Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Israel depois da guerra fria

Mas se o caminho da construção de instituições democráticas em Israel já é cheio de espinhos em função do conflito com o mundo árabe, também é verdade que a própria tradição diaspórica, que enriqueceu o judaísmo em tantas dimensões, não desenvolveu a arte de governar nem o espírito público moderno. Já nos anos 50, Ben Gurion se queixava da falta de mamlachtiut dos cidadãos de Israel, o que na linguagem da ciência política pode ser traduzido como falta de experiência de governance e de sensibilidade frente às exigências da governabilidade. Os judeus desenvolveram durante séculos uma cultura com forte componente comunitário e igualitário, mas na qual a distância entre o público e o privado é quase inexistente e a estratégia de sobrevivência frente ao mundo exterior (e, no caso de Israel, o mundo exterior são as diversas comunidades partidárias, correntes religiosas e étnicas judias, além das árabes) é fechar-se na defesa corporativa dos interesses particulares.

Israel depois da guerra fria

A guerra fria enquadrou, durante quatro décadas, as estratégias das elites dirigentes dos países árabes e de Israel. Não que ela tenha realmente congelado a História, mas definiu as possibilidades – ou um campo de possibilidades – sobre as quais os vários grupos dirigentes buscaram concretizar o que consideravam ser os interesses nacionais, aproveitando-se dos conflitos estratégicos das potências militares hegemônicas, Estados Unidos e União Soviética (e sendo por elas utilizados).

A lógica da guerra fria supunha uma luta por posições territoriais, particularmente adequada a um conflito como o árabe-israelense, em que a vitória de uns era vivida como sendo o aniquilamento do outro: o sonho de um lado era o pesadelo do outro.

O fim do comunismo, e por conseguinte da guerra fria, desorientou e inviabilizou as antigas estratégias. Enquanto durou a guerra fria boa parte das elites dirigentes de Israel (seja por uma visão ultranacionalista, seja por uma ideologia de segurança militar) considerou que seria possível anexar parte ou todos os territórios ocupados em 1967. Na medida em que a guerra fria era vista como um conflito sem fim, e que, portanto, a paz nunca chegaria, tratava-se de avançar os interesses e ganhos imediatos, colonizando os territórios ocupados. Com o fim da guerra fria essa política se mostrou contraproducente e extremamente cara, gerando uma fonte de instabilidade política para o conjunto da sociedade, as colônias e os colonos nos territórios ocupados em 1967.

Ambas as lógicas eram simétricas e antagônicas. O mundo árabe, por sua vez, julgou que, por meio da luta militar com apoio soviético, conseguiria eliminar Israel. O primeiro país árabe a fazer a paz com Israel, o Egito, foi também o primeiro a romper com a lógica da guerra fria, ou melhor, a modificar sua posição dentro dessa lógica, escolhendo uma aliança com os Estados Unidos e daí auferir todas as devidas consequências, custos e benefícios.

A Guerra do Golfo assinalou a nova realidade do fim do comunismo, mostrando as implicações do fim da guerra fria. A aventura de Saddam Hussein foi produto, entre outras coisas, da falta de visão da nova situação estratégica mundial. Depois da guerra, vários países do Golfo se aproximaram de Israel. Além disso, começaram as negociações entre o mundo árabe, primeiro em Madri, e depois, diretamente, entre palestinos e israelenses, em Oslo. Porém, enquanto os políticos mais pragmáticos e boa parte dos militares profissionais se adaptaram rapidamente à nova situação, as realidades ideológicas, culturais e sociais alimentadas durante décadas mostraram grande inércia. Como resultado, novas e velhas elites mobilizam apoios para propostas de confrontação mortal. Embora essas estratégias não mais se sustentem em realidades geopolíticas mundiais, não podem ser consideradas irrelevantes, como mostra o exemplo da Iugoslávia.

Os grupos dirigentes do mundo árabe e de Israel que buscam hoje uma solução negociada para o conflito devem conviver com os frutos que eles mesmos plantaram, protegeram ou nutriram – sonhos nacionalistas irredentistas e grupos religiosos fanáticos que geralmente têm como base de sustentação os grupos mais excluídos da sociedade.

Mais cedo ou mais tarde o Estado de Israel deverá devolver todos os territórios ocupados em 1967 e aceitar a divisão de Jerusalém – na verdade três cidades: uma árabe, outra judia e a antiga, um espaço universal. Mas como dizê-lo ao povo depois de décadas repetindo que Jerusalém é una e indivisível? E como informar aos palestinos que o preço de um Estado próprio inclui aceitar que os refugiados, pelo menos a grande maioria, não voltarão às suas terras e que seu destino e sua viabilidade passam pelo efetivo reconhecimento e aceitação de Israel?