Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Jerusalém e o triunfo
Ao mesmo tempo vivemos um momento importante para que os judeus reconheçam suas próprias fronteiras. Trata-se, de certo modo, de uma oportunidade para lidar com nossas próprias patologias. Que o liberal tolerante conheça suas intolerâncias e que o tradicionalista intolerante conheça suas verdadeiras tolerâncias.
Que os ditos judeus messiânicos despertem para o ato de agressividade que cometem ao se fazerem partes de um mesmo e que busquem o diálogo do diferente com aqueles que dizem respeitar – os judeus. Que a tradição cristã não se rejubile nessa manifestação religiosa como a cristianização dos judeus, mas que a compreenda como uma variante cristã em busca de suas origens. Cabe ao cristianismo um ato de tolerância para com os seus, com mais um movimento dentro de suas fronteiras. Se a Igreja do passado não tivesse se compreendido como um mesmo, mas como um outro do judaísmo, se não tivesse se olhado pela ótica da cristianização dos judeus ou da transformação do velho em novo seja em testamento ou em mensagem, teríamos sido mais outros e teríamos conversado muito mais.
A heresia não é da dimensão do outro, mas do mesmo. Reforçar as identidades, fazer-se mais outro, é o caminho da paz e da apreciação. Que cristãos sejam mais cristãos, que judeus sejam mais judeus, em particular assumindo sua legítima diversidade. “E naquele dia D’us será Um e Seu Nome Um” é o dia das muitas melodias que se apreciam. Não será o dia do enfadonho canto uníssono, nem do canto atravessado dos mesmos que são outros. Será o dia em que a diferença for sagrada e a indiferença uma heresia.
Jerusalém e o triunfo
Com certeza não existe ícone maior da dificuldade de convivência humana do que a cidade de Jerusalém. Fundada há três mil anos pelo rei Davi, possivelmente já então sobre um sítio sagrado arcaico da região, Jerusalém era um projeto. Seu nome o revelava: Ierushalem, a cidade da plenitude ou a cidade da paz. E o projeto deu certo. Não exatamente por ter trazido paz em sua história, muito pelo contrário, mas por ter sintetizado a dificuldade humana de obtê-la. Jerusalém se transformou em símbolo de triunfo, e se há algo que a paz não é... é ser fruto do triunfo.
Em junho de 1967, poucos dias após a Guerra dos Seis Dias e a conquista da cidade velha de Jerusalém pelo exército israelense, a figura política e a liderança mais proeminente do novo Estado de Israel, David Ben Gurion, recebia uma carta. Era de um remetente relativamente desconhecido, um rabino de nome Zalman Schachter. Em sua carta, o rabino alertava para a grandeza histórica daquele momento. Após 18 séculos sem soberania sobre seu maior monumento, o Monte do Templo, plantado no coração da cidade velha, os judeus não só tinham acesso, mas também controle do local.
Enquanto os judeus se emocionavam com as fotos de soldados rezando junto ao Muro das Lamentações, enquanto a experiência do maior exilo e dispersão da história humana parecia chegar ao fim com conotações messiânicas mesmo para a imprensa mundial, aquela carta trazia um conteúdo chocante. O rabino Zalman exortava a Ben Gurion que declarasse imediatamente Jerusalém como um monumento internacional e que permitisse à cidade, justamente em sua reconquista pelos judeus, a realização de seu projeto histórico – não o triunfo, mas a paz.
O argumento do rabino era no mínimo interessante. Ele dizia que o triunfo representava a mais efêmera das seguranças e usava da própria história dos judeus para mostrar que o triunfo dos assírios, gregos, romanos, bizantinos, cruzados e otomanos era uma metáfora recorrente de que o vencedor de hoje é o derrotado de amanhã. Não pela força, mas pelo espírito – para colocar nas palavras milenares dos profetas de Israel. Quem vence produz um vencido e se coloca na cadeia sucessiva e interminável da violência. Talvez no furor e euforia de um povo que duas décadas antes estava sendo aniquilado em câmaras de gás, ficasse difícil não dar a essa carta o fim que provavelmente teve – o de ser ignorada. Mas ela continha algo merecedor de reflexão, particularmente hoje quando israelenses e palestinos colocam a paz como irredutível a um Estado, seja de que lado for, sem Jerusalém como capital metáfora do triunfo.
Quem visitasse Jerusalém antes da “intifada” encontraria a cidade velha sob evidentes “controles” que se organizaram na prática. Os muçulmanos controlavam a região das mesquitas, os judeus a região do Muro, os católicos as igrejas e seus monumentos santos, algo que, se não era pacífico, não estava tão longe na prática como nos corações. Essa prática havia sido um interessante resultado de convívio e, obviamente, de um relativo estado de liberdade e democracia, que bem ou mal, o Estado de Israel trouxe como novidade àquele canto do mundo. A solução com certeza passa por estes três ingredientes: o convívio, o estado de liberdade e o fim do triunfalismo. Algo muito diferente do que as lideranças de ambos os lados estão fazendo.
Jerusalém minha ou sua, votos pela internet para ver quem ((ganha” e atitudes afins não aproximam ninguém de uma possível capital-metáfora da paz. Há uma profunda irresponsabilidade em colocar quem quer que seja na posição de “perder” Jerusalém.
Há profundos trabalhos de amadurecimento para o Ocidente e o Oriente Médio a serem realizados em torno de Jerusalém. Para os judeus há uma difícil autoanálise, que não é apenas política, mas teológica. Compreender o monoteísmo não apenas como a religião de um D’us único, mas de apenas um povo, é um ato de triunfalismo no século XXI. Para muçulmanos e cristãos o trabalho não é menos profundo e complexo. Passa pela mesma questão, acrescida da reflexão de querer ser a legítima Israel (ou Ismael para os muçulmanos) ou a Nova-Israel (na visão cristã). Foi este desejo de triunfo teológico que marcou as guerras entre cristãos e muçulmanos nos últimos dois milênios pela conquista de Jerusalém. Não apenas um triunfo político, mas teológico. E quando o triunfo é teológico e simbólico, então não se trata de saber com quem fica Jerusalém, mas quem fica com D’us. E aí as negociações passam a ser de ordem psicológica, tendo como questão básica: De qual dos filhos Você gosta mais?