Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

O Brasil e o antissemitismo

Os parcos estudos sobre judaísmo no Brasil, em grande parte feitos por historiadores, em geral sublinham aqueles episódios da história brasileira associados a expressões de antissemitismo. Um exemplo paradigmático é o livro Welcoming the Undesirables de Jefrey Lesser, que, apesar de méritos inegáveis, possui uma carga normativa que o leva a enfatizar a problemática da judeufobia e do antissemitismo e a distorcer a interpretação dos achados de sua própria pesquisa. Lesser focaliza o período das décadas de 30 e 40 no Brasil, durante a ditadura de Getúlio Vargas, inspirada em boa medida em ideias fascistas. Nesse período, ocuparam o governo alguns intelectuais influenciados por ideologias antissemitas europeias para justificar políticas contra a emigração judia. O trabalho de Lesser, que dentre seus vários méritos enfatiza a necessidade de se reconhecer a especificidade da integração dos judeus no Brasil, não aplica esse conselho de forma consequente.

Em primeiro lugar, Lesser não distingue suficientemente o discurso de alguns componentes do governo brasileiro e a realidade sociocultural do Brasil. Aliás, a distância entre o Estado e a sociedade, é um tema constante das ciências sociais no Brasil. Assim, embora tenha ocorrido um surto antissemita durante o Estado Novo, ele não chegou a ter maiores consequências no que diz respeito à modificação dos padrões socioculturais nas relações de sociabilidade brasileira.

A ausência de antissemitismo no Brasil não se explica, como coloca Lesser, pela inexistência de contato real com judeus concretos. Segundo ele, quando os judeus efetivamente chegaram ao Brasil e demonstraram não serem “... nem muito ricos nem muito pobres, ... raramente atuantes politicamente e rapidamente aculturados pela sociedade brasileira ..”. (p.3), as elites teriam perdido seus preconceitos. Não são os “fatos” que explicam a existência ou perda de preconceito, no Brasil ou em qualquer outra cultura. Em todo caso, a colocação de Lesser é equivocada, pois houve no Brasil um número pequeno porém relevante de judeus que apoiaram o Partido Comunista, assim como outros conseguiram rapidamente ascender economicamente. Uma sociedade com predisposição antissemita poderia ter mobilizado esses fatos para consolidar atitudes contra judeus.

Em segundo lugar, Lesser não é suficientemente sensível à compreensão da sociabilidade política brasileira, fortemente permeável a atitudes pragmáticas, ao compromisso e ao tratamento de cada caso individual como único, no lugar de atitudes burocráticas universalistas. Foi essa característica que permitiu o paradoxo sobre o qual Lesser tanto insiste: que, apesar do discurso imigratório do regime de Vargas conter componentes antissemitas, o número de imigrantes judeus no Brasil de 1933 a 1942 foi superior ao da década anterior, ou ao dos países latino-americanos com governos democratas e não antissemitas.

As dicotomias da sociedade brasileira fogem à categoria de análises utilizadas por Lesser. Nela, a dupla filo/antissemitismo não constitui o parâmetro organizador da percepção social da alteridade. Como indica Bauman em Life in Fragments, é essa percepção do judaísmo como algo diferente, seja bom ou ruim, que determina a situação particular do judeu na cultura ocidental.

A ênfase de Lesser no tema do antissemitismo e no discurso da elite intelectual deforma, portanto, a percepção da dinâmica política e social da vida brasileira e da integração dos judeus no Brasil. Afinal, como explicar que foi um governo semifascista que, aconselhado por um jornalista aparentemente antissemita, Assis Chateaubriand, entregou nas mãos de um judeu um setor industrial politicamente estratégico, o da produção de papel?