Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Liberação não é libertação

Parar não é interromper. Muitas vezes, continuar é uma interrupção. Mas isto nos parece difícil de entender. E assim o Sol não para de nascer e a semana de acabar. O mês passa rápido – menos que o salário – mas quando se viu o ano já passou. Do jeito que estamos, não tarda muito, o milênio já foi.

Shabat é pausa. O dia de não se trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente “tornar desatento”. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que se fazem as famílias no descanso – “o que vamos fazer hoje?” – é marcada por ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

O tempo, por não existir, faz mal a quem quer controlá-lo. Quem “ganha tempo”, por definição perde. Quem “mata tempo”, fere-se mortalmente. E este é o grande “radical livre” que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria, um artigo.

Em tempos de milênio temos que resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada.

A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que mesmo o Criador descansou? Talvez porque mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.

 

Liberação não é libertação

O Pessach, a Páscoa judaica, é acima de tudo uma lição do inacabado.

A celebração recordando a libertação dos escravos no Egito, na verdade, só consolidou seu significado quando em meio a um novo período de opressão cerca de mil anos depois. O processo reincidente de subjugação deixava claro que a escravidão não se extingue com a liberação. A escravidão não se extingue quando saímos dela, mas quando ela sai de nós. É por isso que, mesmo liberados, continuamos a fazer parte (ou estamos prontos a fazer) daqueles que escravizam. É por isso que, mais cedo ou mais tarde, tornamos a encontrar a opressão diante de nós.

Esta incômoda verdade está na nossa mesa. Pensamos que a liberdade e o respeito ao ser humano não existem por conta “deles”: dos torturadores, dos inquisidores, dos assassinos, dos ladrões, dos escravagistas, dos exploradores, dos mafiosos, dos corruptos, dos fascistas, dos terroristas e dos egoístas. Enfim estes seriam os inimigos: “Eles” e não “eu”. No entanto, tem se tornado cada vez mais difícil em nosso mundo identificar as forças externas que possam representar a fonte do “mal”. A falta de faraós está “democratizando” o mal, fazendo de cada um de nós um faraó preocupado em construir suas pirâmides. Vivemos num mundo unificado econômica e politicamente cujo sistema traz bem-estar para alguns enquanto aumenta a miséria de outros.

Em 1960, os 20% mais ricos do planeta detinham 70% da riqueza; hoje são 86%. Os 20% mais pobres tinham apenas 2,3%; hoje é menos de 1%. Na noite em que celebramos o jantar do Seder, centenas de milhões irão dormir com fome. à morte na África e no mundo, vítimas da alienação que se dissimula de “progresso”.

É interessante lembrar que o jantar do Pessach, o jantar da Última Ceia, não era um jantar de pessoas livres como queria simbolizar. Era um ato subversivo de pessoas novamente subjugadas com o objetivo de ocultar o óbvio – o que não poderia ser dito. O “não dito” era o ápice da celebração e por isso a noite de Pessach terminava com prisões e repressão, como aconteceu também com o judeu Jesus. O que não se podia falar naquela época e também nos dias de hoje, é que a crueldade não é destino e que a maneira como as coisas são não é a maneira como obrigatoriamente tem que ser. A libertação começa sempre com o reconhecimento de que há possibilidade de outras possibilidades.

Liberar-se é deixar de ser escravo; libertar-se é deixar de ser escravo e escravagista. Vivemos num mundo muito mais liberado, mas muito pouco libertado. E como diz um ditado iídiche: a maldição não é um telegrama, não chega assim tão rápido. E quanto mais liberados mas não libertos, maior a maldição. Trata-se da maldição de cairmos presa, todos, das relações de escravidão de um mundo não libertado sabendo e apreciando a vida de um liberado.

Como chegar então à liberdade? Como vencer o mais terrível de todos os grilhões – a porta fechada e a alienação?

Talvez seja necessário dar-nos conta de alguns interesses próprios que nos levem a não querer escravizar. Interesses “mesquinhos” através dos quais produzimos verdadeira liberdade.

Eu só posso ser livre se você for livre – Posso ser liberado sem que o outro seja, mas não posso ser livre. Martin Luther King brilhantemente apontou essa dependência ao despertar mutuamente brancos e negros dizendo: “O negro necessita do homem branco para libertar-se de seus medos; e o homem branco precisa do negro para libertar-se de sua culpa”. O que escraviza – medo e culpa – só pode ser libertado pelo outro. Qualquer outra tentativa trará mais medo e mais culpa.

A liberdade está menos naquilo que somos livres para fazer e mais naquilo que somos livres para não fazer – A liberdade é uma conquista interna e nunca um ajuste externo. Quando não fazemos o que queremos por opção com o mesmo prazer e convicção que fazemos o que queremos, então somos livres. Poderíamos dizer que liberado é aquele que faz o que quer. Livre é o que faz o que quer e o que não quer – liberto até mesmo da escravidão de seu querer.

O liberado teme a escravidão iminente porque vive num lugar estreito repleto de medos do outro, de seu verdadeiro self e de perda de controle. O liberto reconhece e assimila seu ódio, sua tristeza, sua frustração e sua inveja e aceita a si e aos outros como humanos. A paz se faz de libertos; o conflito, de liberados ou dos que buscam ser liberados.