Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

A ditadura do bom

Como vemos, não haveria nenhum julgamento no final de nossas vidas se não tivéssemos o hábito de passar tanto julgamento sobre os outros e se, em vez de temer fazer, temêssemos não fazer. Nós, portanto, somos os criadores dessa instância judiciária superior. Ela não existiria se não fosse por nossa própria censura e alienação.

É óbvio que a defensoria faz uso do mesmo recurso que a promotoria. Todas as vezes que não passamos julgamento, em situações semelhantes à que a promotoria arrola testemunhos contra nós, servem como atenuantes.

Mas se todo este quadro toma contornos de pesadelo e de sadismo, o pior ainda está por vir. Se somos réus, promotores e defesa, tudo ao mesmo tempo, pergunto: quem é o júri que determina a sentença?

A severidade de nosso próprio julgamento ultrapassa qualquer outra medida externa. Se alguém nos agride, podemos nos defender ou até mesmo correr para longe tentando nos preservar. Mas quando nós mesmos nos agredimos, trata-se de um ato supremo de violência, pois não temos como nos defender nem para onde fugir. Toda a noção de inferno é constituída da impossibilidade de se livrar da agressão constante, incessante e eterna.

Um dia do perdão serve para perdoar-nos a nós mesmos, mas isto não é feito sem um compromisso por um ano de mais ousadia em que faremos mais o que não faríamos e um ano de mais tolerância e carinho para com o mundo a nossa volta. E se não fizermos isso pela sensibilidade de que é a melhor maneira de vivermos com qualidade, que seja por terror de nos vermos envolvidos em litígios com nossa consciência.

 

A ditadura do bom

A ameaça que paira em nossos dias sobre o ser humano é tão grande para o “humano” como o é para o “ser”. No entanto, dedicamos maior atenção ao “ser” ameaçado pela poluição, superpopulação e pobreza do que ao “humano”, ameaçado pela indiferença e pelo desejo de controle e previsibilidade.

Um dos pilares da ética e do humanismo no Ocidente é a frase bíblica “ama teu próximo como a ti mesmo”. Central para o monoteísmo-ético judaico e fundadora para o cristianismo, destacada por Akiba e traduzida popularmente por Hilel como “não faça aos outros o que não queres que façam a ti”, esta frase é a origem do direito e das conquistas de cidadania que se consagraram intelectualmente no Ocidente.

Há um aspecto desta frase, entretanto, que me parece particularmente importante diante dos desafios de nossos tempos. Trata-se da possibilidade de se ler no hebraico original, em vez de “próximo” (lê-reecha), uma outra palavra de grafia idêntica e cujo significado é “ruim” (lê-raecha). A frase se leria então: “Ama o teu ruim como a ti mesmo”.

Aprender a amar o que há de “ruim” em nós como parte de nós mesmos não é uma apologia à complacência, à resignação ou à imperfeição. Perceber que a palavra “outro” (próximo) tem a mesma raiz que a palavra “ruim” é entender um pouco de nossa psique. O que é diferente é automaticamente visto como “ruim”. Amar verdadeiramente o “outro” é tão difícil e violento como se propuséssemos amar o “ruim” ou o imperfeito. O século XX conheceu bem a equação na qual o “outro” é igual ao “ruim”. O nazismo foi cirúrgico ao se ver ameaçado tanto pelo “outro” cultural – pelos judeus e ciganos – como pelo “outro” físico – pelos gays e portadores de deficiência. Erradicá-los significava iniciar uma nova era mais estética na qual não teríamos que amar o “outro”. Sem o “outro” – sem o “ruim” – o mundo seria melhor, mais ético e menos violento. Mas esta é a mais ignorante das ideologias – a ideologia da dominação. Ignora a natureza não só do ser humano, mas da própria vida. A vida carrega em si a mutação, a transformação de igual em diferente. A vida é em si diversa, ao passo que a morte é homogênea.

A mais recente versão dessa crença se expressa hoje no desenvolvimento de tecnologias de prevenção e controle do mal. O milênio da genética e do chip está propondo um novo ser humano, no qual a seleção não natural venha a determinar os seres vivos do futuro. O problema não é a erradicação dos males ou dos sofrimentos humanos, mas do próprio mal. O problema é o oculto desejo humano de se livrar do “outro”, que identifica sempre como “ruim”. A criação de uma ética para as novas conquistas genéticas que nos garanta “amar o nosso ruim como a nós mesmos” é prioritária no terceiro milênio.

Imaginemos o que teria acontecido se nossos ancestrais primatas dispusessem da tecnologia para evitar o diferente e o “outro”. Imaginemos se pudessem ter evitado o Homo sapiens como produto de algo que fosse identificado na época como um rompimento de padrões e um possível convite ao “mal”.

O mundo da excelência e da competição tem que resgatar seu amor ao diferente, ao exótico, ao feito à mão, ao individualizado, ao não perfeito, à surpresa, ao descontrole e ao imprevisível. O culto de nossa civilização tem-nos afastado de “amar nosso ruim como parte de nós mesmos”. Como poderemos tolerar os outros e amá-los, se não toleramos em nós o que é “outro”, o que é fora de padrão e de expectativas?

Não há identidade sem o outro, não há bom sem o ruim e não há bem sem o mal. Esta é a maneira com que o ser humano enxerga a tensão da vida. Qualquer tentativa de engenharia que vise extirpar o “outro-ruim” corre o risco de inventar um “bom” monstruoso que seja desagradável, horrendo e destrutivo. Com certeza o verbo dessa nova frase fundadora do futuro não seria mais o mesmo. Afinal, amar é o sentimento capaz de apreciar o diferente. Só poderemos integrar nosso “ruim” a nós se pudermos processá-lo através do sentimento de amor.

Num mundo só bom não há espaço para o humano. Entendermos isso é o grande desafio de nossa civilização. Mas sem dúvida exige coisas muito difíceis tal como amar ou acolher nosso “ruim”. Em nossa fraqueza está nossa grandeza. É isto que chamamos de consciência humana – uma terceira via entre a ingenuidade animal e a ignorância da dominação.