Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

JUDAÍSMO E O NÃO JUDEU NA FAMÍLIA Nilton Bonder

Judaísmo e o não judeu na família

 

Nilton Bonder

 

Caju – o quinto filho

A tradição rabínica faz uso de uma interessante forma de dialética a “tetralética”. Ao invés de um pensamento desenvolvido a partir de oposições na busca de unir contrários – tese e antítese atingindo uma compreensão superior – a síntese – os rabinos ressaltaram o “centro entre os polos” como forma de atingir a síntese plena. O centro é sempre formado por duas categorias moderadoras – o centro mais próximo de um polo e o centro mais próximo do outro polo. Os exemplos são fartos. Para refletir sobre a posse, por exemplo, os rabinos reconhecem a categoria dos que pensam “o que é meu é meu e o que é teu é meu” (o apegado) e dos que pensam “o que é meu é teu e o que é teu é teu” (o desapegado). Mas entre essas categorias existem “os mal resolvidos” – “o que é meu é meu, o que é teu é teu” e “o que é teu é meu, o que é meu é teu”.

O primeiro é o centro mais próximo do polo apegado. Apesar de conter elementos de menor apego, sem dúvida ainda pertence a esta categoria. A segunda categoria de centro, ainda que próxima à tolice, confundindo noções de propriedade e contendo elementos de apego, está mais próxima ao polo do desprendimento.

Outro exemplo pode ser tomado das quatro formas de temperamento (Avot 5:14). Nos extremos estão os “difíceis de se zangar e fáceis de se apaziguar” (os de paz) e os “fáceis de se zangar e difíceis de se apaziguar” (os raivosos). Entre eles há os “centro de paz” – difíceis de se zangar e difíceis de se apaziguar – e os de “centro raivosos” – “fáceis de se zangar e fáceis de se apaziguar”. Este jogo de apontar os “centros” aparece em exemplos como o dos quatro tipos de doadores (Avot 5:16), ou os quatro tipos de aprendizes (Avot 5:15) e assim por diante. Esta “tetralética” é uma referência de tal ordem para os rabinos que a própria Criação foi codificada em quatro mundos. Nos polos estão os mundos “material” e “etéreo” e no centro o “centromaterial” e o “centroetéreo”. Conhecemos bem esse tipo de pensamento através da política moderna que criou a percepção de uma “esquerda” e uma “direita” e que tem seus centros na “centroesquerda” e “centrodireita”.

Para a experiência existencial o corpo e o espírito estão nos polos. Seus centros são a “emoção”– um centro mais próximo do corpo – e o “intelecto” – um centro mais próximo do espírito.

Na interpretação, como nos mostra a lenda do Pardes, existem os polos daqueles que se mantêm íntegros e daqueles que se perdem. Entre o sábio e o herege estão as categorias do centrosábio (autodestrutivo – permanece íntegro à verdade ao custo de sua própria integridade física) e o centro-herege (o louco – não permanece íntegro à verdade para preservar sua integridade física).

Hoje esse paradigma da tetralética encontra-se em xeque por conta do caju. Mas onde entra o “caju” nisso tudo?

Na celebração de Tu-Bi’shevat, o ano-novo relativo às árvores, nos primeiros indícios de quebra do inverno e início da primavera, os rabinos criaram um “jogo simbólico” através dos frutos. Para marcar a “tetralética” apresentaram a ideia de que os frutos – graça maior concedida pelo reino vegetal – existem em quatro categorias. Os frutos totalmente resguardados (cascas e caroços não comestíveis – abacate, manga...) e os totalmente entregues (cascas e caroços comestíveis – morango, figo...) representam os extremos no reino dos frutos. Os centros ficam por conta dos frutos “centrodefendidos” (cascas não comestíveis e caroços comestíveis – banana, abacaxi) e dos “centroentregues” (cascas comestíveis e caroços não comestíveis – ameixa, oliva...).

Tudo muito bem até que apareça o caju.

O caju é uma quinta categoria. É verdade que muitos gostariam de enquadrá-lo como um fruto de casca comestível e caroço não comestível. Mas esta seria uma triste simplificação do caju. Não me refiro apenas ao fato de que a fruta do caju tem a estranha forma de externar seu caroço (seu caroço não é protegido pela casca, mas exposto) e representar uma forma extraordinariamente “entregue”; mas ao fato de que seu caroço, aparentemente não comestível, é justamente a iguaria mais cobiçada do fruto – a castanha de caju. Não conheço outro fruto cujo caroço seja mais cobiçado para efeitos comestíveis do que o próprio fruto e cujos caroço e fruto sejam externos uns aos outros. O caju traz problemas.

Os judeus brasileiros sabem que o “caju” traz problemas. Em particular porque este termo, muitas vezes utilizado de forma pejorativa, representa os filhos de casamentos mistos. Derivado das sílabas iniciais de “católicos” e “judeus”, o “caju” representa todos os filhos de casamentos entre judeus e pessoas de qualquer outra religião. Quem é o caju? Seria uma figura externa que está dentro, ou seria uma figura de dentro que está fora? Como encaixá-lo no paradigma vigente? Não há dúvidas: o “caju” traz problemas para a tetralética. Aliás tudo que está fora do pensamento ou da teoria traz problemas – ou seriam desafios?

Sem saber, ou sabendo, os judeus brasileiros elevaram o caju a uma peça mítica – o quinto fruto.

O caju é fundamental para compreendermos a própria noção de dialética ou “tetralética”. A dialética nada mais é do que a tentativa de lidar com o “outro”. O diálogo, que é hoje esteio da ética e do entendimento humano, baseia-se no fato de reconhecer na antítese do outro a possibilidade de uma síntese que seja a depuração de nossa própria tese. Os rabinos também buscavam isto com suas quatro categorias. Reconhecer o outro e também as nuances no comportamento humano era promover um ser humano melhor, com maior compreensão de si e de seu semelhante. O caju pode, sem dúvida, levar esse processo um passo à frente. O verdadeiro “outro” é o que não está no diálogo e que, de certa forma, questiona tanto tese como antítese. É aquele que não se encaixa na síntese e, portanto, a “desprova”. Por um lado o caju é “ameaça”, por outro é “desafio”. Mas todos sabemos que ignorar a existência desse “quinto fruto” não salva a síntese, muito pelo contrário, acelera seu processo de desintegração. Não há outra forma de honrar o esforço intelectual e espiritual do passado sem conduzir a ameaça à categoria de desafio.