Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Genoma e a Bíblia
O conhecimento verdadeiro é aquele que produz entendimento do que compreendemos e também daquilo que não compreendemos. Vamos rezar para que esse novo mapa “de terras nunca d’antes navegadas” nos traga os benefícios do saber e a humildade de um saber que melhor avalie e aprofunde o conhecimento de sua ignorância.
Genoma e a Bíblia
As revelações do genoma humano resgatam uma sensação infantil. Quem de nós não ficou impressionado ao ver seu primeiro raio x revelar um esqueleto frágil repleto de dobradiças? Salas de médicos que continham desenhos da anatomia humana – veias, músculo e órgãos – irão gradativamente fechar o foco e substituí-las por essas estruturas helicoidais com plásticas futurísticas, como as representações mais fiéis de quem somos. Por um lado estamos nos vendo menos como o produto de válvulas e transistores e mais como estruturas de chips e bites, além de nos sentirmos mais resgatados como entidades sofisticadas. Por outro, estamos chocados em saber que ratos e baratas que semestralmente aniquilamos em dedetizações são parentes estruturais bem mais próximos do que imaginávamos. Olhando pelas lentes que nos explicam como trançados pós-modernos, ficamos todos parecidos. E isso é um choque não só existencial, mas também ideológico.
A estrutura de nossa sociedade é antropocêntrica e o “outro Livro da Vida” (a Bíblia) parece deixar isto bastante claro: “... e de todo o quadrúpede e ave dos céus e de todo o animal do campo o homem não achou companheira frente a ele”; “... e dominai sobre o peixe do mar e sobre a ave dos céus e a todo o animal que se arrasta pela terra!”. O Novo Testamento científico parece contradizer essa noção e parece levar ainda mais adiante a revolução darwiniana. Se nos descobrimos em comportamento e em história parte inseparável do mundo animal, agora nosso projeto estrutural é mostrado da mesma forma. Mas até que ponto isso tudo é surpreendente?
Acaso o prédio da NASA examinado com microscópio eletrônico não mostrará que é composto de silício e carbono, tal como uma oca aborígine é construída de argila e folhas? Não estaremos descobrindo algo semelhante ao fato de que o mundo vegetal e mineral, em sua diversidade espantosa, não é apenas a combinação de uma centena de diferentes elementos da tabela periódica que entre si tem diferenças elétricas e de massa apenas de ordem quantitativa? De que a água mole e solvente é em seu esqueleto massa-energia muito parecida ao ferro duro e insolvente?
Há, no entanto, para além da manipulação ideológica que quis nutrir-nos de legitimidade em nossa campanha de conquista sobre as outras espécies e sobre o planeta, um outro olhar que pouco ressaltamos. A Bíblia afirma o aspecto matriz de nossa espécie, deixando-nos uma plataforma antirracial, infelizmente pouco utilizada, ao apresentar Eva/Adão como pais de todos. De negros e brancos, de arianos e semitas, de gênios e retardados, de atletas campeões e portadores de deficiências. Mais, quis deixar claro que estruturalmente o homem foi formado do “pó da terra”, esse mesmo pó que hoje conhecemos sob esta multiplicidade de 30.000. Esse mesmo pó que é estrutura básica do ser que aparece há 600 milhões de anos como a Eva/Adão do barro que nos constitui.
O grande desafio não é ao antropocentrismo que, como ideologia, a ecologia já questiona sob a plataforma de nossa sobrevivência. O grande desafio é à banalização de nossa humanidade. Um desafio que é mais para a concepção científica do que para a religiosa. Isso porque para a ciência o barro e o que inspirou-se no humano – o que soprou-se sobre o pó – é uma mesma coisa. O desafio será o de termos uma ciência que nos tratará cada vez mais como imagem e semelhança de “ratos”, possibilitando toda uma percepção ética que só o tempo nos mostrará ser mais refinada ou não que o antropocentrismo.