Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
DEZ MANDAMENTOS PARA SER JUDEU NO SÉCULO XXI Nilton Bonder
Dez Mandamentos para ser judeu no
século XXI
Nilton Bonder
1. Eu sou teu D’us... que te tirou da casa da escravidão e da
dependência
Cuidado com o universalismo e o particularismo. Eu sou tudo,
mas não sou qualquer coisa; Eu sou único mas isso não
significa exclusividade. Tua escravidão, desde os dias de tua
infância, é definir posse e poder.
2. Não terás outros deuses... Não farás imagens e não te
curvarás a elas
Cuidado com o judaísmo da superstição e com o judaísmo
racional. Foge da superstição e da crendice, mas preserva a
sagrada fagulha de irracionalidade. Esta chama irracional
emana de duas fontes: nossa ancestralidade e nossa
linguagem comum.
Resiste ao consumismo e vive simplesmente. Nada preencherá
teu vazio. O consumo produz imagens, ilusões, que te
parecerão preenchê-lo, mas são apenas novas máscaras para
deuses de pau e pedra. O vazio é nosso lugar de encontro. Não
preciso de tua benevolência para o bem-estar do próximo, tua
simplicidade faz mais por esta causa do que tua caridade.
3. Não tomarás o nome de D’us em vão
Serás pluralista. Acreditar-te dono da verdade é um ato de
idolatria. A certeza absoluta sem o registro de vozes
dissonantes é a usurpação de meu nome e meu cedro.
Compreender não é concordar, mas saber que a compreensão
é um atributo imprescindível a quem não é perfeito.
4. Lembra o dia do Sábado, para mantê-lo sagrado...
Terás tempo para ser judeu. Não medites ou filosofes. Tempo
de ser judeu é tempo de família, tenha ela o formato que tiver,
tempo de comunidade e de encontros, e tempo de estar
consigo. Faz três coisas que são Shabat: estuda como judeu,
descansa como judeu e alimenta-te como judeu. Erotiza teu
judaísmo – ele é um(a) noivo(a) – um amante, em linguagem
mais atual. Reencontrar-se com ele(a) é o lugar dos lugares, o
tempo dos tempos.
5. Honra teu pai e tua mãe...
Serás igualitário. As divisões entre homens e mulheres ou
mesmo entre heterossexuais e homossexuais se modificaram
profundamente nos últimos tempos. Honra a ambos os polos
pois tu os tens dentro de ti. Sejam pai ou mãe, homem ou
mulher, afetos heterossexuais ou homossexuais. Todo este
universo emana dessa matriz mãe-pai que, já pela dificuldade
em honrar, dissimulamos na inversão pai-mãe.
6. Não matarás...
Não serás um eleito. A origem de todo assassinato está na
menos valia do outro. Podemos nos tornar cúmplices no
assassinato se evocamos para nós o lugar de vítima a ser
imolada. Não devemos tentar o Caim dentro do ser humano e
nem sequer nos surpreender que um irmão mate. Sê diferente
sem ter que ser o único diferente.
7. Não cometerás adultério
Não farás Teshuva – modificações drásticas de comportamento.
O Talmud desqualifica conversões daqueles que apresentam
mudanças bruscas de comportamento. Isso vale para o próprio
judaísmo. Esse tipo de conduta oculta compromissos que não
foram desfeitos, dissimulando um envolvimento total e irrestrito
com a nova forma de ser. Novos casamentos podem ser
necessários, mas requerem processos, demandam guitin
(divórcios). Cuidado com as respostas, elas tentam como o
adúltero. Ahavat Israel – o amor a Israel – se expressa ao
engendrar uma geração de chozrei be-She’ela – daqueles que
retornam mais pelas perguntas do que pelas respostas.
8. Não roubarás...
Permitirás voto ao passado e não veto. Não podemos roubar do
passado pois já tem posse irrevogável. Não podemos roubar do
futuro pois não possui nada. O único alvo de roubo é o
presente. Tanto a autoridade do passado como as demandas
do futuro têm direito a voto. Dar-lhes o poder de veto, no
entanto, é roubar do presente o que lhe é mais fundamental –
ser o determinante do caminho. A legitimidade maior da
Halachá – da interpretação da lei – provém do critério de se é
ou não produto do presente.
9. Não levantarás falso testemunho contra teu vizinho
Não terás dúvida da judeidade de outro judeu. Judeu é todo
aquele que sendo ou querendo ser judeu se submete aos
critérios de uma dada comunidade judaica para ser dela
integrante. Quando Maimônides codificou há-kol le-fi min’hag
há-medina – seguimos sempre o costume local –, queria lidar
com a diversidade litúrgica e de costumes de um judaísmo sem
poder centralizado e sem uma padronização excessiva. A
confiança é essencial em estruturas não hierárquicas.
10. Não cobiçarás a casa.., a mulher ou qualquer coisa de teu
vizinho
Nosso sofrimento não nos dá direito a nada. O que o judeu
cobiça de seu vizinho é reconhecimento e aceitação. Espera
isto como uma consideração a seu sofrimento vivido no
passado. Mas o sofrimento só impõe deveres, e não direitos.
Que não se esperem compensações e que não se confunda o
sofrimento como parte de nossos méritos. A sensação de que
temos dossiês de reivindicações e culpados a apontar, além de
reduzir nossa criatividade, destitui o presente de soberania e
outorga ao passado uma autoridade exacerbada que muitas
vezes se manifesta em vetos.
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