Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Do Holocausto ao Estado de Israel

Ao mesmo tempo que expressava a variedade de experiências nacionais e sociais da passagem do mundo tradicional para o mundo moderno, o judaísmo moderno era “global” e se alimentava de um diálogo interno interfronteiras. Assim, se por um lado o judaísmo russo, alemão, francês, austríaco, polonês, procurava absorver e integrar as diferentes correntes de ideias geradas em cada comunidade pela tumultuada convivência com a modernidade, por outro a heterogeneidade social do povo judeu alimentava afinidades e confrontos internos e externos, que eram reelaborados em escala continental.

No âmbito político-cultural, o judaísmo moderno pode ser subdividido em duas grandes correntes: a religiosa e a nacionalista, ambas pretendendo integrar o judaísmo à vida social e política moderna. Porém, enquanto os movimentos de renovação religiosa continuaram a tomar como referência a tradição e a autoridade rabínica – embora buscando relaxar as exigências e disciplina–, o judaísmo nacionalista imaginou uma nova cultura judaica, secular, apoiada em elites dirigentes não religiosas. Enquanto os movimentos de renovação religiosa tinham, em geral, uma coloração liberal, o movimento nacionalista era, majoritariamente, socialista.

Do Holocausto ao Estado de Israel

Para os judeus, no início do século XX, a fragilidade dos valores humanistas e a incerteza da vida moderna refletida na confrontação com o antissemitismo, real ou potencial, geraram inicialmente uma

vontade ainda maior de imitação, de ser “igual” para ser aceito. 9 A dinâmica efetiva da sociedade moderna, em sua versão capitalista ou comunista, mostrou que a ideologia da igualdade, liberdade e fraternidade podia ser rapidamente negada por forças políticas capazes de mobilizar sentimentos xenófobos e o terrorismo de Estado, com amplo apoio social.

O Holocausto acabou com as esperanças e desejos de integração total, que se mostraram não só ilusórios como trágicos. O Estado moderno, nos quais os judeus se apoiaram e se escudaram para alcançar a igualdade, transformou-se em seu carrasco. O judaísmo pós-Holocausto, ainda que mantenha como parâmetro os valores iluministas da modernidade, não pode deixar de estar consciente de que tais valores podem ser suspensos a qualquer momento e que a vontade igualitária não elimina a possibilidade da discriminação e estigmatização.

Não existindo a perspectiva de um retorno à vida comunal, o judeu pós-Holocausto vive como um ser dividido entre a identificação com o conjunto da sociedade e a consciência de poder ser cassado a qualquer momento em seus “privilégios”, entre a vontade de integração e participação social e a consciência de que sua sobrevivência depende de sua capacidade de autodefesa.

O Holocausto destruiu parte da base social e diversos dos argumentos dos judaísmos modernos – assim como, para muitos, a possibilidade e os fundamentos de uma crença em D’us. Ele levou à criação e à identificação do povo judeu com o Estado de Israel, propiciando ao sionismo a completa hegemonia sobre o povo

judeu. 10 É difícil transmitir a intensidade e variedade de significados que a criação do Estado de Israel representou para uma geração de judeus recém-saídos do Holocausto. A recuperação da autoconfiança e da dignidade, a valorização da coragem e do trabalho, o “retorno à natureza” e a capacidade de autodefesa significaram uma revolução na autopercepção dos judeus, sem a qual a sobrevivência ao trauma do Holocausto seria difícil de ser imaginada.

Se a importância do Estado de Israel é central na consciência judaica contemporânea, suas limitações no sentido de renovar a cultura judaica são cada vez mais aparentes.

O sionismo e os primeiros colonos fizeram um esforço descomunal para recriar uma cultura judaica em novas bases, seculares, desconhecendo praticamente os dois mil anos de exílio – ao apresentá-lo como um período puramente negativo de perseguições e humilhações –, e enfatizando a história bíblica até o período do Segundo Templo e as dimensões do ciclo natural e agropastoril das festividades religiosas. A estes aspectos acrescentou-se, após o Holocausto, a ênfase em Israel como último baluarte contra o antissemitismo e garantia da segurança física dos judeus, aspecto que, paradoxalmente, foi reforçado pelo conflito com o mundo árabe.

Os fatos que restringiram a transformação de Israel em centro hegemônico da cultura judaica são múltiplos. Porém, antes de analisá-los, indicaremos as marcas mais importantes deixadas pelo Estado de Israel na vida judaica contemporânea. Em primeiro lugar, como já mencionamos, a mudança na autoimagem do judeu. Em segundo lugar, a recriação da língua hebraica como nova língua franca do povo judeu – pois embora tenha havido, durante décadas, uma política sionista de substituir o iídiche pelo hebraico, o iídiche esvaziou-se no Novo Mundo, por causas naturais, tendo sido, na Europa oriental, destruído pelo Holocausto e pelo stalinismo. O hebraico, sem chegar a ter na diáspora um uso comparável ao do iídiche ou do ladino, transformou-se na base de um léxico comum para os judeus do mundo todo. Junto com a língua, Israel renovou a vida artística do povo judeu, em particular a música e a literatura. Os novos centros acadêmicos geraram uma nova produção sobre o judaísmo, renovando a pesquisa histórica sobre o período bíblico e do Segundo Templo.

Embora identificada com o destino de Israel, a maioria dos judeus permaneceu na diáspora, num contexto de ascensão social e participação na cultura global. O sionismo, ainda que convivendo com esse fato, não chegou a elaborá-lo e aceitá-lo plenamente. A imagem da diáspora continua a ser representada como negativa, não expressando a vivência efetiva, geralmente positiva, que os judeus têm dos países em que se estabeleceram.