaísmo está em assumir essa postura de questionadores. Esta é afinal a geração dos diferentes. Não são os netos que questionam. Quando isso acontece, não há mesa. Só filhos podem questionar e ainda sentar-se à mesa! Assim como o pai que chama seus filhos em seu leito de morte para exigir uma única fidelidade: que nunca deixem de falar um com o outro. Sentar-se à mesa é o pacto. Sobre a mesa está a história, as crenças, as utopias e as desavenças. É hora, antes de devorá-las, de questioná-las.

E quem são estes filhos?

O khakham, o educado que sabe questionar a partir dos meandros e linguagens da tradição; o tam, o puro que olha a mesa não pelo que está servido, mas pelas relações entre os que em torno dela estão sentados e perguntam sobre a mesa pela perspectiva das cadeiras ocupadas; o sheló iodea lishol, aquele que não compreende a linguagem da tradição e cuja pergunta crucial é “como perguntar sobre esta mesa?”; e, por último, o rasha, o desafiador que questiona como se estivesse fora da mesa formulando perguntas que abalam suas estruturas.

Esses personagens poderiam ser vistos como a própria caricatura de seus exageros, tão presentes no leque de personagens judaicos. O khakham que sabe perguntar pode se transformar no nudnik – no pedante; os puros ou ingênuos (tam) podem ser os filhos shlimazels e shlemils – os pobres coitados e os que-quase-dão-certo; os que não sabem perguntar se transformariam em shmendriks e shmeguegues – os broncos e os confusos; enquanto os desafiantes se tornariam chutspenilcs – os atrevidos e ofensivos. Este talvez seja o preço que se paga pelas intensas relações familiares que rotulam seus filhos e os deixam tão marcadamente prisioneiros de um único lugar à mesa. Suas patologias são ao mesmo tempo fonte de sofrimento e riqueza cultural. Mas esta é outra questão.

Gostaria de analisar a força dos filhos nos últimos 150 anos e que resultou, acredito eu, num dos períodos mais vibrantes do judaísmo em todos os tempos. Apenas mais um elemento para que possamos usufruir plenamente da riqueza simbólica: a divisão em quatro dimensões é própria do tecido do código simbólico dos rabinos (ver adiante). Como o mundo é composto de terra, água, fogo e ar, da mesma forma o ser humano é composto pelo físico, emocional, intelectual e espiritual.

Quem foram, portanto, os filhos que nos questionaram e que sentaram à mesa nos últimos 150 anos arguindo sobre o passado?

Em primeiro lugar, o filho representado pelo sionismo expressa a dimensão física e o khakham. Os sionistas questionavam a passividade da civilização judaica que descuidava de questões básicas de sobrevivência do corpo. Como podemos nos defender? Como podemos nos organizar de forma independente e soberana? Como parar de ser um povo que mendiga por cidadania? Suas perguntas, difíceis para os pais de então, resgatavam o verdadeiro sentido simbólico da noite de Seder como um marco de resistência ao domínio romano do início da Era Comum. Suas perguntas eram “eruditas” porque percebiam a realidade de forma concreta – há um único momento reverberante que se desdobra em saída do Egito, liberação de Israel da invasão romana e retorno dos judeus a uma pátria soberana judaica.

Em segundo, aparece a dimensão emocional. O tam, o ingênuo ou o afetivo, quer saber quem está sentado à mesa, que relações familiares nos colocam hoje um diante do outro nessa mesa específica. A proposta desse filho, nos últimos 150 anos, foi a psicanálise. Não apenas porque seus fundadores são de origem judaica e porque ela carrega questões marcadas pela perspectiva dessa cultura, mas principalmente porque ganhou o coração e a alma de 25% dos judeus. Ser judeu, para 1/4 dos filhos, assumiu o contorno destas perguntas e dessa perspectiva. O terapeuta que é rabino, a religião que é a estrutura e o senso comunitário desta classe, bem como o messianismo presente na expectativa de produzir um novo ser humano – são aspectos de ser judeu tam no último século e meio. Suas perguntas não só questionaram como produziram identidade.

Em terceiro, na esfera intelectual, surgiu o filho que não sabia fazer perguntas dentro da tradição. Nestes últimos 150 anos, ocupa esta cadeira o judeu acadêmico e cientista. Seja na figura de Einstein ou na desproporcionalidade de doutorandos e prêmios Nobel, a identidade de uma parcela dos judeus ficou por conta dessa expressão. O povo do Livro, o povo do estudo e da interpretação conseguia não só ajudar a classificar o universo, mas criar critérios para esse fim. Sabia estudar, mas, como Einstein demonstra, sabia também interpretar. Isso significa: sabia olhar tanto de fora para dentro como de dentro para fora. Para esses judeus, fazer parte das universidades e do mundo acadêmico representou uma forma real de identidade judaica: dava-lhes o direito de sentar à mesa mesmo que não soubessem muito bem o que perguntar. Suas mentes estavam voltadas para além da mesa, mas sua força e vitalidade provinham de estar sentados a sua volta.

Em quarto, na esfera espiritual: uma revelação. O mau filho, o desafiador (rasha), aquele que se coloca como se estivesse a ponto de sair da mesa, é o grande promotor de perguntas espirituais. Ao contrário do que pareceria – que o filho sábio e que sabe fazer perguntas fosse o grande instigador de perguntas espirituais – tal papel cabe ao desafiador. E quem foi este filho nos últimos 150 anos? Foi a esquerda através do socialismo e do comunismo. Não se trata apenas de querer enxergar Marx pela descendência judaica, ou mesmo pela figura profética e messiânica que ele ocupa no imaginário de seus contemporâneos, mas pela inequívoca adesão de massas de judeus às suas propostas. Os filhos faziam perguntas que abalavam a estrutura da mesa e um bom 1/4 deles se bandeou para a dimensão do rasha. Para estes filhos a identidade judaica se processava por fazer perguntas desde essa cadeira. Sua espiritualidade estava em querer santificar o ser humano, fosse quem fosse. Santificá-lo pela valorização do direito e não por mérito de qualquer ordem.

Que mesa rica! Que perguntas se faziam aos pais!

Eram diferentes, verdadeiros filhos. E nenhum saiu da mesa. E por incrível que pareça, a mesa, com todos os desconfortos pertinentes a essa diversidade, acolheu seus filhos. Dessa relação surgiram os netos de hoje que lotam sinagogas e resgatam seu retorno pela casa dos avós. A lição, me parece, é que, sim, valeu a pena conviver com a diferença. Valeu a pena estar sentado ao redor de mesas com filhos tão estranhos, com perguntas tão aparentemente alheias a uma boa mesa de Seder.

Esta é a crise de hoje. O sionismo cumpriu seus papéis e desaparece como uma proposta questionadora à mesa. A psicanálise se dissolve como parte de nossa cultura abrangente. A academia perde força num mundo que não se percebe iluminista e para o qual o pensamento e a eficácia se confundem. O socialismo, por sua vez, não é mais uma identidade, mas um aspecto do pragmatismo reinante em nosso século.

Nossas mesas estão repletas de netos. São eles que cantam o “ma nishtana” (“o que mudou?”, trecho da Hagada de Pessach). Os filhos não sabem cantar. Os filhos não sabem perguntar por que não são diferentes. Um marasmo reacionário toma conta de nossas mesas e delas não se produz a seiva de nossa continuidade – os questionamentos. Esta é a grande crise do judaísmo em nosso século XXI. Quais serão as formas de ser diferente neste nosso tempo? E se formos diferentes, será que traremos nossas questões à mesa? Será que o conceito de mesa hoje dispõe de tolerância para que todos se sentem juntos?

Não estamos conseguindo produzir filhos, de qualquer estilo. E quem não produz filhos não compactua do pacto. Pacto de fazer com que Abraão tenha filhos.

É verdade que não é fácil para Abraão produzir filhos. Ele mesmo os expulsa como fez com Ismael e como quase fez com Isaque ao levá-lo ao sacrifício. Talvez agisse pela ansiedade de saber que seus filhos, para serem verdadeiros filhos, teriam que ser diferentes dele e não acreditar que o pudessem ser se permanecessem a seu lado. Seus dois quereres – um diferente e uma continuidade – só se fundiriam num processo que ainda não conhecia e que faria de seu neto um igual – um Israel.

Com suas limitações e sofrimentos Abraão realizou uma arte que nós também gostaríamos de realizar. Não se trata das figuras dos gráficos de “evolução da continuidade” apresentados pela ortodoxia. Aquela pirâmide de iguais, quantitativamente eficaz, é duplamente curiosa: não produz judeus e é tão absurdamente pós-moderna que o triunfo fica apenas por conta do resultado e da eficácia, e não da qualidade.

Reforçar os alicerces da mesa me parece o segredo. Em primeiro lugar está o alicerce de querermos estar sentados à mesma mesa por mais que as perguntas sejam insuportavelmente desestruturantes. Em segundo, está a confiança nos diferentes, dos filhos e daqueles que têm boas perguntas, de que possuem um lugar àquela mesa e de que serão respeitados desde a cadeira que escolherem. Em terceiro está o alicerce do neto em regozijo que vê pais e avós juntos numa mesma mesa. Juntos eles são raízes e desafios, passado e futuro. Juntos eles celebram uma utopia de transcendência.