Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Crises
Portanto, quem é judeu, biblicamente falando? Todo aquele que tem um neto judeu. Na verdade quem dá identidade judaica é o neto a seus avós. Daí a angústia associada ao desejo de que o judaísmo não acabe: não está em nossas mãos de indivíduos nos fazermos judeus, mas nas mãos de nossos netos. Não é pouco impressionante o sentimento de fracasso e impotência que experimentam os avós cujos netos não são judeus. A tristeza desse acontecimento muitas vezes mobiliza netos a serem judeus não tanto para si, mas para salvar o judaísmo dos avós. É uma dinâmica de sobrevivência que entrelaça gerações na realização de algo que o indivíduo em si não é capaz de fazer. Esta é a angústia de muitos avós, ou pais que planejam ser avós: “Eu não posso realizar este meu projeto de ser judeu sem contar com você, meu filha” Os níveis de frustração podem ser superlativos.
Mas só os estatutos, só a Torá, ou só o mito, não seriam suficientes para comprovar esse ponto. É necessária a prova dos nove de qualquer mito: as piadas. Como a famosa que conta sobre um goy (um fora da família) que pergunta o que é mishpuche (família, em iídiche). Responde o judeu: “Você sabe o que é tsures (desgraça, tragédias)?” O não judeu responde negativamente e o judeu arremata: “Então você não pode entender o que é mishpuche”.
Sem entender o que é “desgraça” você não pode entender o que é “família”. Mas o que é “desgraça”? É aquilo que diz respeito ao que é prioritário e vital. Diz respeito à sobrevivência no seu sentido mais transcendente – que não tem a ver com o indivíduo, mas com sua continuidade. Esta identidade possui, portanto, características místicas. Trata-se da imortalidade não da alma, mas a imortalidade da identidade. A permanência não daquilo que inexoravelmente se vai, mas de uma visão de mundo, da obra, de cada um. Nossa obra-prima é um neto!
Crises
Não é de surpreender que em uma época de tantos desafios à família, o judaísmo esteja também tão ameaçado. Por um lado há a família no sentido biológico que enfrenta modificações consideráveis. A nova mitsvá universal – “crescei pouco e, por favor, não multiplicai” – transformou a família em núcleos pequenos. A entrada da mulher no mercado de trabalho está redefinindo as relações intrafamiliares. Há famílias com babás, outras com creches, outras com pai que é mãe, outras com avó que é mãe. A volatilidade do casamento trouxe famílias agregadas à família. A “mãe do meu irmão” ou a “mulher do meu pai” são expressões banais na linguagem familiar.
Há questões mais profundas, que dizem respeito às fronteiras da família. Numa época em que vemos uma tendência de troca de uma “identidade encontrada” por uma “identidade feita”, em lugar de sermos uma expressão de uma dada cultura, construímos nossa identidade a partir de várias culturas. Qual é a nossa família? A pátria brasileira, nosso grupo de meditação, a esquerda ou ser judeu? Não se trata de escolher: tudo é família. Mas essa família não tem uma metanarrativa. A metanarrativa é uma estória de proporções míticas, suficientemente grande e dotada de sentido – como para reunir a filosofia, política e a arte e relacionar umas às outras dando um sentido unificado de direção.
Percebo uma faceta de nossos tempos no fato de ter mais afinidade com certos padres e certos pastores do que certos rabinos. Mas que não se faça ironia. Essa proximidade nada tem a ver com o fato de ser eu parte de uma corrente liberal do judaísmo. É sincera e verdadeira também a afinidade entre rabinos ortodoxos e certos padres e certos pastores.
Essa transformação na metanarrativa é a causa maior de afastamento. O afastamento e o casamento misto só poderiam ser evitados se estivéssemos dispostos a abdicar do senso de nacionalidade, de nossa fidelidade a grupos de interesses afins e também de nossa identidade política. É só isso que nos pede um compromisso inequívoco com o judaísmo. Poucos quererão pagar esse preço.
Não quero dizer com isso que ser judeu signifique abrir mão dessas outras fidelidades e identidades. Mas, para isso, ser judeu implica adaptações: algumas delas contempladas pela própria dinâmica da tradição que sempre aceitou uma certa medida de conformação ao mundo externo, e também recursos de transformação mais drásticos para os quais também existem precedentes no decorrer da história.
Fico impressionado com o impacto que uma “tabela de assimilação” distribuída pela corrente ortodoxa tem sobre as pessoas. Refiro-me a gráficos mostrando os prognósticos para cada corrente do judaísmo após a passagem de uma primeira e segunda geração. Enquanto num extremo aparece a população ortodoxa estável ou em crescimento, os demais grupos se reduzem. O outro extremo, a Reforma, aparece como uma “espécie” dessas praticamente em extinção.
As pessoas acham que ao filiar-se a uma sinagoga ortodoxa passam automaticamente a entrar nessa nova taxa de baixo risco. Não! O que as tabelas demonstram é que aqueles que se segregam têm mais chance de permanecer distinguidos e diferentes. É um dado óbvio e superficial. Não é um benefício sem custos e a grande maioria dos judeus não gostaria de fazer parte desse grupo sobrevivente se para tal tivesse que compartilhar essa visão de mundo que os preserva.
Gostaria de analisar uma questão em particular desta complexa trama de desafios à família e indiretamente ao judaísmo. Trata-se não da sobrevivência do neto que se descobre um igual ao avô e fecha o ciclo da continuidade e também da identidade do avô, mas do filho(a) – um diferente em crise.
Não acho que o problema mais grave do século XXI esteja sendo a quebra do ciclo pelos netos, mas pelos filhos. Não é pelos iguais a crise mais séria, mas pelos diferentes. Mesmo porque vemos até uma renascença no que diz respeito a netos. Eles são o fenômeno dos jovens que fazem teshuva – que retornam desesperadamente em busca do lar dos avós fugindo do exílio da casa dos pais. A crise maior é a de ausência da referência dos diferentes. Tentarei explicar.