Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Con-versões e fatos

Na Hagada de Pessach os rabinos exemplificaram, através de sua “tetralética”, quatro categorias de pertinência a um grupo. O filho que se sente parte da cultura e o filho que se sente fora da cultura são obviamente os polos. No centro estão os ignorantes – uma espécie de centro daqueles que se sentem parte da cultura – e os alienados – uma forma de centro daqueles que não se sentem parte da cultura.

O CAJU é o quinto filho. Externo à cultura, ele não pode ser categorizado como ignorante ou alienado, nem mesmo como aquele que a rejeita. Estes tempos novos exigem a coragem de entender que talvez o “externo”, o próprio caroço difícil de se engolir, seja talvez a maior iguaria. Que mais que o fruto, sua importância está naquilo que é externo e em seu poder de construir e reconstruir o que é interno.

Talvez a grande surpresa seja justamente essa: o que hoje é não comestível, intragável, pode ser a maior iguaria se tratado adequadamente. Como a cultura brasileira se faz conhecer mais pela castanha de caju do que pelo fruto, que a maioria desconhece ou jamais viu, não se assombrem se este for o novo paradigma: da “castanha” pode surgir no futuro muito da identidade de uma cultura que o fruto em si não produz.

 

Con-versões e fatos

A questão das conversões ao judaísmo, mais do que polêmica entre os diversos movimentos judaicos, revela importantes tendências da autoimagem dos judeus nos últimos séculos. A frequente desconfiança dos judeus quanto à sinceridade dos conversos se baseia em parte no temor da corrosão pela assimilação e em parte no temor da utilização do judaísmo para “interesses próprios”. Ambas as considerações são relatadas desde os primeiros textos rabínicos sobre o assunto. Há, no entanto, um terceiro elemento de caráter bastante subjetivo e que é uma fresh mutation, um desenvolvimento moderno da questão.

Diz respeito à evolução da ideia de que “ser judeu” é uma condição transmissível apenas pelo “sangue”. Para colocar em linguagem contextualizada, não estamos falando de uma carga genética, terminologia muito recente, mas de uma “alma” que retrocede até o Monte Sinai. Este pedigree espiritual consiste numa forma de racismo que se expressa pela crença não de um corpo diferenciado, mas de uma alma diferenciada. Mais popularmente, essa forma de teologia ocupa o imaginário como sendo “impossível para um não judeu entender o drama, a tragédia, a saga e a epopeia do judaísmo”. Só uma “alma” moldada pela experiência histórica e amamentada por um “lar judaico” consegue produzir o “ser judeu”.

Vamos fazer um passeio pelo conceito da “conversão” com o intuito de deixar exposta uma insegurança interna dos judeus que se manifesta externamente na questão da conversão. A possível falta de fidelidade do converso, sua capacidade de inocular o judaísmo de percepções errôneas, ou seu potencial de diluir algo que é puro – tudo isso revela a fragilidade da identidade judaica moderna. É insuportável para a grande massa de judeus não praticantes e absorvidos pela cidadania e pela globalização perceber que há pouca, quase nenhuma ou nenhuma diferença entre eles e os não judeus. Aumentar o valor do título para preservar a qualidade do clube, sem uma real benfeitoria no conteúdo e na qualidade do mesmo, é indicativo de decadência.

Aparentemente resolvidos estariam os extremos – a ortodoxia e os judeus plenamente assimilados. O primeiro assume ser “diferente” dos outros seja em sua missão histórica ou, sob forma mística, em sua função cósmica. O segundo assume ser “um igual” e, portanto, questões como a conversão ou convenções de pertencimento pouco importam.

No entanto, ambas as posturas apenas dissimulam uma resolução definitiva. A ortodoxia, primeiramente, vive seu drama particular tendo que adotar posturas cada vez mais radicais de diferença num mundo de iguais. Não só a televisão fala de iguais, mas a moral, a ética, a cultura, a arte, a ciência, os mitos e os misticismos. A ortodoxia usufrui dessa igualdade, depende dessa igualdade, faz uso dela e precisa, ao mesmo tempo, constantemente se reassegurar de que ela não existe. A vestimenta, as práticas e as ideias têm como função maior não tanto servir ao Criador, mas proteger o judeu. O segundo grupo, assume ares de resolvido para descobrir na primeira ou segunda geração que seus descendentes tornam-se confusos, não identificando em sua postura uma opção comunitária, mas uma desistência.

A palavra guer – converso – aparece no texto bíblico com o sentido de “estrangeiro”. Sua raiz de significado, “residir, habitar”, transmite uma sensação de transitoriedade. “Moradores temporários vocês foram no Egito” diz o texto bíblico gerando uma das mais fortes identificações judaicas – vocês foram estrangeiros, vocês foram moradores temporários sentados sobre suas malas e vocês foram “conversos” em meio a outros. Não há dúvida que a expressão contém uma dubiedade. Se o converso é alguém que abraça uma cultura e uma fé, por que designá-lo para sempre como um “estrangeiro”?

Essa ambiguidade aparece nos textos em afirmações como “o converso é recebido de braços abertos e é tratado como um judeu” (Lev. R. 2:9) ou em discussões tais como se pode servir como juiz ou não (“um prosélito só pode servir como juiz em casos civis, estando impedido de servir em casos criminais e, mesmo assim, apenas para outro prosélito” (Iev. 102a).

Em certos casos a questão é de sensibilidade à diferença. Marcar a realidade de unia origem e de uma família externa ao judaísmo também aparece em discussões do tipo: “Como deve um converso se dirigir aos ancestrais judaicos? Nas orações deveria o converso dizer ‘Nosso D’us e D’us dos seus antepassados’ ou ‘Nosso D’us e D’us de nossos antepassados’?”. A pergunta é legítima do ponto de vista objetivo. Dizer que é o D’us de seus antepassados (tomando obviamente “D’us” por uma forma específica de relação com D’us) seria uma mentira. No entanto, Maimônides percebe a malícia implícita nesta “verdade” e sentencia em carta a um amigo convertido (Rambam, Responsa 42– ed. Freiman): “Um converso deve dizer ‘Nosso D’us e D’us de nossos ancestrais’ ou ‘que nos escolheu’ ou ‘que nos deu’ ou ‘que nos fez herdar’, porque ao escolher se tornar um converso passou a ser um discípulo, um filho, de Abraão. Uma vez que se converte não há diferença entre mim e você..”.

Na verdade, nenhuma outra tradição é tão marcada pela ideia de conversão como a judaica. Seu fundador não é um profeta, um visionário que recebe importantes revelações, mas alguém que se associa a outro pacto diferente daquele de seus pais e de sua origem. Abraão é um personagem distinto de Moisés, de Buda, de Jesus ou mesmo de Maomé. Abraão é um converso que gradativamente converte também sua mulher e as mulheres de seu filho e de seus netos.

Não só a tradição traça a origem de importantes personalidades como Rabi Akiva, Rabi Meir, Shemaia e Avtalion até a conversão, mas os aponta como descendentes dos perversos Sancheriv, Sisera, Haman e Nero (Git. 56b). Isto demonstraria que a conversão é um ato de “nascimento” novo, independente do passado, seja do indivíduo ou de sua ancestralidade. Simbolicamente isto se expressa pelo fato de ser o Messias descendente de conversos. Ruth a moabita faz parte da linhagem direta do rei Davi, o qual por sua vez é ancestral do Messias. Em resumo, Abraão é um converso, Moisés é um judeu que retorna e casa-se com uma não judia, Rabi Akiva é descendente de conversos e o Messias idem. Não há dúvida alguma que nos traços que hoje identificamos como tipicamente judeus – peles claras, meninos sardentos, ruivos, caucasianos, olhos claros etc. – há presença de misturas exógenas basicamente em todas as famílias. Poucos povos podem retraçar tão diretamente sua origem até os guerim, estrangeiros, que passaram a morar, habitar, conviver e comportar-se com e como judeus.